“Miúdos, pra a rua já!” Ideias para proteger a criatividade e a liberdade na infância.

Uma das perguntas que invariavelmente faço aos pais com quem trabalho é a seguinte:
Qual é a recordação mais feliz da vossa infância?

O propósito da pergunta (para além do convite a uma viagem no tempo), cumpre-se na riqueza das respostas: “Ahhh, eu lembro-me dos verões em casa dos meus avós. De passar o dia metido em sarilhos com os meus primos mais velhos…” ou, “E o que eu gostava de subir à árvores e correr atrás das galinhas!” ou ainda “Morávamos ao pé da praia e eu ficava horas a construir castelos de terra molhada e a escavar fossos gigantes à volta capazes de resistir à onda seguinte!” e às vezes um delicioso, “Lembro-me sobretudo da liberdade para ser criança…”

As recordações mais poderosas da nossa infância metem árvores, metem terra, água, amigos, sarilhos, superação e sensação de liberdade. E acho que isto nos basta para trazer à tona os ingredientes necessários para ajudar a crescer uma criança feliz, autónoma, a manter-se criativa e a saborear a incrível sensação de liberdade de que os pais tantas vezes me falam.

Acontece que a vida, a organização das sociedades, o progresso tecnológico, o mundo como o conhecemos hoje e os nossos medos a crescer na devida proporção do avanço das coisas (ou quem sabe, do seu recuo), nem sempre nos facilitam este retorno à infância naquelas que podem ser as experiências dos nossos filhos. Acredito por isso que é hoje preciso, mais do que nunca, uma dose extra de esforço e de vontade para fazer acontecer aquilo que é efetivamente importante aos nossos filhos: tempo, espaço e liberdade de ser.

A rua já não é como foi (ou nós já não a olhamos como dantes), as árvores estão cada vez mais distantes e a vida corre frenética à nossa frente, sem que tenhamos tempo de a olhar como merece. Todos sabemos disto, até porque todos o sentimos na pele todos os dias e é por isso que eu te peço que, antes de continuares a ler este texto, te encostes na cadeira, respires fundo, feches os olhos e voltes a esses momentos em que te sentiste uma criança incrivelmente feliz. Agora, sugiro que mantenhas essa sensação boa no coração e leias as sugestões seguintes, acreditando que isso te ajudará a firmar a vontade e a não desistir:

Permitir-lhes o tempo e o espaço para não fazer nada.
A maioria dos miúdos de hoje cresce a reboque do horário preenchido dos pais. Às oito horas de escola, seguem-se mais três horas de ATL, ou mais três horas de explicação, para depois terminar o dia com mais uma hora de ginástica, ou ballet, ou violino ou mandarim (ou “o raio que o parta”, que é o que às vezes me apatece dizer…) No dia seguinte a história repete-se, no que se segue também e assim por diante, até que seja sexta-feira e já não reste mais espaço por preencher. Às vezes até se aproveita o fim de semana para mais uma horinhas de explicação ou para treinar mais um pouco e quando damos por nós, o despertador acorda-os à sete da manhã para começar tudo do início. E aqui pergunto-me: Será mesmo início, se não chegou a ter fim?
Pareceria uma ideia fácil, esta de permitir tempo aos nossos filhos para brincar, se é precisamente para a atividade de brincar que eles estão altamente apetrechados, mas a verdade é que isto se tornou um verdadeiro desafio às famílias de hoje. Tentar chegar a casa mais cedo pelo menos alguns dias da semana para que possam brincar depois da escola, assumir o compromisso de não ter agenda ao fim de semana ou incentivá-los a brincar de manhã enquanto acabamos de nos despachar, ao invés de ligar a televisão nestes minutos preciosos, podem ser ideias que ajudem a recuperar este tempo que lhes é de direito.

Deixá-los em paz!
Os pais são peritos em meter-se nas brincadeiras dos filhos a achar que sabem eles, melhor do que os próprios especialistas, qual a melhor maneira de montar um puzzle, quais as regras que fazem sentido num jogo de grupo ou até como se deve pintar o céu para ficar ainda mais bonito. Somos tão bons nisto que até apelidamos de “brincadeiras não estruturadas”, aquelas em que não metemos o bedelho.
Não existem brincadeiras não estruturadas porque todas as crianças definem e aplicam as regras da sua própria brincadeiras sem precisarem de nós para absolutamente nada. E portanto, deixá-los gerir estes espaços de criatividade e atividade lúdica, não desatar a resolver sempre que nos dizem “Mãe, não tenho nada para fazer!” e morder a língua sempre que nos chega à boca um frase para corrigir o que estão livremente a criar, serão sempre boas premissas para respeitar a liberdade destes pequenos grandes inventores.

Estimular dias inteiros de brincadeira para todos.
Convidar amigos, dizer que sim a todas as festas do pijamas, deixá-los construir tendas tuareg no terraço ou combinar jogatanas de futebol no jardim, são ótimas ideias para deixar bem oleadas as relações com outras crianças que tanto lhes trazem a descobrir, desde a empatia, à resolução de problemas, à cooperação e a tantas outras competências que lhes serão bússola para toda a vida. Caso tenhas um grupo de pais pronto a alinhar nesta espécie de brincadeira comunitária, poderão até revezar-se nos programas ou aproveitar para juntar os miúdos e aproveitar o tempo para construir ou fortalecer os laços uns com os outros. Há pessoas interessantes por aí, sabes?

Aproveitar tudo o que de tão incrível existe à nossa volta.
E aqui falo da natureza e do potencial imenso que ela nos oferece. Uma criança não precisa de brinquedos complicados e muito menos precisa de brinquedos com pilhas que fazem tudo por ela. Aposto que já todos vimos bebés e crianças pequenas deliciados horas a fio com uma cesta de frutas, ou com um armário de tupperwares ou com uma poça de lama que dá para fazer bolinhos e tudo. Pois é, e é só mesmo só disto que eles precisam. Ambientes ao ar livre que ofereçam vários elementos como terra, plantas e água, são ambientes que darão à criança um sem fim de coisas para fazer, estimulando-as a brincar de diferentes formas e a encontrar respostas diferentes aos diferentes desafios. Em casa, simplicidade é a palavra de ordem. Objetos para construir, caixas de areia, peças soltas como bocados de madeira, tijolos, pedrinhas, ou invenções a partir de elementos naturais como carimbos feitos com sumo de beterraba e rodelas de maça, serão sempre boas ideias que permitirão à criança manter viva e de boa saúde a sua capacidade ativa e criativa, permitindo-lhes também estimular todo um novo repertório de brincadeiras.

Chegados aqui, e mesmo sabendo que infelizmente hoje em dia isto dá algum trabalho, aposto contigo que vai valer bem a pena, não só agora, pela riqueza de tudo o que lhes proporcionarás, mas também pelo dia em que à pergunta: “O que mais te lembras da tua infância”, os teus filhos fechem os olhos, abram um sorriso e tenham um sem fim de histórias para contar…

“Que raio de mãe és tu?”

Fomos dar um passeio à zona ribeirinha.

Ao chegarmos, a maré baixa convidou-nos a descer as escadas e a sentarmo-nos numa pedra junto à água. Apanhámos búzios, vimos caranguejos e percebemos que havia zonas de lodo e zonas mais secas por onde poderíamos facilmente andar. O Manel continuou a explorar, encantado com a vida a fervilhar na ria, no lodo, nas algas deixadas pela última preia mar.

Numa das investidas, escorregou e encheu-se de lodo. Correu a mostrar-mo, demos uma boa gargalhada juntos e pediu-me para continuar a descobrir mais um pouco.
Enquanto o observava, deliciosamente parte daquele lugar, ouvi a seguinte frase ao longe,

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Duas senhoras, muito bem postas, vestidas com o fato de treino dos domingos e uns ténis muito branquinhos que nunca conheceram senão a brandura do asfalto, a suplicar (sem disso saber) por um bocadinho de vento ou de mar que lhes devolvesse a vida outra vez.

Foi isto que pensei, depois de uns segundos de raiva que quase me saltava da boca sob a forma de um “Não sabem as senhoras aquilo que perdem!”

Não o disse, mas vim com a frase a ecoar-me na cabeça e a fazer-me pensar no assunto, não sem antes me ter obrigado a mastigar e a cuspir a ideia que tantas vezes assalta as mulheres: Terei sido eu uma má mãe?

Olhei para o Manel e tudo o que vi foi um puto feliz, coberto de lodo da cabeça ao pés e a voltar para casa sem sapatos mas com o coração cheio de aventura e de liberdade.

Esta experiência levou-me a pensar naquilo em que transformámos a infância a partir do momento em que nos esquecemos de que a infância se faz de descoberta, de mãos na massa, de experiências, de espaço livre, de consciência de corpo nesse mesmo espaço.

A infância faz-se de risco.

E eu entristeço-me vezes demais, sempre que ao lado das senhoras bem postas vestidas com o fato de treino dos domingos, vejo crianças bem postas de fato de treino igual, a desconhecer que o corpo com que se movem é capaz de coisas tão extraordinárias como subir às árvores, saltar de pedra em pedra, apanhar caranguejos ou correr descalço.

Estamos mesmo a “criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, como disse um dia o fabuloso Carlos Neto. E a culpa é toda nossa.

Morremos de medo de que se magoem, morremos de medo de que se enganem, morremos de medo de que os magoem, e por fim, morremos de medo de que não precisem de nós.

Tudo isto faz parte do processo, até porque desde o momento em que lhes pusemos a vista em cima, deixámos de pertencer a nós mesmos e assumimos como nossa, a missão de os proteger para sempre. Tudo isto faz parte do processo mas é nossa a responsabilidade de não permitir que isto interfira com a sua saúde física e mental.

O medo dos adultos é talvez a maior barreira à autonomia de uma criança e uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento de uma maior confiança em si e no meio envolvente. E os adultos de hoje são exímios nisto. Vivem presos a uma proteção excessiva e a um desejo mal disfarçado de crianças arrumadinhas, bem comportadas e muito limpinhas, que em tudo as distancia do potencial com que foram equipadas.

A curiosidade, a criatividade, a coragem, o sentido de deslumbramento são as ferramentas com que as crianças nascem para que possam, sabiamente, descobrir o mundo. E é precisamente esta descoberta que lhes permite conquistar uma crescente percepção sensorial e as competências de vida que um dia lhes permitirão crescer como adultos capazes, resilientes e autónomos.

A maioria das vezes em que impedimos os nossos filhos de explorar ou experimentar não representa perigo à sua saúde.

São os inocentes “cuidado que vais cair!”, ou os bem intencionados “não vás para aí que te vais sujar!” que, repetidos vezes a fio sem que deles tenhamos consciência, vão retirando à criança a capacidade de conhecer o seu corpo e os seus limites, de aprender a observar os contextos onde se move e a fazer ela própria a avaliação dos riscos com que se depara, adaptando-se, do ponto de vista motor e emocional, aos diferentes desafios. E isto tem um efeito precisamente contrário ao que pretendemos: torna as crianças mais desajeitadas, mais propensas a acidentes e menos capazes de se auto regular.

Crianças assustadas, pouco confiantes, progressivamente menos criativas, emocionalmente pouco seguras e com maior probabilidade de psicopatologia na idade adulta, é tão somente o cenário que estamos habilmente a construir e eu sei, que não é nada disto que desejamos, tão somente porque é em tudo contrário à promessa que firmámos em nós quando lhes pusemos a vista em cima.

E é por tudo isto e por saber, enquanto adulta e enquanto mãe, que é minha a responsabilidade de permitir ao meu filho crescer de uma forma inteira, saudável, emocionante e progressivamente mais autónoma, que eu agora já só queria que fôssemos muitos a borrifar-nos nos ténis branquinhos e a abrir caminho ao lodo, à terra, aos bichos, às árvores e a tudo o que de forma tão natural e tão fácil lhes é casa.

É isso afinal que lhes constituirá terreno fértil para construir e adubo bom para fazer crescer as sementinhas de tudo o que de tão incrível já trazem dentro.

E se assim isto te fizer sentido e se com isto alguém um dia te perguntar que raio de mãe és tu, sorri-lhe e responde-lhe que és um raio de uma mãe que ainda não se esqueceu do sabor que a liberdade tem…

Infância à prova de vírus.

Acho que não há vírus pior do que o medo.
Medo que higieniza, do chão ao corpo, medo que afasta, que isola, que suprime, que aterroriza… É disto que muitos padecem. Às vezes, o vírus do medo também aparece para disfarçar a falta de amor ou a falta de vontade, ou a falta de sentir e é aí que a coisa se torna um verdadeiro problema: quando o medo passa a legitimar as coisas feias que já nos apeteciam e faz com que todos as aceitem como se assim tivessem de ser.
Ora que isto se passe entre pessoas crescidas e que a bandeira do medo e da falta de amor se hasteie bem alta e conquiste território até que nada sobre dos lugares bonitos que já soubemos povoar, eu até engulo, ou melhor, não tenho outro remédio. Mas vê-lo acontecer no território da infância, que é nosso dever enquanto adultos defender, é algo que o meu coração não consegue apaziguar.
A infância é um lugar sagrado, que vive do amor, do toque, do brincar, que cresce em substância e em tamanho a partir da liberdade e da relação de afeto com o outro. Não deixemos por isso que o medo do vírus, ou melhor, que o vírus do medo, se sobreponha a isto e nos faça perder o norte das coisas verdadeiramente importantes. E já agora, aproveitemos a máscara para calar os disparates que andamos a fazer, e por favor…

Não digamos a uma criança não toque,
Não digamos a uma criança que não experimente,
Não digamos a uma criança que não brinque,
Não digamos a uma criança não partilhe,
Não digamos a uma criança não explore livre os espaços,
Não digamos a uma criança que não abrace,
Não digamos a uma criança que esconda o sorriso.

Não digamos a uma criança que deixe de ser criança, porque aí não é só uma infância que se perde, é o mundo inteiro que nos escapa das mãos, para nunca mais voltarmos a pôr-lhe a vista em cima.

Deste regresso, como nunca o conhecemos…

Acabei de te deixar na escola.
E não me lembro de alguma vez o ter feito com este aperto no peito, pelo menos não assim, não por causa de uma realidade que eu própria ainda não consegui digerir.
Ontem preparámos tudo, os materiais, a mochila, a lancheira. Falei-te o melhor que pude sobre aquilo que encontrarias na escola e que apenas conheci por fotografia: o chão dividido ao meio, os percursos assinalados, as carteiras alinhadas em fila, o escorrega fechado, o campo de jogos também. Falei-te da funcionária à porta que desinfetaria as mãos a todos os meninos, falei-te dos almoços e da forma como se organizariam. Disse-te, feliz, que fariam o intervalo com tempo, na rua, que não teriam de usar máscara e que podiam ir à biblioteca e trazer livros. Agarrei-me a estas frases como se fossem a última réstia de liberdade que terias e tentei engolir a minha angústia o melhor que pude.
Hoje de manhã, antes de sairmos de casa lembrei-me que talvez devesses ter uma máscara na mochila para que pudesses escolher aquilo que te deixasse mais confortável e talvez porque afinal nem eu sabia bem o que encontraríamos. Quando estacionámos o carro vi máscaras em todos os adultos e máscaras em todas as crianças. Pediste-me a máscara que estava no bolso de fora da mochila, não por medo mas por conformismo, e eu ainda às voltas com o meu próprio sentir, consegui arranhar um: “mas não tens de o fazer, Manu, apenas se o quiseres…” Abracei-te com força, desejei-te um dia feliz e fiquei a ver-te a ser desinfetado à entrada do portão. O aperto no peito ficou comigo, talvez ainda mais forte porque acho que não estive à altura do que precisavas de mim. Queria tanto ter disfarçado melhor tudo aquilo com que luto dentro…
E sabes meu amor, eu acho que é a mamã que tem medo, não do vírus, mas desta coisa feia em que o mundo se tornou. Um mundo em que não poderás abraçar os teus amigos na escola, trocar cartas de Pokémon, ver o sorriso de todos, um mundo em que não vais poder sair a correr livre pelo pátio inteiro nem jogar à bola o tempo todo.
É afinal a mamã que tem medo.
Medo do medo dos outros e de que esse medo nos vença o coração e nos afaste das coisas verdadeiramente importantes, por tempo demais. Prometo-te por isso trabalhá-lo dentro de mim para continuar a ser-te parceira neste desafio e tento voltar à certeza de que “só as crianças sabem do que andam à procura”.
Ainda hão-de ser vocês a ajudar os adultos com medo a que nunca esqueçam o que é mesmo preciso procurar…

 

 

 

Mum is not the boss

Às vezes não oiço o que sinto.
E tenho de isolar as vozes que me ecoam na cabeça, para as identificar e lhes tirar as manhas. Depois, preciso de tempo para me reencontrar no meio da multidão e escutar-me, com a atenção que me é merecida.

Acredito cada vez mais, que esta mania de não nos ouvirmos é aprendida na infância e que as vozes que nos ecoam vezes demais e nos atrapalham o sentir, são as vozes dos adultos com que nos cruzámos ao longo do nosso crescimento. Não que tenha sido educada de uma forma castradora. Não fui. Cresci até com a liberdade e o respeito que me eram devidos, mas cresci num contexto social que ensina às crianças que é o adulto que sabe sempre, que decide, que manda, desde as coisas importantes, até às mais triviais.

“Esse escorrega não é para subir, apenas e só porque foi pensado para descer”; “Eu tenho frio e por isso, mesmo que tu não tenhas, esse casaco é para vestir”; “Eu já te disse que o banho é para ser tomado antes da brincadeira (mesmo que o corpo te peça desesperadamente para fazer já o desenho que trazes na cabeça)!”; “E sim, hoje levas os calções azuis porque eu acho que são os que ficam melhor com essa t-shirt.”; “Onde é que já se viu um céu verde? Vai lá buscar outra folha…”

Os adultos são modelos fundamentais na vida de uma criança, mas a autoridade e o respeito que inspiram, não será nunca medido pelas ordens inquestionáveis que decidam suas por direito, que tantas vezes são obedecidas mais pelo medo, do que propriamente pelo entendimento daquilo que as originou. E confundir a recusa do autoritarismo, com permissividade, é não saber do que se fala.

Há uns dias, num jantar de amigos, perguntaram ao meu filho quem é que mandava lá em casa. A resposta pronta e espontânea foi: “Ninguém.”

O meu radar de mãe (ainda) rainha da culpa e de pessoa crescida bem ensinada, deu o alerta e acionou uma espécie de desconforto crescente, alimentado pelas vozes dos outros e pelas ideias que me vinham à cabeça: “Será que ele devia responder que era eu? Será que ele pensa que isto é a república das bananas? Será que era assim que era suposto ser? Será… Será…. Será…

Trouxe as suposições comigo e deixei que me habitassem mais umas horas. E foi depois de as isolar, de as identificar e de as compreender, que me encontrei, a mim e ao meu filho, na relação que temos e naquilo que já construímos juntos, nesta oportunidade imensa de aprendermos um com o outro.

E é nas vezes em que ele me torce o nariz, em que me contesta, em que contrapõe com uma proposta diferente para atingir um mesmo resultado, que o meu peito se enche de orgulho pelo ser humano que é. Às vezes fazemos como eu proponho, outras fazemos como ele propõe. Às vezes ao meu ritmo, noutras tantas ao seu passo. E em muitas, muitas delas, partilhamos ideias e chegamos juntos a um “modus operandi” que sirva a ambos.

Se me era mais fácil que ele agisse sempre como um macaquinho amestrado e bem polido, ao melhor género das crianças Von Trapp? Era, sem sombra de dúvida. Se isso contribuiria para que crescesse a ouvir-se primeiro e a confiar também na luzinha de sabedoria que traz dentro e que lhe será sempre, pela vida fora, poderoso farol? Não. Com toda a certeza.

A minha tarefa enquanto mãe é ensinar o questionamento, a auto-confiança, a vontade de ser, independentemente do que queiram que o meu filho um dia seja. A minha tarefa enquanto mãe é mostrar que existem caminhos diferentes, formas diferentes de pensar e de agir no mundo e que cada um de nós deve encontrar as suas, mesmo que nos queiram ensinar por todos os meios, que a obediência cega é sempre o caminho mais fácil e mais confortável.

Não é isso que te quero ensinar, porque tu és, como alguém de forma tão bonita um dia disse, o capitão da tua alma. E eu desejo, de coração inteiro, que não percas nunca o leme e te descubras e te encantes, na essência perfeita de quem és.

Com o amor de sempre, por todas as crianças e por todos os adultos que as acompanham na aventura…

 

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há seis anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

Há escolas que não são amigas das crianças.

Às vezes a escola não é um lugar feliz. Não por causa das crianças, que afinal são o melhor que a escola tem, mas por causa dos adultos que não sabem a sorte que têm, por terem sido escolhidos para ser parte da escola.

Às vezes a escola não é um lugar seguro. Não por causa dos portões abertos, mas por causa dos adultos que se esquecem que a segurança que verdadeiramente importa, se constrói a partir do afeto e do amor que se põe nas coisas.

Às vezes a escola não é amiga dos pais. Não por causa dos pais, mas por causa dos adultos que acham que os pais que pensam são pais incómodos e que por isso usam a distância e a retórica gasta, para os manter longe, desinformados e, sobretudo, conformados.

Às vezes a escola não é amiga das crianças. Não que as crianças não o desejem (quando aliás é só isso que desejam), mas porque os adultos que nela moram se esqueceram há muito do que é ser-se criança. E se calhar até têm uma certa inveja da liberdade do corpo, do riso fácil, da energia sem fim, da criatividade na leitura das coisas, que só as crianças sabem ter.

Às vezes a escola não protege a brincadeira. Não por causa do tempo de recreio mas por causa do cinzento e do betão que insistem em consumir, incansáveis, tudo o que possa estimular o corpo e desafiar a mente.

Às vezes a escola não inspira respeito. Não por causa das crianças, mas por causa dos adultos que confundem medo com respeito, obediência com educação e do alto do seu tamanho de corpo, mandam e desmandam, avaliam e decidem, sem nunca sequer tentarem subir ao nível da criança e ler tudo o que de enorme lhes acontece dentro.

Às vezes a escola não ensina a liberdade. Não por causa da falta de vontade dela, mas por causa de quem acha que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro e se esquece que só se pode ser verdadeiramente livre, na liberdade conjunta, construída e tornada possível, a partir do questionamento e da descoberta individual.

Às vezes a escola é pequenina. Não pelo tamanho daqueles que mais vida lhe trazem, mas pela pequenez de espírito com que os crescidos olham a infância e pela arrogância com que não a entendem.

E não me digam que as crianças são difíceis, que as famílias são insuportáveis ou que os tempos são de crise, porque a única coisa que afinal uma escola precisa para ser grande, É GOSTAR DAS CRIANÇAS (condição estranha, quando é afinal por causa das crianças que ela existe) e saber que nelas mora a esperança de que um dia, o mundo possa ser um lugar feliz, seguro e livre.

Porque é afinal só isto que todos precisamos e é afinal isso que as escolas amigas das crianças são capazes de ensinar, sem nada mais lhes importar, para assim nunca mais pararem de crescer.

“Quando os filhos voam” – por Rubem Alves

Admiração profunda por tudo o que este senhor pensou, e disse, e escreveu…

“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.

Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança.

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase.

Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível.

Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar.

E não há estrada mais bela do que essa.”

 

Texto de Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro, psicanalista, “professor do espanto”, e tantas outras coisas bonitas…