“Miúdos, pra a rua já!” Ideias para proteger a criatividade e a liberdade na infância.

Uma das perguntas que invariavelmente faço aos pais com quem trabalho é a seguinte:
Qual é a recordação mais feliz da vossa infância?

O propósito da pergunta (para além do convite a uma viagem no tempo), cumpre-se na riqueza das respostas: “Ahhh, eu lembro-me dos verões em casa dos meus avós. De passar o dia metido em sarilhos com os meus primos mais velhos…” ou, “E o que eu gostava de subir à árvores e correr atrás das galinhas!” ou ainda “Morávamos ao pé da praia e eu ficava horas a construir castelos de terra molhada e a escavar fossos gigantes à volta capazes de resistir à onda seguinte!” e às vezes um delicioso, “Lembro-me sobretudo da liberdade para ser criança…”

As recordações mais poderosas da nossa infância metem árvores, metem terra, água, amigos, sarilhos, superação e sensação de liberdade. E acho que isto nos basta para trazer à tona os ingredientes necessários para ajudar a crescer uma criança feliz, autónoma, a manter-se criativa e a saborear a incrível sensação de liberdade de que os pais tantas vezes me falam.

Acontece que a vida, a organização das sociedades, o progresso tecnológico, o mundo como o conhecemos hoje e os nossos medos a crescer na devida proporção do avanço das coisas (ou quem sabe, do seu recuo), nem sempre nos facilitam este retorno à infância naquelas que podem ser as experiências dos nossos filhos. Acredito por isso que é hoje preciso, mais do que nunca, uma dose extra de esforço e de vontade para fazer acontecer aquilo que é efetivamente importante aos nossos filhos: tempo, espaço e liberdade de ser.

A rua já não é como foi (ou nós já não a olhamos como dantes), as árvores estão cada vez mais distantes e a vida corre frenética à nossa frente, sem que tenhamos tempo de a olhar como merece. Todos sabemos disto, até porque todos o sentimos na pele todos os dias e é por isso que eu te peço que, antes de continuares a ler este texto, te encostes na cadeira, respires fundo, feches os olhos e voltes a esses momentos em que te sentiste uma criança incrivelmente feliz. Agora, sugiro que mantenhas essa sensação boa no coração e leias as sugestões seguintes, acreditando que isso te ajudará a firmar a vontade e a não desistir:

Permitir-lhes o tempo e o espaço para não fazer nada.
A maioria dos miúdos de hoje cresce a reboque do horário preenchido dos pais. Às oito horas de escola, seguem-se mais três horas de ATL, ou mais três horas de explicação, para depois terminar o dia com mais uma hora de ginástica, ou ballet, ou violino ou mandarim (ou “o raio que o parta”, que é o que às vezes me apatece dizer…) No dia seguinte a história repete-se, no que se segue também e assim por diante, até que seja sexta-feira e já não reste mais espaço por preencher. Às vezes até se aproveita o fim de semana para mais uma horinhas de explicação ou para treinar mais um pouco e quando damos por nós, o despertador acorda-os à sete da manhã para começar tudo do início. E aqui pergunto-me: Será mesmo início, se não chegou a ter fim?
Pareceria uma ideia fácil, esta de permitir tempo aos nossos filhos para brincar, se é precisamente para a atividade de brincar que eles estão altamente apetrechados, mas a verdade é que isto se tornou um verdadeiro desafio às famílias de hoje. Tentar chegar a casa mais cedo pelo menos alguns dias da semana para que possam brincar depois da escola, assumir o compromisso de não ter agenda ao fim de semana ou incentivá-los a brincar de manhã enquanto acabamos de nos despachar, ao invés de ligar a televisão nestes minutos preciosos, podem ser ideias que ajudem a recuperar este tempo que lhes é de direito.

Deixá-los em paz!
Os pais são peritos em meter-se nas brincadeiras dos filhos a achar que sabem eles, melhor do que os próprios especialistas, qual a melhor maneira de montar um puzzle, quais as regras que fazem sentido num jogo de grupo ou até como se deve pintar o céu para ficar ainda mais bonito. Somos tão bons nisto que até apelidamos de “brincadeiras não estruturadas”, aquelas em que não metemos o bedelho.
Não existem brincadeiras não estruturadas porque todas as crianças definem e aplicam as regras da sua própria brincadeiras sem precisarem de nós para absolutamente nada. E portanto, deixá-los gerir estes espaços de criatividade e atividade lúdica, não desatar a resolver sempre que nos dizem “Mãe, não tenho nada para fazer!” e morder a língua sempre que nos chega à boca um frase para corrigir o que estão livremente a criar, serão sempre boas premissas para respeitar a liberdade destes pequenos grandes inventores.

Estimular dias inteiros de brincadeira para todos.
Convidar amigos, dizer que sim a todas as festas do pijamas, deixá-los construir tendas tuareg no terraço ou combinar jogatanas de futebol no jardim, são ótimas ideias para deixar bem oleadas as relações com outras crianças que tanto lhes trazem a descobrir, desde a empatia, à resolução de problemas, à cooperação e a tantas outras competências que lhes serão bússola para toda a vida. Caso tenhas um grupo de pais pronto a alinhar nesta espécie de brincadeira comunitária, poderão até revezar-se nos programas ou aproveitar para juntar os miúdos e aproveitar o tempo para construir ou fortalecer os laços uns com os outros. Há pessoas interessantes por aí, sabes?

Aproveitar tudo o que de tão incrível existe à nossa volta.
E aqui falo da natureza e do potencial imenso que ela nos oferece. Uma criança não precisa de brinquedos complicados e muito menos precisa de brinquedos com pilhas que fazem tudo por ela. Aposto que já todos vimos bebés e crianças pequenas deliciados horas a fio com uma cesta de frutas, ou com um armário de tupperwares ou com uma poça de lama que dá para fazer bolinhos e tudo. Pois é, e é só mesmo só disto que eles precisam. Ambientes ao ar livre que ofereçam vários elementos como terra, plantas e água, são ambientes que darão à criança um sem fim de coisas para fazer, estimulando-as a brincar de diferentes formas e a encontrar respostas diferentes aos diferentes desafios. Em casa, simplicidade é a palavra de ordem. Objetos para construir, caixas de areia, peças soltas como bocados de madeira, tijolos, pedrinhas, ou invenções a partir de elementos naturais como carimbos feitos com sumo de beterraba e rodelas de maça, serão sempre boas ideias que permitirão à criança manter viva e de boa saúde a sua capacidade ativa e criativa, permitindo-lhes também estimular todo um novo repertório de brincadeiras.

Chegados aqui, e mesmo sabendo que infelizmente hoje em dia isto dá algum trabalho, aposto contigo que vai valer bem a pena, não só agora, pela riqueza de tudo o que lhes proporcionarás, mas também pelo dia em que à pergunta: “O que mais te lembras da tua infância”, os teus filhos fechem os olhos, abram um sorriso e tenham um sem fim de histórias para contar…

“Que raio de mãe és tu?”

Fomos dar um passeio à zona ribeirinha.

Ao chegarmos, a maré baixa convidou-nos a descer as escadas e a sentarmo-nos numa pedra junto à água. Apanhámos búzios, vimos caranguejos e percebemos que havia zonas de lodo e zonas mais secas por onde poderíamos facilmente andar. O Manel continuou a explorar, encantado com a vida a fervilhar na ria, no lodo, nas algas deixadas pela última preia mar.

Numa das investidas, escorregou e encheu-se de lodo. Correu a mostrar-mo, demos uma boa gargalhada juntos e pediu-me para continuar a descobrir mais um pouco.
Enquanto o observava, deliciosamente parte daquele lugar, ouvi a seguinte frase ao longe,

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Duas senhoras, muito bem postas, vestidas com o fato de treino dos domingos e uns ténis muito branquinhos que nunca conheceram senão a brandura do asfalto, a suplicar (sem disso saber) por um bocadinho de vento ou de mar que lhes devolvesse a vida outra vez.

Foi isto que pensei, depois de uns segundos de raiva que quase me saltava da boca sob a forma de um “Não sabem as senhoras aquilo que perdem!”

Não o disse, mas vim com a frase a ecoar-me na cabeça e a fazer-me pensar no assunto, não sem antes me ter obrigado a mastigar e a cuspir a ideia que tantas vezes assalta as mulheres: Terei sido eu uma má mãe?

Olhei para o Manel e tudo o que vi foi um puto feliz, coberto de lodo da cabeça ao pés e a voltar para casa sem sapatos mas com o coração cheio de aventura e de liberdade.

Esta experiência levou-me a pensar naquilo em que transformámos a infância a partir do momento em que nos esquecemos de que a infância se faz de descoberta, de mãos na massa, de experiências, de espaço livre, de consciência de corpo nesse mesmo espaço.

A infância faz-se de risco.

E eu entristeço-me vezes demais, sempre que ao lado das senhoras bem postas vestidas com o fato de treino dos domingos, vejo crianças bem postas de fato de treino igual, a desconhecer que o corpo com que se movem é capaz de coisas tão extraordinárias como subir às árvores, saltar de pedra em pedra, apanhar caranguejos ou correr descalço.

Estamos mesmo a “criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, como disse um dia o fabuloso Carlos Neto. E a culpa é toda nossa.

Morremos de medo de que se magoem, morremos de medo de que se enganem, morremos de medo de que os magoem, e por fim, morremos de medo de que não precisem de nós.

Tudo isto faz parte do processo, até porque desde o momento em que lhes pusemos a vista em cima, deixámos de pertencer a nós mesmos e assumimos como nossa, a missão de os proteger para sempre. Tudo isto faz parte do processo mas é nossa a responsabilidade de não permitir que isto interfira com a sua saúde física e mental.

O medo dos adultos é talvez a maior barreira à autonomia de uma criança e uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento de uma maior confiança em si e no meio envolvente. E os adultos de hoje são exímios nisto. Vivem presos a uma proteção excessiva e a um desejo mal disfarçado de crianças arrumadinhas, bem comportadas e muito limpinhas, que em tudo as distancia do potencial com que foram equipadas.

A curiosidade, a criatividade, a coragem, o sentido de deslumbramento são as ferramentas com que as crianças nascem para que possam, sabiamente, descobrir o mundo. E é precisamente esta descoberta que lhes permite conquistar uma crescente percepção sensorial e as competências de vida que um dia lhes permitirão crescer como adultos capazes, resilientes e autónomos.

A maioria das vezes em que impedimos os nossos filhos de explorar ou experimentar não representa perigo à sua saúde.

São os inocentes “cuidado que vais cair!”, ou os bem intencionados “não vás para aí que te vais sujar!” que, repetidos vezes a fio sem que deles tenhamos consciência, vão retirando à criança a capacidade de conhecer o seu corpo e os seus limites, de aprender a observar os contextos onde se move e a fazer ela própria a avaliação dos riscos com que se depara, adaptando-se, do ponto de vista motor e emocional, aos diferentes desafios. E isto tem um efeito precisamente contrário ao que pretendemos: torna as crianças mais desajeitadas, mais propensas a acidentes e menos capazes de se auto regular.

Crianças assustadas, pouco confiantes, progressivamente menos criativas, emocionalmente pouco seguras e com maior probabilidade de psicopatologia na idade adulta, é tão somente o cenário que estamos habilmente a construir e eu sei, que não é nada disto que desejamos, tão somente porque é em tudo contrário à promessa que firmámos em nós quando lhes pusemos a vista em cima.

E é por tudo isto e por saber, enquanto adulta e enquanto mãe, que é minha a responsabilidade de permitir ao meu filho crescer de uma forma inteira, saudável, emocionante e progressivamente mais autónoma, que eu agora já só queria que fôssemos muitos a borrifar-nos nos ténis branquinhos e a abrir caminho ao lodo, à terra, aos bichos, às árvores e a tudo o que de forma tão natural e tão fácil lhes é casa.

É isso afinal que lhes constituirá terreno fértil para construir e adubo bom para fazer crescer as sementinhas de tudo o que de tão incrível já trazem dentro.

E se assim isto te fizer sentido e se com isto alguém um dia te perguntar que raio de mãe és tu, sorri-lhe e responde-lhe que és um raio de uma mãe que ainda não se esqueceu do sabor que a liberdade tem…

Infância à prova de vírus.

Acho que não há vírus pior do que o medo.
Medo que higieniza, do chão ao corpo, medo que afasta, que isola, que suprime, que aterroriza… É disto que muitos padecem. Às vezes, o vírus do medo também aparece para disfarçar a falta de amor ou a falta de vontade, ou a falta de sentir e é aí que a coisa se torna um verdadeiro problema: quando o medo passa a legitimar as coisas feias que já nos apeteciam e faz com que todos as aceitem como se assim tivessem de ser.
Ora que isto se passe entre pessoas crescidas e que a bandeira do medo e da falta de amor se hasteie bem alta e conquiste território até que nada sobre dos lugares bonitos que já soubemos povoar, eu até engulo, ou melhor, não tenho outro remédio. Mas vê-lo acontecer no território da infância, que é nosso dever enquanto adultos defender, é algo que o meu coração não consegue apaziguar.
A infância é um lugar sagrado, que vive do amor, do toque, do brincar, que cresce em substância e em tamanho a partir da liberdade e da relação de afeto com o outro. Não deixemos por isso que o medo do vírus, ou melhor, que o vírus do medo, se sobreponha a isto e nos faça perder o norte das coisas verdadeiramente importantes. E já agora, aproveitemos a máscara para calar os disparates que andamos a fazer, e por favor…

Não digamos a uma criança não toque,
Não digamos a uma criança que não experimente,
Não digamos a uma criança que não brinque,
Não digamos a uma criança não partilhe,
Não digamos a uma criança não explore livre os espaços,
Não digamos a uma criança que não abrace,
Não digamos a uma criança que esconda o sorriso.

Não digamos a uma criança que deixe de ser criança, porque aí não é só uma infância que se perde, é o mundo inteiro que nos escapa das mãos, para nunca mais voltarmos a pôr-lhe a vista em cima.

O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram o seu melhor sorriso e, antes de sair de casa, dançaram juntos ao som de Freddie Mercury.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Estava tudo tão bonito. As flores que enfeitavam o auditório, as luzes que traziam outro brilho ao palco, a toalha azul, a mesa de café, o chá… e uns rolinhos brancos, muito alinhados, atados com uma fita branca de cetim, que faziam quase adivinhar a importância das coisas que traziam escritas.

Todos endireitavam o corpo, com ar imponente, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa da direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara! 

O mérito, o valor e a excelência ficaram um pouco envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam, que os rolinhos brancos atados com fita de cetim branca, haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala.

Sim, era verdade, naquela escola moravam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

No dia em que nasceste o universo alinhou-se dentro de mim para te receber. Trouxe as flores, trouxe o chão, o ajuste quente do colo… Só não trouxe o roteiro porque esse a ti pertence e eu não quereria nunca tirar-te o doce prazer da descoberta de quem és. Basta-me a honra de te dar a mão, ensinar-te o sorriso e esperar que ambos te fiquem e te abram o peito às coisas bonitas que a vida tem.❤️

As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos às escondidas.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas para educar as crianças que, por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

Há escolas que não são amigas das crianças.

Às vezes a escola não é um lugar feliz. Não por causa das crianças, que afinal são o melhor que a escola tem, mas por causa dos adultos que não sabem a sorte que têm, por terem sido escolhidos para ser parte da escola.

Às vezes a escola não é um lugar seguro. Não por causa dos portões abertos, mas por causa dos adultos que se esquecem que a segurança que verdadeiramente importa, se constrói a partir do afeto e do amor que se põe nas coisas.

Às vezes a escola não é amiga dos pais. Não por causa dos pais, mas por causa dos adultos que acham que os pais que pensam são pais incómodos e que por isso usam a distância e a retórica gasta, para os manter longe, desinformados e, sobretudo, conformados.

Às vezes a escola não é amiga das crianças. Não que as crianças não o desejem (quando aliás é só isso que desejam), mas porque os adultos que nela moram se esqueceram há muito do que é ser-se criança. E se calhar até têm uma certa inveja da liberdade do corpo, do riso fácil, da energia sem fim, da criatividade na leitura das coisas, que só as crianças sabem ter.

Às vezes a escola não protege a brincadeira. Não por causa do tempo de recreio mas por causa do cinzento e do betão que insistem em consumir, incansáveis, tudo o que possa estimular o corpo e desafiar a mente.

Às vezes a escola não inspira respeito. Não por causa das crianças, mas por causa dos adultos que confundem medo com respeito, obediência com educação e do alto do seu tamanho de corpo, mandam e desmandam, avaliam e decidem, sem nunca sequer tentarem subir ao nível da criança e ler tudo o que de enorme lhes acontece dentro.

Às vezes a escola não ensina a liberdade. Não por causa da falta de vontade dela, mas por causa de quem acha que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro e se esquece que só se pode ser verdadeiramente livre, na liberdade conjunta, construída e tornada possível, a partir do questionamento e da descoberta individual.

Às vezes a escola é pequenina. Não pelo tamanho daqueles que mais vida lhe trazem, mas pela pequenez de espírito com que os crescidos olham a infância e pela arrogância com que não a entendem.

E não me digam que as crianças são difíceis, que as famílias são insuportáveis ou que os tempos são de crise, porque a única coisa que afinal uma escola precisa para ser grande, É GOSTAR DAS CRIANÇAS (condição estranha, quando é afinal por causa das crianças que ela existe) e saber que nelas mora a esperança de que um dia, o mundo possa ser um lugar feliz, seguro e livre.

Porque é afinal só isto que todos precisamos e é afinal isso que as escolas amigas das crianças são capazes de ensinar, sem nada mais lhes importar, para assim nunca mais pararem de crescer.

Se os adultos…

Ao folhear um livro antigo, encontrei este texto que, tendo sido escrito em 1952, me fez revisitar aquilo em que acredito quando penso no desafio que é ser mãe e no impacto que a forma como agimos, pode significar no desenvolvimento dos nossos filhos. Não seremos nunca pais perfeitos (nem isso seria desejável) mas morará sempre em nós, a capacidade de refletir, aprender e crescer enquanto seres humanos, de forma a que o melhor que somos, seja sempre bússola. E perdure.

“Se as crianças vivem com crítica, aprender a condenar.

Se as crianças vivem com hostilidade, aprendem a ser agressivas.

Se as crianças vivem com medo, aprender a ser apreensivas.

Se as crianças vivem com pena, aprendem a ter pena de si próprias.

Se as crianças vivem com vergonha, aprendem a sentir-se culpadas.

Se as crianças vivem com encorajamento, aprendem a ser confiantes.

Se as crianças vivem com tolerância aprendem a ser pacientes.

Se as crianças vivem com elogios, aprendem a apreciar.

Se as crianças vivem com aceitação, aprendem a amar.”

Dorothy Law Nolte

 

Há histórias que não foram feitas para crianças.

Dormes nos lençóis do Mickey, ou naqueles dos carrinhos vermelhos ou nos que foram bordados pela tua bisavó. Acordas de manhã com um sussurro ao ouvido que te diz: “Bom dia, meu amor maior…” Escolhes a tua roupa preferida e procuras sempre as peças que tenham a cor verde. Estão dobradas, arrumadas e cheiram a lavanda, tal como o saquinho aromático que tens na gaveta. Gostas de espreitar o frigorífico e escolher “uma fruta boa”, sempre que te apetece. Tens os amigos, os avós, os tios, os primos e um sem fim de pessoas que te querem bem, sempre à mão de semear. Tens-nos a nós. Que te amamos mais do que tudo e te enchemos o coração de abraços e de mimos. Vais à escola e de lá vens cheio de histórias e sonhos para contar. Trazes desenhos pintados, brinquedos emprestados, convites para a festa de aniversário seguinte. Gostas dos jantares demorados no terraço, do cheiro a maresia e do sol que se põe connosco à mesa todas as noites. Fazes planos para o dia seguinte e desejas que a vida seja sempre assim.

És feliz. Como todos os meninos do mundo mereciam ser.

Mas eles não são. Eles adormecem ao som de uma espécie de fogo de artifício, são arrancados da cama durante a noite sem que lhes expliquem porquê. Respiram o terror dos pais e aprendem a amarga sensação de impotência. Sonham com o colo quente que tiveram um dia. Perdem o rasto aos amigos, veem a escola onde aprenderam a ler, desaparecer de um sopro, de estrondo e de pó. Eles fogem de tudo e de todos e entram, assustados, num mar escuro e instável, porque o que se passa em terra firme é tão mais assustador… Eles têm o olhar baço e escuro, cheio de nada, porque afinal já viram tudo o que nunca deveria ser visto. Eles choram, eles gritam. E pedem para acordar do pesadelo todos os dias. Mas ninguém os atende. Ninguém lhes passa a mão no cabelo e nunca ninguém lhes sussurra: “Já passou, meu amor maior…”

Eles não compreendem. E eu também não. Porque sei que o lugar onde se nasce é apenas e só uma questão de sorte, aleatória, injusta, madrasta, como só a sorte sabe ser, mas não sei porque permitimos que assim se mantenha, como um fado de vida que toca, mas não nos toca a nós.

Eles são meninos como tu, com a diferença de que eles só queriam que a vida não fosse sempre assim.

Nota: Há vídeos necessários como este. Que nos lembram que, infelizmente, a vida não é para todos como é para nós e que há histórias que não foram feitas para crianças. Mas elas vivem-nas. Obrigada Malak, pela força e pelo sorriso, mesmo já tendo visto o pior lado do mundo…