“Que raio de mãe és tu?”

Fomos dar um passeio à zona ribeirinha.

Ao chegarmos, a maré baixa convidou-nos a descer as escadas e a sentarmo-nos numa pedra junto à água. Apanhámos búzios, vimos caranguejos e percebemos que havia zonas de lodo e zonas mais secas por onde poderíamos facilmente andar. O Manel continuou a explorar, encantado com a vida a fervilhar na ria, no lodo, nas algas deixadas pela última preia mar.

Numa das investidas, escorregou e encheu-se de lodo. Correu a mostrar-mo, demos uma boa gargalhada juntos e pediu-me para continuar a descobrir mais um pouco.
Enquanto o observava, deliciosamente parte daquele lugar, ouvi a seguinte frase ao longe,

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Duas senhoras, muito bem postas, vestidas com o fato de treino dos domingos e uns ténis muito branquinhos que nunca conheceram senão a brandura do asfalto, a suplicar (sem disso saber) por um bocadinho de vento ou de mar que lhes devolvesse a vida outra vez.

Foi isto que pensei, depois de uns segundos de raiva que quase me saltava da boca sob a forma de um “Não sabem as senhoras aquilo que perdem!”

Não o disse, mas vim com a frase a ecoar-me na cabeça e a fazer-me pensar no assunto, não sem antes me ter obrigado a mastigar e a cuspir a ideia que tantas vezes assalta as mulheres: Terei sido eu uma má mãe?

Olhei para o Manel e tudo o que vi foi um puto feliz, coberto de lodo da cabeça ao pés e a voltar para casa sem sapatos mas com o coração cheio de aventura e de liberdade.

Esta experiência levou-me a pensar naquilo em que transformámos a infância a partir do momento em que nos esquecemos de que a infância se faz de descoberta, de mãos na massa, de experiências, de espaço livre, de consciência de corpo nesse mesmo espaço.

A infância faz-se de risco.

E eu entristeço-me vezes demais, sempre que ao lado das senhoras bem postas vestidas com o fato de treino dos domingos, vejo crianças bem postas de fato de treino igual, a desconhecer que o corpo com que se movem é capaz de coisas tão extraordinárias como subir às árvores, saltar de pedra em pedra, apanhar caranguejos ou correr descalço.

Estamos mesmo a “criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, como disse um dia o fabuloso Carlos Neto. E a culpa é toda nossa.

Morremos de medo de que se magoem, morremos de medo de que se enganem, morremos de medo de que os magoem, e por fim, morremos de medo de que não precisem de nós.

Tudo isto faz parte do processo, até porque desde o momento em que lhes pusemos a vista em cima, deixámos de pertencer a nós mesmos e assumimos como nossa, a missão de os proteger para sempre. Tudo isto faz parte do processo mas é nossa a responsabilidade de não permitir que isto interfira com a sua saúde física e mental.

O medo dos adultos é talvez a maior barreira à autonomia de uma criança e uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento de uma maior confiança em si e no meio envolvente. E os adultos de hoje são exímios nisto. Vivem presos a uma proteção excessiva e a um desejo mal disfarçado de crianças arrumadinhas, bem comportadas e muito limpinhas, que em tudo as distancia do potencial com que foram equipadas.

A curiosidade, a criatividade, a coragem, o sentido de deslumbramento são as ferramentas com que as crianças nascem para que possam, sabiamente, descobrir o mundo. E é precisamente esta descoberta que lhes permite conquistar uma crescente percepção sensorial e as competências de vida que um dia lhes permitirão crescer como adultos capazes, resilientes e autónomos.

A maioria das vezes em que impedimos os nossos filhos de explorar ou experimentar não representa perigo à sua saúde.

São os inocentes “cuidado que vais cair!”, ou os bem intencionados “não vás para aí que te vais sujar!” que, repetidos vezes a fio sem que deles tenhamos consciência, vão retirando à criança a capacidade de conhecer o seu corpo e os seus limites, de aprender a observar os contextos onde se move e a fazer ela própria a avaliação dos riscos com que se depara, adaptando-se, do ponto de vista motor e emocional, aos diferentes desafios. E isto tem um efeito precisamente contrário ao que pretendemos: torna as crianças mais desajeitadas, mais propensas a acidentes e menos capazes de se auto regular.

Crianças assustadas, pouco confiantes, progressivamente menos criativas, emocionalmente pouco seguras e com maior probabilidade de psicopatologia na idade adulta, é tão somente o cenário que estamos habilmente a construir e eu sei, que não é nada disto que desejamos, tão somente porque é em tudo contrário à promessa que firmámos em nós quando lhes pusemos a vista em cima.

E é por tudo isto e por saber, enquanto adulta e enquanto mãe, que é minha a responsabilidade de permitir ao meu filho crescer de uma forma inteira, saudável, emocionante e progressivamente mais autónoma, que eu agora já só queria que fôssemos muitos a borrifar-nos nos ténis branquinhos e a abrir caminho ao lodo, à terra, aos bichos, às árvores e a tudo o que de forma tão natural e tão fácil lhes é casa.

É isso afinal que lhes constituirá terreno fértil para construir e adubo bom para fazer crescer as sementinhas de tudo o que de tão incrível já trazem dentro.

E se assim isto te fizer sentido e se com isto alguém um dia te perguntar que raio de mãe és tu, sorri-lhe e responde-lhe que és um raio de uma mãe que ainda não se esqueceu do sabor que a liberdade tem…

A vida, aqui e agora.

O caos instala-se hoje na maioria das casas portuguesas.
Trazer a escola para o lugar onde moramos parece ser a atitude mais sensata neste momento (ou a possível) mas a verdade é que a dimensão de tudo o que daqui advém está ainda longe de ser olhada de frente por todos nós.

Há quem tenha um filho, há quem dois, há quem tenha três e há quem tenha quatro ou cinco. Há quem tenha filhos dos outros. Há quem esteja em dupla na tarefa de os apoiar, há quem esteja absolutamente sozinho. Há quem se safe no português e dê uns toques na matemática, há quem quase não saiba ler nem escrever. Há quem tenha tempo para ir dando um olhinho nos miúdos durante as tarefas escolares, há quem tenha de colar os olhos ao ecrã e cumprir os objetivos de um dia de trabalho, como se estivesse tudo na mesma. Há ainda quem tenha de sair para trabalhar e por isso tenha de deixar os filhos com alguém que esteja a jeito ou até deixá-los numa escola de acolhimento qualquer, com gente que nunca os viu e sem saber muito bem como é que coisa vai correr. Somos muitos, somos todos diferentes, mas estamos todos a lutar com uma mesma necessidade: Dar conta disto e sobreviver!

O problema está precisamente quando achamos que este “dar conta do assunto” é responder a cada um do desafios nele implícitos de uma forma exemplar, controlada, organizada, emocionalmente regrada e quase sempre perfeita. E isto, meus senhores, não é possível!

Aquilo que se exige, do ponto de vista mental e físico de uma mãe, de um pai ou de um adulto cuidador, quando se lhe pede que transforme a casa em escola, em empresa, em cantina de refeições, em centro de estudos e em parque de diversões, tudo ao mesmo tempo e bem arrumadinho para não falhar nada, é de uma dificuldade extrema, só verdadeiramente perceptível a quem tenha de a viver.

É por isso tão essencial neste tempo que vivemos e perante um cenário que se avizinha longo tornar mais conscientes as nossas intenções e ligarmo-nos aquilo que verdadeiramente nos pode ser bússola: É o que é e está tudo bem.
E isto significa que eu não vou ser a mãe perfeita nem a trabalhadora do ano. Eu vou ser a melhor mãe possível e a trabalhadora que me for possível ser. E isso é tudo o que eu posso fazer quando o mundo se vira do avesso e é preciso saber (e dizer a quem disto não saiba) que NADA PODE SER COMO ANTES. Não agora.

Agora o tempo é de aceitação, de cuidado ao coração, de força conjunta (perto ou longe) e de reconhecimento das pequeninas coisas que nos fazem bem ou que nos fazem subir as paredes, porque estas é preciso acolher também.

Aceitar o que é, tal como é.
Ponto número um. Nunca nenhum de nós imaginou sequer estar a viver este cenário, e no entanto aqui estamos, a conseguir fazer acontecer coisas incríveis. Famílias reais são famílias com cozinhas desarrumadas, filhos resmungões e momentos de levar às lágrimas e à quase loucura, e portanto, aceitar, honrar e agradecer tudo o que temos conseguido ser num desafio tão imenso, será sempre balão de ar puro e apontar de luz a tudo o que é verdadeiramente essencial.

Reconhecer aquilo que estamos a sentir.
E deixá-lo acontecer, assim, sem o disfarçar ou tornar mais apetecível. Os medos, a insegurança, as expectativas, a realidade… a partir do momento em que começamos a sentir-nos desconfortáveis é importante não ceder ao impulso, seja ele gritar com os nossos filhos ou devorar um pacote de bolachas. Podemos sim reconhecer a sensação que nos causa desconforto, respirar fundo e deixar que o coração se apazigue com aquilo que está a acontecer. Para além disso tomar a decisão de sermos mais conscientes do ponto em que estamos e aquilo que vai acontecendo dentro de nós perante as diferentes exigências, ajuda-nos a refrear possíveis impactos que as mesmas tenham na gestão das novas rotinas.

Ser flexível.
Não, não vai ser um mar de rosas, sim vão existir muitos desafios e não vamos conseguir cumprir com tudo aquilo a que nos propusemos. Os nossos filhos vão precisar de nós e com isso quebrar-nos o ritmo de trabalho, e noutros momentos seremos nós a não conseguir dar-lhes a atenção que precisam. Cada dia será uma espécie de dança que teremos de aprender a dançar, às vezes de forma mais harmoniosa, outras sem swing que nos valha e ainda assim estará tudo bem, apenas e só porque saberemos continuar a ouvir o ritmo.

Pôr a culpa a mexer.
E aqui falo sobretudo de nós, mulheres. Somos as rainhas da culpa, apenas e só porque essa é uma aprendizagem social que decorre daquilo que ainda representa o facto de se nascer mulher. Tens de ser boa mãe, tens de ser boa filha, tens de ser boa companheira, tens de ser boa profissional, and so on, and so on, and so on… e depois passas a viver com uma espécie de carrasco moral que te sussurra ao ouvido sempre que passas a linha: “Estás de folga e deixas o teu filho na creche? Inventas idas ao supermercado só porque já não aguentas ouvir gritar “mãeeeeee” durante mais 10 minutos? Chegas a casa e não te apetece brincar às barbies? Devias ter vergonha…” Acho que é mais ou menos isto, acho que nos acontece a todas e acho mesmo que é algo que devemos contrapor com todas as nossas forças, nunca deixando que se torne voz. Gostarmos de nós como gostamos dos outros, sermos capazes de nos olhar ao espelho com amor e compaixão e gratidão por quem somos, assim sem tirar nem pôr e sobretudo, sem nenhum tipo de superpoder.

A vida da maioria das famílias muda outra vez mais um bocadinho a partir de hoje, mas afinal é isso que nos acontece enquanto pessoas a vida inteira e é também isso que nos torna tão capazes de assumir o leme e continuar a navegar. Em mares calmos e outras vezes bravios, mas sempre, sempre a apreciar a viagem.

Quando nos salta a tampa (e temos poucos sítios para onde fugir…)

Et voilá… já cá estamos todos outra vez, a ter de atafulhar a vida dentro de quatro paredes e a gerir os desafios que disso decorrem, em modo quase ininterrupto: trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA, trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA… Acho que é mais ou menos isto. Se calhar, com uma espécie de “cerejinha no topo do bolo” por ser uma realidade vivida pela segunda vez, sem que tenhamos tido verdadeiramente tempo de ganhar fôlego para o embate.

E sim, é difícil. Muito. Uns dias mais do que outros, às vezes com o melhor que somos, outras vezes com o melhor que nos é possível e na verdade… está tudo bem!

Uma das coisas que tenho reforçado em mim neste tempo estranho que vivemos é que mora dentro de nós uma espécie de poder genial que nos permite, devagarinho, ir respondendo ao mundo (que na verdade agora é a casa onde moramos) de forma cada vez mais refletida e regulada. E isto, acreditem, faz mesmo toda a diferença.

A este poder genial chamamos auto regulação emocional e é ela que nos permite identificar e reconhecer as emoções que são ativadas dentro de nós, para depois decidir, de forma mais consciente, a ação que queremos empreender perante a situação que a despoletou, o que, traduzido em miúdos, pode fazer mesmo a diferença.

Ora vejamos a seguinte situação:

O meu filho risca o caderno da cópia e grita-me: “Estou farto disto!”

a) Eu começo a ferver, estico o dedo indicador na sua direção e grito-lhe mais alto: “E eu estou farta de ti! Nunca mais fales comigo assim, ouviste bem?”

ou,

b) Eu percebo que estou a começar a borbulhar por dentro e afasto-me da situação durante 5 minutos.

É fácil escolher sempre a resposta b? Nada. É possível? É.

Porque podemos aprendê-lo e porque sempre que escolhemos não reagir, ou seja, sempre que permitimos uma pausa entre a situação-gatilho e a nossa ação, estamos a permitir ao cérebro acalmar-se e reconectar-se com aquilo que nos é mais importante: agir com amor e consciência, ensinando-os a fazer o mesmo.

E como podemos nós treinar este poder genial que nos mora dentro e que nos permite sentarmo-nos com as nossas emoções, oferecer-lhes um chá e decidir o caminho a seguir a partir daí? Com arte, engenho e muito treino prático das propostas que se seguem:

Parar e aguardar. Assim que comece o alvoroço dentro, pode ser importante reconhecê-lo, parar e mudar de cenário. Sair à varanda, ir à casa de banho, ir levar o lixo, beber um copo de água. Tudo o que nos permita ter espaço para respirar fundo e arrefecer será aquilo que precisamos verdadeiramente no meio da tempestade.

Pensar em coisas que nos fazem bem ou pelas quais nos sentimos gratos. Isto permite a identificação com outros sentimentos que nos ajudarão a (re)estabelecer o foco com as nossas intenções enquanto pais, contribuindo também para um sentido de maior empoderamento perante a situação que estamos a viver.

Conectarmo-nos com o outro (neste caso, com os nossos filhos). No momento em que nos sintamos mais regulados e mais capazes de agir (ao invés de reagir), dar-lhes um abraço, dizer-lhe que estamos disponíveis para conversar se assim se sentirem também. Dizer-lhes que foi um momento difícil para ambos mas que podemos falar sobre isso e encontrar soluções em conjunto.

Falar sobre o assunto. Trinta minutos depois ou três horas depois. O mais importante é que este momento seja sentido como adequado por ambos. Descrever a situação, de uma forma neutra e evitando os tão tentadores julgamentos prévios e generalizações, falar sobre aquilo que sentimos sem o justificar com o comportamento da criança, pedir desculpa e ouvir aquilo que têm para dizer, em aceitação incondicional. Estes serão sempre os ingredientes que constituirão uma espécie de porta aberta e convite a entrar, que a ambos permitirá descansar e crescer.

Tal como começámos este texto, o desafio que já era imenso tornou-se ainda maior mas esta coisa boa de sabermos que mora em nós mora o realizador, o argumentista e o ator principal das nossas vidas será sempre luz e força e vontade de agarrar o guião, mesmo que tenhamos de o rascunhar e reescrever vezes sem conta. É afinal isso, que tornará sempre tudo tão mais especial…

A vida pode sempre ser bela.

Disse-me num choro compulsivo e quase angustiante:

“Não quero estar infetada porque depois vou morrer!”

Tem 12 anos. Tem 12 anos e não precisava do medo e da (des)informação que a atropela todos os dias, pela voz de tantos de nós, pela verdade das notícias que lhe entram casa adentro, ditas por gente séria e bem vestida, sem saber ela que a forma como a verdade das coisas é integrada, depende acima de tudo da forma com que a queremos contar.

Acho que andamos todos ainda um bocadinho distraídos em relação aos efeitos colaterais deste vírus. Acho que estamos ainda a esquecer-nos da nossa responsabilidade enquanto educadores e do papel que cada um de nós tem de assumir para que este vírus não nos devore a todos e sobretudo, não devore a infância e a transforme para sempre num lugar menos bonito e até menos seguro. E quando falo de segurança não falo das medidas de higienização da infância, até porque essas têm sido alvo de um olhar atento desde o início, falo das medidas de PROTEÇÃO da infância. Falo da segurança emocional, da responsabilidade, da confiança, da coragem, e falo também da criatividade e da vontade de a descobrir.

Não será preciso ser-se especialista em desenvolvimento infantil para se imaginar que o isolamento e as medidas de restrição social prolongados deixam impactos relevantes no crescimento de uma criança, impactos estes que em muito poderão ser minimizados mediante a atitude e a responsividade dos adultos e dos contextos que a ajudam a crescer. É nisto que eu acredito, é na certeza de que é missão que cada um de nós, proteger a infância e atenuar os riscos associados ao desafio de uma epidemia à escala mundial. Como perguntam vocês?

Primeiro com um amor imenso, daqueles que ajuda a suportar todas as batalhas, depois, com algumas ideias que poderão ajudar um bocadinho a que os dias sejam um bocadinho mais felizes, e sobretudo não corram ao sabor de um bicho esquisito chamado COVID:

  • Desligar a televisão, sempre que o assunto seja a infeção por corona vírus. Não obstante a informação que transmitem (e que tantas vezes nos chega de forma manipulada), os media têm como principal função alarmar, apenas e só, porque é isso que vende. Uma criança que assista constantemente ao tipo de discurso que lhe chega por esta via, é uma criança que não será capaz de filtrar a informação e de a relativizar da mesma forma que um adulto e que por isso ficará assustada e sem capacidade de se tranquilizar face aos recursos internos de que dispõe.

  • Falar com as crianças de uma forma concisa, segura e informada acerca das medidas de prevenção: máscara em espaços fechados ou com muita gente e lavagem das mãos mais frequente. É apenas isto na verdade que precisam de saber, é apenas isto que todos podemos controlar e é a forma como o comunicamos e a nossa capacidade o de transmitir à criança, que farão com não tenha de se preocupar com o resto, o que fará toda a diferença.

  • Honrar a família e os espaços comuns. Rotinas, tradições, rituais familiares devem manter-se o mais possível. Jogos em família, sessões de cinema, lanches divertidos… tudo o que possa contribuir para um sentido de normalidade, tornar-se-á ainda mais protetor no contexto em que vivemos.

  • Aproveitar o ar livre o máximo de tempo possível. As restrições no contexto escolar significaram, na maioria das situações, a alteração das rotinas de recreio e a limitação do usufruto dos espaços. As crianças precisam de correr, de trepar, de pular, de explorar, e essa é uma necessidade vital que às vezes parecemos ignorar. Se tal não pode acontecer na escola, então é preciso procurar outros lugares que o permitam. A praia, o campo, o jardim continuam a ser espaços onde é possível esta liberdade e esta conexão com a natureza, tão essenciais à saúde física e mental.

  • Falar sobre a forma como nos sentimos e pensar em conjunto naquilo que cada um pode fazer para se sentir melhor, sempre que os dias pareçam mais difíceis. Pode ser interessante criar uma “caixa de ferramentas emocionais ” da família, na qual cada um coloca uma ideia para pôr em prática sempre que se sinta mais triste, ou ansioso, ou até zangado: ler um livro, conversar, “dançar à maluca” na sala, ouvir música, passear na natureza, jogar um jogo, fazer biscoitos, contar uma história…

  • Cuidarmos de nós. Quando os adultos estão conscientes das suas próprias emoções e sentem confiança na sua capacidade para lidar com os desafios, as crianças aprendem a fazê-lo também, sendo este um dos maiores preditores da saúde mental de crianças e adolescentes. Cuidarmos de nós implica que sejamos capazes de nos regular emocionalmente, que tenhamos espaços ao longo da semana para nós, para praticar atividade física, para nos alimentarmos e dormirmos bem, para nos relacionarmos com outros adultos que nos fazem bem e para nos oferecermos pequeninos mimos que funcionam como verdadeiros balões de oxigénio. E isto é talvez aquilo que de mais importante podemos fazer para proteger os nossos filhos.

Ainda que existam coisas que não estão ao nosso alcance e que, curiosamente, são precisamente aquelas com que nos bombardeiam todos os dias, existem muitas outras em que podemos realmente significar a diferença, tais como a confiança, a contenção emocional, a capacidade de estimular e aceitar a livre expressão emocional dos nossos filhos e depois, muito, a capacidade de manter a calma e privilegiar todos os momentos que sirvam para honrar a infância, tais como a brincadeira, o sentido de humor, a fantasia.

Acredito que é esta a nossa missão de adultos num contexto difícil como o que vivemos e que é também isto que podemos fazer perdurar para que um dia, ao falarmos dos tempos estranhos que todos vivemos, falemos sobretudo da forma corajosa e bonita como juntos soubemos enfrentá-los…

(E porque houve já quem soubesse contar esta força de uma forma tão bonita porque não voltar à história de Guido, Dora e Giosué, num filme que não pode senão continuar a ser-nos profundamente inspirador…)

Do lugar onde agora estou.

Andei meses até conseguir chegar aqui.

Dias cheios, desafios profissionais intensos, mudanças profundas, falta de tempo… e eu não pude senão aprender a digerir a ressaca pela falta das coisas boas que este projeto me trouxe, desde o momento em que me enchi de coragem e decidi pôr-me à prova na sua concretização.

Curiosamente, foi também o tempo que me trouxe de volta.

Tempo forçado, tempo que sobra, tempo que encosta à parede e obriga a olhar de frente tudo aquilo que é efetivamente importante. A distinguir o essencial do acessório, a olhar para dentro, e a ver-me mesmo… sem pressa, sem os ponteiros dos minutos a fugir, sem exigências externas.

Se alguma vez me tivessem dito que estaríamos a passar por isto neste momento, eu responderia que era mentira, soltaria uma gargalhada e provavelmente empurraria o cenário para um qualquer sucesso de bilheteira no que toca a filmes de ficção científica.

Se alguém me jurasse, que por agora ficaríamos em casa a proteger-nos de um vírus desconhecido, que iríamos às compras de luvas e desinfetante no bolso e que estaríamos, por decisão individual e coletiva, impedidos dos abraços, dos beijos, das conversas de amigos à volta da mesa, daquelas à séria, com pele e gargalhadas e perdigotos e tudo… eu diria que não era verdade, porque a vida não era assim.

E no entanto, aqui estamos.

O cenário de ficção científica, as luvas a esconder a pele, a máscara a tapar o sorriso, a angústia de um mundo inteiro à mercê de um corpo estranho e invisível, que nos entra casa adentro todos os dias, ainda que lhe tenhamos fechado a porta.

É aqui que estamos. E é partir daqui que podemos decidir com que lentes olhamos o desafio que nos caiu ao colo, longe de tudo aquilo que alguma vez imaginámos possível.

Há a possibilidade do medo, da angústia, do bloqueio, do desejo de que tudo não passe de um pesadelo, uma espécie de botão de pausa que saberemos esquecer daqui a uns meses, assim que possamos finalmente voltar à vida como era antes.

Mas há também a oportunidade da esperança, da transformação, do olhar mais atento, a nós e aos outros, do (re)alinhamento das prioridades, do renascer.

Isso, há a oportunidade de renascer. A possibilidade da certeza de que não é o botão de pausa premido, mas antes a urgência do botão “reset”…

É nesta última que acredito, é ela que me agarro até porque é também ela que me traz algum sentido à dimensão de tudo o que atravessamos.

Não foi um processo fácil o deste entendimento. Não é, ainda, um processo constante.

Comecei pela estranheza, fui engolida pelo medo, pela angústia, pelo sentimento de impotência, pela dificuldade na gestão do apego às coisas como elas eram, ainda há umas semanas atrás. Voltarei provavelmente a esses momentos, até porque sei que nenhuma transformação acontece verdadeiramente, sem hesitação, sem incerteza, sem questionamento e até sem dor.

Os centros comerciais estão vazios, os carros pararam, as pessoas deixaram de andar na rua. Não há consumo desenfreado, não há filas de trânsito, não há tempo perdido.

E no entanto, a primavera acontece.

As árvores respiram, a terra descansa, as flores rebentam. O sábio ciclo das coisas continua o seu processo de regeneração constante, porque na verdade a natureza não precisa de nós para existir. Precisamos nós dela e precisamos uns dos outros para continuarmos a Ser.

Se calhar foi isto que o vírus nos trouxe, tal como as pragas fazem às plantas, denunciando a falta de alguma coisa, gritando por água, por sol, por adubo. Trouxe-nos a clareza de saber que o fertilizante da espécie humana são as relações entre as pessoas. É a capacidade de entender o outro, de o sentir, de lutar por um bem comum, de acreditar que só se é verdadeiramente livre com a liberdade dos outros.

O adubo da espécie humana somos nós, cada um de nós, e a capacidade de tornar coletivos o crescimento interno e a capacidade de regeneração, exatamente como a primavera faz às flores.

Se viessem agora dizer-me que estaríamos a passar por isto, talvez eu fosse já capaz de pensar numa resposta diferente, e ainda que  os olhos voltassem a encher-se de lágrimas, agora pela certeza bonita da oportunidade que temos em mãos, talvez eu soubesse citar Eckart Tolle,

“A vida saberá dar-te as experiências necessárias à evolução da tua alma. Como é que sabes que é essa a experiência que precisas? Porque será essa que estarás a viver.”

e talvez até sorrisse, agarrada ao desejo de que saibamos todos ser primavera…

“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

Mum is not the boss

Às vezes não oiço o que sinto.
E tenho de isolar as vozes que me ecoam na cabeça, para as identificar e lhes tirar as manhas. Depois, preciso de tempo para me reencontrar no meio da multidão e escutar-me, com a atenção que me é merecida.

Acredito cada vez mais, que esta mania de não nos ouvirmos é aprendida na infância e que as vozes que nos ecoam vezes demais e nos atrapalham o sentir, são as vozes dos adultos com que nos cruzámos ao longo do nosso crescimento. Não que tenha sido educada de uma forma castradora. Não fui. Cresci até com a liberdade e o respeito que me eram devidos, mas cresci num contexto social que ensina às crianças que é o adulto que sabe sempre, que decide, que manda, desde as coisas importantes, até às mais triviais.

“Esse escorrega não é para subir, apenas e só porque foi pensado para descer”; “Eu tenho frio e por isso, mesmo que tu não tenhas, esse casaco é para vestir”; “Eu já te disse que o banho é para ser tomado antes da brincadeira (mesmo que o corpo te peça desesperadamente para fazer já o desenho que trazes na cabeça)!”; “E sim, hoje levas os calções azuis porque eu acho que são os que ficam melhor com essa t-shirt.”; “Onde é que já se viu um céu verde? Vai lá buscar outra folha…”

Os adultos são modelos fundamentais na vida de uma criança, mas a autoridade e o respeito que inspiram, não será nunca medido pelas ordens inquestionáveis que decidam suas por direito, que tantas vezes são obedecidas mais pelo medo, do que propriamente pelo entendimento daquilo que as originou. E confundir a recusa do autoritarismo, com permissividade, é não saber do que se fala.

Há uns dias, num jantar de amigos, perguntaram ao meu filho quem é que mandava lá em casa. A resposta pronta e espontânea foi: “Ninguém.”

O meu radar de mãe (ainda) rainha da culpa e de pessoa crescida bem ensinada, deu o alerta e acionou uma espécie de desconforto crescente, alimentado pelas vozes dos outros e pelas ideias que me vinham à cabeça: “Será que ele devia responder que era eu? Será que ele pensa que isto é a república das bananas? Será que era assim que era suposto ser? Será… Será…. Será…

Trouxe as suposições comigo e deixei que me habitassem mais umas horas. E foi depois de as isolar, de as identificar e de as compreender, que me encontrei, a mim e ao meu filho, na relação que temos e naquilo que já construímos juntos, nesta oportunidade imensa de aprendermos um com o outro.

E é nas vezes em que ele me torce o nariz, em que me contesta, em que contrapõe com uma proposta diferente para atingir um mesmo resultado, que o meu peito se enche de orgulho pelo ser humano que é. Às vezes fazemos como eu proponho, outras fazemos como ele propõe. Às vezes ao meu ritmo, noutras tantas ao seu passo. E em muitas, muitas delas, partilhamos ideias e chegamos juntos a um “modus operandi” que sirva a ambos.

Se me era mais fácil que ele agisse sempre como um macaquinho amestrado e bem polido, ao melhor género das crianças Von Trapp? Era, sem sombra de dúvida. Se isso contribuiria para que crescesse a ouvir-se primeiro e a confiar também na luzinha de sabedoria que traz dentro e que lhe será sempre, pela vida fora, poderoso farol? Não. Com toda a certeza.

A minha tarefa enquanto mãe é ensinar o questionamento, a auto-confiança, a vontade de ser, independentemente do que queiram que o meu filho um dia seja. A minha tarefa enquanto mãe é mostrar que existem caminhos diferentes, formas diferentes de pensar e de agir no mundo e que cada um de nós deve encontrar as suas, mesmo que nos queiram ensinar por todos os meios, que a obediência cega é sempre o caminho mais fácil e mais confortável.

Não é isso que te quero ensinar, porque tu és, como alguém de forma tão bonita um dia disse, o capitão da tua alma. E eu desejo, de coração inteiro, que não percas nunca o leme e te descubras e te encantes, na essência perfeita de quem és.

Com o amor de sempre, por todas as crianças e por todos os adultos que as acompanham na aventura…

 

O maior desafio da parentalidade somos nós, não são os nossos filhos…

“O meu filho está sempre a provocar-me e a contrariar tudo o que eu digo. O que eu precisava mesmo era de algumas estratégias para o ajudar a ter mais disciplina…”

Nunca falámos tanto sobre disciplina, nunca soubemos tanto sobre desenvolvimento infantil, nunca tivemos ao nosso dispor tantos manuais de “técnicas infalíveis” e ainda assim, provavelmente, nunca estivemos tão distantes de nós próprios e daquela que é a verdadeira missão da parentalidade…

O desafio de nos tornarmos pais é um desafio interno, é uma transformação que acontece no lugar mais fundo de nós e nos obriga a um outro olhar sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre a pessoa que um dia, gostaríamos de ser. É uma força que nos empurra em direção ao caminho de desaprender tudo o que demos por certo, abrindo espaço a tudo o que afinal ainda não sabíamos.

Acredito de coração que os filhos são talvez o maior impulso a que isto aconteça, uma espécie de livre-passe de ouro trazido pela vida, para que que possamos polir-nos enquanto seres humanos, aceitarmo-nos nas nossas imperfeições e aprender a navegar em mar alto, às vezes espelho outras vezes tempestade.

É por acreditar nisto que quando me perguntam por estratégias para educar um filho, eu falo sempre em estratégias para nos educarmos a nós próprios, caminhos que podem ser trilhados desde o início e que nos abrirão todas as portas aquele que é o verdadeiro propósito de  acompanhar um ser humano na incrível aventura de crescer:

Auto regulação:
Compreender e gerir as nossas próprias emoções e ações será sempre o primeiro passo para sermos pais mais conscientes. Conhecer os meus gatilhos, parar para refletir sobre a forma como (re)ajo perante os diferentes desafios, procurar conhecer porque razão um determinado comportamento do meu filho me transtorna ao ponto de me fazer saltar a tampa, nos gestos e nas palavras que não quero dizer. Aquilo que eu não conheço ou que eu não aceito, dificilmente será controlado por mim e é por isso que este olhar atento para dentro de nós e daquilo que sentimos será sempre parte da formula necessária para conseguirmos, enquanto adultos, ajustar as nossas respostas emocionais e sermos cada vez mais capazes de inspirar autenticidade, tranquilidade, respeito e responsabilidade. E é assim que os nossos filhos aprenderão a fazê-lo também.

Conexão
As crianças crescem interiormente sempre que se sentem compreendidas, ligadas aos seus cuidadores, seguras do amor dos pais. É assim desde o momento do nascimento. Existe um sincronizar constante do bebé ao nosso próprio estado emocional (bebés de mães deprimidas ajustam-se à baixa estimulação e habituam-se à falta de sentimentos positivos, tal como bebés de mães agitadas aprendem a corresponder a esse estado também). Um apego seguro desenvolve-se com a capacidade dos adultos cuidadores em responder às necessidades emocionais do bebé, da mesma forma que respondem às suas necessidades físicas, sendo que serão estas relações afetivas que permitirão construir a base para o desenvolvimento de relações de confiança e intimidade, com efeitos profundos ao nível das experiências da criança, da sua expressão e ao nível da regulação das suas emoções. Sempre que somos capazes de nos ligar emocionalmente aos nossos filhos (o mais possível, livres das expectativas, da opinião dos outros, dos medos, das dúvidas…) estamos a criar os alicerces mais sólidos para todos os desafios de aprendizagem que nos surjam ao longo do seu crescimento.

Capacidade de guiar
Quando um pai ou uma mãe diz “Ele é tão desobediente!”, está na verdade a dizer “O meu filho não faz o que eu mando!”
Esta é talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade: a capacidade de olhar para os nossos filhos como parceiros de jornada, diminuindo a frequência das lutas de poder que nos tentam todos os dias. Uma criança estará naturalmente disponível à nossa orientação, sempre que se sinta respeitada, aceite e ouvida. Naturalmente também, reagirá às tentativas de controlo e de poder que lhe sejam impostas, exatamente como um adulto faria.
Os filhos não são nossos, nem no corpo, nem na vontade. São nossos no coração e será apenas essa a nossa tarefa, guiá-los no sentido de abrirem o coração à vida e a si próprios, sempre inspirados pela forma como estivemos a seu lado, nos momentos em que mais precisavam de luz.

Todos os desafios de comportamento são uma janela incrível de aprendizagem e a forma como lhes respondemos é aquela que (sempre que mais consciente e alinhada com o modelo que queremos transmitir) permitirá o desenvolvimento das competências de vida que um dia todos gostaríamos de observar nos nossos filhos.

E aqui eu quase que aposto que me falariam na auto-estima, na regulação emocional, na cooperação, na autonomia ou na empatia. Imagino que nem se lembrariam da obediência… Não é dela que reza a história das pessoas verdadeiramente felizes.

No dia em que nasceste o universo alinhou-se dentro de mim para te receber. Trouxe as flores, trouxe o chão, o ajuste quente do colo… Só não trouxe o roteiro porque esse a ti pertence e eu não quereria nunca tirar-te o doce prazer da descoberta de quem és. Basta-me a honra de te dar a mão, ensinar-te o sorriso e esperar que ambos te fiquem e te abram o peito às coisas bonitas que a vida tem.❤️