A que sabe um elogio?

Ela tinha cerca de 20 e poucos anos. Passou por mim e seguiu caminho. Reparei que voltava atrás e ao aproximar-se, disse-me: “Não queria deixar de lhe dizer que olhei para si e a achei bonita.”

Eu, quase engasgada de tanto pasmo, ainda consegui balbuciar um tímido “Obrigada”. E fiquei ali, com um sorriso palerma na cara, a vê-la passar a estrada.

Os pensamentos que se seguiram questionaram de imediato a lucidez da rapariga, apesar da sua aparente “normalidade”. Não podia ser. Ninguém pára na rua e diz a alguém que nunca viu, que a acha bonita.

Depois, pensei: “E porque não?”

Será que estamos tão pouco habituados a que nos valorizem, que a tendência imediata é encontrar uma justificação?

Pois é. Estamos mesmo.

O elogio sabe bem, mas o encorajamento vai além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do nosso desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima e autoconfiança. O elogio é uma espécie de shot de felicidade, o encorajamento tem o poder de nos fazer sentir no topo do mundo, capazes de abraçar todos os desafios.

Com as crianças não é diferente e encorajá-las é uma excelente forma de lhes proporcionar os estímulos de que precisam, para crescer de uma forma saudável, mais confiante e mais autónoma. E sobretudo, a acreditar que serão sempre donas e senhoras dos recursos necessários para conquistar tudo a que se decidam.

Mas minha gente, antes que comecemos a disparar elogios aos nossos benjamins (que aliás serão sempre os melhores do mundo), é importante pensar sobre a melhor forma de o fazer. Aquela que tem o dom de conseguir tudo o que atrás foi dito.

Ora tiremos então as manhas ao bom do elogio:

O elogio deve ser sincero. Às vezes recorremos a ele de forma automática e quase compensatória, de tudo aquilo que gostaríamos que fosse diferente na relação com os nossos filhos. Eles topam-nos a milhas e, com o tempo, deixam de dar significado àquilo que está a ser valorizado, sobretudo se o desenho do cavalo parecer um cão esquisito ou se os primeiros biscoitos terem saído intragáveis (podemos sempre dizer-lhes que com mais algum treino, vão sair-se ainda melhor…);

O elogio basta-se a si próprio. Não precisa de saber que a Joana nunca mais aprende a fazer o pino ou que o André teve uma nota melhor no teste de Português. A ideia é mesmo que nos sintamos especiais, por isso nada de alimentar o ego com as dificuldades do vizinho, nem “cortar o barato” com as especialidades dos outros;

O elogio gosta de atitudes, mais do que de capacidades. Se o/a nosso/a filho/a teve um bom resultado num trabalho na escola, devemos elogiar o seu esforço, o seu empenho nesse processo (e não a sua inteligência), como responsável pelo resultado final. Quando dizemos “Uau, és tão esperto”, estamos a transmitir a ideia de que a inteligência é algo inato, quase um dom que temos ou não, o que nos retira o papel ativo na capacidade de nos superarmos sempre.

Todos os elogios devem ter sabor de mimo extra, reforçando a dedicação investida numa determinada tarefa. E é esta sensação de que demos o nosso melhor e que fomos valorizados por isso, que nos traz a noção poderosa de que todas vitórias (e fracassos também) não terminam em si, mas significam sempre mais um passo, na construção de todos os objetivos a que nos proponhamos. Com a confiança da certeza de que para crescer e aprender, basta acreditar e arriscar.

Ainda voltando à situação que inspirou este texto e em jeito de resumo: Se fosse com o meu filho eu diria: “Estás tão bonito hoje. As cores da roupa que escolheste ficam-te mesmo bem”. Como foi comigo, que me aproximo a passos largos dos 40, aquele “Achei-te bonita”, veio na medida certa. Aquela que em segundos, me levou ao topo do mundo.

Obrigada, rapariga desconhecida.

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