Bater asas. E voltar.

Preparam-nos a vida inteira para o momento em que os filhos chegam e nos assaltam o coração, mas ninguém nos prepara para quando saem de casa e o levam com eles.

Os filhos crescem, entram para a escola, alargam o círculo relacional, têm sonhos, querem tentá-los e… pimba! Eis que nos dizem um dia, assim, sem pedir licença, que vão à vida deles. E nós, num quase salto de fé, confiamos e deixamos ir.

A tão poucas vezes falada síndrome do ninho vazio caracteriza-se pelo desconforto emocional e sentimento de solidão, muitas vezes vivido pelos pais aquando da saída de casa dos filhos. E ainda que nem todas as situações sejam acompanhadas por sintomas de tristeza prolongada e depressão, esta fase de materialização da autonomia dos filhos, implica sempre movimentos importantes, de adaptação das famílias a uma realidade que é nova e por isso, desafiante.

Ou porque entraram na universidade, ou porque arranjaram trabalho, ou porque se apaixonaram, ou porque estão fartos de viver connosco (e ainda bem), eles vão-se embora e isso, não é necessariamente o fim do mundo. Aliás, pode até ser o princípio de muitas outras coisas boas. Para nós e para eles. Ora vejamos…

O caminho faz-se, caminhando. Se o processo de autonomia for sendo construído gradualmente, as mudanças far-se-ão de forma mais natural e a saída de casa será apenas mais uma delas. É importante que nos mantenhamos presentes e atentos, aproveitando todas as oportunidades para que se treinem para a vida adulta. Saídas à noite, fins de semana em casa de amigos, refeições preparadas pelos próprios… são pequenos passos que ajudam a uma maior responsabilidade da parte deles e a uma maior tranquilidade da nossa;

O recomeço acontece. Não só para eles, que se descobrem numa outra perspectiva: a da capacidade de cuidarem de si próprios. Mas também para nós, que nos confrontamos com vontades esquecidas e com a oportunidade de acarinhar outros projetos de vida e fortalecer outras relações. Aquelas, que no caminho da parentalidade perderam protagonismo, mas que pode saber bem recuperar;

A relação transforma-se. E às vezes até melhora quando eles saem de casa. Seja porque os respeitamos mais e temos mais facilidade em reconhecer a sua individualidade, seja porque cuidamos mais de nós e com isso ficamos disponíveis para os apoiar e nos orgulharmos de cada passo dado nesta nova etapa, numa linguagem que é mais próxima e mais enriquecida.

E porque sou mãe e porque aqui escrevo, não consigo fugir neste caminho à vontade  de pensar em mim e no meu filho.

O que me faz sentir que mesmo depois de tudo isto, há uma coisa que eu não sei: Não sei como me sentirei quando um dia a estrada se fizer diferente porque ele caminha sobre ela sem nós. O que me faz achar que antes de tudo isto, há uma coisa que eu sei e tento não esquecer, num exercício de desapego duro mas tão necessário: Nós somos deles mas eles não são nossos.

São de si próprios, são do mundo que querem conquistar. Serão um dia, se assim o quiserem, dos filhos que decidam ter.

E não há, a meu ver, prova de amor maior do que esta.

Aquela que é capaz de deixar ir, quem leva dentro o nosso coração. Com a confiança e com a certeza de que regressará sempre. Porque os ninhos mesmo que vazios, continuarão a ser ninhos. Porque as estradas ainda que longas e cheias de curvas, trarão sempre de volta quem connosco aprendeu a ser gente e por isso sabe, que é neste lugar, que o amor sem medida permitirá descansar. Para no dia seguinte retomar caminho e continuar a ser feliz.

Assim seja, porque te quero tão bem…

 

Nota: A imagem fabulosa que dá corpo a este texto é da muito talentosa Lília Reis. Mais uma vez, sou-te grata Lília, pela partilha do olhar.