Infância à prova de vírus.

Acho que não há vírus pior do que o medo.
Medo que higieniza, do chão ao corpo, medo que afasta, que isola, que suprime, que aterroriza… É disto que muitos padecem. Às vezes, o vírus do medo também aparece para disfarçar a falta de amor ou a falta de vontade, ou a falta de sentir e é aí que a coisa se torna um verdadeiro problema: quando o medo passa a legitimar as coisas feias que já nos apeteciam e faz com que todos as aceitem como se assim tivessem de ser.
Ora que isto se passe entre pessoas crescidas e que a bandeira do medo e da falta de amor se hasteie bem alta e conquiste território até que nada sobre dos lugares bonitos que já soubemos povoar, eu até engulo, ou melhor, não tenho outro remédio. Mas vê-lo acontecer no território da infância, que é nosso dever enquanto adultos defender, é algo que o meu coração não consegue apaziguar.
A infância é um lugar sagrado, que vive do amor, do toque, do brincar, que cresce em substância e em tamanho a partir da liberdade e da relação de afeto com o outro. Não deixemos por isso que o medo do vírus, ou melhor, que o vírus do medo, se sobreponha a isto e nos faça perder o norte das coisas verdadeiramente importantes. E já agora, aproveitemos a máscara para calar os disparates que andamos a fazer, e por favor…

Não digamos a uma criança não toque,
Não digamos a uma criança que não experimente,
Não digamos a uma criança que não brinque,
Não digamos a uma criança não partilhe,
Não digamos a uma criança não explore livre os espaços,
Não digamos a uma criança que não abrace,
Não digamos a uma criança que esconda o sorriso.

Não digamos a uma criança que deixe de ser criança, porque aí não é só uma infância que se perde, é o mundo inteiro que nos escapa das mãos, para nunca mais voltarmos a pôr-lhe a vista em cima.

4 thoughts on “Infância à prova de vírus.

  1. Muito bom RIta.Alias como sempre.
    Isto que escreves é tudo verdade. Este virus vai acabar por destruir aquilo que melhor temos: a humanidade.
    Obrigada por partilhares comigo.
    Beijinhos e abraços (quem me dera)

  2. Enfim uma voz lúcida.
    Concordo totalmente com vc
    Vejo crianças de mascarando companhia de seus pais e irmãos. Será que não convivem mais?
    Não se abraçam mais?
    Crianças fora da escola, sem poder interagir com os amigos, sem poder brincar e aprender.
    Isso está me deixando apavorada
    1 ano inteiro perdido até agora
    Será que nossos governantes vão conseguir entender que essa medidas são muito mais prejudiciais que o vírus?
    Que são danos graves e irreversíveis pra esta nova geração?

    1. Cristina, muito obrigada pela partilha do seu sentir. Preocupam-me muito as questões que levanta, e acho mesmo que às vezes corremos o risco de perder o norte e nos esquecermos da dimensão de tudo o que estamos a perder. Acreditemos que talvez sejam as crianças e a forma como perspectivam a vida, a mostrar-nos o caminho. Obrigada por estar aí. Um grande beijinho

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