“Um Bom não é uma boa nota?”

Uma amiga de quem gosto muito e que admiro imenso enquanto mãe, contou-me há uns dias uma história que considero deliciosa, pela forma simples, honesta e tão certeira, como que nos põe no nosso lugar.

A Sara, que está no 2º ano, fez um teste na escola. A professora, no dia de devolver as notas aos alunos, fê-lo em voz alta, para que todos ouvissem as notas de todos (vá-se lá saber porquê, mas isso “são outros quinhentos”…)

A Sara teve um Bom.

Ao chegar a casa, feliz com a conquista, partilhou com a mãe a nota recebida. A reação da mãe, fruto do impulso do momento, foi: “Então e a Mariana, que nota teve?”. Ao que a Sara respondeu prontamente: “Porquê mãe? Um Bom não é uma boa nota?”.

A mãe deu-lhe razão, pediu-lhe desculpa e abraçou-a com força. As duas cresceram por dentro nessa noite.

E assim, sem pedir licença e do alto dos seus 7 anos, a Sara deu-nos, à mãe e a mim, uma enorme lição. Uma lição sobre a vida e sobre tudo aquilo que é efetivamente importante preservar: a capacidade de acarinharmos quem somos e de celebrar os objetivos que alcançamos, sem viver na sombra de ninguém.

Não tenho nada a acrescentar a esta história.

Acho que ela se basta a si própria e não quero que palavras a mais, desviem a atenção das coisas grandes que ela ensina.

Eu, sou grata, por tudo o que a Sara me trouxe, quando tão corajosamente lutou, pelo melhor de si.

 

16 thoughts on ““Um Bom não é uma boa nota?”

  1. Boa Sara! O Bom será sempre uma Excelente nota! pois o que importa mesmo é o prazer com que o recebes, pois validou o teu investimento! Tenho sempre em memória uma delícia da minha mãe que me dizia: ” Sónia estás empenhada não estudes mais, descansa pois irás fazer tudo bem, pois o bem é tudo o que sabes neste momento, e isso é que importa! Tive a sorte de ter uma mãe consciente 🙂 Espero eu ter a consciência suficientemente boa para ensinar o mesmo ao Vasco 🙂

    Com Amor 🙂
    Sónia

    1. Obrigada querida Sónia… É precisamente como dizes: o Bom é uma excelente nota e será sempre. E para além disso, o mais importante mesmo é a certeza do esforço, do empenho, do melhor de nós, da alegria e do amor em todas as metas e sonhos a que pretendamos chegar… 🙂 Obrigada também, pela partilha boa de uma recordação tão feliz! 🙂

  2. Que bom é ter um BOM e saber o valor dele pra si próprio, só por si mesmo .
    Temos de educar mais “Saras” destas por ai… mas mãe da Sara , alegra-te que essa resposta assim boa e certeira vem por ter razão de vir na educação que a Sara já recebeu e como cresceu até hoje . Parabéns às duas !!

    1. Obrigada Dora, pelo comentário “certeiro” 🙂 E estão mesmo as duas de parabéns… A Sara porque defende as suas conquistas, sem se minimizar com as conquistas dos outros. A mãe porque para além de toda a grandeza que tem na pessoa que é e na sabedoria com que o transmite à filha, ainda tem a humildade de assumir que está a aprender, todos os dias. 🙂

  3. Gostei da história. Já no meu tempo de escola era assim, apesar dos meus 35 anos; lembro-me perfeitamente de haver disciplinas em que os professores chamavam os alunos um a um para entregar os testes e diziam as notas em voz alta, e isto nos meus anos de escola secundária (10º ao 12º).

    Também me lembro de os meus pais me perguntarem “quanto teve este” e “quanto teve aquele”, mas reconheço que a nossa própria inocência enquanto crianças é que muitas vezes provoca essa habituação – qual é o menino que depois de receber uma nota boa, não vai querer contar aos pais aquilo que conseguiu, ressalvando que conseguiu ter melhor nota que os próprios colegas? É sempre bom ter reconhecimento e atenção, afinal de contas é a melhor prenda que podemos dar a uma criança.

    Cumprimentos,

    1. Obrigada Rui, pelo comentário e partilha da sua experiência pessoal. O reconhecimento dos pais é de facto muito valioso para as crianças e por isso também é tão importante contribuir para que se sintam bem com as suas conquistas e recompensados pelo seu esforço, sem precisar de o comparar com ninguém. 🙂

  4. A Sara apesar de ser uma criança mostrou mais sabedoria do que a mãe. Deveriam haver mais Saras talvez os pais deixassem de ser picuinhas e parar de fazer a vida negra aos professores, pois seus educandos merecem excelente e não bom. Ameaçam tanto que o prof psicologicamente esgotado acaba por dar a nota máxima sem merecer. Estes pais ensinam as crianças a obter tudo muito facilmente, tirando-lhes a motivação , é fazendo deles crianças sem valores. Sei do assunto pois o meu trabalho é esse.

    1. Obrigada Elizabeth, pelo comentário e que nos ajuda a perceber que muitas vezes somos nós, pais, que impomos aos nossos filhos metas desmedidas, que mais não fazem do que alimentar a competitividade e a sobrevalorização do resultado.
      Não é o caso da mãe da Sara, que é uma mãe atenta e com a sabedoria de aceitar que tem muito a aprender com a filha.
      O problema está quando repetimos padrões sem sequer os questionar. E em relação aos assuntos de escola, isto é muito frequente. O que importa não é o resultado, mas sim o empenho e a motivação de que fala. Esses sim, levarão as nossas crianças longe. Àquilo que a cada uma delas faça feliz 🙂 Muito grata pela sua partilha.

  5. A professora disse alto a nota “sabe-se lá porquê, mas isso são outros quinhentos ”
    E a mãe perguntou a nota da Mariana porquê?

    Os professores, tal como as mães são falíveis ? São. E sabe-se porquê sim!
    PORQUE SÃO HUMANAS!
    Estou farta dessa coisa que não se pode dizer alto as notas dos meninos. Eu não digo. Por uma questão emocional. Mas a verdade é que quando distribuo os testes, ainda não os entreguei todos e já a turma sabe a nota de cada um! Eles encarregam-se de tricar os testes entre eles e dizer as notas entre si.

    1. Olá Maria João, obrigada pelo seu comentário. O objetivo deste texto foi ajudar a refletir sobre aquilo que nós, enquanto sociedade (pais, mães, professores, educadores, e tantos outros), andamos a transmitir aos miúdos. E aquilo que eu vejo, nos vários contextos, é que andamos a educar soldadinhos, a instigar ao trabalho, ao desempenho, ao sucesso em idades muito precoces e à ideia de que o nosso “valor” se mede pela nota num teste, e ainda, que o nosso “valor” depende daquele que é o “valor” dos outros. E é por isso que eu não vejo nenhum objetivo pedagógico na atitude de ler em voz alta os resultados aos alunos, a não ser o de os comparar (se os miúdos o fazem depois entre si, pelo menos que isso não tenha sido modelado pelo professor). Vejo sim, alunos a chegar ao ensino secundário com crises de pânico quando se deparam com uma situação de avaliação, sempre a achar que nunca serão tão bons como o João ou a Carolina. E isto, somos nós (pais, mães, professores, educadores…) que o ensinamos. Todos somos falíveis, sem dúvida, e ainda bem. É também aí que está a riqueza da nossa humanidade, e é essa noção, que em conjunto com a capacidade de refletir sobre nós e o impacto das nossas ações nos outros, nos torna pessoas melhores. Todos os dias. 🙂

  6. O que é Bom para cada criança?… essa sim a essência de tudo.
    Mas como nos esquecemos de pensar sobre isto.

    Cada vez mais, pela minha experiência profissional, mas também pela vivência pessoal, apercebo-me de como expulsamos de nós fantasmas de inferioridade desmesuradamente ainda desconstruídos, assumindo que os nossos mais pequenos (somente em tamanho) serão os que nos irão limpar a Alma e resgatar de descontentamentos escondidos.
    Mas afinal, quem são os Adultos, quem são os protectores, quem são os que apoiam e caminham passo a passo neste processo de construção de um Ser. Nós ou Eles?
    Claramente Nós… Não nos percamos neste nosso papel…
    O que acredito e defendo é que devemos trabalhar com as crianças o potencial máximo de cada um delas, usando o diálogo como ferramenta essencial, mas tão invisível aos olhos de alguns… Assim, perguntas como por exemplo, “Como te sentes com a nota alcançada?”, “Era isso que pretendias?” e, de acordo com as respostas, “O que poderás fazer para alcançar a tua meta?”.
    Nunca descurando o essencial do Elogio e da vibração emocional pais e filhos…

    Enfim, a parentalidade é um caminho e como caminho faz-se caminhando, mudando de rota e, acima de tudo, querendo caminhar, com reflexão, mas sem culpas.

    1. Tão isso, Patrícia. Muito grata pelo seu contributo tão rico e capaz de dar espaço à reflexão e ao sentir. As crianças são mesmo gigantes em tudo o que têm dentro e para aprender basta estar, e ouvir. E sobretudo, tentar que a reflexão constante e a consciência que os nossos medos e fantasmas não definam a pessoa que são e tudo aquilo que serão capazes de ser. Obrigada. 🙂

  7. Sensacional sua colocação, impressionante como vivemos sempre nos comparando aos outros e por muitas vezes nos diminuindo
    Precisamos sim aprender a valorizar nossas conquistas e nossos valores

    1. Obrigada Cristina, pela partilha e por estar desse lado. E é isso mesmo, aprender a ser quem somos e a aceitar nesse caminho, todas as conquistas, todas as dificuldades, todos os momentos que serão sempre oportunidade de crescimento. E as crianças serão sempre os nossos melhores professores. Um abraço. 🙂

  8. O bom é e será sempre uma grande nota… ao meu filho que anda no 3 ano costumamos dizer -lhe: ” Desde que sintas que deste o teu melhor, para nós está tudo bem.”
    Não consigo entender o porque desta pressão sobre as notas e a sua exposição perante a turma…fomenta uma competitividade negativa na minha perspectiva…porque todos nós temos os nossos dias e um dia em que não estivemos tão bem não tem de definir -nos…daí não concordar com exposição oral das notas quase que de modo a embaraçar as crianças perante os colegas. Na escola do meu filho para além da nota ainda se expunha a percentagem…fiz chegar à professora que discordava que tal fosse feito porque acho que as crianças não estão ali a competir para ganhar nada, defendo que se devem ajudar mutuamente e assim aprender mais uns com os outros porque todos temos as nossas dificuldades bem como temos áreas e matérias com as quais nos sentimos mais à vontade e essas trocas de saberes é que nos enriquecem…

    1. Totalmente de acordo Tânia. A melhor nota será sempre aquela que satisfaça os nossos filhos, na sensação de que foi o seu melhor naquele teste, naquele momento. Infelizmente, parece-me que não é isso que a escola alimenta, pelo menos não como cultura de escola, que continua a ser marcada pela competição entre notas, pelos resultados nos rankings, pelo disparate dos quadros de excelência… E os alunos crescem e chegam ao ensino secundário a achar que o seu valor se mede pela nota no teste. É preciso simplificar e guiar a construção do conhecimento pelo seu verdadeiro valor: a fabulosa capacidade de aprender! Obrigada pela sua partilha, que tanto eco fez por aqui. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.