Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

E porque a distância é a melhor conselheira, aproveito os dias que antecedem o ano letivo para recuperar um tema que me é tão querido: O bom do trabalho de casa.

Trago-o também porque foi levantado de chofre pelo meu filho, ontem no regresso da praia, com da seguinte pergunta: “Mamã, trabalhar é a melhor coisa do mundo?”

A resposta estava-me na ponta da língua: “Trabalhar naquilo que gostamos é uma das melhores coisas do mundo, meu amor.”

Resposta aceite.

Next round, porque a cabeça aos cinco anos fervilha e não arrefece: “Fazer trabalhos da escola é a coisa mais importante da vida? O M. diz que sim…”

A resposta foi outra vez imediata e fácil: “Não!” Mas desta vez foi seguida do peso da responsabilidade parental, que me fez morder a língua para não iniciar um discurso anti-trabalhos-de-casa e continuei… “Há trabalhos de casa que podem ser importantes, se nos ajudarem a saber mais e a descobrir coisas novas.” (Blarghhh, não era bem isto, mas foi o melhor que consegui…)

Resposta aceite.

Aproveitei a satisfação temporária para não me alongar no discurso. Deixo-o para depois, aquando da entrada no 1º ciclo, na esperança de que tenhamos sorte porque há cada vez mais professores e pais a defender que:

As crianças passam demasiado tempo na escola, para terem ainda de trazer o trabalho da escola para dentro de casa. Já chega de contas, já chega de letras impostas, já chega de problemas por resolver. Não quer isto dizer que não acompanhemos o seu crescimento enquanto alunos, que não falemos sobre as aprendizagens realizadas e até que não arranjemos forma de lhes mostrar a sua utilidade nas coisas do dia-a-dia, consolidando as aquisições feitas. Quer isto dizer, que há tantas outras maneiras interessantes de o fazer que não envolvem fichas, cadernos, cadeiras e mesas.

O regresso a casa deve ser o regresso ao tempo em família, ao tempo para não fazer nada, ao tempo para respirar, ao tempo para jantares e conversas demoradas e histórias bonitas para dormir. Ora, se quando chegamos a casa, com o sol a pôr-se, ainda tivermos que nos sentar à mesa e olhar com os olhos pesados de cansaço para as fichas de um livro, vamos ter de deixar todas as outras coisas para depois… E o depois tarda em chegar, porque no dia seguinte começa tudo outra vez.

Não há nenhuma associação entre a realização de trabalhos de casa e o sucesso escolar. São vários os estudos que deitam por terra a ideia de que os alunos que fazem muitos trabalhos de casa, são melhores alunos. Aliás, de acordo com a neurociência, o que as crianças aprendem durante o dia de escola, só é metabolizado nessa noite, o que, traduzido em miúdos, significa que “mastigar” a matéria dada no próprio dia não serve absolutamente para nada. Este argumento seria suficiente para convencer os mais céticos, não?

O melhor motor para a aprendizagem é a curiosidade e as crianças sabem como ninguém pô-lo a funcionar. É através da curiosidade sobre o que acontece à sua volta, que exploram e aprendem, motivando-se a si mesmas a saber mais e a descobrir o mundo. Ora se essa curiosidade nasce do lado de dentro, se estivermos constantemente a estimular a criança até ao limite e a cansá-la com excesso de trabalho, não estamos a permitir-lhe o espaço necessário para que se reorganize, para que consolide as aprendizagens feitas, alimentando a sede das que virão. Depois de um dia intenso de escola e de estímulos, o tempo para “não fazer nada” ou para inventar o que fazer, deve ser entendido como um tempo sagrado, pela importância que assume no bem estar cognitivo e emocional infantil.

É preciso brincar. Muito e todos os dias. E para brincar é preciso tempo, tempo esse que num dia normal de uma criança se circunscreve aos 20 minutos de intervalo da manhã e às duas horas entre o regresso a casa e o jantar, que muitas vezes ainda têm de ser divididas entre outras tarefas. São tantas as investigações que provam que o hábito de brincar ajuda a desenvolver a alfabetização, favorece a leitura, a familiaridade com os números, promove a criatividade, potencia a criação de laços afetivos e o treino de competências pessoais e sociais, que é difícil entender porque é que a brincadeira é a primeira a saltar do barco, sempre que achamos que a criança precisa de melhorar os resultados na escola.

E depois de tudo isto e porque falamos de coisas sérias, continuemos a pensar sobre o assunto para que, em conjunto (pais, professores, educadores…), não tenhamos medo da mudança e mantenhamos a coragem de questionar o hábito e contrariar as ideias feitas, aprendendo sempre mais sobre aquilo que fazemos e sobre aquilo que podemos fazer melhor.

Tudo, pela causa mais importante do mundo: ajudar miúdos a crescer, mantendo acesa a chama da paixão por aprender, que naturalmente trazem dentro.

P.S – Bom ano letivo. Com poucos trabalhos de casa. Ou muitos, como este…

9 thoughts on “Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

  1. Olá Rita!
    Neste assunto tenho uma opinião que às vezes choca algumas pessoas: não sou contra os TPC’s, só acho que a nossa vida, os nossos horários, não se adequam a isso.
    Passo a explicar: se puder ir buscar os filhotes às 16.30, e tiver tempo de passar pelo jardim, ou ir às compras com eles (com calma), ou ir simplesmente para casa (porque sabe tão bem), 20 ou 30 minutos a fazer um TPC não vai ser uma “luta”, para além do mais, se a mãe ou o pai estiverem por perto e pedirem para ler em voz alta e forem questionando. Vamos falando do que deram na escola e não custa.
    O problema é que a que horas chega a maioria dos pais a casa? 19h….ou mais tarde, depois de ir buscar os miúdos aos ATL’s, levar a actividades, ir às compras, etc…. é impossível! É humanamente impossível.
    Por isso, terminar a escola e levar TPC’s para fazer logo a seguir no ATL é atroz!
    E se não há volta a dar a estes horários de trabalho…..então que mandem TPC’s no fim de semana. Mas poucos! Porque o fim de semana é para brincar, molengar, passear e tudo o que mais quiserem em família!!!!
    Deviamos pensar mais em como conciliar a família com o trabalho. Um dos pais (e podia ser alternado) deveria poder sair às 16.30 (mas sair mesmo) para ir buscar os filhos e ter tempo para os educar, para estar com eles, para os ouvir e aí, ter tempo para um TPC.
    Ou devíamos poder optar por um part time. Ia gerar mais trabalhos, outras pessoas podiam ter o horário que fica por preencher. O pior é que se dividimos a maioria dos ordenados a meio……essa ideia torna-se inviável.
    Não tenho a fórmula certa, mas parece-me urgente pensar-se nesta conciliação. Sabemos que depois, no terreno, dentro das empresas, temos sempre as represálias, as “bocas”, os olhares “de lado”, mas se levantarmos a cabeça e assumirmos que fazemos isso pela nossa família, pelas nossas crianças…..acho que tudo isso se torna secundário. Mas tem que haver mais leis a proteger esse direito.
    Bem, mas isto daria para escrever muito e muito mais. Obrigada pela partilha! Um bjinho (e não, não sou comunista, ahahhahah)

    1. Olá Célia, adoro a forma como nos alinhamos. 🙂
      Revi-me em cada palavra e até na ideia dos horários em part-time que é há muito defendida cá em casa. Só não é posta em prática porque infelizmente ainda não conseguimos viver com meio ordenado… Este ano vamos tentar implementar uma estratégia em família, desfasar os horários de trabalho, de forma a que um de nós comece mais cedo mas consiga também ir buscar o Manel mais cedo.
      A minha luta com os tpc está precisamente no tempo que roubam à família, ao descanso, à imaginação, à brincadeira, quando o tempo já é tão pouco. E são tantos os pais em stress ao final do dia e são tantas as crianças cansadas e a chorar e a odiar os exercícios porque só queriam poder ser livres, que eu, enquanto andarmos neste ritmo alucinado, mandava mesmo os tpc (na forma tradicional como os conhecemos) dar uma volta.
      Aos pouquinhos e com a vontade de muitos de nós, acredito que consigamos pequeninas mudanças, que se tornarão grandes pelo bem estar que trarão. E é isso que moverá, sempre.
      Obrigada Célia, cresço tanto com as partilhas que trazes. <3 Beijinhos grandes

      1. 🙂 Adoro estas partilhas!!! Vou só contar mais uma das tentativas que fizemos para conseguirmos fins de dia mais calmos.
        No ano passado optámos por deixar de ter actividades ao final do dia. Não conseguíamos arranjar nada que elas gostassem que acabasse antes das 19.30h/ 20h. Sei que para muitos pais é a única hipótese mas eu tinha alguma disponibilidade de tempo antes e custava-me imenso porque a hora de jantar ficava sempre muito tarde e interferia muito com a rotina.
        Hoje em dia as atividades extra curriculares são muito importantes para a maioria dos pais. Eu concordo, acho que são importantes mas que devem ser a horas amigas das famílias.
        A minha mais velha agora vai ter as tardes livres e podia perfeitamente ter ginástica às 16h ou 17h…..mas onde é que isso existe?
        Só a partir das 17.30, e para os mais pequeninos. Com a idade a avançar avançam os horários.
        Optámos por ter as atividades ao fim de semana.
        Foi um ano calmo! Muito bom! Nem consigo imaginar-me novamente na “ginástica” que fazíamos ao final do dia, 3x por semana.
        Por vezes vale a pena parar e pensar se há alternativa ao “comboio” de rotinas em que entramos e dificilmente saímos.
        Bjinhos e tem um dia Maravilhoso!

        1. Somos duas, Célia! 🙂
          Estou precisamente com essa dúvida. O Manel iniciou atividades extracurriculares há muito pouco tempo, mas de repente, por causa dos amigos e da ideia de experimentar, já tem duas! Natação há 3 meses (que adora) e Aikido. E eu sinto que estas duas atividades já são demais (embora o sinta feliz). A verdade é que destrambelha os nossos finais de dia por completo… Já tinha pensado na hipótese dos fins de semana, que me parece ser uma boa alternativa. Ambas as atividades são 2 vezes por semana, e nós muitas vezes optamos por ir apenas uma delas. Nesta questão, acho que devemos ter tranquilidade e não bombardeá-los com um sem fim de atividades, que os obrigam, a eles e a nós, a andar a “toque de caixa” também ao final do dia. É preciso deixá-los escolher, experimentar, desistir e até deixá-los sem nenhuma atividade, se for essa a necessidade no momento. A ver vamos, como nos organizamos este ano… Obrigada pela partilha, que veio mesmo a calhar cá em casa. Sintonia boa… 🙂 Beijinhos grandes!

  2. Olá! Cheguei aqui há poucos dias e já estou a comentar 😉 Este texto parece ter sido escrito por mim, até porque as minhas gémeas vão iniciar para a semana o primeiro ano e também eu estou com a esperança de ter sorte com a/o professora/o. Julgo, embora perceba ainda pouco do assunto, que os tpc’s em parte só existem devido às carradas absurdas de matéria que os professores têm que dar num ano e como resta pouco tempo na escola para sediementar conhecimentos, inventaram-se os tpc’s. Acho estúpido! Em primeiro lugar as metas curriculares deviam ser extintas e os programas ajustados, para menos, claro. Sei que este ano, finalemente, existe essa abertura e algumas escolas vão poder ter flexivilizzação na forma de ensinar…é um início, bom, muito bom! No primeiro ano, tpc’s para mim são do mais castrador que há para que as crianças gostem de aprender e andar na escola. E para o tempo em família que é tão escasso, tantas vezes, porque as pessoas às vezes têm mais que um filho (pasme-se!) e têm que elas próprias descansar e estar sem fazr nada porque também passaram o dia a trabalhar.
    A última questão prende-se com um raciocíno que há muito venho a matutar nele. No mundo laborarl fala-se muito em conciliar a vida profissional com a vida familiar e as pessoas procuram muitas vezes, empregos em que não tenham que levar trabalho para casa, é muitas vezes uma das vantagens que as pessoas encontram nos trabalhos que têm. Então porque raio havemos nós de mandar as crianças trabalhar em casa quando nós adultos não o queremos nem gostamos de fazer?
    Prefiro que a professora diga “têm este tema, desenvolvam um projecto para o próximo mês com os vossos pais em casa” e assim, consegue-se que os pais estejam envolvidos com a aprendizagem do filho (argumento tantas vezes utilizado pelos defensores dos tpc’s) e não se rouba tempo à família, porque assim os pais também podem puxar pela cabeça e pelo corpo e ir à procura de informação na rua para desenvolver o projecto.
    Se alguma criança tiver mais dificuldades, a escola deverá junto com os pais encontrar mecanismos para ajudar e nunca por nunca sobrecarregar os pais, a não ser que os pais queiram, mas para isso é preciso perguntar-lhes.
    E acho que esta é outra questão, os pais sentem-se distanciados da escola, das pessoas que passam o dia com eles, uma diferença gigante par ao JI. Só o facto de não poderem entrar na maior parte das escolas, olhar olhos nos olhos todos os dis com a professora, é muito angustiante para os pais.
    Ser professor não será fácil, para mim uma das mais nobres profissões do mundo, ensinar crianças, há lá coisa mais desafiante do que esta? Mas julgo que temos que nos juntar em vez de estarmos uns contra os outros, e ouvirmo-nos, ninguém é mais que ninguém. Eu gostava que houvesse mais diálogo. E participação dos pais na escola primária. Espero que assim seja para a semana.
    Estou confiante, porque apesar de ainda não conhecer nada, as minhas filhas vão para a melhor escola do mundo e vão ter a melhor professora do mundo, estarei cá para as ajudar a acreditar nisso!
    (obrigada pelo artigo, está muito bom!)

    1. Olá Carla, e ainda bem que cá está 🙂 Obrigada pela partilha e pela empatia. Revi-me também em tudo o que sente e naquela que é a sua percepção do estado das coisas em relação à escola, à família e aos disparates que às vezes fazemos e que nos levam a esquecer, na rotina dos dias, aquilo que é efetivamente importante. E é como diz, esta questão dos trabalhos de casa, tem uma génese mais profunda, em muito relacionada com as metas e os programas alucinantes e quase impraticáveis, que põem os professores a mil a correr atrás delas, e também a nossa febre enquanto sociedade, pelo desempenho, pelo resultado, pelas aprendizagens formais, pela competição, desde que eles são muito pequenos. Às vezes tenho a sensação de que está tudo de pernas para o ar… Mas também acredito, tal como a Carla, que devagarinho vão surgindo pequenas mudanças que podem ser determinantes para a reviravolta que o sistema de ensino português tanto precisa. E há tanta gente (pais, professores, diretores, educadores…) a lutar por isso, que o que virá só poderá valer a pena! 🙂 Ainda falta um ano para o Manel entrar no 1º ciclo e eu também tenciono continuar a estar por perto e ajudar a desenvolver esses momentos de partilha e reflexão com a escola, que considero tão importantes. Um beijinho grande e um óptimo ano para vós, cheio de aprendizagens felizes! P.S- Parabéns pelo Da Cor das Cerejas. Gostei imenso! 🙂

      1. Ohhhhh, obrigada! Felizmente somos cada vez mais a sentir que algo não está bem, que temos que viver todos um pouco mais devagar em prol do bem-estar e felicidade dos nossos filhos. A vida hoje em dia é toda feita muito a correr…Cá estamos para reflectir e partilhar opiniões!
        Eu adorei andar na escola, mesmo detestando a minha professora primária, porque os meus pais sempre me fizeram ver que aprender é a melhor coisa do mundo, ter curiosidade e descobrir, e isso consegue-se na escola e em casa, é só uma questão de vontade.
        Cá vou acompanhado as suas reflexões, muito ao meu género, pelos vistos. Um beijinho, Carla.

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