A vida, aqui e agora.

O caos instala-se hoje na maioria das casas portuguesas.
Trazer a escola para o lugar onde moramos parece ser a atitude mais sensata neste momento (ou a possível) mas a verdade é que a dimensão de tudo o que daqui advém está ainda longe de ser olhada de frente por todos nós.

Há quem tenha um filho, há quem dois, há quem tenha três e há quem tenha quatro ou cinco. Há quem tenha filhos dos outros. Há quem esteja em dupla na tarefa de os apoiar, há quem esteja absolutamente sozinho. Há quem se safe no português e dê uns toques na matemática, há quem quase não saiba ler nem escrever. Há quem tenha tempo para ir dando um olhinho nos miúdos durante as tarefas escolares, há quem tenha de colar os olhos ao ecrã e cumprir os objetivos de um dia de trabalho, como se estivesse tudo na mesma. Há ainda quem tenha de sair para trabalhar e por isso tenha de deixar os filhos com alguém que esteja a jeito ou até deixá-los numa escola de acolhimento qualquer, com gente que nunca os viu e sem saber muito bem como é que coisa vai correr. Somos muitos, somos todos diferentes, mas estamos todos a lutar com uma mesma necessidade: Dar conta disto e sobreviver!

O problema está precisamente quando achamos que este “dar conta do assunto” é responder a cada um do desafios nele implícitos de uma forma exemplar, controlada, organizada, emocionalmente regrada e quase sempre perfeita. E isto, meus senhores, não é possível!

Aquilo que se exige, do ponto de vista mental e físico de uma mãe, de um pai ou de um adulto cuidador, quando se lhe pede que transforme a casa em escola, em empresa, em cantina de refeições, em centro de estudos e em parque de diversões, tudo ao mesmo tempo e bem arrumadinho para não falhar nada, é de uma dificuldade extrema, só verdadeiramente perceptível a quem tenha de a viver.

É por isso tão essencial neste tempo que vivemos e perante um cenário que se avizinha longo tornar mais conscientes as nossas intenções e ligarmo-nos aquilo que verdadeiramente nos pode ser bússola: É o que é e está tudo bem.
E isto significa que eu não vou ser a mãe perfeita nem a trabalhadora do ano. Eu vou ser a melhor mãe possível e a trabalhadora que me for possível ser. E isso é tudo o que eu posso fazer quando o mundo se vira do avesso e é preciso saber (e dizer a quem disto não saiba) que NADA PODE SER COMO ANTES. Não agora.

Agora o tempo é de aceitação, de cuidado ao coração, de força conjunta (perto ou longe) e de reconhecimento das pequeninas coisas que nos fazem bem ou que nos fazem subir as paredes, porque estas é preciso acolher também.

Aceitar o que é, tal como é.
Ponto número um. Nunca nenhum de nós imaginou sequer estar a viver este cenário, e no entanto aqui estamos, a conseguir fazer acontecer coisas incríveis. Famílias reais são famílias com cozinhas desarrumadas, filhos resmungões e momentos de levar às lágrimas e à quase loucura, e portanto, aceitar, honrar e agradecer tudo o que temos conseguido ser num desafio tão imenso, será sempre balão de ar puro e apontar de luz a tudo o que é verdadeiramente essencial.

Reconhecer aquilo que estamos a sentir.
E deixá-lo acontecer, assim, sem o disfarçar ou tornar mais apetecível. Os medos, a insegurança, as expectativas, a realidade… a partir do momento em que começamos a sentir-nos desconfortáveis é importante não ceder ao impulso, seja ele gritar com os nossos filhos ou devorar um pacote de bolachas. Podemos sim reconhecer a sensação que nos causa desconforto, respirar fundo e deixar que o coração se apazigue com aquilo que está a acontecer. Para além disso tomar a decisão de sermos mais conscientes do ponto em que estamos e aquilo que vai acontecendo dentro de nós perante as diferentes exigências, ajuda-nos a refrear possíveis impactos que as mesmas tenham na gestão das novas rotinas.

Ser flexível.
Não, não vai ser um mar de rosas, sim vão existir muitos desafios e não vamos conseguir cumprir com tudo aquilo a que nos propusemos. Os nossos filhos vão precisar de nós e com isso quebrar-nos o ritmo de trabalho, e noutros momentos seremos nós a não conseguir dar-lhes a atenção que precisam. Cada dia será uma espécie de dança que teremos de aprender a dançar, às vezes de forma mais harmoniosa, outras sem swing que nos valha e ainda assim estará tudo bem, apenas e só porque saberemos continuar a ouvir o ritmo.

Pôr a culpa a mexer.
E aqui falo sobretudo de nós, mulheres. Somos as rainhas da culpa, apenas e só porque essa é uma aprendizagem social que decorre daquilo que ainda representa o facto de se nascer mulher. Tens de ser boa mãe, tens de ser boa filha, tens de ser boa companheira, tens de ser boa profissional, and so on, and so on, and so on… e depois passas a viver com uma espécie de carrasco moral que te sussurra ao ouvido sempre que passas a linha: “Estás de folga e deixas o teu filho na creche? Inventas idas ao supermercado só porque já não aguentas ouvir gritar “mãeeeeee” durante mais 10 minutos? Chegas a casa e não te apetece brincar às barbies? Devias ter vergonha…” Acho que é mais ou menos isto, acho que nos acontece a todas e acho mesmo que é algo que devemos contrapor com todas as nossas forças, nunca deixando que se torne voz. Gostarmos de nós como gostamos dos outros, sermos capazes de nos olhar ao espelho com amor e compaixão e gratidão por quem somos, assim sem tirar nem pôr e sobretudo, sem nenhum tipo de superpoder.

A vida da maioria das famílias muda outra vez mais um bocadinho a partir de hoje, mas afinal é isso que nos acontece enquanto pessoas a vida inteira e é também isso que nos torna tão capazes de assumir o leme e continuar a navegar. Em mares calmos e outras vezes bravios, mas sempre, sempre a apreciar a viagem.

Quando nos salta a tampa (e temos poucos sítios para onde fugir…)

Et voilá… já cá estamos todos outra vez, a ter de atafulhar a vida dentro de quatro paredes e a gerir os desafios que disso decorrem, em modo quase ininterrupto: trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA, trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA… Acho que é mais ou menos isto. Se calhar, com uma espécie de “cerejinha no topo do bolo” por ser uma realidade vivida pela segunda vez, sem que tenhamos tido verdadeiramente tempo de ganhar fôlego para o embate.

E sim, é difícil. Muito. Uns dias mais do que outros, às vezes com o melhor que somos, outras vezes com o melhor que nos é possível e na verdade… está tudo bem!

Uma das coisas que tenho reforçado em mim neste tempo estranho que vivemos é que mora dentro de nós uma espécie de poder genial que nos permite, devagarinho, ir respondendo ao mundo (que na verdade agora é a casa onde moramos) de forma cada vez mais refletida e regulada. E isto, acreditem, faz mesmo toda a diferença.

A este poder genial chamamos auto regulação emocional e é ela que nos permite identificar e reconhecer as emoções que são ativadas dentro de nós, para depois decidir, de forma mais consciente, a ação que queremos empreender perante a situação que a despoletou, o que, traduzido em miúdos, pode fazer mesmo a diferença.

Ora vejamos a seguinte situação:

O meu filho risca o caderno da cópia e grita-me: “Estou farto disto!”

a) Eu começo a ferver, estico o dedo indicador na sua direção e grito-lhe mais alto: “E eu estou farta de ti! Nunca mais fales comigo assim, ouviste bem?”

ou,

b) Eu percebo que estou a começar a borbulhar por dentro e afasto-me da situação durante 5 minutos.

É fácil escolher sempre a resposta b? Nada. É possível? É.

Porque podemos aprendê-lo e porque sempre que escolhemos não reagir, ou seja, sempre que permitimos uma pausa entre a situação-gatilho e a nossa ação, estamos a permitir ao cérebro acalmar-se e reconectar-se com aquilo que nos é mais importante: agir com amor e consciência, ensinando-os a fazer o mesmo.

E como podemos nós treinar este poder genial que nos mora dentro e que nos permite sentarmo-nos com as nossas emoções, oferecer-lhes um chá e decidir o caminho a seguir a partir daí? Com arte, engenho e muito treino prático das propostas que se seguem:

Parar e aguardar. Assim que comece o alvoroço dentro, pode ser importante reconhecê-lo, parar e mudar de cenário. Sair à varanda, ir à casa de banho, ir levar o lixo, beber um copo de água. Tudo o que nos permita ter espaço para respirar fundo e arrefecer será aquilo que precisamos verdadeiramente no meio da tempestade.

Pensar em coisas que nos fazem bem ou pelas quais nos sentimos gratos. Isto permite a identificação com outros sentimentos que nos ajudarão a (re)estabelecer o foco com as nossas intenções enquanto pais, contribuindo também para um sentido de maior empoderamento perante a situação que estamos a viver.

Conectarmo-nos com o outro (neste caso, com os nossos filhos). No momento em que nos sintamos mais regulados e mais capazes de agir (ao invés de reagir), dar-lhes um abraço, dizer-lhe que estamos disponíveis para conversar se assim se sentirem também. Dizer-lhes que foi um momento difícil para ambos mas que podemos falar sobre isso e encontrar soluções em conjunto.

Falar sobre o assunto. Trinta minutos depois ou três horas depois. O mais importante é que este momento seja sentido como adequado por ambos. Descrever a situação, de uma forma neutra e evitando os tão tentadores julgamentos prévios e generalizações, falar sobre aquilo que sentimos sem o justificar com o comportamento da criança, pedir desculpa e ouvir aquilo que têm para dizer, em aceitação incondicional. Estes serão sempre os ingredientes que constituirão uma espécie de porta aberta e convite a entrar, que a ambos permitirá descansar e crescer.

Tal como começámos este texto, o desafio que já era imenso tornou-se ainda maior mas esta coisa boa de sabermos que mora em nós mora o realizador, o argumentista e o ator principal das nossas vidas será sempre luz e força e vontade de agarrar o guião, mesmo que tenhamos de o rascunhar e reescrever vezes sem conta. É afinal isso, que tornará sempre tudo tão mais especial…

A vida pode sempre ser bela.

Disse-me num choro compulsivo e quase angustiante:

“Não quero estar infetada porque depois vou morrer!”

Tem 12 anos. Tem 12 anos e não precisava do medo e da (des)informação que a atropela todos os dias, pela voz de tantos de nós, pela verdade das notícias que lhe entram casa adentro, ditas por gente séria e bem vestida, sem saber ela que a forma como a verdade das coisas é integrada, depende acima de tudo da forma com que a queremos contar.

Acho que andamos todos ainda um bocadinho distraídos em relação aos efeitos colaterais deste vírus. Acho que estamos ainda a esquecer-nos da nossa responsabilidade enquanto educadores e do papel que cada um de nós tem de assumir para que este vírus não nos devore a todos e sobretudo, não devore a infância e a transforme para sempre num lugar menos bonito e até menos seguro. E quando falo de segurança não falo das medidas de higienização da infância, até porque essas têm sido alvo de um olhar atento desde o início, falo das medidas de PROTEÇÃO da infância. Falo da segurança emocional, da responsabilidade, da confiança, da coragem, e falo também da criatividade e da vontade de a descobrir.

Não será preciso ser-se especialista em desenvolvimento infantil para se imaginar que o isolamento e as medidas de restrição social prolongados deixam impactos relevantes no crescimento de uma criança, impactos estes que em muito poderão ser minimizados mediante a atitude e a responsividade dos adultos e dos contextos que a ajudam a crescer. É nisto que eu acredito, é na certeza de que é missão que cada um de nós, proteger a infância e atenuar os riscos associados ao desafio de uma epidemia à escala mundial. Como perguntam vocês?

Primeiro com um amor imenso, daqueles que ajuda a suportar todas as batalhas, depois, com algumas ideias que poderão ajudar um bocadinho a que os dias sejam um bocadinho mais felizes, e sobretudo não corram ao sabor de um bicho esquisito chamado COVID:

  • Desligar a televisão, sempre que o assunto seja a infeção por corona vírus. Não obstante a informação que transmitem (e que tantas vezes nos chega de forma manipulada), os media têm como principal função alarmar, apenas e só, porque é isso que vende. Uma criança que assista constantemente ao tipo de discurso que lhe chega por esta via, é uma criança que não será capaz de filtrar a informação e de a relativizar da mesma forma que um adulto e que por isso ficará assustada e sem capacidade de se tranquilizar face aos recursos internos de que dispõe.

  • Falar com as crianças de uma forma concisa, segura e informada acerca das medidas de prevenção: máscara em espaços fechados ou com muita gente e lavagem das mãos mais frequente. É apenas isto na verdade que precisam de saber, é apenas isto que todos podemos controlar e é a forma como o comunicamos e a nossa capacidade o de transmitir à criança, que farão com não tenha de se preocupar com o resto, o que fará toda a diferença.

  • Honrar a família e os espaços comuns. Rotinas, tradições, rituais familiares devem manter-se o mais possível. Jogos em família, sessões de cinema, lanches divertidos… tudo o que possa contribuir para um sentido de normalidade, tornar-se-á ainda mais protetor no contexto em que vivemos.

  • Aproveitar o ar livre o máximo de tempo possível. As restrições no contexto escolar significaram, na maioria das situações, a alteração das rotinas de recreio e a limitação do usufruto dos espaços. As crianças precisam de correr, de trepar, de pular, de explorar, e essa é uma necessidade vital que às vezes parecemos ignorar. Se tal não pode acontecer na escola, então é preciso procurar outros lugares que o permitam. A praia, o campo, o jardim continuam a ser espaços onde é possível esta liberdade e esta conexão com a natureza, tão essenciais à saúde física e mental.

  • Falar sobre a forma como nos sentimos e pensar em conjunto naquilo que cada um pode fazer para se sentir melhor, sempre que os dias pareçam mais difíceis. Pode ser interessante criar uma “caixa de ferramentas emocionais ” da família, na qual cada um coloca uma ideia para pôr em prática sempre que se sinta mais triste, ou ansioso, ou até zangado: ler um livro, conversar, “dançar à maluca” na sala, ouvir música, passear na natureza, jogar um jogo, fazer biscoitos, contar uma história…

  • Cuidarmos de nós. Quando os adultos estão conscientes das suas próprias emoções e sentem confiança na sua capacidade para lidar com os desafios, as crianças aprendem a fazê-lo também, sendo este um dos maiores preditores da saúde mental de crianças e adolescentes. Cuidarmos de nós implica que sejamos capazes de nos regular emocionalmente, que tenhamos espaços ao longo da semana para nós, para praticar atividade física, para nos alimentarmos e dormirmos bem, para nos relacionarmos com outros adultos que nos fazem bem e para nos oferecermos pequeninos mimos que funcionam como verdadeiros balões de oxigénio. E isto é talvez aquilo que de mais importante podemos fazer para proteger os nossos filhos.

Ainda que existam coisas que não estão ao nosso alcance e que, curiosamente, são precisamente aquelas com que nos bombardeiam todos os dias, existem muitas outras em que podemos realmente significar a diferença, tais como a confiança, a contenção emocional, a capacidade de estimular e aceitar a livre expressão emocional dos nossos filhos e depois, muito, a capacidade de manter a calma e privilegiar todos os momentos que sirvam para honrar a infância, tais como a brincadeira, o sentido de humor, a fantasia.

Acredito que é esta a nossa missão de adultos num contexto difícil como o que vivemos e que é também isto que podemos fazer perdurar para que um dia, ao falarmos dos tempos estranhos que todos vivemos, falemos sobretudo da forma corajosa e bonita como juntos soubemos enfrentá-los…

(E porque houve já quem soubesse contar esta força de uma forma tão bonita porque não voltar à história de Guido, Dora e Giosué, num filme que não pode senão continuar a ser-nos profundamente inspirador…)

Deste regresso, como nunca o conhecemos…

Acabei de te deixar na escola.
E não me lembro de alguma vez o ter feito com este aperto no peito, pelo menos não assim, não por causa de uma realidade que eu própria ainda não consegui digerir.
Ontem preparámos tudo, os materiais, a mochila, a lancheira. Falei-te o melhor que pude sobre aquilo que encontrarias na escola e que apenas conheci por fotografia: o chão dividido ao meio, os percursos assinalados, as carteiras alinhadas em fila, o escorrega fechado, o campo de jogos também. Falei-te da funcionária à porta que desinfetaria as mãos a todos os meninos, falei-te dos almoços e da forma como se organizariam. Disse-te, feliz, que fariam o intervalo com tempo, na rua, que não teriam de usar máscara e que podiam ir à biblioteca e trazer livros. Agarrei-me a estas frases como se fossem a última réstia de liberdade que terias e tentei engolir a minha angústia o melhor que pude.
Hoje de manhã, antes de sairmos de casa lembrei-me que talvez devesses ter uma máscara na mochila para que pudesses escolher aquilo que te deixasse mais confortável e talvez porque afinal nem eu sabia bem o que encontraríamos. Quando estacionámos o carro vi máscaras em todos os adultos e máscaras em todas as crianças. Pediste-me a máscara que estava no bolso de fora da mochila, não por medo mas por conformismo, e eu ainda às voltas com o meu próprio sentir, consegui arranhar um: “mas não tens de o fazer, Manu, apenas se o quiseres…” Abracei-te com força, desejei-te um dia feliz e fiquei a ver-te a ser desinfetado à entrada do portão. O aperto no peito ficou comigo, talvez ainda mais forte porque acho que não estive à altura do que precisavas de mim. Queria tanto ter disfarçado melhor tudo aquilo com que luto dentro…
E sabes meu amor, eu acho que é a mamã que tem medo, não do vírus, mas desta coisa feia em que o mundo se tornou. Um mundo em que não poderás abraçar os teus amigos na escola, trocar cartas de Pokémon, ver o sorriso de todos, um mundo em que não vais poder sair a correr livre pelo pátio inteiro nem jogar à bola o tempo todo.
É afinal a mamã que tem medo.
Medo do medo dos outros e de que esse medo nos vença o coração e nos afaste das coisas verdadeiramente importantes, por tempo demais. Prometo-te por isso trabalhá-lo dentro de mim para continuar a ser-te parceira neste desafio e tento voltar à certeza de que “só as crianças sabem do que andam à procura”.
Ainda hão-de ser vocês a ajudar os adultos com medo a que nunca esqueçam o que é mesmo preciso procurar…

 

 

 

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

O meu filho vai para o 1º ano, e agora?

O ingresso no primeiro ciclo é muitas vezes gerador de alguns receios para os pais: “Será que ele vai conseguir estar à altura?”; “Será que vai fazer amigos?”; “Será que vai gostar da escola nova?”; “Será que vai ser bom aluno?”… A forma como culturalmente pensamos esta transição, associando-a ao fim da brincadeira e ao início da escola a sério – transição do tempo lúdico para uma cultura de trabalho – acaba também por ser frequentemente fonte de algum stress parental, interferindo na forma como a criança a percepciona e sente a dimensão das expectativas relativamente ao seu desempenho.

É um facto que estes primeiros anos de adaptação escolar se constituem como alicerces fundamentais a todo o percurso escolar da criança, no entanto a premissa mais importante é que esta nova relação se desenvolva de uma forma tranquila, contribuindo para o desenvolvimento de crenças positivas em relação à escola enquanto espaço de crescimento, de aprendizagem, de curiosidade, de estabelecimento de relações afetivas…

Para ajudar neste caminho, aos pais, pode ser útil a reflexão sobre algumas ideias…

Transmitir à criança segurança e tranquilidade perante a nova fase de vida:

Em primeiro lugar é importante refletir sobre a forma como pensamos esta transição, sobre aquela que foi a nossa experiência, aqueles que são os nossos medos, partilhá-los com outros adultos… Trazer isto à consciência é meio caminho andado para controlar a tendência que temos para projetar muito daquilo que é nosso, no percurso dos nossos filhos. Levar as crianças a conhecer a escola nova antes do início do ano letivo, falar com os funcionários, conhecer o professor, ter algum tempo de brincadeira e exploração do espaço da sala de aula e do recreio, podem também constituir-se como elementos facilitadores. Fazer este reconhecimento do espaço físico e das pessoas que o habitam, de uma forma positiva e descontraída, contribuirá para que progressivamente se torne mais familiar, ajudando a ultrapassar alguns dos receios iniciais.

Evitar que o novo estatuto adquirido, o estatuto de “aluno” se sobreponha à criança:

Muitas vezes com a entrada no primeiro ciclo, tendemos a sobrevalorizar as questões relacionadas com o desempenho escolar, em detrimento de outras. É importante por isso manter e acarinhar os outros espaços da criança: o tempo da família, o tempo do brincar, o tempo de não fazer nada, o tempo para conversar sobre outras coisas que não os típicos “Portaste-te bem na escola?” ou o “Fizeste os trabalhos todos?”… Manter o espaço da família e procurar que dentro dos novos desafios e horários por cumprir, se mantenham os momentos lúdicos, conjuntos e tranquilos, sem conversas de escola e de trabalho, será uma boa forma de o conseguir.

Estabelecer relações positivas com a comunidade educativa.

Participar nas reuniões, desenvolver uma relação positiva e de partilha com o professor titular de turma conhecer o trabalho desenvolvido pela Associação de Pais, fortalecer laços com outros encarregados de educação, participar em iniciativas que contribuam para a qualidade educativa da escola dos nossos filhos… contribui não só para que estejamos a par daquilo que acontece na escola e possamos ser elementos ativos nas mudanças necessárias mas também para que, enquanto adultos, sejamos modelo de participação cívica e envolvimento comunitário para os nossos filhos.

Facilitar uma progressiva e tranquila adaptação da criança às novas rotinas diárias:

Com o início do primeiro ciclo surge também uma maior exigência no cumprimento dos horários escolares, o que pode ser desafiante para crianças e adultos e transformar as manhãs num verdadeiro inferno. A forma como a criança deve despertar deve ser ajustada às suas características e necessidades individuais: alguns miúdos acham graça à possibilidade de acordar com um despertador com música, outros preferem que se abram devagarinho as cortinas para deixar entrar a luz do sol, outros gostam de cócegas e de um “bom dia” animado, outros preferem ainda beijinhos e festinhas vagarosas… É importante reservar algum tempo para que este despertar aconteça de forma presente e sem pressas, mesmo que isso implique acordar um pouco mais cedo. Outro dos truques que pode ser determinante para manhãs mais calmas é o facto dos pais acordarem mais cedo e tratarem das suas rotinas antes de acordar a criança, o que lhes permitirá estar mais disponíveis para o tempo que se seguirá. Deixar algumas das tarefas preparadas no dia anterior: mesa do pequeno almoço posta, roupa escolhida, mochila e pasta arrumada… são também ideias que evitarão muitas manhãs de stress.

A transição para o primeiro ciclo é afinal apenas mais uma das muitas mudanças que ocorrem ao longo do ciclo de vida e é por isso importante retirar-lhe algum do peso que lhe está associado, dando espaço à criança para que faça aquilo que melhor sabe fazer: Aprender coisas sobre si e sobre o mundo e adaptar-se de forma natural aos desafios que lhe surgem nessa aprendizagem.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em todos os desafios e sempre, em cada regresso a casa.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Outra vez a saga do material escolar…

Lembram-se do primeiro episódio desta saga?

Pois bem, tal como prometido e graças ao contributo de várias mães experientes e cheias de sapiência, que foram incansáveis a partilhar dicas de utilidade máxima sobre o tema das listas de material escolar, aqui vos deixo 7 magníficas ideias para sobreviver ao que aí se avizinha:

1.Implorarás aos educadores/ professores dos teus filhos que te dêem a lista aquando da reunião do final de ano letivo. Se não fores suficientemente convincente, podes sempre suborná-los, o motivo é nobre. Ganharás tempo e encontrarás o que precisas sem ter um colapso nervoso. Os menos sagazes andarão a banhos, temos pena…o mundo é dos mais fortes. Depois de comprares tudo, ainda podes leiloar a lista na darknet. Mas só depois de estares aviada/o ok?

2. Farás um mealheiro ao longo do ano, porque o rombo é grande. Podes até vender rifas e sortear um dos rolos de papel autocolante que te sobrou do ano passado ou até o cadernão preto cheio de vincos e tão mal forrado que tiveste vergonha de o deixar sair de casa nas mãos da criança. Bastará o mote: “Pela Educação do João”, para que a coisa pegue e faça furor entre avós e tios. Com sorte, com os trocos, ainda passam o fim de semana no Alentejo.

3. Resistirás estoicamente à tentação de te arrastares atrás da mochila mais pindérica ou do estojo mais multifunções. O mundo do material escolar é um mundo pernicioso, cheio de glitters, de promessas fajutas, de artimanhas para te desviar do teu propósito. Simples e eficaz: este deve ser o teu mantra. Repete-o em voz alta, ao mesmo tempo que fazes tapping na testa. Agora sim, podes sair de casa.

4. Comprarás no comércio local. A vizinha do quiosque do bairro ou o Sr António da papelaria da esquina, anseiam por que lá passes e conheças em 1ª mão, as maravilhas que por lá moram. Simpatia, atenção personalizada, preço acessível e conselhos altamente especializados são apenas alguns dos bónus desta opção, sem esquecer o impacto do teu apoio na economia das empresas familiares. Quem sabe, ainda descobres alguma pechincha vintage…

5. Se não tiveres papelarias por perto, encomendarás tudo o que possas, online. Centras-te no que é essencial, evitas a pressão das massas, manténs o ritmo cardíaco e a integridade física e com isso, ganhas foco e lucidez. Bebe um copo de vinho tinto. E desfruta. Pré requisitos: os miúdos têm de estar a dormir.

6. Reduzirás. Reutilizarás e Reciclarás. Há imensa coisa que se pode aproveitar. Os manuais escolares são uma delas (sempre que possível), os lápis, borrachas e marcadores sobreviventes do ano passado, a mochila que mesmo que tenha um buraquinho, haverá sempre um remendo mega fashion capaz de a tornar outra vez especial. E mesmo que eles te digam que o material para funcionar tem mesmo de ser novo, não te esqueças nunca que és modelo, de consumidor(a) e de vida. Apenas às coisas que já tenham sofrido as “passinhas do algarve” e tenham sido esgotadas todas as alternativas criativas de utilização, a essas sim, poderás permitir o descanso eterno: no amarelo, no verde ou no azul.

7. Quando finalmente o ano letivo começar, reservarás uma tarde num SPA (ou noutro sítio com um efeito semelhante). Serás massajada(o), perfumada(o), relaxada(o). E a cada snifadela de incenso e borrifadela de água de rosas, farás uma respiração intensa e profunda e acarinharás em ti a seguinte constatação: Miúda(o), qualquer dia estás a dar masterclasses disto. Para o ano, não te apanham outra vez…

Nota importante: Ainda que depois destas sugestões, nenhuma grande marca de mochilas ou de marcadores fluorescentes, ou nem sequer de apara lápis de zinco, queira patrocinar este blogue, por aqui dormiremos descansados outra vez: disseminámos conhecimento e prestámos serviço público.
Caramba, é mesmo isso que nos move! 😉

Ah, e se por aí surgirem outras ideias capazes de melhorar a vida das famílias com filhos em idade escolar, venham elas. O propósito é de valor. E eu conto convosco.

O maior desafio da parentalidade somos nós, não são os nossos filhos…

“O meu filho está sempre a provocar-me e a contrariar tudo o que eu digo. O que eu precisava mesmo era de algumas estratégias para o ajudar a ter mais disciplina…”

Nunca falámos tanto sobre disciplina, nunca soubemos tanto sobre desenvolvimento infantil, nunca tivemos ao nosso dispor tantos manuais de “técnicas infalíveis” e ainda assim, provavelmente, nunca estivemos tão distantes de nós próprios e daquela que é a verdadeira missão da parentalidade…

O desafio de nos tornarmos pais é um desafio interno, é uma transformação que acontece no lugar mais fundo de nós e nos obriga a um outro olhar sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre a pessoa que um dia, gostaríamos de ser. É uma força que nos empurra em direção ao caminho de desaprender tudo o que demos por certo, abrindo espaço a tudo o que afinal ainda não sabíamos.

Acredito de coração que os filhos são talvez o maior impulso a que isto aconteça, uma espécie de livre-passe de ouro trazido pela vida, para que que possamos polir-nos enquanto seres humanos, aceitarmo-nos nas nossas imperfeições e aprender a navegar em mar alto, às vezes espelho outras vezes tempestade.

É por acreditar nisto que quando me perguntam por estratégias para educar um filho, eu falo sempre em estratégias para nos educarmos a nós próprios, caminhos que podem ser trilhados desde o início e que nos abrirão todas as portas aquele que é o verdadeiro propósito de  acompanhar um ser humano na incrível aventura de crescer:

Auto regulação:
Compreender e gerir as nossas próprias emoções e ações será sempre o primeiro passo para sermos pais mais conscientes. Conhecer os meus gatilhos, parar para refletir sobre a forma como (re)ajo perante os diferentes desafios, procurar conhecer porque razão um determinado comportamento do meu filho me transtorna ao ponto de me fazer saltar a tampa, nos gestos e nas palavras que não quero dizer. Aquilo que eu não conheço ou que eu não aceito, dificilmente será controlado por mim e é por isso que este olhar atento para dentro de nós e daquilo que sentimos será sempre parte da formula necessária para conseguirmos, enquanto adultos, ajustar as nossas respostas emocionais e sermos cada vez mais capazes de inspirar autenticidade, tranquilidade, respeito e responsabilidade. E é assim que os nossos filhos aprenderão a fazê-lo também.

Conexão
As crianças crescem interiormente sempre que se sentem compreendidas, ligadas aos seus cuidadores, seguras do amor dos pais. É assim desde o momento do nascimento. Existe um sincronizar constante do bebé ao nosso próprio estado emocional (bebés de mães deprimidas ajustam-se à baixa estimulação e habituam-se à falta de sentimentos positivos, tal como bebés de mães agitadas aprendem a corresponder a esse estado também). Um apego seguro desenvolve-se com a capacidade dos adultos cuidadores em responder às necessidades emocionais do bebé, da mesma forma que respondem às suas necessidades físicas, sendo que serão estas relações afetivas que permitirão construir a base para o desenvolvimento de relações de confiança e intimidade, com efeitos profundos ao nível das experiências da criança, da sua expressão e ao nível da regulação das suas emoções. Sempre que somos capazes de nos ligar emocionalmente aos nossos filhos (o mais possível, livres das expectativas, da opinião dos outros, dos medos, das dúvidas…) estamos a criar os alicerces mais sólidos para todos os desafios de aprendizagem que nos surjam ao longo do seu crescimento.

Capacidade de guiar
Quando um pai ou uma mãe diz “Ele é tão desobediente!”, está na verdade a dizer “O meu filho não faz o que eu mando!”
Esta é talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade: a capacidade de olhar para os nossos filhos como parceiros de jornada, diminuindo a frequência das lutas de poder que nos tentam todos os dias. Uma criança estará naturalmente disponível à nossa orientação, sempre que se sinta respeitada, aceite e ouvida. Naturalmente também, reagirá às tentativas de controlo e de poder que lhe sejam impostas, exatamente como um adulto faria.
Os filhos não são nossos, nem no corpo, nem na vontade. São nossos no coração e será apenas essa a nossa tarefa, guiá-los no sentido de abrirem o coração à vida e a si próprios, sempre inspirados pela forma como estivemos a seu lado, nos momentos em que mais precisavam de luz.

Todos os desafios de comportamento são uma janela incrível de aprendizagem e a forma como lhes respondemos é aquela que (sempre que mais consciente e alinhada com o modelo que queremos transmitir) permitirá o desenvolvimento das competências de vida que um dia todos gostaríamos de observar nos nossos filhos.

E aqui eu quase que aposto que me falariam na auto-estima, na regulação emocional, na cooperação, na autonomia ou na empatia. Imagino que nem se lembrariam da obediência… Não é dela que reza a história das pessoas verdadeiramente felizes.

Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras resulta de um grande mal entendido. Ainda assim, é frequente que o ouçamos por aí…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada.

Ora, para que percebamos melhor do que falamos, imaginemos a cena: “Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.”

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos uma relação afetiva é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser suficientemente bons e que, por isso também, talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se transforma no mensageiro e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.

Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também…