Há histórias que não foram feitas para crianças.

Dormes nos lençóis do Mickey, ou naqueles dos carrinhos vermelhos ou nos que foram bordados pela tua bisavó. Acordas de manhã com um sussurro ao ouvido que te diz: “Bom dia, meu amor maior…” Escolhes a tua roupa preferida e procuras sempre as peças que tenham a cor verde. Estão dobradas, arrumadas e cheiram a lavanda, tal como o saquinho aromático que tens na gaveta. Gostas de espreitar o frigorífico e escolher “uma fruta boa”, sempre que apetece. Tens os amigos, os avós, os tios e um sem fim de pessoas que te querem bem, sempre à mão de semear. Tens-nos a nós. Que te amamos mais do que tudo e te enchemos o coração de abraços e de mimos. Vais à escola e de lá vens cheio de histórias e sonhos para contar. Trazes desenhos pintados, brinquedos emprestados, convites para a festa de aniversário seguinte. Gostas dos jantares demorados no terraço, do cheiro a maresia e do sol que se põe connosco à mesa todas as noites. Fazes planos para o dia seguinte e desejas que a vida seja sempre assim.

És feliz. Como todos os meninos do mundo mereciam ser.

Mas eles não são. Eles adormecem ao som de uma espécie de fogo de artifício, são arrancados da cama durante a noite sem que lhes expliquem porquê. Respiram o terror dos pais e aprendem a amarga sensação de impotência. Sonham com o colo quente que tiveram um dia. Perdem o rasto aos amigos, veem a escola onde aprenderam a ler, desaparecer de um sopro, de estrondo e de pó. Eles, fogem de tudo e de todos e entram, assustados, num mar escuro e instável, porque o que se passa em terra firme é tão mais assustador.  Eles, têm o olhar baço e escuro, cheio de nada, porque afinal já viram tudo o que nunca deveria ser visto. Eles choram, eles gritam. E pedem para acordar do pesadelo todos os dias. Mas ninguém os atende, ninguém lhes passa a mão no cabelo e nunca ninguém lhes sussurra: “Já passou, meu amor maior…”

Eles não compreendem. E eu também não. Porque sei que o lugar onde se nasce é apenas e só uma questão de sorte, aleatória, injusta, madrasta, como só a sorte sabe ser, mas não sei porque permitimos que assim se mantenha, como um fado de vida que toca, mas não nos toca a nós.

Eles são meninos como tu, com a diferença de que eles só queriam que a vida não fosse sempre assim.

Nota: Há vídeos necessários como este. Que nos lembram que, infelizmente, a vida não é para todos como é para nós e que há histórias que não foram feitas para crianças. Mas elas vivem-nas. Obrigada Malak, pela força e pelo sorriso, mesmo já tendo visto o pior lado do mundo…