“Miúdos, pra a rua já!” Ideias para proteger a criatividade e a liberdade na infância.

Uma das perguntas que invariavelmente faço aos pais com quem trabalho é a seguinte:
Qual é a recordação mais feliz da vossa infância?

O propósito da pergunta (para além do convite a uma viagem no tempo), cumpre-se na riqueza das respostas: “Ahhh, eu lembro-me dos verões em casa dos meus avós. De passar o dia metido em sarilhos com os meus primos mais velhos…” ou, “E o que eu gostava de subir à árvores e correr atrás das galinhas!” ou ainda “Morávamos ao pé da praia e eu ficava horas a construir castelos de terra molhada e a escavar fossos gigantes à volta capazes de resistir à onda seguinte!” e às vezes um delicioso, “Lembro-me sobretudo da liberdade para ser criança…”

As recordações mais poderosas da nossa infância metem árvores, metem terra, água, amigos, sarilhos, superação e sensação de liberdade. E acho que isto nos basta para trazer à tona os ingredientes necessários para ajudar a crescer uma criança feliz, autónoma, a manter-se criativa e a saborear a incrível sensação de liberdade de que os pais tantas vezes me falam.

Acontece que a vida, a organização das sociedades, o progresso tecnológico, o mundo como o conhecemos hoje e os nossos medos a crescer na devida proporção do avanço das coisas (ou quem sabe, do seu recuo), nem sempre nos facilitam este retorno à infância naquelas que podem ser as experiências dos nossos filhos. Acredito por isso que é hoje preciso, mais do que nunca, uma dose extra de esforço e de vontade para fazer acontecer aquilo que é efetivamente importante aos nossos filhos: tempo, espaço e liberdade de ser.

A rua já não é como foi (ou nós já não a olhamos como dantes), as árvores estão cada vez mais distantes e a vida corre frenética à nossa frente, sem que tenhamos tempo de a olhar como merece. Todos sabemos disto, até porque todos o sentimos na pele todos os dias e é por isso que eu te peço que, antes de continuares a ler este texto, te encostes na cadeira, respires fundo, feches os olhos e voltes a esses momentos em que te sentiste uma criança incrivelmente feliz. Agora, sugiro que mantenhas essa sensação boa no coração e leias as sugestões seguintes, acreditando que isso te ajudará a firmar a vontade e a não desistir:

Permitir-lhes o tempo e o espaço para não fazer nada.
A maioria dos miúdos de hoje cresce a reboque do horário preenchido dos pais. Às oito horas de escola, seguem-se mais três horas de ATL, ou mais três horas de explicação, para depois terminar o dia com mais uma hora de ginástica, ou ballet, ou violino ou mandarim (ou “o raio que o parta”, que é o que às vezes me apatece dizer…) No dia seguinte a história repete-se, no que se segue também e assim por diante, até que seja sexta-feira e já não reste mais espaço por preencher. Às vezes até se aproveita o fim de semana para mais uma horinhas de explicação ou para treinar mais um pouco e quando damos por nós, o despertador acorda-os à sete da manhã para começar tudo do início. E aqui pergunto-me: Será mesmo início, se não chegou a ter fim?
Pareceria uma ideia fácil, esta de permitir tempo aos nossos filhos para brincar, se é precisamente para a atividade de brincar que eles estão altamente apetrechados, mas a verdade é que isto se tornou um verdadeiro desafio às famílias de hoje. Tentar chegar a casa mais cedo pelo menos alguns dias da semana para que possam brincar depois da escola, assumir o compromisso de não ter agenda ao fim de semana ou incentivá-los a brincar de manhã enquanto acabamos de nos despachar, ao invés de ligar a televisão nestes minutos preciosos, podem ser ideias que ajudem a recuperar este tempo que lhes é de direito.

Deixá-los em paz!
Os pais são peritos em meter-se nas brincadeiras dos filhos a achar que sabem eles, melhor do que os próprios especialistas, qual a melhor maneira de montar um puzzle, quais as regras que fazem sentido num jogo de grupo ou até como se deve pintar o céu para ficar ainda mais bonito. Somos tão bons nisto que até apelidamos de “brincadeiras não estruturadas”, aquelas em que não metemos o bedelho.
Não existem brincadeiras não estruturadas porque todas as crianças definem e aplicam as regras da sua própria brincadeiras sem precisarem de nós para absolutamente nada. E portanto, deixá-los gerir estes espaços de criatividade e atividade lúdica, não desatar a resolver sempre que nos dizem “Mãe, não tenho nada para fazer!” e morder a língua sempre que nos chega à boca um frase para corrigir o que estão livremente a criar, serão sempre boas premissas para respeitar a liberdade destes pequenos grandes inventores.

Estimular dias inteiros de brincadeira para todos.
Convidar amigos, dizer que sim a todas as festas do pijamas, deixá-los construir tendas tuareg no terraço ou combinar jogatanas de futebol no jardim, são ótimas ideias para deixar bem oleadas as relações com outras crianças que tanto lhes trazem a descobrir, desde a empatia, à resolução de problemas, à cooperação e a tantas outras competências que lhes serão bússola para toda a vida. Caso tenhas um grupo de pais pronto a alinhar nesta espécie de brincadeira comunitária, poderão até revezar-se nos programas ou aproveitar para juntar os miúdos e aproveitar o tempo para construir ou fortalecer os laços uns com os outros. Há pessoas interessantes por aí, sabes?

Aproveitar tudo o que de tão incrível existe à nossa volta.
E aqui falo da natureza e do potencial imenso que ela nos oferece. Uma criança não precisa de brinquedos complicados e muito menos precisa de brinquedos com pilhas que fazem tudo por ela. Aposto que já todos vimos bebés e crianças pequenas deliciados horas a fio com uma cesta de frutas, ou com um armário de tupperwares ou com uma poça de lama que dá para fazer bolinhos e tudo. Pois é, e é só mesmo só disto que eles precisam. Ambientes ao ar livre que ofereçam vários elementos como terra, plantas e água, são ambientes que darão à criança um sem fim de coisas para fazer, estimulando-as a brincar de diferentes formas e a encontrar respostas diferentes aos diferentes desafios. Em casa, simplicidade é a palavra de ordem. Objetos para construir, caixas de areia, peças soltas como bocados de madeira, tijolos, pedrinhas, ou invenções a partir de elementos naturais como carimbos feitos com sumo de beterraba e rodelas de maça, serão sempre boas ideias que permitirão à criança manter viva e de boa saúde a sua capacidade ativa e criativa, permitindo-lhes também estimular todo um novo repertório de brincadeiras.

Chegados aqui, e mesmo sabendo que infelizmente hoje em dia isto dá algum trabalho, aposto contigo que vai valer bem a pena, não só agora, pela riqueza de tudo o que lhes proporcionarás, mas também pelo dia em que à pergunta: “O que mais te lembras da tua infância”, os teus filhos fechem os olhos, abram um sorriso e tenham um sem fim de histórias para contar…

“Que raio de mãe és tu?”

Fomos dar um passeio à zona ribeirinha.

Ao chegarmos, a maré baixa convidou-nos a descer as escadas e a sentarmo-nos numa pedra junto à água. Apanhámos búzios, vimos caranguejos e percebemos que havia zonas de lodo e zonas mais secas por onde poderíamos facilmente andar. O Manel continuou a explorar, encantado com a vida a fervilhar na ria, no lodo, nas algas deixadas pela última preia mar.

Numa das investidas, escorregou e encheu-se de lodo. Correu a mostrar-mo, demos uma boa gargalhada juntos e pediu-me para continuar a descobrir mais um pouco.
Enquanto o observava, deliciosamente parte daquele lugar, ouvi a seguinte frase ao longe,

– “Mas que raio de mãe deixa o miúdo andar ali?”

Duas senhoras, muito bem postas, vestidas com o fato de treino dos domingos e uns ténis muito branquinhos que nunca conheceram senão a brandura do asfalto, a suplicar (sem disso saber) por um bocadinho de vento ou de mar que lhes devolvesse a vida outra vez.

Foi isto que pensei, depois de uns segundos de raiva que quase me saltava da boca sob a forma de um “Não sabem as senhoras aquilo que perdem!”

Não o disse, mas vim com a frase a ecoar-me na cabeça e a fazer-me pensar no assunto, não sem antes me ter obrigado a mastigar e a cuspir a ideia que tantas vezes assalta as mulheres: Terei sido eu uma má mãe?

Olhei para o Manel e tudo o que vi foi um puto feliz, coberto de lodo da cabeça ao pés e a voltar para casa sem sapatos mas com o coração cheio de aventura e de liberdade.

Esta experiência levou-me a pensar naquilo em que transformámos a infância a partir do momento em que nos esquecemos de que a infância se faz de descoberta, de mãos na massa, de experiências, de espaço livre, de consciência de corpo nesse mesmo espaço.

A infância faz-se de risco.

E eu entristeço-me vezes demais, sempre que ao lado das senhoras bem postas vestidas com o fato de treino dos domingos, vejo crianças bem postas de fato de treino igual, a desconhecer que o corpo com que se movem é capaz de coisas tão extraordinárias como subir às árvores, saltar de pedra em pedra, apanhar caranguejos ou correr descalço.

Estamos mesmo a “criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, como disse um dia o fabuloso Carlos Neto. E a culpa é toda nossa.

Morremos de medo de que se magoem, morremos de medo de que se enganem, morremos de medo de que os magoem, e por fim, morremos de medo de que não precisem de nós.

Tudo isto faz parte do processo, até porque desde o momento em que lhes pusemos a vista em cima, deixámos de pertencer a nós mesmos e assumimos como nossa, a missão de os proteger para sempre. Tudo isto faz parte do processo mas é nossa a responsabilidade de não permitir que isto interfira com a sua saúde física e mental.

O medo dos adultos é talvez a maior barreira à autonomia de uma criança e uma verdadeira ameaça ao desenvolvimento de uma maior confiança em si e no meio envolvente. E os adultos de hoje são exímios nisto. Vivem presos a uma proteção excessiva e a um desejo mal disfarçado de crianças arrumadinhas, bem comportadas e muito limpinhas, que em tudo as distancia do potencial com que foram equipadas.

A curiosidade, a criatividade, a coragem, o sentido de deslumbramento são as ferramentas com que as crianças nascem para que possam, sabiamente, descobrir o mundo. E é precisamente esta descoberta que lhes permite conquistar uma crescente percepção sensorial e as competências de vida que um dia lhes permitirão crescer como adultos capazes, resilientes e autónomos.

A maioria das vezes em que impedimos os nossos filhos de explorar ou experimentar não representa perigo à sua saúde.

São os inocentes “cuidado que vais cair!”, ou os bem intencionados “não vás para aí que te vais sujar!” que, repetidos vezes a fio sem que deles tenhamos consciência, vão retirando à criança a capacidade de conhecer o seu corpo e os seus limites, de aprender a observar os contextos onde se move e a fazer ela própria a avaliação dos riscos com que se depara, adaptando-se, do ponto de vista motor e emocional, aos diferentes desafios. E isto tem um efeito precisamente contrário ao que pretendemos: torna as crianças mais desajeitadas, mais propensas a acidentes e menos capazes de se auto regular.

Crianças assustadas, pouco confiantes, progressivamente menos criativas, emocionalmente pouco seguras e com maior probabilidade de psicopatologia na idade adulta, é tão somente o cenário que estamos habilmente a construir e eu sei, que não é nada disto que desejamos, tão somente porque é em tudo contrário à promessa que firmámos em nós quando lhes pusemos a vista em cima.

E é por tudo isto e por saber, enquanto adulta e enquanto mãe, que é minha a responsabilidade de permitir ao meu filho crescer de uma forma inteira, saudável, emocionante e progressivamente mais autónoma, que eu agora já só queria que fôssemos muitos a borrifar-nos nos ténis branquinhos e a abrir caminho ao lodo, à terra, aos bichos, às árvores e a tudo o que de forma tão natural e tão fácil lhes é casa.

É isso afinal que lhes constituirá terreno fértil para construir e adubo bom para fazer crescer as sementinhas de tudo o que de tão incrível já trazem dentro.

E se assim isto te fizer sentido e se com isto alguém um dia te perguntar que raio de mãe és tu, sorri-lhe e responde-lhe que és um raio de uma mãe que ainda não se esqueceu do sabor que a liberdade tem…

A vida, aqui e agora.

O caos instala-se hoje na maioria das casas portuguesas.
Trazer a escola para o lugar onde moramos parece ser a atitude mais sensata neste momento (ou a possível) mas a verdade é que a dimensão de tudo o que daqui advém está ainda longe de ser olhada de frente por todos nós.

Há quem tenha um filho, há quem dois, há quem tenha três e há quem tenha quatro ou cinco. Há quem tenha filhos dos outros. Há quem esteja em dupla na tarefa de os apoiar, há quem esteja absolutamente sozinho. Há quem se safe no português e dê uns toques na matemática, há quem quase não saiba ler nem escrever. Há quem tenha tempo para ir dando um olhinho nos miúdos durante as tarefas escolares, há quem tenha de colar os olhos ao ecrã e cumprir os objetivos de um dia de trabalho, como se estivesse tudo na mesma. Há ainda quem tenha de sair para trabalhar e por isso tenha de deixar os filhos com alguém que esteja a jeito ou até deixá-los numa escola de acolhimento qualquer, com gente que nunca os viu e sem saber muito bem como é que coisa vai correr. Somos muitos, somos todos diferentes, mas estamos todos a lutar com uma mesma necessidade: Dar conta disto e sobreviver!

O problema está precisamente quando achamos que este “dar conta do assunto” é responder a cada um do desafios nele implícitos de uma forma exemplar, controlada, organizada, emocionalmente regrada e quase sempre perfeita. E isto, meus senhores, não é possível!

Aquilo que se exige, do ponto de vista mental e físico de uma mãe, de um pai ou de um adulto cuidador, quando se lhe pede que transforme a casa em escola, em empresa, em cantina de refeições, em centro de estudos e em parque de diversões, tudo ao mesmo tempo e bem arrumadinho para não falhar nada, é de uma dificuldade extrema, só verdadeiramente perceptível a quem tenha de a viver.

É por isso tão essencial neste tempo que vivemos e perante um cenário que se avizinha longo tornar mais conscientes as nossas intenções e ligarmo-nos aquilo que verdadeiramente nos pode ser bússola: É o que é e está tudo bem.
E isto significa que eu não vou ser a mãe perfeita nem a trabalhadora do ano. Eu vou ser a melhor mãe possível e a trabalhadora que me for possível ser. E isso é tudo o que eu posso fazer quando o mundo se vira do avesso e é preciso saber (e dizer a quem disto não saiba) que NADA PODE SER COMO ANTES. Não agora.

Agora o tempo é de aceitação, de cuidado ao coração, de força conjunta (perto ou longe) e de reconhecimento das pequeninas coisas que nos fazem bem ou que nos fazem subir as paredes, porque estas é preciso acolher também.

Aceitar o que é, tal como é.
Ponto número um. Nunca nenhum de nós imaginou sequer estar a viver este cenário, e no entanto aqui estamos, a conseguir fazer acontecer coisas incríveis. Famílias reais são famílias com cozinhas desarrumadas, filhos resmungões e momentos de levar às lágrimas e à quase loucura, e portanto, aceitar, honrar e agradecer tudo o que temos conseguido ser num desafio tão imenso, será sempre balão de ar puro e apontar de luz a tudo o que é verdadeiramente essencial.

Reconhecer aquilo que estamos a sentir.
E deixá-lo acontecer, assim, sem o disfarçar ou tornar mais apetecível. Os medos, a insegurança, as expectativas, a realidade… a partir do momento em que começamos a sentir-nos desconfortáveis é importante não ceder ao impulso, seja ele gritar com os nossos filhos ou devorar um pacote de bolachas. Podemos sim reconhecer a sensação que nos causa desconforto, respirar fundo e deixar que o coração se apazigue com aquilo que está a acontecer. Para além disso tomar a decisão de sermos mais conscientes do ponto em que estamos e aquilo que vai acontecendo dentro de nós perante as diferentes exigências, ajuda-nos a refrear possíveis impactos que as mesmas tenham na gestão das novas rotinas.

Ser flexível.
Não, não vai ser um mar de rosas, sim vão existir muitos desafios e não vamos conseguir cumprir com tudo aquilo a que nos propusemos. Os nossos filhos vão precisar de nós e com isso quebrar-nos o ritmo de trabalho, e noutros momentos seremos nós a não conseguir dar-lhes a atenção que precisam. Cada dia será uma espécie de dança que teremos de aprender a dançar, às vezes de forma mais harmoniosa, outras sem swing que nos valha e ainda assim estará tudo bem, apenas e só porque saberemos continuar a ouvir o ritmo.

Pôr a culpa a mexer.
E aqui falo sobretudo de nós, mulheres. Somos as rainhas da culpa, apenas e só porque essa é uma aprendizagem social que decorre daquilo que ainda representa o facto de se nascer mulher. Tens de ser boa mãe, tens de ser boa filha, tens de ser boa companheira, tens de ser boa profissional, and so on, and so on, and so on… e depois passas a viver com uma espécie de carrasco moral que te sussurra ao ouvido sempre que passas a linha: “Estás de folga e deixas o teu filho na creche? Inventas idas ao supermercado só porque já não aguentas ouvir gritar “mãeeeeee” durante mais 10 minutos? Chegas a casa e não te apetece brincar às barbies? Devias ter vergonha…” Acho que é mais ou menos isto, acho que nos acontece a todas e acho mesmo que é algo que devemos contrapor com todas as nossas forças, nunca deixando que se torne voz. Gostarmos de nós como gostamos dos outros, sermos capazes de nos olhar ao espelho com amor e compaixão e gratidão por quem somos, assim sem tirar nem pôr e sobretudo, sem nenhum tipo de superpoder.

A vida da maioria das famílias muda outra vez mais um bocadinho a partir de hoje, mas afinal é isso que nos acontece enquanto pessoas a vida inteira e é também isso que nos torna tão capazes de assumir o leme e continuar a navegar. Em mares calmos e outras vezes bravios, mas sempre, sempre a apreciar a viagem.

Quando nos salta a tampa (e temos poucos sítios para onde fugir…)

Et voilá… já cá estamos todos outra vez, a ter de atafulhar a vida dentro de quatro paredes e a gerir os desafios que disso decorrem, em modo quase ininterrupto: trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA, trabalho, filhos, escola dos filhos, tarefas domésticas, RESPIRA… Acho que é mais ou menos isto. Se calhar, com uma espécie de “cerejinha no topo do bolo” por ser uma realidade vivida pela segunda vez, sem que tenhamos tido verdadeiramente tempo de ganhar fôlego para o embate.

E sim, é difícil. Muito. Uns dias mais do que outros, às vezes com o melhor que somos, outras vezes com o melhor que nos é possível e na verdade… está tudo bem!

Uma das coisas que tenho reforçado em mim neste tempo estranho que vivemos é que mora dentro de nós uma espécie de poder genial que nos permite, devagarinho, ir respondendo ao mundo (que na verdade agora é a casa onde moramos) de forma cada vez mais refletida e regulada. E isto, acreditem, faz mesmo toda a diferença.

A este poder genial chamamos auto regulação emocional e é ela que nos permite identificar e reconhecer as emoções que são ativadas dentro de nós, para depois decidir, de forma mais consciente, a ação que queremos empreender perante a situação que a despoletou, o que, traduzido em miúdos, pode fazer mesmo a diferença.

Ora vejamos a seguinte situação:

O meu filho risca o caderno da cópia e grita-me: “Estou farto disto!”

a) Eu começo a ferver, estico o dedo indicador na sua direção e grito-lhe mais alto: “E eu estou farta de ti! Nunca mais fales comigo assim, ouviste bem?”

ou,

b) Eu percebo que estou a começar a borbulhar por dentro e afasto-me da situação durante 5 minutos.

É fácil escolher sempre a resposta b? Nada. É possível? É.

Porque podemos aprendê-lo e porque sempre que escolhemos não reagir, ou seja, sempre que permitimos uma pausa entre a situação-gatilho e a nossa ação, estamos a permitir ao cérebro acalmar-se e reconectar-se com aquilo que nos é mais importante: agir com amor e consciência, ensinando-os a fazer o mesmo.

E como podemos nós treinar este poder genial que nos mora dentro e que nos permite sentarmo-nos com as nossas emoções, oferecer-lhes um chá e decidir o caminho a seguir a partir daí? Com arte, engenho e muito treino prático das propostas que se seguem:

Parar e aguardar. Assim que comece o alvoroço dentro, pode ser importante reconhecê-lo, parar e mudar de cenário. Sair à varanda, ir à casa de banho, ir levar o lixo, beber um copo de água. Tudo o que nos permita ter espaço para respirar fundo e arrefecer será aquilo que precisamos verdadeiramente no meio da tempestade.

Pensar em coisas que nos fazem bem ou pelas quais nos sentimos gratos. Isto permite a identificação com outros sentimentos que nos ajudarão a (re)estabelecer o foco com as nossas intenções enquanto pais, contribuindo também para um sentido de maior empoderamento perante a situação que estamos a viver.

Conectarmo-nos com o outro (neste caso, com os nossos filhos). No momento em que nos sintamos mais regulados e mais capazes de agir (ao invés de reagir), dar-lhes um abraço, dizer-lhe que estamos disponíveis para conversar se assim se sentirem também. Dizer-lhes que foi um momento difícil para ambos mas que podemos falar sobre isso e encontrar soluções em conjunto.

Falar sobre o assunto. Trinta minutos depois ou três horas depois. O mais importante é que este momento seja sentido como adequado por ambos. Descrever a situação, de uma forma neutra e evitando os tão tentadores julgamentos prévios e generalizações, falar sobre aquilo que sentimos sem o justificar com o comportamento da criança, pedir desculpa e ouvir aquilo que têm para dizer, em aceitação incondicional. Estes serão sempre os ingredientes que constituirão uma espécie de porta aberta e convite a entrar, que a ambos permitirá descansar e crescer.

Tal como começámos este texto, o desafio que já era imenso tornou-se ainda maior mas esta coisa boa de sabermos que mora em nós mora o realizador, o argumentista e o ator principal das nossas vidas será sempre luz e força e vontade de agarrar o guião, mesmo que tenhamos de o rascunhar e reescrever vezes sem conta. É afinal isso, que tornará sempre tudo tão mais especial…

A vida pode sempre ser bela.

Disse-me num choro compulsivo e quase angustiante:

“Não quero estar infetada porque depois vou morrer!”

Tem 12 anos. Tem 12 anos e não precisava do medo e da (des)informação que a atropela todos os dias, pela voz de tantos de nós, pela verdade das notícias que lhe entram casa adentro, ditas por gente séria e bem vestida, sem saber ela que a forma como a verdade das coisas é integrada, depende acima de tudo da forma com que a queremos contar.

Acho que andamos todos ainda um bocadinho distraídos em relação aos efeitos colaterais deste vírus. Acho que estamos ainda a esquecer-nos da nossa responsabilidade enquanto educadores e do papel que cada um de nós tem de assumir para que este vírus não nos devore a todos e sobretudo, não devore a infância e a transforme para sempre num lugar menos bonito e até menos seguro. E quando falo de segurança não falo das medidas de higienização da infância, até porque essas têm sido alvo de um olhar atento desde o início, falo das medidas de PROTEÇÃO da infância. Falo da segurança emocional, da responsabilidade, da confiança, da coragem, e falo também da criatividade e da vontade de a descobrir.

Não será preciso ser-se especialista em desenvolvimento infantil para se imaginar que o isolamento e as medidas de restrição social prolongados deixam impactos relevantes no crescimento de uma criança, impactos estes que em muito poderão ser minimizados mediante a atitude e a responsividade dos adultos e dos contextos que a ajudam a crescer. É nisto que eu acredito, é na certeza de que é missão que cada um de nós, proteger a infância e atenuar os riscos associados ao desafio de uma epidemia à escala mundial. Como perguntam vocês?

Primeiro com um amor imenso, daqueles que ajuda a suportar todas as batalhas, depois, com algumas ideias que poderão ajudar um bocadinho a que os dias sejam um bocadinho mais felizes, e sobretudo não corram ao sabor de um bicho esquisito chamado COVID:

  • Desligar a televisão, sempre que o assunto seja a infeção por corona vírus. Não obstante a informação que transmitem (e que tantas vezes nos chega de forma manipulada), os media têm como principal função alarmar, apenas e só, porque é isso que vende. Uma criança que assista constantemente ao tipo de discurso que lhe chega por esta via, é uma criança que não será capaz de filtrar a informação e de a relativizar da mesma forma que um adulto e que por isso ficará assustada e sem capacidade de se tranquilizar face aos recursos internos de que dispõe.

  • Falar com as crianças de uma forma concisa, segura e informada acerca das medidas de prevenção: máscara em espaços fechados ou com muita gente e lavagem das mãos mais frequente. É apenas isto na verdade que precisam de saber, é apenas isto que todos podemos controlar e é a forma como o comunicamos e a nossa capacidade o de transmitir à criança, que farão com não tenha de se preocupar com o resto, o que fará toda a diferença.

  • Honrar a família e os espaços comuns. Rotinas, tradições, rituais familiares devem manter-se o mais possível. Jogos em família, sessões de cinema, lanches divertidos… tudo o que possa contribuir para um sentido de normalidade, tornar-se-á ainda mais protetor no contexto em que vivemos.

  • Aproveitar o ar livre o máximo de tempo possível. As restrições no contexto escolar significaram, na maioria das situações, a alteração das rotinas de recreio e a limitação do usufruto dos espaços. As crianças precisam de correr, de trepar, de pular, de explorar, e essa é uma necessidade vital que às vezes parecemos ignorar. Se tal não pode acontecer na escola, então é preciso procurar outros lugares que o permitam. A praia, o campo, o jardim continuam a ser espaços onde é possível esta liberdade e esta conexão com a natureza, tão essenciais à saúde física e mental.

  • Falar sobre a forma como nos sentimos e pensar em conjunto naquilo que cada um pode fazer para se sentir melhor, sempre que os dias pareçam mais difíceis. Pode ser interessante criar uma “caixa de ferramentas emocionais ” da família, na qual cada um coloca uma ideia para pôr em prática sempre que se sinta mais triste, ou ansioso, ou até zangado: ler um livro, conversar, “dançar à maluca” na sala, ouvir música, passear na natureza, jogar um jogo, fazer biscoitos, contar uma história…

  • Cuidarmos de nós. Quando os adultos estão conscientes das suas próprias emoções e sentem confiança na sua capacidade para lidar com os desafios, as crianças aprendem a fazê-lo também, sendo este um dos maiores preditores da saúde mental de crianças e adolescentes. Cuidarmos de nós implica que sejamos capazes de nos regular emocionalmente, que tenhamos espaços ao longo da semana para nós, para praticar atividade física, para nos alimentarmos e dormirmos bem, para nos relacionarmos com outros adultos que nos fazem bem e para nos oferecermos pequeninos mimos que funcionam como verdadeiros balões de oxigénio. E isto é talvez aquilo que de mais importante podemos fazer para proteger os nossos filhos.

Ainda que existam coisas que não estão ao nosso alcance e que, curiosamente, são precisamente aquelas com que nos bombardeiam todos os dias, existem muitas outras em que podemos realmente significar a diferença, tais como a confiança, a contenção emocional, a capacidade de estimular e aceitar a livre expressão emocional dos nossos filhos e depois, muito, a capacidade de manter a calma e privilegiar todos os momentos que sirvam para honrar a infância, tais como a brincadeira, o sentido de humor, a fantasia.

Acredito que é esta a nossa missão de adultos num contexto difícil como o que vivemos e que é também isto que podemos fazer perdurar para que um dia, ao falarmos dos tempos estranhos que todos vivemos, falemos sobretudo da forma corajosa e bonita como juntos soubemos enfrentá-los…

(E porque houve já quem soubesse contar esta força de uma forma tão bonita porque não voltar à história de Guido, Dora e Giosué, num filme que não pode senão continuar a ser-nos profundamente inspirador…)

Infância à prova de vírus.

Acho que não há vírus pior do que o medo.
Medo que higieniza, do chão ao corpo, medo que afasta, que isola, que suprime, que aterroriza… É disto que muitos padecem. Às vezes, o vírus do medo também aparece para disfarçar a falta de amor ou a falta de vontade, ou a falta de sentir e é aí que a coisa se torna um verdadeiro problema: quando o medo passa a legitimar as coisas feias que já nos apeteciam e faz com que todos as aceitem como se assim tivessem de ser.
Ora que isto se passe entre pessoas crescidas e que a bandeira do medo e da falta de amor se hasteie bem alta e conquiste território até que nada sobre dos lugares bonitos que já soubemos povoar, eu até engulo, ou melhor, não tenho outro remédio. Mas vê-lo acontecer no território da infância, que é nosso dever enquanto adultos defender, é algo que o meu coração não consegue apaziguar.
A infância é um lugar sagrado, que vive do amor, do toque, do brincar, que cresce em substância e em tamanho a partir da liberdade e da relação de afeto com o outro. Não deixemos por isso que o medo do vírus, ou melhor, que o vírus do medo, se sobreponha a isto e nos faça perder o norte das coisas verdadeiramente importantes. E já agora, aproveitemos a máscara para calar os disparates que andamos a fazer, e por favor…

Não digamos a uma criança não toque,
Não digamos a uma criança que não experimente,
Não digamos a uma criança que não brinque,
Não digamos a uma criança não partilhe,
Não digamos a uma criança não explore livre os espaços,
Não digamos a uma criança que não abrace,
Não digamos a uma criança que esconda o sorriso.

Não digamos a uma criança que deixe de ser criança, porque aí não é só uma infância que se perde, é o mundo inteiro que nos escapa das mãos, para nunca mais voltarmos a pôr-lhe a vista em cima.

“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.

O teu filho é vítima de bullying? O que podes fazer para ajudar.

Estava no 3º ano do primeiro ciclo. Devia ter uns 8 ou 9 anos. Era a primeira vez naquela escola. Aproximei-me do grupo de rapazes e raparigas que se tinha juntado na lateral do pavilhão onde aconteciam as aulas. Queria fazer amigos. Assim que perceberam que me aproximava, apontaram o dedo para as calças de xadrez que trazia vestidas e, às gargalhadas, gritaram: “Sai daqui oh calças de palhaço!” Nunca mais me esqueci disto. Lembro-me do sítio, lembro-me das caras, do gozo e do som alto do riso conjunto. Lembro-me da vergonha, da cara a arder e da vontade incontrolável de chorar, enquanto fugia dali, aos tropeções. Lembro-me, também, de odiar as malditas calças de xadrez que me tinham vestido naquela manhã. E sei hoje, que se aquela manhã se tivesse repetido e se tivesse colado a mim, eu teria aprendido também a odiar a pele por baixo das calças, o corpo, a voz, a vontade de me aproximar dos outros e de querer torná-los meus. Teria, por fim, aprendido a odiar quem sou.

As sensações que aqui recordo deste dia, que felizmente não se repetiu, tornam-me mais próxima, outra vez, de quem sofre com isto na escola todos os dias. Os miúdos que observo, as famílias com quem trabalho e claro, a experiência da maternidade, fazem-me compreender como nunca, o medo e a dor de perceber que um filho ou filha carrega este peso dentro, que tanto altera a noção de quem somos e a forma como nos amamos ou nos sentimos dignos de amor.

Bullying é a expressão usada para definir os comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos (ou com potencial para a repetição), entre crianças e jovens em idade escolar. Manifesta-se através de um desequilíbrio de poder entre quem agride e entre quem é agredido e inclui comportamentos como insultar, gozar, espalhar boatos, excluir, agredir fisicamente, entre outros.

Contrariamente ao que tantas vezes ouço dizer, o bullying não está na moda.

Está na moda falar-se sobre ele e ainda bem.  E é a falar sobre o assunto que conseguimos estar mais atentos, mais despertos, que podemos ser mais empáticos, mais solidários, mais interventivos, nesta responsabilidade conjunta, de tornar seguros e mais felizes, os espaços escolares.

E se à escola cabe a tarefa de envolver todos os elementos da comunidade escolar: professores, educadores, assistentes operacionais, alunos, técnicos psicossociais, enfermeiros de saúde escolar… na criação de estratégias promotoras da saúde e preventivas de todas as situações de violência escolar, aos pais cabe a dura tarefa de apanhar os cacos e de ajudar a reparar a auto-estima, transmitindo a esperança e a certeza de que a vida não tem de ser assim.

Importa por isso e ainda que nunca tenhamos enfrentado este desafio, refletir sobre o assunto e definir, de uma forma prática, como é que podemos ajudar…

  • Mantendo a calma.

A forma como reagimos à situação é determinante na forma como os nossos filhos a encaram. Demasiado nervosismo, ansiedade ou indignação, podem afastá-los e impedir que voltem a falar sobre assunto, o que pode ser motivado pela culpa que sentem por serem fonte de preocupação. É importante também escolher o momento para abordar o assunto, de forma a que estejam, o mais possível, tranquilos e num espaço em que se sintam seguros. Evitar os momentos logo à chegada da escola, deixando-os recuperar e descansar na sensação de porto seguro que somos, contribui para que se sintam mais tranquilos e disponíveis para conversar.

  • Sendo empática/o.

De todas as formas de apoiar uma criança ou adolescente que é agredido, a mais importante é aquela que lhe permita sentir que o compreendes e que o teu apoio será sempre incondicional. Resiste por isso à tentação de fazer todas as perguntas de forma imediata. Acolhe e deixa que partilhem todas as respostas que lhe vêm à mente. Só assim entenderás o que verdadeiramente por lá se passa.

  • Procurando obter mais informação em relação à situação específica.

Depois de aceitares e ouvires o que lhes vai na alma, existem informações que são importantes e que, ao ritmo deles e com a calma necessária, podem ser fundamentais na definição da melhor abordagem à situação. Se possível, procura compreender o contexto em que a violência aconteceu: com quem estavam, onde estavam, o que aconteceu antes, quem assistiu, o que aconteceu depois. É fundamental também estimular a partilha da forma como se sentiram, o que foi mais difícil e se houve alguma coisa que contribuísse para que se sentissem melhor. Perguntas como: “Como te sentiste?” ou “Sentiste-te triste, humilhado, zangado…?”, ao invés de “Sentiste-te triste?”, dá-lhes mais espaço a que se identifiquem com as diferentes emoções possíveis.

  • Trabalhando as competências necessárias para que aprendam a lidar com desafios semelhantes.

Criar situações fictícias, imaginando em conjunto respostas possíveis e antecipando consequências para cada uma delas. É fundamental fazer sentir que o bullying é uma situação difícil de lidar, mas que não é impossível fazê-lo e haverá sempre alternativas para lidar com a situação. Trabalhar competências ligadas à auto-confiança, à comunicação, à assertividade, à diferenciação emocional, à resolução de problemas, permitirá que se sintam mais confortáveis e confiantes nas relações sociais. Ajudar a obter mais informação, demonstrando que é uma situação que pode acontecer a qualquer um e que é preciso compreender e apoiar vítimas, agressores e espectadores, numa atitude preventiva da reicindência, contribui para que não se sintam sozinhos e desenvolve uma maior consciência social e empowerment na resolução dos conflitos. Incentivar a que se envolvam em atividades fora da escola, permite que treinem estas competências e que procurem suporte social no estabelecimento de outras relações de amizade e de grupo.

  • Estimulando ao desenvolvimento de uma perspectiva positiva do espaço escolar.

Depois de sabermos que isto se passa ou passou com o nosso filho ou filha na escola, podemos ter mais dificuldade em sair do estado de alerta e com isso centrar todos os temas de conversa nesta questão. É fundamental trazer à tona os sentimentos positivos, as pessoas de quem se gosta, as aprendizagens e as conquistas proporcionadas pelo dia a dia na escola, de forma a que sintam que há muito mais por que lutar e acreditar, do que a situação de mal estar e agressão.

  • Sendo parceira/o da escola na resolução do problema.

Marcar uma reunião com a direção ou o professor responsável pela turma, tornar comuns as preocupações que tens e, de acordo com o conhecimento que o professor tenha em relação ao funcionamento do grupo e às características dos miúdos envolvidos, definir em conjunto a melhor estratégia para atuar. É importante que o teu filho/a saiba que esta reunião se realizará e que compreenda a sua importância na resolução do problema. Sempre que sintas que as medidas adoptadas e apoio familiar e escolar não estão a ser suficientes para resolver a situação ou sempre que notes uma ansiedade crescente ou comportamentos de maior isolamento e tristeza, procura apoio e aconselhamento junto dos serviços de psicologia da escola, ou externamente.

O bullying acontece todos os dias, em todas as escolas, com os nossos filhos ou com os filhos dos outros. Passa-se na sala de aula, nos balneários, na cantina, no recreio. E alimenta-se do nosso silêncio, das vezes em que fazemos de conta ou daquelas em que achamos que o assunto não é connosco.

Será sempre, tal como é nossa, a responsabilidade de impedir que alguma criança ou jovem, um dia, se sinta assim:

“Parece que passam sem ver-me os instantes
mas passam sem que o seu passo seja breve.”

Álvaro de Campos

O meu filho vai para o 1º ano, e agora?

O ingresso no primeiro ciclo é muitas vezes gerador de alguns receios para os pais: “Será que ele vai conseguir estar à altura?”; “Será que vai fazer amigos?”; “Será que vai gostar da escola nova?”; “Será que vai ser bom aluno?”… A forma como culturalmente pensamos esta transição, associando-a ao fim da brincadeira e ao início da escola a sério – transição do tempo lúdico para uma cultura de trabalho – acaba também por ser frequentemente fonte de algum stress parental, interferindo na forma como a criança a percepciona e sente a dimensão das expectativas relativamente ao seu desempenho.

É um facto que estes primeiros anos de adaptação escolar se constituem como alicerces fundamentais a todo o percurso escolar da criança, no entanto a premissa mais importante é que esta nova relação se desenvolva de uma forma tranquila, contribuindo para o desenvolvimento de crenças positivas em relação à escola enquanto espaço de crescimento, de aprendizagem, de curiosidade, de estabelecimento de relações afetivas…

Para ajudar neste caminho, aos pais, pode ser útil a reflexão sobre algumas ideias…

Transmitir à criança segurança e tranquilidade perante a nova fase de vida:

Em primeiro lugar é importante refletir sobre a forma como pensamos esta transição, sobre aquela que foi a nossa experiência, aqueles que são os nossos medos, partilhá-los com outros adultos… Trazer isto à consciência é meio caminho andado para controlar a tendência que temos para projetar muito daquilo que é nosso, no percurso dos nossos filhos. Levar as crianças a conhecer a escola nova antes do início do ano letivo, falar com os funcionários, conhecer o professor, ter algum tempo de brincadeira e exploração do espaço da sala de aula e do recreio, podem também constituir-se como elementos facilitadores. Fazer este reconhecimento do espaço físico e das pessoas que o habitam, de uma forma positiva e descontraída, contribuirá para que progressivamente se torne mais familiar, ajudando a ultrapassar alguns dos receios iniciais.

Evitar que o novo estatuto adquirido, o estatuto de “aluno” se sobreponha à criança:

Muitas vezes com a entrada no primeiro ciclo, tendemos a sobrevalorizar as questões relacionadas com o desempenho escolar, em detrimento de outras. É importante por isso manter e acarinhar os outros espaços da criança: o tempo da família, o tempo do brincar, o tempo de não fazer nada, o tempo para conversar sobre outras coisas que não os típicos “Portaste-te bem na escola?” ou o “Fizeste os trabalhos todos?”… Manter o espaço da família e procurar que dentro dos novos desafios e horários por cumprir, se mantenham os momentos lúdicos, conjuntos e tranquilos, sem conversas de escola e de trabalho, será uma boa forma de o conseguir.

Estabelecer relações positivas com a comunidade educativa.

Participar nas reuniões, desenvolver uma relação positiva e de partilha com o professor titular de turma conhecer o trabalho desenvolvido pela Associação de Pais, fortalecer laços com outros encarregados de educação, participar em iniciativas que contribuam para a qualidade educativa da escola dos nossos filhos… contribui não só para que estejamos a par daquilo que acontece na escola e possamos ser elementos ativos nas mudanças necessárias mas também para que, enquanto adultos, sejamos modelo de participação cívica e envolvimento comunitário para os nossos filhos.

Facilitar uma progressiva e tranquila adaptação da criança às novas rotinas diárias:

Com o início do primeiro ciclo surge também uma maior exigência no cumprimento dos horários escolares, o que pode ser desafiante para crianças e adultos e transformar as manhãs num verdadeiro inferno. A forma como a criança deve despertar deve ser ajustada às suas características e necessidades individuais: alguns miúdos acham graça à possibilidade de acordar com um despertador com música, outros preferem que se abram devagarinho as cortinas para deixar entrar a luz do sol, outros gostam de cócegas e de um “bom dia” animado, outros preferem ainda beijinhos e festinhas vagarosas… É importante reservar algum tempo para que este despertar aconteça de forma presente e sem pressas, mesmo que isso implique acordar um pouco mais cedo. Outro dos truques que pode ser determinante para manhãs mais calmas é o facto dos pais acordarem mais cedo e tratarem das suas rotinas antes de acordar a criança, o que lhes permitirá estar mais disponíveis para o tempo que se seguirá. Deixar algumas das tarefas preparadas no dia anterior: mesa do pequeno almoço posta, roupa escolhida, mochila e pasta arrumada… são também ideias que evitarão muitas manhãs de stress.

A transição para o primeiro ciclo é afinal apenas mais uma das muitas mudanças que ocorrem ao longo do ciclo de vida e é por isso importante retirar-lhe algum do peso que lhe está associado, dando espaço à criança para que faça aquilo que melhor sabe fazer: Aprender coisas sobre si e sobre o mundo e adaptar-se de forma natural aos desafios que lhe surgem nessa aprendizagem.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em todos os desafios e sempre, em cada regresso a casa.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Outra vez a saga do material escolar…

Lembram-se do primeiro episódio desta saga?

Pois bem, tal como prometido e graças ao contributo de várias mães experientes e cheias de sapiência, que foram incansáveis a partilhar dicas de utilidade máxima sobre o tema das listas de material escolar, aqui vos deixo 7 magníficas ideias para sobreviver ao que aí se avizinha:

1.Implorarás aos educadores/ professores dos teus filhos que te dêem a lista aquando da reunião do final de ano letivo. Se não fores suficientemente convincente, podes sempre suborná-los, o motivo é nobre. Ganharás tempo e encontrarás o que precisas sem ter um colapso nervoso. Os menos sagazes andarão a banhos, temos pena…o mundo é dos mais fortes. Depois de comprares tudo, ainda podes leiloar a lista na darknet. Mas só depois de estares aviada/o ok?

2. Farás um mealheiro ao longo do ano, porque o rombo é grande. Podes até vender rifas e sortear um dos rolos de papel autocolante que te sobrou do ano passado ou até o cadernão preto cheio de vincos e tão mal forrado que tiveste vergonha de o deixar sair de casa nas mãos da criança. Bastará o mote: “Pela Educação do João”, para que a coisa pegue e faça furor entre avós e tios. Com sorte, com os trocos, ainda passam o fim de semana no Alentejo.

3. Resistirás estoicamente à tentação de te arrastares atrás da mochila mais pindérica ou do estojo mais multifunções. O mundo do material escolar é um mundo pernicioso, cheio de glitters, de promessas fajutas, de artimanhas para te desviar do teu propósito. Simples e eficaz: este deve ser o teu mantra. Repete-o em voz alta, ao mesmo tempo que fazes tapping na testa. Agora sim, podes sair de casa.

4. Comprarás no comércio local. A vizinha do quiosque do bairro ou o Sr António da papelaria da esquina, anseiam por que lá passes e conheças em 1ª mão, as maravilhas que por lá moram. Simpatia, atenção personalizada, preço acessível e conselhos altamente especializados são apenas alguns dos bónus desta opção, sem esquecer o impacto do teu apoio na economia das empresas familiares. Quem sabe, ainda descobres alguma pechincha vintage…

5. Se não tiveres papelarias por perto, encomendarás tudo o que possas, online. Centras-te no que é essencial, evitas a pressão das massas, manténs o ritmo cardíaco e a integridade física e com isso, ganhas foco e lucidez. Bebe um copo de vinho tinto. E desfruta. Pré requisitos: os miúdos têm de estar a dormir.

6. Reduzirás. Reutilizarás e Reciclarás. Há imensa coisa que se pode aproveitar. Os manuais escolares são uma delas (sempre que possível), os lápis, borrachas e marcadores sobreviventes do ano passado, a mochila que mesmo que tenha um buraquinho, haverá sempre um remendo mega fashion capaz de a tornar outra vez especial. E mesmo que eles te digam que o material para funcionar tem mesmo de ser novo, não te esqueças nunca que és modelo, de consumidor(a) e de vida. Apenas às coisas que já tenham sofrido as “passinhas do algarve” e tenham sido esgotadas todas as alternativas criativas de utilização, a essas sim, poderás permitir o descanso eterno: no amarelo, no verde ou no azul.

7. Quando finalmente o ano letivo começar, reservarás uma tarde num SPA (ou noutro sítio com um efeito semelhante). Serás massajada(o), perfumada(o), relaxada(o). E a cada snifadela de incenso e borrifadela de água de rosas, farás uma respiração intensa e profunda e acarinharás em ti a seguinte constatação: Miúda(o), qualquer dia estás a dar masterclasses disto. Para o ano, não te apanham outra vez…

Nota importante: Ainda que depois destas sugestões, nenhuma grande marca de mochilas ou de marcadores fluorescentes, ou nem sequer de apara lápis de zinco, queira patrocinar este blogue, por aqui dormiremos descansados outra vez: disseminámos conhecimento e prestámos serviço público.
Caramba, é mesmo isso que nos move! 😉

Ah, e se por aí surgirem outras ideias capazes de melhorar a vida das famílias com filhos em idade escolar, venham elas. O propósito é de valor. E eu conto convosco.