A quarentena (sob o olhar de uma adolescente)

“Durante a quarentena nós deixamos de saber se gostamos realmente das coisas, porque apesar de pensarmos nelas e de as experimentarmos, a sensação que temos não é verdadeira.

O que quero dizer é que deixamos de poder fazer coisas e de arriscar. Começamos a ter de fazer planos e a traçar limites. Ficamos loucos, porque apesar de ainda estarmos com os nossos amigos, já não é o mesmo. As pessoas começam a concentrar-se mais no sim e no não, no certo e no errado, no aprender muito e desfrutar pouco. A concentrar-se no trabalho e deixar o resto morrer.

Apesar de ser importante aprender, não é só na escola que aprendemos. Quando estamos juntos e a brincar aprendemos a conviver, a estar com o outro, a comunicar com as pessoas. Aprendemos a viver. Para conseguirmos ter um bom futuro, não podemos simplesmente saber a matéria, temos de saber estar com outras pessoas, aprender a tomar decisões e a arriscar. Não é isso que aprendemos nas aulas. Nas aulas nós aprendemos a escrever e a ler. Ensinam-nos a fazer contas. E estudamos o passado. Aprendemos matérias e também aprendemos a cumprir ordens e pedidos.

Mas é com os amigos que nós aprendemos que chorar é tão normal como rir, que se nos chatearmos uns com os outros a nossa amizade não tem de acabar. É fora das aulas que aprendemos que se arriscarmos um pouco, a nossa vida fica mais interessante. Quando surge a oportunidade de fazer algo, em vez de ficarmos parados com medo e vergonha, podemos arriscar e assim a nossa vida vai ficar mais interessante.”

Sofia, 11 anos

(Texto originalmente publicado no site A Pulsar, projeto que vale tanto a pena conhecer, aqui.
Obrigada à Sofia e ao Rodrigo, pela generosa partilha.)