A boa da raiva.

Há poucas emoções mais avassaladoras do que a raiva.

A raiva faz-nos perder o controlo, tira-nos o filtro, tolda-nos a consciência. Faz-nos achar que somos poderosos, que metemos medo e que com isso ganhamos o respeito de quem nos afronta. Andamos longe, muito longe…

Apesar de ser uma emoção saudável e normativa (como todas as emoções são), a forma como é expressada torna-a, muitas vezes, numa das mais perigosas: cerca de metade dos episódios de raiva inclui gritar, cerca de 10% dos mesmos conduz a comportamentos agressivos.

É por isso útil pensar na boa da raiva e na melhor forma de lhe dar a volta, antes que ela nos tome de assalto e nos deixe de rastos. A nós e a eles (os filhos).

A cena pode passar-se assim: o(a) teu(tua) filho(a) está a ver televisão. Depois de lhe pedires para desligar a dita porque está na hora do jantar ou, porque já houve tempo de antena que chegue, resolves carregar no botão. Eis que, num passe de mágica, a Sra Raiva toma conta do teu doce rebento, franze-lhe o sobrolho, cerra-lhe os punhos, fá-lo soltar uns grunhidos valentes… E ala, que lá vai ela!

Tu, atónita(o), não sabes se agarras a criança e a raiva antes que as duas fujam, se as atas à cadeira da sala para não fazerem mais estragos ou se, simplesmente, ignoras o circo e esperas que passe.

A primeira dica é: respira fundo. A segunda: respira fundo outra vez e pensa: “Eu consigo ser a calma no caos”. E é disso que eles afinal mais precisam. Depois, pode ser útil ter presente o seguinte:

As crianças e adolescentes sentem muitas vezes raiva e há sempre um motivo para que isso aconteça. Procura conhecê-lo e entendê-lo.

Não é a raiva em si que é um problema, mas sim a forma como é expressada. O teu papel é ajudar neste processo, mantendo as coisas no seu devido lugar e não permitindo que se quebre a vossa conexão.

É possível aprender a gerir a raiva. Não se trata de a esconder ou de a evitar, mas sim de lhe tirar o retrato, para melhor lhe conhecer as manhas: o coração acelerado, as bochechas a ferver, a visão turva… Ter conhecimento dos mecanismos fisiológicos que acompanham a raiva, faz-nos sentir que temos a capacidade de os acalmar. Pode ser tornar mais consciente a respiração, conseguindo que se faça progressivamente mais pausada, pode ser “sair de cena” ou até contar até 10. Abrandar ajuda a deixar passar a onda e a pensar de forma mais clara e mais “morninha”.

E por último, mas tão, tão importante: a explosão enraivecida do teu filho ou filha, não é um ataque pessoal. É resultado de um episódio de descontrolo emocional, de quem está a crescer e a aprender a gerir-se por dentro. Tu, podes ser a rocha que acalma o curso das águas, mantendo forte a ideia de que o amor que vos une aguenta isto, e muito mais.

E já agora, na próxima vez que estiveres no trânsito e algum(a) imbecil se te atravesse à frente na rotunda, respira fundo, conta até 10 ou, em última instância, morde a língua. Eles, estão no banco de trás.

4 thoughts on “A boa da raiva.

  1. MT interessante. Eu ultimamente tenho conseguido estar calma. O nosso comportamento é o que pensamos. A mim tem me ajudado pensar que o adulto sou eu, logo vou ter de estar à altura e saber sar a volta. Nós mudamos e eles mudam. E a calma da mãe é a paz dos filhos….

    1. Obrigada Ana Catarina, pela partilha. Acho que essa é uma das grandes lições a aprender: o foco no nosso comportamento, que é afinal a única coisa que podemos controlar. Ao conseguir trabalhar esta consciência, estamos mais tranquilas e disponíveis para receber as diferentes emoções e comportamentos dos nossos filhos. O rastilho acaba por apagar-se, bem antes da explosão… E todos ficamos a ganhar. 🙂

  2. Gostei muito deste texto! Parece que foi feito para mim, que “fervo em pouca água” e por vezes descontrolo-me. Como tenho uma filha em plena adolescência, que me confronta diariamente, estes momentos repetem-se frequentemente. Vou tentar seguir os conselhos dados – o problema será lembrar-me deles na “quentura” do momento…

    1. Obrigada Ricardina, pela partilha. Esse também tem sido o desafio aqui por casa e tem implicado de nós muita aprendizagem. A parte boa é que é possível, e à medida que vamos ficando mais conscientes da importância de mantermos a calma quando eles já estão em “ponto de rebuçado”, aprendemos a agir, em vez de reagir. A coisa não é fácil, mas faz-se… 🙂 beijinhos (e beijinhos à adolescente mais gira :))

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