desenvolvimento cognitivo

Coisas do João Pestana

Este texto está quente.

Não por causa do João Pestana (que até deve bem ser giro), mas porque foi ateado por uma proposta feita a um grupo de pais, numa reunião na escola, para que se começasse a treinar os miúdos de 4 anos para deixarem de dormir a sesta.

Treinar para deixar de dormir??? Só a ideia me causa prurido.

Mas porque raio se treina alguém para largar um hábito que só traz vantagens, do ponto de vista do desenvolvimento físico e cognitivo? Vantagens essas, mais do que comprovadas cientificamente?

Mas porque será, que a dois anos da entrada no primeiro ciclo, estamos já preocupados com a adaptação dos meninos, baseados na ideia ridícula de que se não deixarem rapidamente de tirar uma soneca a seguir ao almoço, verão o seu desempenho gravemente comprometido no futuro? Palpita-me que a ideia deve ser a mesma que fundamenta a realização de trabalhos de casa, as provas de aferição e os quadros de honra na escola: “Façam-nos crescer depressa, que eles não podem ser tão felizes…”

Expliquem-me. Porque eu de facto não entendo.

E já que falamos de factos, vamos a eles… que a coisa aqui é tão fácil, como ir a banhos.

Facto nº 1:

A sesta desempenha um papel fundamental para a consolidação da memória e para a aprendizagem numa fase precoce. Um estudo, publicado aqui, demonstrou que as crianças que dormem a sesta, apresentam maior capacidade de retenção da informação, sendo que a qualidade do seu desempenho se mantém superior até ao final do dia. Para além disso, a monitorização da atividade cerebral de crianças durante a sesta, permitiu observar o aumento da atividade nas regiões relacionadas com a aprendizagem e a integração da informação.

Facto nº 2:

Embora nem todas as crianças em período pré-escolar durmam, o ideal é que as suas necessidades individuais sejam respeitadas. Desta forma, estamos a permitir à criança que as coisas aconteçam ao seu ritmo e de uma forma natural. A tendência é que à medida que vá crescendo, comece a dormir cada vez menos tempo. E assim, com facilidade se adaptará às exigências (pouco ajustadas) que a vida escolar e social representam.

Facto nº 3:

Não é a idade da criança que determina se esta deve ou não dormir a sesta. O nível de cansaço que apresenta, a quantidade de estímulos a que esteve sujeita e outros fatores orgânicos e psíquicos entram neste balanço, que definitivamente não se coaduna com fatores de maioridade.

Facto nº 4:

As crianças, sempre que são privadas do tempo de sono e de descanso de que precisam, apresentam sintomas como irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração. Ora e aqui chegamos à premissa mais básica de todas. Se o corpo dá sinal, é porque o corpo precisa, e existem poucas coisas mais importantes do que saber ouvi-lo.

Por último, mas não menos importante, basta pensar um bocadinho naquela que é a nossa experiência pessoal.

E aqui, quem nunca dormiu uma sesta que lhe “soube a pato”, que atire a primeira pedra.

Se por nós faz maravilhas, imaginem o que faz por eles, que atravessam uma fase de vida verdadeiramente incrível e exigente do ponto de vista físico e mental e que, só por isso, terão tanto a beneficiar deste “recarregar de baterias”, que o momento da sesta permite.

Termino, em modo tributo ao João Pestana e a outros personagens infantis, e peço-vos: deixem as crianças dormir. Deixem as crianças brincar. Deixem-nas sujar-se, dançar, dizer disparates, fazer perguntas difíceis, e rir até cair.

Deixem as crianças em paz e sejam crianças com elas. Muitas e muitas vezes.