A vida, aqui e agora.

O caos instala-se hoje na maioria das casas portuguesas.
Trazer a escola para o lugar onde moramos parece ser a atitude mais sensata neste momento (ou a possível) mas a verdade é que a dimensão de tudo o que daqui advém está ainda longe de ser olhada de frente por todos nós.

Há quem tenha um filho, há quem dois, há quem tenha três e há quem tenha quatro ou cinco. Há quem tenha filhos dos outros. Há quem esteja em dupla na tarefa de os apoiar, há quem esteja absolutamente sozinho. Há quem se safe no português e dê uns toques na matemática, há quem quase não saiba ler nem escrever. Há quem tenha tempo para ir dando um olhinho nos miúdos durante as tarefas escolares, há quem tenha de colar os olhos ao ecrã e cumprir os objetivos de um dia de trabalho, como se estivesse tudo na mesma. Há ainda quem tenha de sair para trabalhar e por isso tenha de deixar os filhos com alguém que esteja a jeito ou até deixá-los numa escola de acolhimento qualquer, com gente que nunca os viu e sem saber muito bem como é que coisa vai correr. Somos muitos, somos todos diferentes, mas estamos todos a lutar com uma mesma necessidade: Dar conta disto e sobreviver!

O problema está precisamente quando achamos que este “dar conta do assunto” é responder a cada um do desafios nele implícitos de uma forma exemplar, controlada, organizada, emocionalmente regrada e quase sempre perfeita. E isto, meus senhores, não é possível!

Aquilo que se exige, do ponto de vista mental e físico de uma mãe, de um pai ou de um adulto cuidador, quando se lhe pede que transforme a casa em escola, em empresa, em cantina de refeições, em centro de estudos e em parque de diversões, tudo ao mesmo tempo e bem arrumadinho para não falhar nada, é de uma dificuldade extrema, só verdadeiramente perceptível a quem tenha de a viver.

É por isso tão essencial neste tempo que vivemos e perante um cenário que se avizinha longo tornar mais conscientes as nossas intenções e ligarmo-nos aquilo que verdadeiramente nos pode ser bússola: É o que é e está tudo bem.
E isto significa que eu não vou ser a mãe perfeita nem a trabalhadora do ano. Eu vou ser a melhor mãe possível e a trabalhadora que me for possível ser. E isso é tudo o que eu posso fazer quando o mundo se vira do avesso e é preciso saber (e dizer a quem disto não saiba) que NADA PODE SER COMO ANTES. Não agora.

Agora o tempo é de aceitação, de cuidado ao coração, de força conjunta (perto ou longe) e de reconhecimento das pequeninas coisas que nos fazem bem ou que nos fazem subir as paredes, porque estas é preciso acolher também.

Aceitar o que é, tal como é.
Ponto número um. Nunca nenhum de nós imaginou sequer estar a viver este cenário, e no entanto aqui estamos, a conseguir fazer acontecer coisas incríveis. Famílias reais são famílias com cozinhas desarrumadas, filhos resmungões e momentos de levar às lágrimas e à quase loucura, e portanto, aceitar, honrar e agradecer tudo o que temos conseguido ser num desafio tão imenso, será sempre balão de ar puro e apontar de luz a tudo o que é verdadeiramente essencial.

Reconhecer aquilo que estamos a sentir.
E deixá-lo acontecer, assim, sem o disfarçar ou tornar mais apetecível. Os medos, a insegurança, as expectativas, a realidade… a partir do momento em que começamos a sentir-nos desconfortáveis é importante não ceder ao impulso, seja ele gritar com os nossos filhos ou devorar um pacote de bolachas. Podemos sim reconhecer a sensação que nos causa desconforto, respirar fundo e deixar que o coração se apazigue com aquilo que está a acontecer. Para além disso tomar a decisão de sermos mais conscientes do ponto em que estamos e aquilo que vai acontecendo dentro de nós perante as diferentes exigências, ajuda-nos a refrear possíveis impactos que as mesmas tenham na gestão das novas rotinas.

Ser flexível.
Não, não vai ser um mar de rosas, sim vão existir muitos desafios e não vamos conseguir cumprir com tudo aquilo a que nos propusemos. Os nossos filhos vão precisar de nós e com isso quebrar-nos o ritmo de trabalho, e noutros momentos seremos nós a não conseguir dar-lhes a atenção que precisam. Cada dia será uma espécie de dança que teremos de aprender a dançar, às vezes de forma mais harmoniosa, outras sem swing que nos valha e ainda assim estará tudo bem, apenas e só porque saberemos continuar a ouvir o ritmo.

Pôr a culpa a mexer.
E aqui falo sobretudo de nós, mulheres. Somos as rainhas da culpa, apenas e só porque essa é uma aprendizagem social que decorre daquilo que ainda representa o facto de se nascer mulher. Tens de ser boa mãe, tens de ser boa filha, tens de ser boa companheira, tens de ser boa profissional, and so on, and so on, and so on… e depois passas a viver com uma espécie de carrasco moral que te sussurra ao ouvido sempre que passas a linha: “Estás de folga e deixas o teu filho na creche? Inventas idas ao supermercado só porque já não aguentas ouvir gritar “mãeeeeee” durante mais 10 minutos? Chegas a casa e não te apetece brincar às barbies? Devias ter vergonha…” Acho que é mais ou menos isto, acho que nos acontece a todas e acho mesmo que é algo que devemos contrapor com todas as nossas forças, nunca deixando que se torne voz. Gostarmos de nós como gostamos dos outros, sermos capazes de nos olhar ao espelho com amor e compaixão e gratidão por quem somos, assim sem tirar nem pôr e sobretudo, sem nenhum tipo de superpoder.

A vida da maioria das famílias muda outra vez mais um bocadinho a partir de hoje, mas afinal é isso que nos acontece enquanto pessoas a vida inteira e é também isso que nos torna tão capazes de assumir o leme e continuar a navegar. Em mares calmos e outras vezes bravios, mas sempre, sempre a apreciar a viagem.

Do lugar onde agora estou.

Andei meses até conseguir chegar aqui.

Dias cheios, desafios profissionais intensos, mudanças profundas, falta de tempo… e eu não pude senão aprender a digerir a ressaca pela falta das coisas boas que este projeto me trouxe, desde o momento em que me enchi de coragem e decidi pôr-me à prova na sua concretização.

Curiosamente, foi também o tempo que me trouxe de volta.

Tempo forçado, tempo que sobra, tempo que encosta à parede e obriga a olhar de frente tudo aquilo que é efetivamente importante. A distinguir o essencial do acessório, a olhar para dentro, e a ver-me mesmo… sem pressa, sem os ponteiros dos minutos a fugir, sem exigências externas.

Se alguma vez me tivessem dito que estaríamos a passar por isto neste momento, eu responderia que era mentira, soltaria uma gargalhada e provavelmente empurraria o cenário para um qualquer sucesso de bilheteira no que toca a filmes de ficção científica.

Se alguém me jurasse, que por agora ficaríamos em casa a proteger-nos de um vírus desconhecido, que iríamos às compras de luvas e desinfetante no bolso e que estaríamos, por decisão individual e coletiva, impedidos dos abraços, dos beijos, das conversas de amigos à volta da mesa, daquelas à séria, com pele e gargalhadas e perdigotos e tudo… eu diria que não era verdade, porque a vida não era assim.

E no entanto, aqui estamos.

O cenário de ficção científica, as luvas a esconder a pele, a máscara a tapar o sorriso, a angústia de um mundo inteiro à mercê de um corpo estranho e invisível, que nos entra casa adentro todos os dias, ainda que lhe tenhamos fechado a porta.

É aqui que estamos. E é partir daqui que podemos decidir com que lentes olhamos o desafio que nos caiu ao colo, longe de tudo aquilo que alguma vez imaginámos possível.

Há a possibilidade do medo, da angústia, do bloqueio, do desejo de que tudo não passe de um pesadelo, uma espécie de botão de pausa que saberemos esquecer daqui a uns meses, assim que possamos finalmente voltar à vida como era antes.

Mas há também a oportunidade da esperança, da transformação, do olhar mais atento, a nós e aos outros, do (re)alinhamento das prioridades, do renascer.

Isso, há a oportunidade de renascer. A possibilidade da certeza de que não é o botão de pausa premido, mas antes a urgência do botão “reset”…

É nesta última que acredito, é ela que me agarro até porque é também ela que me traz algum sentido à dimensão de tudo o que atravessamos.

Não foi um processo fácil o deste entendimento. Não é, ainda, um processo constante.

Comecei pela estranheza, fui engolida pelo medo, pela angústia, pelo sentimento de impotência, pela dificuldade na gestão do apego às coisas como elas eram, ainda há umas semanas atrás. Voltarei provavelmente a esses momentos, até porque sei que nenhuma transformação acontece verdadeiramente, sem hesitação, sem incerteza, sem questionamento e até sem dor.

Os centros comerciais estão vazios, os carros pararam, as pessoas deixaram de andar na rua. Não há consumo desenfreado, não há filas de trânsito, não há tempo perdido.

E no entanto, a primavera acontece.

As árvores respiram, a terra descansa, as flores rebentam. O sábio ciclo das coisas continua o seu processo de regeneração constante, porque na verdade a natureza não precisa de nós para existir. Precisamos nós dela e precisamos uns dos outros para continuarmos a Ser.

Se calhar foi isto que o vírus nos trouxe, tal como as pragas fazem às plantas, denunciando a falta de alguma coisa, gritando por água, por sol, por adubo. Trouxe-nos a clareza de saber que o fertilizante da espécie humana são as relações entre as pessoas. É a capacidade de entender o outro, de o sentir, de lutar por um bem comum, de acreditar que só se é verdadeiramente livre com a liberdade dos outros.

O adubo da espécie humana somos nós, cada um de nós, e a capacidade de tornar coletivos o crescimento interno e a capacidade de regeneração, exatamente como a primavera faz às flores.

Se viessem agora dizer-me que estaríamos a passar por isto, talvez eu fosse já capaz de pensar numa resposta diferente, e ainda que  os olhos voltassem a encher-se de lágrimas, agora pela certeza bonita da oportunidade que temos em mãos, talvez eu soubesse citar Eckart Tolle,

“A vida saberá dar-te as experiências necessárias à evolução da tua alma. Como é que sabes que é essa a experiência que precisas? Porque será essa que estarás a viver.”

e talvez até sorrisse, agarrada ao desejo de que saibamos todos ser primavera…

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu andava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse, ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto sem fim. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

A força da vulnerabilidade.

Tens medo? Mostra coragem.

Não sabes a resposta? Disfarça, com um ar entendido.

Tens vontade de chorar? Foge daí, antes que alguém dê por isso.

Estás com um problema? Desenrasca-te sozinho/a porque toda a gente tem os seus.

Somos habituados a pensar a vulnerabilidade como uma fraqueza, como algo que nos deixa à mercê dos outros e lhes dá margem para definir o nosso valor enquanto pessoas.

Para não parecer frágil, há que ser prudente. Para não sofrer há que não mostrar sofrimento.

Assim vamos crescendo, a morrer de medo do julgamento dos outros e a aprender a defender o oposto daquilo que estamos a sentir, na busca de um ideal de perfeição disparatado. E inatingível, felizmente.

E depois há o tempo. Os anos que passam, a vida que ensina e que, na maioria das vezes, nos vai deixando mais disponíveis para ouvir quem somos e assim saborearmos o gosto suave da autoaceitação.

Pensar sobre a vulnerabilidade traz-nos a memória das muitas vezes em que achamos que não estamos à altura, que não somos suficientes e nos centramos na ideia de que os outros serão sempre melhores do que nós.

Assumir a nossa vulnerabilidade (e aceitá-la incondicionalmente), traz-nos a força de sentir que sempre que nos expomos, sempre que pedimos ajuda, sempre que baixamos a guarda e recebemos o desafio da incerteza, crescemos por dentro e tornamo-nos melhores pessoas.

Este blogue é um dos meus caminhos, o salto sem paraquedas, a minha entrega.

E eu sou grata, por todas as vezes em que abro o coração e deixo que as palavras me desacertem o passo. Sem medo e sem nenhuma outra garantia, a não ser, a fé em mim.

Que ela um dia me baste e assim, tal como a Sophia, aprenderei também eu “a viver em pleno vento”.

 

Nota: Brené Brown é uma investigadora e uma “contadora de histórias”, que se tem dedicado ao estudo dos processos envolvidos na vulnerabilidade, na coragem e na vergonha. Para saber mais, com quem sabe, espreita o vídeo…