Do lugar onde agora estou.

Andei meses até conseguir chegar aqui.

Dias cheios, desafios profissionais intensos, mudanças profundas, falta de tempo… e eu não pude senão aprender a digerir a ressaca pela falta das coisas boas que este projeto me trouxe, desde o momento em que me enchi de coragem e decidi pôr-me à prova na sua concretização.

Curiosamente, foi também o tempo que me trouxe de volta.

Tempo forçado, tempo que sobra, tempo que encosta à parede e obriga a olhar de frente tudo aquilo que é efetivamente importante. A distinguir o essencial do acessório, a olhar para dentro, e a ver-me mesmo… sem pressa, sem os ponteiros dos minutos a fugir, sem exigências externas.

Se alguma vez me tivessem dito que estaríamos a passar por isto neste momento, eu responderia que era mentira, soltaria uma gargalhada e provavelmente empurraria o cenário para um qualquer sucesso de bilheteira no que toca a filmes de ficção científica.

Se alguém me jurasse, que por agora ficaríamos em casa a proteger-nos de um vírus desconhecido, que iríamos às compras de luvas e desinfetante no bolso e que estaríamos, por decisão individual e coletiva, impedidos dos abraços, dos beijos, das conversas de amigos à volta da mesa, daquelas à séria, com pele e gargalhadas e perdigotos e tudo… eu diria que não era verdade, porque a vida não era assim.

E no entanto, aqui estamos.

O cenário de ficção científica, as luvas a esconder a pele, a máscara a tapar o sorriso, a angústia de um mundo inteiro à mercê de um corpo estranho e invisível, que nos entra casa adentro todos os dias, ainda que lhe tenhamos fechado a porta.

É aqui que estamos. E é partir daqui que podemos decidir com que lentes olhamos o desafio que nos caiu ao colo, longe de tudo aquilo que alguma vez imaginámos possível.

Há a possibilidade do medo, da angústia, do bloqueio, do desejo de que tudo não passe de um pesadelo, uma espécie de botão de pausa que saberemos esquecer daqui a uns meses, assim que possamos finalmente voltar à vida como era antes.

Mas há também a oportunidade da esperança, da transformação, do olhar mais atento, a nós e aos outros, do (re)alinhamento das prioridades, do renascer.

Isso, há a oportunidade de renascer. A possibilidade da certeza de que não é o botão de pausa premido, mas antes a urgência do botão “reset”…

É nesta última que acredito, é ela que me agarro até porque é também ela que me traz algum sentido à dimensão de tudo o que atravessamos.

Não foi um processo fácil o deste entendimento. Não é, ainda, um processo constante.

Comecei pela estranheza, fui engolida pelo medo, pela angústia, pelo sentimento de impotência, pela dificuldade na gestão do apego às coisas como elas eram, ainda há umas semanas atrás. Voltarei provavelmente a esses momentos, até porque sei que nenhuma transformação acontece verdadeiramente, sem hesitação, sem incerteza, sem questionamento e até sem dor.

Os centros comerciais estão vazios, os carros pararam, as pessoas deixaram de andar na rua. Não há consumo desenfreado, não há filas de trânsito, não há tempo perdido.

E no entanto, a primavera acontece.

As árvores respiram, a terra descansa, as flores rebentam. O sábio ciclo das coisas continua o seu processo de regeneração constante, porque na verdade a natureza não precisa de nós para existir. Precisamos nós dela e precisamos uns dos outros para continuarmos a Ser.

Se calhar foi isto que o vírus nos trouxe, tal como as pragas fazem às plantas, denunciando a falta de alguma coisa, gritando por água, por sol, por adubo. Trouxe-nos a clareza de saber que o fertilizante da espécie humana são as relações entre as pessoas. É a capacidade de entender o outro, de o sentir, de lutar por um bem comum, de acreditar que só se é verdadeiramente livre com a liberdade dos outros.

O adubo da espécie humana somos nós, cada um de nós, e a capacidade de tornar coletivos o crescimento interno e a capacidade de regeneração, exatamente como a primavera faz às flores.

Se viessem agora dizer-me que estaríamos a passar por isto, talvez eu fosse já capaz de pensar numa resposta diferente, e ainda que  os olhos voltassem a encher-se de lágrimas, agora pela certeza bonita da oportunidade que temos em mãos, talvez eu soubesse citar Eckart Tolle,

“A vida saberá dar-te as experiências necessárias à evolução da tua alma. Como é que sabes que é essa a experiência que precisas? Porque será essa que estarás a viver.”

e talvez até sorrisse, agarrada ao desejo de que saibamos todos ser primavera…

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

Há por aí campistas para partilhar dicas?

A primeira vez que acampei foi pela mão do meu pai. Não nos rendíamos aos parques e preferíamos aventuras mais ao género “into the wild”, com uma noite na praia ou um fim de semana na barragem. Na altura, ainda podíamos escolher, a nosso belo prazer, o sítio onde assentar a barraca.

Depois vieram as experiências com amigos na adolescência. Semanas de planificação, listas de supermercardo pensadas ao milímetro, o nervoso miudinho na véspera do grande dia… E lá íamos nós, aos magotes, de mochila às costas e colchão enrolado, no comboio rumo à ilha de Tavira. Fazíamos salada de atum e massa à carbonara, dormíamos na praia ao som dos djembês e éramos sempre felizes. Muito.

Já na idade adulta, continuei a fazer disto rotina sempre que me foi possível e por isso, assim que o Manel dormiu uma noite inteira, fizemos-lhe o batismo (sim, porque isto de acordar 300 vezes à noite até quase aos 2 anos, fez com que tivéssemos de adiar alguns planos). Foi por isso em 2014 que nos estreámos em modo trio campista e desde então, honramos este pacto bom todos os anos. É maravilhoso ver como se sente peixinho na água e ainda assim vibra, como se fosse a primeira vez, sempre que montamos a tenda, sempre que acordamos com nevoeiro cerrado e chuva miudinha, sempre que nos reunimos com amigos à volta de uma mesa pequenina e bamboleante para picar da panela comum ou para jogar ao Uno…

(Ups, não era bem isto…mas obrigada por teres chegado até aqui. Sempre que começo a escrever dá nisto e o que era para ser uma lista de dicas transforma-se num sem fim de palavras cheias de vontade própria, que me desviam do propósito inicial. Desculpa. Não desistas. Abaixo vêm umas dicas top. Continuemos pois…)

Nesta minha jornada de mãe que acampa com o filho, tenho aprendido alguns truques que tenho aprimorado de ano para o ano. Uns permanecem, outros caem por terra por serem completamente desnecessários e porque, felizmente, cada vez tenho mais a certeza que é preciso muito pouco para sermos felizes e que o importante mesmo é descomplicar. Por isso, malta aspirante a campista, campistas veteranos, curiosos cheios de vontade e à espera que alguém os convide, aqui seguem algumas dicas simples que para nós se tornaram importantes:

Os básicos

Tenda: A nossa é uma espécie de iglo grande, sem divisórias. Dá para quatro pessoas. Tem uma característica fundamental para nós: um avançado que dá para deixar as coisas da praia, os sapatos e as pranchas de surf que nos acompanham sempre.

Sacos cama: Nós não usamos porque já os emprestámos a alguém e perdemos-lhes o rasto. Optámos agora por lençóis e um edredon grande e estamos sempre safos. O saco cama pode ser mais prático e fácil de transportar.

Colchões: Temos três tripartidos, mas também há uns insufláveis. Experimentem-nos sempre, porque se não forem dos bons, mais vale dormir no chão.

Camping Gaz ou fogareiro: Campismo rima com massa com atum ou pianinho grelhado, por isso, vale a pena safarmo-nos a confeccionar uma refeição em condições mais extremas: de cócoras, com um frio do caraças e uma panelinha de água que nunca mais ferve. Faz parte.

Polares, meias e um par de ténis: O nosso sítio de eleição fica na costa vicentina e isso implica rapar um frio de rachar todas as noites. Garanto-vos que esta alteração climática do dia para a noite é das melhores coisas de acampar. Aconchega o corpo e alma. Ahhh, e já que falamos de roupa, sejam comedidos, não vão usar metade (acontece-me sempre).

Loção anti mosquitos: Se a noite trouxer o inverno no sítio para onde vão, não haverá mosquito que se aventure, caso não, este é um must have, que vos saberá pela vida. Escusam de me agradecer.

Louça essencial: Existem um kits já feitos ou podem, como nós, reunir em casa tudo o que tenham de plástico rijo (talheres dos miúdos, tigelinhas, tupperwares…). Também é importante uma panela, se quiserem cozinhar e uma faca boa, se não quiserem comprar a batalha inglória de cortar pão e tomates com facas de criança.

Jogos de mesa: Coloco nos essenciais por ser uma das coisas que mais gozo dá viver nesta experiência. Que se aproveite o tempo depois do jantar para jogar às cartas, jogar xadrez, damas, uno… Os miúdos adoram e os adultos também.

Medicamentos: Nunca tinha levado. Mora em mim uma espécie de mãe aluada, que se esquece de pormenores importantes como este. No ano passado, o Manel acordou de madrugada a gritar de dores com uma otite e por isso, eu nunca mais me vou esquecer. Um pequeno saco térmico com o básico: Benuron, Brufen, termómetro. E já agora, Bepanthene Feridas e meia dúzia de pensos. Não custa nada e pode ser muito útil.

Os upgrades

Rede: Estreámo-nos este ano e não há melhor do que balouçar ao som dos grilos e a olhar para a lua por detrás dos pinheiros. Já se estão a imaginar, não estão?

Vassourinha: Não é essencial mas dá um jeitaço para varrer os quilos de areia e de terra que entram todos os dias pela tenda adentro.

Lanterna: Não tenho saudades de andar à procura do telemóvel para acender uma luz. Há umas lanternas pequeninas que se prendem no topo da tenda e são suficientes para encontrar a roupa, ou a carteira, ou o papel higiénico (levar sempre, as casas de banho não costumam ter). E só precisam que estiquemos o braço e… clic, já estás.

Corda e molas de roupa: Passei anos sem levar e a ter de cravar a corda do vizinho. Dá jeito para estender as toalhas e os biquinis até à manhã seguinte.

Ponchos-toalha para os miúdos: São óptimos. Deixam-nos quentinhos até à tenda e não caem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche, sempre que os embrulhamos.

Chinelos com elástico atrás: Dão para a praia e para o banho e ajudam a que não se descalcem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche.

Nécessaire com uma cruzeta para pendurar: E voltamos ao mesmo. Chão molhado e sujo dos balneários. Acho que estou a descobrir aqui um padrão… Sim, o chão molhado e sujo dos balneários é um problema para mim. Cruzeta pendurada no cabide, tudo à mão de semear e estou no paraíso.

E depois desta lista imensa, à qual acredito que acrescentariam um sem fim de coisas igualmente importantes (estou longe de ser uma expert na matéria), só me apetece pedir-vos que experimentem e que levem os miúdos.

Que os deixem procurar o melhor sítio para montar a tenda e perceber onde vai nascer o sol. Que os deixem martelar estacas e tirar pedregulhos do chão para dormirem melhor. Que os deixem fazer a salada, apanhar pinhas para o fogareiro e pôr a mesa com a loiça improvisada. Que os deixem jogar às cartas até de madrugada, vestidos com casacos polares e com o cabelo cheio de mar.

E sobretudo, que lhes permitam o privilégio de adormecer sob o céu estrelado e acordar com o cheiro dos pinheiros e o barulho dos pássaros. Entenderão assim, que a natureza sabe mesmo o que faz e que, dentro deles, mora tudo o que é preciso para aprender.

Palavra de campista.