Das voltas que a vida dá.

Cresci na certeza de que um dia seria jornalista.

Como acontece com a maioria das certezas que temos, todo o meu percurso se fez nesse sentido, firme, inabalável e pouco atento a outros anseios.

No final do ensino secundário, e com a segurança de quem tem 18 anos e tem em si todas as verdades do mundo, entrei para Comunicação Social, na cidade e na faculdade que escolhi.

Foram precisos poucos meses para que percebesse que afinal não estava tão certa assim e que, muito provavelmente, era eu que não tinha deixado que crescessem em mim outras paixões. Que não tinha explorado e vivido outros caminhos, curiosidades capazes de um dia se tornarem também elas, verdades sobre mim.

A psicologia era uma destas paixões, descoberta do 12º ano com o carinho da melhor professora do mundo. Estudei a disciplina com a avidez de quem aprende sobre a vida e sobre as pessoas, acreditando sempre que se pode ajudar a tornar o mundo num lugar melhor.

Foi bom, mas o guião estava escrito. E eu, seria jornalista.

Ainda bem que a vida se vive vivendo e ainda bem que passar pelas coisas nos “dá calo” e nos põe no nosso lugar, o de mero aprendiz, todos os dias. Com a força das minhas pessoas, fui capaz de aceitar que às vezes (muitas vezes) é preciso recuar, é preciso estar-se disponível e ter a coragem de começar de novo, e esperar.

E eu esperei. Esperei que o ano terminasse, esperei para repetir os exames nacionais, esperei para conseguir arranjar um trabalho, enquanto estudava de novo. Dois anos depois, entrei em Psicologia, na cidade e na faculdade que escolhi.

Conto muitas vezes uma história semelhante a esta, aos alunos com quem trabalho no âmbito dos processos de orientação vocacional. Acredito que nela vivem muitas das incertezas, dos medos e das dúvidas que surgem aos jovens em momentos de tomada de decisão escolar e/ou profissional e acredito sobretudo, que nela se conta também a esperança, a coragem de aceitar em nós outras possibilidades e a vontade de aprender sempre mais e seguir caminho.

Hoje sou a Rita, que é psicóloga, que podia ter sido jornalista, que tem um curso de joalharia e um de fotografia, que agora escreve num blog e que um dia ainda vai ter um projeto de restauro de móveis antigos.

Sou assim hoje, sem saber o que serei amanhã. E ainda bem, porque cabem em mim todos os sonhos do mundo.

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