Entre nós, há um bebé.

Preparamo-nos para tudo durante uma gravidez.
Fazemos uma lista dos sinais de alerta que podem significar risco, aprendemos a contabilizar o número de mexidas na barriga, a registá-lo num livrinho e a comer um chocolate sempre que o miúdo esteja estranhamente mais calmo. Compramos os melhores (e maiores) soutiens, espantadas com a inesperada voluptuosidade, besuntamos a barriga com toneladas de creme gordo, para evitar as estrias e até vamos, devagarinho, conformando-nos com a ideia de ter de gramar com um sem fim de malta a enfiar-nos o dedo na vagina nas idas ao hospital e durante todo o internamento.

Pelo caminho, vamos também aprendendo mais sobre o recém nascido.
Falamos sobre o choro, sobre mamas, sobre o choro por falta de mamas e ainda arrecadamos a preciosa informação de que existem praí uns 30 tipos de mamilos, e que alguns poderão facilitar-nos ou dificultar-nos a vida daí para diante. Aprendemos a mudar a fralda, a conhecer as melhores marcas do mercado para evitar as fugas, sabemos medir a temperatura da água ao milésimo de grau centígrado e até a fazer uma “argolhinha” com os dedos para não deixar escorregar o bebé durante o banho (ainda que qualquer semelhança entre um nenuco e um bebé, seja pura coincidência). Iniciamos uma biblioteca privada e especializadíssima que nos acompanhará para o resto da nossa existência e que promete ter resposta pronta para todas as dúvidas: o sono, a falta dele, a fome, as rotinas, as birras, a disciplina, a entrada na escola, os irmãos, os tempos livres, and so on… and on, and on…

Falamos muito sobre quase tudo e passamos a pente fino os principais desafios da maternidade, para depois nos esquecermos de um: aquilo que se transforma na relação amorosa e sexual com os nossos/as parceiro/as.

Pois é, a boa da sexualidade. Logo ela que tantas vezes é negligenciada, como se fosse o parente pobre da educação. Logo ela, que mexe com tudo o que somos e impregna de uma energia incrível, aquilo que sentimos enquanto pessoas e a forma como nos relacionamos com os outros.

E como é que a chegada de um bebé podia ser imune a isto? Não podia.

A sexualidade no pós parto tem de ser tema de conversa e de reflexão, nos cursos, entre os amigos, na relação, para que o tempo e o que não se perguntou, não se transformem numa espécie de elefante no meio da sala e com ele remetam ao silêncio todos os que a vivem, transformando as naturais mudanças/ ajustamentos, em barreiras difíceis de transpor. E as barreiras, às vezes, crescem em ideias feitas com estas que às vezes ouço por aí…

Quarenta dias depois do parto, a mulher pode retomar a sua vida sexual.
Pode, não quer dizer que tenha de o fazer. A prolactina, hormona responsável pela produção do leite materno é diminuidora do desejo sexual, com natural impacto na lubrificação da vagina, o que pode tornar a penetração mais dolorosa e a mulher menos predisposta à relação sexual. Para além disso, a intensidade e a exigência das transformações ocorridas durante a gravidez, no momento do parto e no puerpério, podem significar à mulher a necessidade de preservação de um espaço de retorno a si própria, do acarinhar da relação com o próprio corpo e de integração e entendimento dos novos desafios, nos quais o bebé se torna muitas vezes figura central. Pode por isso restar pouco espaço para a relação com o/a parceira e isso deve ser entendido, respeitado e muitas vezes, desdramatizado por ambos. Retomar a vida sexual sim, sempre que haja essa indicação médica, mas sobretudo apenas e quando a mulher assim o sentir.

E importante não deixar que o bebé desvie a atenção da relação e a importância de investir na relação com o/a parceiro/a.
Quando se nasce mulher, nasce-se também com a ideia de desejabilidade social, de cuidadora exímia, de mãe extremosa, de amante sensual… no matter what. E depois, quando por razões mais do que óbvias, nada disto é possível, vem a culpa que se carrega em silêncio e se disfarça de “sins” e de lingerie nova e de casa arrumada. A experiência de nos tornarmos mães, por mais que isso seja desejado e verdadeiramente apaixonante, é mais ou menos como ser albaroada por um camião em desgoverno, que nos despeja em cima um sem fim de caixotes cheios de informação variada, que é preciso digerir e arrumar devagarinho e a seu tempo, sem pressão. O sexo pode aqui não ser efetivamente o mais importante.

Depois do parto, a vagina da mulher muda irremediavelmente.
Os músculos do assoalho pélvico sofrem alteram-se, não apenas devido à passagem do bebé, mas também devido ao aumento de peso da mãe e às inúmeras mudanças hormonais ocorridas. Esta é uma das questões que por vezes preocupa as mulheres (e os homens), ainda que isso não seja muitas vezes assumido. E esta questão é tão pertinente que ainda, em alguns contextos, (e sobretudo perpretada por médicos homens), que há quem, depois de uma episiotomia, não se esqueça do “ponto do marido”, apertando e reduzindo a entrada da vagina com mais um ponto, como forma de garantir o seu estreitamento para um maior prazer do parceiro sexual, e sem que tal tenha sido consentido pela mulher. E isto, meus senhores, não tem outro nome que não, violência obstétrica. Na maioria das situações, as mudanças não provocam alterações significativas e, com o passar do tempo e a recuperação natural do corpo, as mesmas são minimizadas, sobretudo pelo facto da vagina se tratar de uma região em que os músculos são elásticos e têm a fantástica propriedade de relaxar e contrair. Existem por isso, exercícios específicos para o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, como os exercícios de Kegel, que serão fundamentais a um maior bem estar e à prevenção de problemas como a incontinência urinária ou a dor durante a relação sexual com penetração.

Depois de um bebé a relação amorosa nunca mais será a mesma.
O nascimento de um bebé e a experiência da parentalidade altera profundamente quem somos e a forma como pensamos a relação connosco e com os outros. Ter um bebé em casa, sobretudo nos primeiros tempos, altera toda a rotina familiar, interfere nos padrões de sono, implica um sem fim de reajustes e, sobretudo, assume muitas vezes contornos de uma verdadeira montanha russa emocional. Os silêncios, a falta de espaço íntimo, os medos relativos aos novos papéis, a falta de disponibilidade física e mental para o/a parceiro/a, podem efetivamente fazer mossa na relação. Tornar isto consciente, procurar partilhá-lo, sempre e quando nos for possível, e ser empático naquilo que o outro poderá estar a sentir, serão sempre ingredientes indispensáveis ao “surfar” da onda avassaladora de nos tornarmos mães e pais, sem perdermos de vista as mulheres e os homens que somos.

E se entre nós (vós) há um bebé, muitas vezes haverá também amor, amizade, companheirismo, cumplicidade, aceitação… E sempre que assim for, o bebé existirá e crescerá, na medida proporcional do amor que o gerou. Até aos fim dos tempos, ou até que o amor e o tempo, se transforme não naquilo que se esperava, mas naquilo que aconteceu. E isso, pode ser bonito também.

Histórias de sexo e de género.

O João chegou para atendimento. O motivo não era diferente de tantos outros.

O João estava apaixonado e queria iniciar a sua vida sexual. Tinha combinado com a namorada que era sua a tarefa de arranjar preservativo.

Na palestra da escola já tinham aprendido tudo. A confirmar a data de validade, a tirá-lo da embalagem, com cuidado, a segurar o reservatório, para não ficar com ar, para só depois o desenrolar.. O João e a namorada estavam informados e por isso, preparados.

Depois de conversarmos um pouco, o João guardou no bolso alguns preservativos mas, ao invés de se levantar, porque a fila lá fora era grande, o João ficou.

Perguntei-lhe se tinha mais alguma dúvida. E foi aí que a expressão do seu rosto alterou, que as mãos suaram e as palavras não saíram. Havia alguma coisa a angustiar o João e nós precisámos de tempo.

– “Sabe, o problema… O problema é que eu gosto dela. Mas eu gosto MESMO dela!”

– “Mas isso é bom João. É uma decisão importante…”

– “Pois, só que aqui… aqui o rapaz sou eu! E é suposto eu saber como se faz, certo?”

A ficha caiu-me.

O João estava a sofrer com aquilo que os outros esperavam de si. Neste caso, com aquilo que o seu grande amor esperava de si. Com a agravante de que ele era “o homem daquela relação.”

A sexualidade na adolescência é muito marcada por influências sociais, culturais e pelas expectativas às quais os jovens acreditam ter de corresponder e que obedecem a padrões pré definidos pelo sexo a que pertencem.

Às raparigas, pede-se ainda, que sejam comedidas, maduras, que valorizem os afetos e não o prazer ou o desejo, não devendo nunca deixar escapar qualquer manifestação explícita de interesse por um rapaz.

Já os rapazes, querem-se excitados, masculinos e fortes. É a eles que cabe a tarefa de conquista da rapariga, desvalorizando ou disfarçando quaisquer sinais de emotividade. A masculinidade é avaliada pelo número de conquistas ou “curtes” exibidas, a par das histórias, verdadeiras ou não, contadas aos colegas nos balneários.

As especificações que envolvem os papéis sexuais acima descritos, fazem parte da nossa existência enquanto seres humanos e, apesar de algumas transformações ao longo da evolução das sociedades, existem traços que permanecem estáveis e que perpetuam formas de agir e reagir sexualmente, consoante se seja homem ou mulher.

Experimentem perguntar aos vossos/as filhos/as, como é conhecida entre o grupo, uma rapariga que tem muitos namorados. E um rapaz? A resposta continua a ser, invariavelmente, a mesma…

Estes estereótipos, difundidos e alimentados pelo grupo de pares, assumem muitas vezes contornos de um manual de instruções e, inevitavelmente, exercem influência na forma como os adolescentes vivem a sua sexualidade e como a percepcionam nos outros.

Saber disto é não dizer aos meninos quando se assustam, que têm de ser uns valentes porque têm de proteger as meninas. É deixá-los chorar sempre que queiram e verbalizar o que sentem, o que os magoa, sem acharmos que têm uma “sensibilidade” estranha, feminina…

Saber disto é deixá-los crescer na certeza de que é seu o direito de não saber como se faz, o direito de pedir ajuda e o direito de viver uma sexualidade que é única e que é livre do orgão genital com que nasceram.

E finalmente, não saber disto pode significar que um dia, se a vida se fizer mais difícil, uns copos atrás de um balcão de um bar se tornem a solução mais fácil e eficaz. Afinal, só as mulheres é que ficam deprimidas…

 

P.S – Coisas boas que ajudam a pensar sobre o que andamos a dizer aos meninos e às meninas…