Deste regresso, como nunca o conhecemos…

Acabei de te deixar na escola.
E não me lembro de alguma vez o ter feito com este aperto no peito, pelo menos não assim, não por causa de uma realidade que eu própria ainda não consegui digerir.
Ontem preparámos tudo, os materiais, a mochila, a lancheira. Falei-te o melhor que pude sobre aquilo que encontrarias na escola e que apenas conheci por fotografia: o chão dividido ao meio, os percursos assinalados, as carteiras alinhadas em fila, o escorrega fechado, o campo de jogos também. Falei-te da funcionária à porta que desinfetaria as mãos a todos os meninos, falei-te dos almoços e da forma como se organizariam. Disse-te, feliz, que fariam o intervalo com tempo, na rua, que não teriam de usar máscara e que podiam ir à biblioteca e trazer livros. Agarrei-me a estas frases como se fossem a última réstia de liberdade que terias e tentei engolir a minha angústia o melhor que pude.
Hoje de manhã, antes de sairmos de casa lembrei-me que talvez devesses ter uma máscara na mochila para que pudesses escolher aquilo que te deixasse mais confortável e talvez porque afinal nem eu sabia bem o que encontraríamos. Quando estacionámos o carro vi máscaras em todos os adultos e máscaras em todas as crianças. Pediste-me a máscara que estava no bolso de fora da mochila, não por medo mas por conformismo, e eu ainda às voltas com o meu próprio sentir, consegui arranhar um: “mas não tens de o fazer, Manu, apenas se o quiseres…” Abracei-te com força, desejei-te um dia feliz e fiquei a ver-te a ser desinfetado à entrada do portão. O aperto no peito ficou comigo, talvez ainda mais forte porque acho que não estive à altura do que precisavas de mim. Queria tanto ter disfarçado melhor tudo aquilo com que luto dentro…
E sabes meu amor, eu acho que é a mamã que tem medo, não do vírus, mas desta coisa feia em que o mundo se tornou. Um mundo em que não poderás abraçar os teus amigos na escola, trocar cartas de Pokémon, ver o sorriso de todos, um mundo em que não vais poder sair a correr livre pelo pátio inteiro nem jogar à bola o tempo todo.
É afinal a mamã que tem medo.
Medo do medo dos outros e de que esse medo nos vença o coração e nos afaste das coisas verdadeiramente importantes, por tempo demais. Prometo-te por isso trabalhá-lo dentro de mim para continuar a ser-te parceira neste desafio e tento voltar à certeza de que “só as crianças sabem do que andam à procura”.
Ainda hão-de ser vocês a ajudar os adultos com medo a que nunca esqueçam o que é mesmo preciso procurar…

 

 

 

5 thoughts on “Deste regresso, como nunca o conhecemos…

  1. Querida Rita,
    Como te entendo!
    Nunca um inicio de ano, teve para mim, um sabor a perda, desorientacao, falta de segurança (afetiva, emocional, psicologica), como este!
    Tento entender todos os dias que a questão não é bem acerca das consequências de saude causadas pelo virus, mas sim acerca do medo, do pânico, que este bicho gerou em alguns de nós…só esse pânico explicará este mundo ao contrário, que nos entra pela vida adentro!
    Entendendo que cada um tem a sua forma e o seu tempo de reagir, não me conformo, com este aprisionamento individual em nome de um bem comum, que não sei se será, algum dia, o resultado que vamos obter! Outras consequencias, talvez cheguem primeiro. E dessas, cujos sintomas não serão tão óbvios, quanto intensos e duradouros…eu tenho medo!
    Por cá, também foi assistir a uma face triste, à medida que as novidades iam sendo dadas. Não há futebol. Não há escorregas ou baloiços. Tens um sitio especifico para ficares no recreio. O recreio passa a 15 minutos, pois os outros 15 é para comer na sala…
    Mas a infancia tem este otimismo genuino e depressa surgiram boas alternativas! Valorizei a perspetiva e pedi tanto, tanto, que quem esteja no caminho deles saiba sempre ver o essencial!
    Também dei a escolher o uso de máscara ou não, reforçando que jamais teria que se sentir mal ou fazer alguém sentir-se mal, por ter uma escolha diferente! Nesta ou em qualquer matéria!
    E ainda é neste reforço de autoestima e de confiança que me vou tentando refugiar, esperando que, apesar da adversidade, eles nunca percam a visão do coração!

    Um grande e caloroso abraço
    Que muitos dias felizes estejam por vir!
    Susana

    1. Aprendo sempre tanto contigo pessoa-luz. A tua serenidade e a tua perspetiva sempre positiva e tão respeitadora do outro são profundamente inspiradoras e sim, podem mudar o mundo. Sorte a minha, por te ter perto. Quanto ao resto, tenho medo tal como tu, e agarro-me à esperança de que os adultos possam aprender a não perder essa visão do coração que eles tanto nos ensinam, todos os dias e perante todas as adversidades. Beijos enormes e obrigada por SERES!

  2. querida Rita, emocionaste-me com as palavras que já dançavam no meu coração, mas que faltava vê-las, pois às vezes parece que com estas máscaras postas, não vemos tão bem, deixamos de ver, deixamos de sentir. Ficamos reféns de um medo que não sabemos se o emburlhamos e pomos no bolso ou se o atiramos como a bola de futebol que não podem usar ou se trocamos por cromos de outros medos da caderneta de Medos Nunca d’Antes Snhados. Um abraço.

    1. Tão assim miúda… tão duro tem sido ver crescer este lado do mundo, em tudo tão oposto ao caminho que desejamos e a todas as coisas que sabemos necessárias. Ainda me resta a fé de que conseguiremos retirar a aprendizagem necessária, que nos permita recusar de vez tudo aquilo que há muito não nos serve. Mas tantas vezes o medo vem. Não do vírus. Mas de nós mesmos. Saudades tuas e desse olhar e desse sentir que eu sei bem que nenhuma máscara conseguirá toldar. beijos grandes

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