Hi-tech, mas pouco.

Temos em família um princípio de ouro: a tecnologia não substitui as pessoas. Agarradas a este princípio vêm algumas regras, definidas com o mais novo cá de casa.

A saber:

  • Durante a refeição não há tablets, não há televisão, não há telemóveis;
  • Uma conversa com alguém presente não se interrompe para atender uma chamada ou espreitar o facebook;
  • O tablet tem acesso controlado (quase inexistente) e a televisão limita-se a 1h/dia ao fim de semana e a uns 30m durante os dias da semana, quando e se for possível, porque o jantar às vezes demora. Fora estes momentos, por norma, a televisão está sempre desligada e o tablet guardado (dica de ouro – nem se lembra que ele existe);
  • Os canais de televisão infantis são limitados ao Panda, ao Disney e à RTP2 e no Ipad não há jogos instalados (há umas aplicações de pinturas e de histórias);
  • Na sala há uma estante cheia de jogos como o mikado, cartas, xadrez, dominó, o jogo da memória… e são eles que nos fazem as alegrias ao serão, sentados no tapete da sala.

Muitas vezes, assaltada pelos apelos do mundo digital, questiono esta nossa estratégia: “Será que o Manel vai ser um “totó” no que se refere às competências tecnológicas?” ou “Será que vai estranhar quando lhe for solicitado dominar estas ferramentas, na escola ou no trabalho?”.

Felizmente, isto dá-me poucas vezes. Infelizmente, porque assisto vezes sem contas ao lado mau de uma má utilização das tecnologias.

E o lado mau é mesmo muito mau. É terrível.

Consegue pôr famílias inteiras à mesa sem que as pessoas olhem umas para as outras, sem que falem de banalidades e muito menos de coisas importantes.

Consegue pôr adolescentes a adormecer às 4 da manhã em dias de semana, impedindo-os de ter um sono reparador, como todos os sonos devem ser.

Consegue provocar nos miúdos, comportamentos típicos da síndrome de abstinência de uma substância psicoativa: descontrolo motor, ansiedade, irritabilidade, nervosismo, mudança de humor…

Consegue pôr os pais a dizer aos filhos: “Já vou”, demasiadas vezes, porque é preciso enviar um email fora de horas ou ver o número de likes da selfie tirada no último almoço de trabalho.

E com tudo isto consegue, lentamente, fazer com que nos esqueçamos que somos, por natureza, seres sociais e que por isso, precisamos do afeto e do contacto emocional e físico, quase como quem precisa da água para viver. Porque é afinal na relação com os outros que crescemos todos os dias e que nos tornamos seres humanos melhores.

O Manel tem cinco anos e sabe que o pinguim-macaroni vive na Antártida e que no nosso terraço crescem os melhores morangos do mundo. Sabe dizer qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu na escola e partilhar o momento mais triste que teve. Sabe dar abraços e dizer os nomes dos nossos amigos todos. Pergunta o que vamos levar quando vamos jantar a casa de alguém e reconhece na nossa expressão facial que o dia não nos correu bem.

O Manel tem cinco anos, tem o coração apinhado de gente e sabe a coisa mais importante de todas: ser feliz, como ninguém.

Não me lixem, os computadores não fazem isto.

 

“Tecnotóxico”

Andamos a fazer asneira da grossa. E vamos pagá-la cara.

Quem me conhece sabe que gosto pouco de me manifestar sobre a forma como cada um vive a sua vida, mas há uma situação particular, em que a coisa muda de figura e quase me salta a tampa.

Falo das vezes em que entro num restaurante e me deparo com famílias inteiras à mesa, completamente alienadas do que as rodeia e, sobretudo, de quem as rodeia. Ninguém fala com ninguém, ninguém olha para ninguém. Os dedos sim. Mexem-se. Teclam a uma velocidade estonteante e deslizam, ecrã brilhante acima, ecrã brilhante abaixo… E aqui, meus senhores, é ver-me a lançar olhares inquisitórios e reprovadores, sem o menor pudor. Não que as pessoas percebam, de tão absortas que estão, mas ainda assim correndo o risco de qualquer dia, levar com uma resposta torta. Merecida, eu sei, mas é mais forte do que eu…

Até lá e até que me batam, continuarei a dar o meu melhor, nesta minha missão de salvar o mundo do lado negro da tecnologia, que os sacanas do tablets e dos smartphones insistem em impingir-nos.

Agora, depois do necessário desabafo, passemos aos factos, antes que me acusem de má língua…

Sempre que interrompemos uma conversa com alguém que está à nossa frente, para atender o telefone… a tecnologia afasta-nos dos outros.

Sempre que nos sentamos à espera de uma consulta e a primeira coisa que fazemos é tirar o telefone da mala… a tecnologia afasta-nos de nós próprios.

Sempre que não temos a coragem de dizer o que sentimos e preferimos mandar um sms…a tecnologia faz-nos perder competências.

Sempre que achamos que a nossa vida é muita boa porque a foto do passeio de domingo na praia tem imensos likes… A tecnologia faz-nos achar que somos os maiores.

Sempre que levamos o tablet para o quarto para aproveitar mais uns minutinhos de deriva online…a tecnologia tira-nos o sono.

Sempre que deixamos de apanhar sol, ou chuva, ou vento na cara, para ficar no sofá a ver televisão…a tecnologia deixa-nos doentes.

Sempre que dizemos aos nossos filhos “espera aí, deixa-me só ver uma coisa no computador!”… a tecnologia rouba-nos o melhor que a vida nos dá.

A tecnologia pode não fazer nada disto e se assim for, estamos com certeza no bom caminho, o de a por no seu devido lugar. E esse lugar é acessório, é provisório, é material, é descartável.

As pessoas não. As pessoas riem, as pessoas choram, as pessoas têm cheiro, sentem coisas, dizem disparates, pedem desculpa, emocionam-se…

As pessoas podem fazer do mundo um lugar melhor.

A tecnologia torna-o eficiente. E isso, felizmente, ainda é muito pouco.

 

Nota: O filme Wall E foi lançado em 2008, altura em que começavam a surgir os primeiros smartphones, tal como os conhecemos hoje. Futuro longínquo na altura? Nunca estivemos tão perto…

O mundo virtual e as relações reais.

Facto: A maioria dos jovens tem acesso à internet mediante recurso a tablet, smartphone ou computador próprio.

Questão: Estaremos nós, e eles, conscientes do perigo que o mundo digital pode efetivamente representar?

Um estudo recente realizado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), mostra-nos que três quartos dos jovens até aos 25 anos, apresenta sinais de dependência digital, que podem assumir-se através do nível de importância atribuído ao computador ou ao telemóvel, do isolamento social e de sintomas de irritabilidade, agitação e agressividade, sempre que o recurso a estes dispositivos não é possível. Para além disso, outros resultados ao nível da neuroimagem mostram-nos que a utilização excessiva de gadgets, afeta o funcionamento cerebral no que se refere, por exemplo, ao controlo dos impulsos, da mesma forma que a cocaína.

No trabalho que desenvolvo com adolescentes tenho a percepção clara da dimensão que o telemóvel assume nas suas vidas. É através dele, na maioria das vezes com recurso à internet, que se conectam com outros jovens, que partilham músicas, vídeos e que criam uma espécie de “sítio especial” que serve também para crescerem, num processo de identificação e de autonomia importante.

O problema surge quando este espaço se torna o único e quando impede que outras aquisições, ao nível do funcionamento social, aconteçam.

A dependência da internet é uma adição com características próximas das que acontecem com outras substâncias, conduzindo a comportamentos de utilização compulsiva, com efeitos impactantes no desenvolvimento psicoafectivo e social.

Ora, numa altura em que as sociedades se debatem com dificuldades que favorecem o isolamento e a falta de espaços de partilha familiar, o mundo online ganha terreno e as novas tecnologias dão resposta às vontades de quem quer crescer depressa.

Como poderão então os pais e os educadores fazer face a estes desafios, de forma a contribuir para uma utilização saudável, consciente e informada destes recursos, sem que seja necessário fazer deles o “mal do século”? E aqui, como na maioria das questões relacionadas com os filhos, um das ideias chave é prevenir.

Seguem por isso, algumas estratégias de prevenção:

  • “As crianças vêm as crianças fazem.” Procure que os seus comportamentos sejam o espelho dos comportamentos que gostaria de ver nos seus filhos e neste caso, isto significa que é importante que em família se leia, se dedique tempo ao outro, se pratique desporto ou alguma atividade física e se façam programas em conjunto, de carácter lúdico e/ou cultural, privilegiando as atividades ao ar livre.
  • Fale abertamente sobre as razões e os riscos que motivam a importância do estabelecimento de tempos e momentos para a utilização da internet. Estes tempos podem ser negociados, consoante a idade da criança e já agora, em relação aos momentos, vale a pena lembrar que o momento da refeição deve ser um espaço de comunicação face-a-face por excelência e por isso um momento “tecnologia não entra”.
  • Incentive, desde cedo, todas as atividades que permitam o desenvolvimento de competências de socialização, sejam jantares da família com amigos, festinhas da escola, acampamentos de grupo, enfim, todos os momentos que favoreçam a ligação com o outro, a resolução de problemas e a vivência de momentos relacionais significativos.

Felizmente, sabemos hoje que um desenvolvimento saudável na infância e na adolescência depende em grande parte da qualidade da interação social e da criação de uma rede de suporte, que nos protege e nos ampara sempre que a vida nos traz dissabores.

No caso dos jovens, tal como no caso dos adultos, ter construído esta rede de pessoas que nos são significativas e afetivamente relevantes, pode significar a vontade de nos mantermos conectados com o mundo real, ainda que de vez em quando nos saiba bem uma “espreitadela” a tudo o que de fantástico acontece por detrás do ecrã.