Aos 37!

Aos 17 anos apaixonei-me por este poema. Fazia parte do manual de Português do 12º ano.
Não lhe conheço o autor* mas tenho-o na cabeça e cito-o de cor há 20 anos.
Hoje, aos 37, compreendo-o como nunca porque sei, que às vezes, as palavras não dizem tudo, que o tempo corre e torna tudo mais sereno e que o azul dos dias seguintes é afinal tudo o que temos.
Assim seja, porque a vida é boa assim…
“Aqui cheguei,
aos limites, onde não é preciso falar,
tudo se aprende com o tempo e o oceano.
a lua aparecia
com as suas linhas prateadas
e aos poucos, desfazia-se a sombra
com um golpe de onda
e na varanda do mar, o dia abre as asas,
nasce o fogo,
e tudo continua azul, como amanhã.”
* Depois da partilha deste poema, as palavras ganham “dono”, como tão honrosamente merecem.
E sim, só podia ser mesmo do Pablo Neruda. Obrigada Dina! 🙂

Voar sem capa.

Inscrevi-me no mestrado em 2012, motivada pela oportunidade de validar a experiência profissional já desenvolvida em contexto escolar. Estava no 8º mês de gravidez.

Convencida com a ideia que me tinham “vendido”, de que a maternidade era um estado de graça constante e que não havia nada de que tivéssemos de abdicar nesse caminho (desde que a isso estivéssemos determinadas), lá fui eu, ingénua, a pensar: Olha que boa ideia para aproveitar o tempo da licença de maternidade!

O expectável aconteceria, no mês de Setembro seguinte: matrícula congelada. Por tempo indeterminado.

Acredito que a maternidade nos traz uma espécie de super-poderes: a capacidade de estar dias, meses, anos, sem dormir 6 horas seguidas e ainda assim não falhar uma noite, o dom de entender o choro, de ler a expressão facial, de conhecer de cor a temperatura do corpo e de pressentir, sempre que estão a tramar alguma… São tantas as aprendizagens que se fazem e as forças que se descobrem que, às vezes, corremos o risco de achar que somos super-mulheres.

Não somos.

Não vamos conseguir fazer tudo no momento certo e da forma como planeámos. Não vamos conseguir sentir-nos sexy, só porque é preciso manter a chama acesa. Não vamos conseguir trabalhar até tarde todos os dias e não vamos cumprir todos os prazos que estabeleçamos. E vamos sentir, muitas e muitas vezes, que não conseguimos estar inteiras em nada, porque temos os pedaços espalhados por aí. Assim será, até que, devagarinho, consigamos aceitar tudo o que em nós mudou e acarinhemos as falhas como parte do processo, entendendo-as como forças para o caminho.

Aprendi com o tempo, que a maternidade precisa de tempo e que sempre que tentamos ser menos exigentes connosco e nos borrifamos naquilo que esperam de nós, aproximamo-nos do que de melhor temos cá dentro e damos aos sonhos a tranquilidade de poder esperar, em fogo lento, que nos aquece mas não nos consome.

Passaram-se 5 anos. Já leio outras coisas que não os livros do Mário Cordeiro, já vou a concertos, já faço planos de viagens com amigos, vou começar as aulas de pilates e até já escrevo num blogue.

Passaram-se 5 anos e no dia 12 deste mês defendi a minha tese de mestrado. E hoje, eu que todos os dias me orgulho dos feitos de quem me rodeia e lhes invejo a força e a coragem, não vou envergonhar-me de dizer que me sinto também, orgulhosa de mim.

Por todas as razões certas. Por ter sabido abrandar, sem desistir. Por ter sabido aceitar, sem esquecer e por continuar a correr atrás de tudo o que me faz sentido.

Por te trazer comigo. Tu, que serás sempre, o meu maior feito.

12,11,10…

Estes últimos dias de 2016 foram tramados.

Para além da correria de sempre, que ainda que tenha coisas muito boas, nos suga até ao tutano: presentes, comida, família, jantares da praxe… “respira”. Presentes, comida, família, jantares da praxe… “respira outra vez”. Presentes, comida, família, jantares da praxe… “cai para o lado, que já acabou!”, calhou-me uma valente gripe no sapatinho, o que, aposto, tem dedo de um Pai Natal ressabiado com a carta que lhe escrevi. Mas adiante, que a vida não tem espaço para rancores. Estamos quites, “Barbuchas”, ok?

Voltando à gripe, ainda hoje ando a carpi-la, na velha máxima “abafa-te, abifa-te e avinha-te”. (cá entre nós, valha-nos o “avinha-te” que sempre dá para a malta desculpar uns copos), o que não me permitiu sequer pensar numas palavras bonitas, inspiradoras e cheias de boas intenções para 2017. Como gostaria e como vocês tanto merecem.

Ainda assim e tendo em conta as claras limitações físicas do momento, aqui vão as doze passas para o ano novinho que aí vem:

  1. Hummm, agora é que a arranjei bonita…Não sei por onde começar!

  2. Ah sim… Saúde. A saúde é o bem mais precioso, porque nos traz a possibilidade e a força para ir atrás de tudo o resto (vá pessoal, toca a comprar as cuequinhas azuis…);

  3. Amor. Das pessoas e dos gestos. Amor companheiro, amor amigo, amor cúmplice, amor depositado na mais pequenina coisa que fazemos, amor capaz de deixar os anos passar. E permanecer;

  4. Amigos novos. Amigos velhos, chegou a hora da despedida ou pensavam que ia levar essas carcaças para 2017? Brincadeirinha… Vocês fazem a vida valer a pena e têm, cada um de vós, lugar cativo neste meu coração feliz. Levo-as para o ano que agora começa, tal como as levarei sempre por mais anos que passem, minhas pessoas queridas. Podemos sempre arranjar mais compinchas para a pandilha, porque também é muito bom deixar que uma relação, na idade adulta, se conheça e se transforme, naturalmente, em amizade, provando-nos que o mundo está cheio de gente boa;

  5. Trabalho. Mas trabalho dos bons, daqueles que nos faz feliz, daqueles que nos alimenta a vontade de aprender e que não deixaríamos de fazer, mesmo que raspássemos uns milhões. Ok, menos horas talvez, mas ainda assim a querer trabalhar, porque tenho um trabalho de que gosto. Muito;

  6. Dinheiro. Sim, dinheiro é bom. Não é preciso muito, apenas o suficiente para a malta não andar a contar os tostões ao fim do mês (o que é absolutamente deprimente), e para ir fazendo um pé de meia que dê para fazer uma ou duas extravagâncias ao longo do ano (ao critério de cada um);

  7. Viagens. Extravagância top para mim, apenas e só porque sou das que tem de contar tostões ao fim do mês. Mas uma viagem a três seria a cereja no topo de 2017;

  8. Ainda só vou a meio disto? E agora? Passo o ano a queixar-me dos sonhos por concretizar e na hora H, fico sem inspiração… Ok, o nariz entupido ocupa-me a atenção dos neurónios… avancemos pois, que com esta distração, já lá vai menos uma…

  9. Desafios. Não sei como não me lembrei logo disto. Há poucas coisas que deem mais adrenalina do que nos desafiarmos a nós mesmo e nos pormos à prova. Friozinho na barriga, coração palpitante, sensação de conquista sempre que a coisa corre bem e nos superamos, a nós e aos nossos medos. Gosto, gosto muito. Bring it on, portanto!

  10. Última passa. Epah esta tem de ser tipo “tchanam” para a coisa acabar em grande… Coragem. Talvez porque todos os anos trazem o futuro que não se conhece, que não se controla e isso, às vezes, assusta. Coragem pois, para que com garra, façamos frente a tudo e saibamos sempre retirar o melhor de todas as lições;

  11. Porra, que faltam duas. Confundi isto com os 10 mandamentos. São as passas das 12 badaladas Rita, são as passas…

  12. E na última, proponho um refresh de todos os desejos e, sobretudo, que se acredite. Acreditar é um bom desejo. Nele cabe a vontade, cabe a força de não desistir, cabe a coragem de correr atrás. Qual balão de oxigénio que empurra os sonhos para cima. Assim eles sigam e subam.

Et voilá, já cá cantam todas e este texto ficou maior do que estava previsto. Mas já que assim foi, proponho-vos o mesmo exercício para que hoje, as brancas a meio das mastigadelas de passas possam ser residuais.

E claro, mesmo que as engulam todas de uma vez, o importante é mesmo confiar que 2017 será sempre uma oportunidade para nos tornarmos numa melhor versão de nós próprios, que respeite quem somos, que acarinhe as intenções que temos e nos permita crescer por dentro e desejar que os anos continuem fazer-se irrepetíveis.

Posto isto, que seja um ano do caraças! (E desculpem qualquer disparate que aqui tenha sido dito. O responsável é, muito provavelmente, o propionato de fluticasona…)

 

 

Tribos sem índios.

Ela apanhava-me em casa todas as manhãs para seguirmos juntas para o liceu. Vestíamos camisa de xadrez, larga, calças de ganga e ténis AllStar. À tiracolo, uma bolsinha a puxar para o hippie, completava o figurino. Casaco nem vê-lo. Fizesse chuva ou um frio de rachar. Nada que não se aguente aos 16 anos, porque o importante mesmo, é dar o corpo ao manifesto.

Nos intervalos das aulas, encontrávamo-nos todos junto ao parapeito da janela que dava para o corredor do refeitório. Comíamos croissants de massa folhada a meio da manhã. Éramos um “bando”. Cúmplices nos gestos, na música, nos gostos. Parceiros nos sonhos, nos planos para as férias e a achar que teríamos sempre todo o tempo do mundo. Não tivemos, mas ainda assim, aproveitámo-lo bem.

A adolescência representa talvez, no ciclo vital, o período de desenvolvimento mais desafiante e exigente do indivíduo, pela natureza das transformações que nela ocorrem. Uma dessas transformações, muitas vezes a que causa maior impacto na família, é a que ocorre ao nível das relações sociais, num processo de alargamento das crenças e valores, em que os amigos assumem o papel principal.

Um adolescente de 16 anos quer ainda misturar-se na multidão, ser aceite e respeitado pelo grupo de pertença e isso implica muitas vezes comportar-se como os amigos e adotar os comportamentos preconizados pela maioria. É o grupo que afinal condiciona as relações sociais dos seus membros e que define o manual de normas – valores, estilos de vida, moda, música… entendido e aceite por todos. E esta sensação confortável de que “este é o meu lugar” é de uma enorme proteção para o jovem, contribuindo para o seu bem estar e permitindo que se construam relações de proximidade e suporte significativas.

Por outro lado, como já era de esperar porque tudo tem o seu revés, o conformismo ao grupo pode tornar-se tóxico, sempre que coloque em causa os valores do adolescente e o obrigue a adoptar comportamentos com os quais não concorda, transformando-o em alguém que efetivamente não é. Importa por isso pensar de que forma podemos estar próximos, contribuindo para que se “enturmem” sem perder aquela que é a sua individualidade:

Treinar competências pessoais e sociais, estimulando a tomada de posição e a auto-afirmação no palco lá de casa. Podemos não concordar, podemos achar que têm o mundo no umbigo, mas é seu o direito de defenderem e expressarem aqueles que são os seus valores;

Alargar o círculo relacional da família. Viver numa redoma pais-filho(s) limita a possibilidade de interação. Quando os pais têm também eles relações significativas fora do seio familiar e se envolvem em projetos na comunidade, permitem aos filhos movimentar-se em diferentes grupos e ter diferentes experiências de socialização;

Conhecer a companhia dos filhos e convidá-la a entrar. Tenho um amigo na casa de quem eram sempre feitas as jantaradas de grupo da universidade e há pouco tempo, quando me encontrei com a mãe, valorizei-lhe a paciência dessa altura (a casa ficava em “estado de sítio”!), ao que ela me respondeu: “Assim tive oportunidade de vos conhecer a todos e isso deixou-me sempre mais tranquila”. Saber quem são os amigos dos filhos permite-nos estar próximos das pessoas de quem gostam, compreendendo a importância que assumem nas suas vidas e o papel que desempenham no funcionamento do grupo.

E por fim mas não menos importante, lembrarmo-nos de como foi connosco. Da cumplicidade, dos risos, das lágrimas partilhadas nos desgostos de amor, das zangas que eram o fim do mundo, para no dia seguinte tudo voltar a ser como antes.

A experiência de um amigo é talvez a que mais nos ilumina por dentro e a que mais nos protege ao longo da vida, e para que esse milagre aconteça e eles escolham as suas tribos é preciso deixá-los seguir, explorar e conhecer… os desconhecidos.

Nota: E como já vem sendo um hábito bom, os créditos da imagem são da muito querida Lília Nunes Reis.

Adolescentes fomos nós

Adolescentes fomos nós.

“Não tenho que esconder a minha infância e muito menos a minha feliz adolescência , considerando “adolescência ” a partir dos 12 aos 16 anos, dado que nasci numa época onde se considerava a adolescência (ou nem nisso se pensava!) a partir dos 13 /14 anos de idade, quando aparecia a 1ª. menstruação e logo, as nossas mães diziam às amigas, classificando-nos de “mulherzinhas”…“Sabe vizinha Beatriz, a minha Nini, já lhe apareceu o período, já é mulherzinha!” … 

Foi o meu caso, e de todos os meus amigos da época…éramos crianças  até esse dia acontecer….Quanto aos rapazes a sua evolução era mais lenta e só se sabia que estavam a entrar noutro estádio da vida, quando despertavam pela cara, rompendo-a,  sinais de pequenas borbulhas, a que as pessoas chamavam “espinhas …” Curiosamente eles não eram chamados de “homenzinhos”, mas sim, dependiam da afirmação visível para todos…“Ah! já viu, o meu João já está a ficar um ” homem!”

Isto é apenas um esclarecimento , pois nós raparigas, não  recebíamos  quaisquer noções do que se passava no nosso corpo, e na transformação natural, que  nos deveriam dar,  informando-nos , quer pais, professores ou amigos mais próximos…das fases naturais do nosso crescimento fisico ou hormonal….Era os anos 40/50 , onde tudo era segredo, fazendo parecer o natural,  quase um pecado.

Eu, Nidia, a quem chamavam de Nini, era uma criança alegre, bem disposta, uma razoável estudante e com muitas amigas e amigos… Éramos quase irmãos sem maldade, embora acanhados  e desconhecedores da palavra sexo..

Eu, brincalhona e ladina como era, cedo fui “abrindo os olhos”, pois as minhas amigas eram sempre mais velhas do que eu, e foram as minhas “mestras”, nos conhecimentos que a minha mãe, não teve capacidade de me dar, apesar de ser professora… 

Enfim…os tempos falam por si….A Evolução foi-se fazendo pouco a pouco e as escolas foram abrindo horizontes… . 
Contudo, fui uma adolescente estudiosa, amiga dos seus amigos,preocupada com os outros, sonhando amor , como qualquer uma de nós…
Considero como o fato, que mais me marcou, o meu primeiro baile, pois nunca havia dançado com rapazes… Andava , então, num colégio misto, numa terra alentejana, Cuba, e o diretor, pessoa dura, esquizófrénico e sempre mal encarado, atendeu o pedido dos alunos e deixou que no largo espaço do recreio, fizessemos o nosso tão esperado baile. Tinha eu, então 16 anos…
Juntávamo-nos na casa de uma ou outra colega, e riamos só de pensar, o que nos poderia acontecer…
Vestidas como ” senhoras”, sapatinhos de meio salto, as primeiras meias de seda, lá nos juntamos aos garotos , vestidinhos a rigor com gavatinha e tudo, e dançámos até à meia noite… 
Havia rapazes já muito mais velhos , e até já homens feitos de vários anos , e nunca esquecerei a declaração de amor, dum rapaz com 22 anos, o Caixinha, que me fez uma linda declaração de amor..
Foi a 1ª. vez, que me encontrei numa situação igual, mas ” portei-me como uma senhora…”,
Agradeci dizendo que era muito nova e não queria namorar… 
Parece que recordando esta noite, ainda oiço as palavras do meu apaixonado::
 – « Nidia, és tão bonita…gosto tanto de ti…um dia quero casar contigo,..»
O nosso diretor portou-se muito bem, e no dia seguinte elogiou o nosso comportamento…”
Nídia, 86 anos

Kit para a vida.

Pensar na tua saída mexeu comigo.

Mexeu com o desejo de te conseguir proteger para sempre, mexeu com a certeza do teu salto para o meu colo e com a vontade eterna de que a vida fosse sempre assim.

Remexeu nas coisas que julgo certas todos os dias, porque tu estás aqui, ao alcance de uma festa no cabelo e de um abraço, quando saltas da cama todas as manhãs e gritas com garra: “Toca a acordar, mamã!”

Pensar na tua saída fez-me pensar na minha chegada a um tempo que se fará diferente. Não menos importante e acredito que não menos feliz, apenas diferente. Porque a vida segue o seu caminho todos os dias, e é afinal assim que deve ser.

Pensar na tua saída, com a distância do tempo, trouxe-me o privilégio de elaborar aquilo que gostava que levasses na bagagem e isso, acredito, tornou-me um bocadinho mais próxima de ser melhor mãe.

Tenho em mim a certeza que a tua capacidade de te fazeres ao caminho, dependerá, em primeira instância, da minha capacidade de te ajudar a crescer, confiante, seguro e com o coração cheio de afeto e de mimo.

E por isso escrevo, para não esquecer, aquilo que gostava de aprendesses neste nosso trilhar conjunto. Agora, enquanto o mundo inteiro ainda cabe na forma como me olhas…

  • Ser empático. Acredito que a empatia é uma maneira de amar os outros, sendo através dela que conquistamos coisas tão poderosas como a compreensão, a proximidade afetiva e o não julgamento. Quando conseguimos pensar o mundo sobre a perspectiva do outro damos um salto gigante na sua direção, e o que daí advém em termos relacionais, é quase mágico. Por isso, sê empático meu amor;

  • Confiar. Em ti e naquilo que serás capaz de fazer. Nos outros e naquilo que serão capazes de significar para ti. Mesmo que a vida e as pessoas te tragam desilusões, não existe bem maior do que a fé nos outros e capacidade de acreditar que tudo passa e que as coisas podem melhorar, mesmo quando se façam muito difíceis. Diz sempre o que sentes e confia, meu amor;

  • Cuidar de ti. O teu corpo e a tua vida serão sempre o teu maior bem. Protege-te e procura ser fiel aos valores em que acredites, defendendo-te de todas as agressões que possam pôr em causa o teu bem estar. Se estivermos bem connosco, seremos sempre melhores para os outros. Por isso, cuida de ti meu amor;

  • Ter fome de mundo. Explora tudo, não tenhas medo do que ainda não conheces e presta atenção a todos os detalhes. O que nos rodeia é de uma beleza incrível e eu gostava que soubesses olhá-la e entendê-la como um privilégio. Ama a natureza, viaja pela Europa, acampa com uma tribo do deserto, vive num mosteiro no Tibete… Tudo o que te permita sentir outros lugares, respirar outras vivências, conhecer outras pessoas, vai transformar-te para sempre. Tu és as experiências que vivas, por isso, mata a fome meu amor.

Pudesse eu preparar-te um kit para a vida, como quem prepara a lancheira do primeiro dia de escola, seriam estes os mantimentos que lá encontrarias. E mesmo sabendo que não há desafio maior do que este, tranquiliza-me pensar que assim dou corpo à minha missão e que por fim, tu aprenderás, com quem sou, a ser tu próprio. Sempre.

Que caibam em ti todos os sonhos do mundo, porque vida é mesmo bela, meu amor.

Bater asas. E voltar.

Preparam-nos a vida inteira para o momento em que os filhos chegam e nos assaltam o coração, mas ninguém nos prepara para quando saem de casa e o levam com eles.

Os filhos crescem, entram para a escola, alargam o círculo relacional, têm sonhos, querem tentá-los e… pimba! Eis que nos dizem um dia, assim, sem pedir licença, que vão à vida deles. E nós, num quase salto de fé, confiamos e deixamos ir.

A tão poucas vezes falada síndrome do ninho vazio caracteriza-se pelo desconforto emocional e sentimento de solidão, muitas vezes vivido pelos pais aquando da saída de casa dos filhos. E ainda que nem todas as situações sejam acompanhadas por sintomas de tristeza prolongada e depressão, esta fase de materialização da autonomia dos filhos, implica sempre movimentos importantes, de adaptação das famílias a uma realidade que é nova e por isso, desafiante.

Ou porque entraram na universidade, ou porque arranjaram trabalho, ou porque se apaixonaram, ou porque estão fartos de viver connosco (e ainda bem), eles vão-se embora e isso, não é necessariamente o fim do mundo. Aliás, pode até ser o princípio de muitas outras coisas boas. Para nós e para eles. Ora vejamos…

O caminho faz-se, caminhando. Se o processo de autonomia for sendo construído gradualmente, as mudanças far-se-ão de forma mais natural e a saída de casa será apenas mais uma delas. É importante que nos mantenhamos presentes e atentos, aproveitando todas as oportunidades para que se treinem para a vida adulta. Saídas à noite, fins de semana em casa de amigos, refeições preparadas pelos próprios… são pequenos passos que ajudam a uma maior responsabilidade da parte deles e a uma maior tranquilidade da nossa;

O recomeço acontece. Não só para eles, que se descobrem numa outra perspectiva: a da capacidade de cuidarem de si próprios. Mas também para nós, que nos confrontamos com vontades esquecidas e com a oportunidade de acarinhar outros projetos de vida e fortalecer outras relações. Aquelas, que no caminho da parentalidade perderam protagonismo, mas que pode saber bem recuperar;

A relação transforma-se. E às vezes até melhora quando eles saem de casa. Seja porque os respeitamos mais e temos mais facilidade em reconhecer a sua individualidade, seja porque cuidamos mais de nós e com isso ficamos disponíveis para os apoiar e nos orgulharmos de cada passo dado nesta nova etapa, numa linguagem que é mais próxima e mais enriquecida.

E porque sou mãe e porque aqui escrevo, não consigo fugir neste caminho à vontade  de pensar em mim e no meu filho.

O que me faz sentir que mesmo depois de tudo isto, há uma coisa que eu não sei: Não sei como me sentirei quando um dia a estrada se fizer diferente porque ele caminha sobre ela sem nós. O que me faz achar que antes de tudo isto, há uma coisa que eu sei e tento não esquecer, num exercício de desapego duro mas tão necessário: Nós somos deles mas eles não são nossos.

São de si próprios, são do mundo que querem conquistar. Serão um dia, se assim o quiserem, dos filhos que decidam ter.

E não há, a meu ver, prova de amor maior do que esta.

Aquela que é capaz de deixar ir, quem leva dentro o nosso coração. Com a confiança e com a certeza de que regressará sempre. Porque os ninhos mesmo que vazios, continuarão a ser ninhos. Porque as estradas ainda que longas e cheias de curvas, trarão sempre de volta quem connosco aprendeu a ser gente e por isso sabe, que é neste lugar, que o amor sem medida permitirá descansar. Para no dia seguinte retomar caminho e continuar a ser feliz.

Assim seja, porque te quero tão bem…

 

Nota: A imagem fabulosa que dá corpo a este texto é da muito talentosa Lília Reis. Mais uma vez, sou-te grata Lília, pela partilha do olhar. 

Natal sem pilhas. Sim, outra vez…

Depois do desabafo no boicote ao camião da Patrulha Pata, parece-me útil pensar em algumas alternativas para fugir ao forte apelo do canal Panda, que dita todas as vontades dos miúdos entre os 3 e os 10 anos.

Cresci a não perceber porque é que me ofereciam tantos livros, quando o que eu queria era mesmo mais uma Barbie! Hoje fico feliz que assim tenha sido e acho que, em parte, essa foi uma das razões que me fez descobrir este amor grande às palavras. E ainda bem.

E antes que pensem “Ah e tal, olha para ela armada em intelectualóide…”, digo-vos já que também eu me rendo, com conta, peso e medida, ao inesgotável mundo do Hulk, do Pirata Jake e outros que tais, até porque eles moram na carta ao Pai Natal, que a maioria de nós pede às crianças para escrever (e agora que penso melhor nisto, este hábito da carta pode ser de uma maldade terrível para alguns…).

A minha proposta é então que, mesmo que não consigamos fugir totalmente a isto, possamos incluir na lista de presentes de Natal, outros brinquedos que não tendo sido pensados por eles, farão com certeza as suas delícias.

Ficam por isso algumas sugestões, já testadas e aprovadas pelo Manel:

  • Jogos de madeira. Podem ser comboios, casinhas de bonecas, puzzles, instrumentos musicais… São bonitos (às vezes apetece-me pô-los a decorar a sala), apelam à imaginação, deixam memórias e duram imenso tempo;
  • Jogos de tabuleiro ou outros. Cá em casa os preferidos são o mikado, o xadrez, o jenga, o dominó e um baralho de cartas. São jogos com benefícios enormes ao nível da aprendizagem, da memória, da atenção, da motricidade fina, e são ainda uma excelente forma de terminar os serões. É tempo tranquilo e tempo em família, que permite matar as saudades e ainda contribui para sonhos bons;
  • Pincéis, tintas, marcadores, blocos de papel, barro, plasticina… Tudo o que permita explorar materiais, conhecer melhor as cores, experimentar texturas, é, na minha opinião, do melhor que há para estimular a criatividade, o conhecimento e a livre expressão de emoções e sentimentos;
  • Livros. Sempre e muitos. Há, hoje em dia, livros para crianças de enorme qualidade. Desde os textos, às ilustrações, aos temas abordados… a maior dificuldade será sempre ter de escolher.

E, para terminar, uma ideia que acho muito boa: um globo terrestre, daqueles iluminados. Demos um ao Manel no Natal passado e sempre que falamos de um país novo lá vamos nós, a pedido, apontar onde o dito fica. Pode ser que seja um empurrãozinho para fazer crescer a vontade de mundo.

Assim eu gostava que fosse.

P.S – Porque é lá que vivem os brinquedos mais bonitos, porque é um projeto local, porque aposta no que é português, porque tudo é pensado e escolhido com o coração, porque elas merecem e por muitas outras razões especiais… espreitem a CASTA e façam o favor de ser por lá muito felizes. Garanto eu.

A que sabe um elogio?

Ela tinha cerca de 20 e poucos anos. Passou por mim e seguiu caminho. Reparei que voltava atrás e ao aproximar-se, disse-me: “Não queria deixar de lhe dizer que olhei para si e a achei bonita.”

Eu, quase engasgada de tanto pasmo, ainda consegui balbuciar um tímido “Obrigada”. E fiquei ali, com um sorriso palerma na cara, a vê-la passar a estrada.

Os pensamentos que se seguiram questionaram de imediato a lucidez da rapariga, apesar da sua aparente “normalidade”. Não podia ser. Ninguém pára na rua e diz a alguém que nunca viu, que a acha bonita.

Depois, pensei: “E porque não?”

Será que estamos tão pouco habituados a que nos valorizem, que a tendência imediata é encontrar uma justificação?

Pois é. Estamos mesmo.

O elogio sabe bem, mas o encorajamento vai além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do nosso desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima e autoconfiança. O elogio é uma espécie de shot de felicidade, o encorajamento tem o poder de nos fazer sentir no topo do mundo, capazes de abraçar todos os desafios.

Com as crianças não é diferente e encorajá-las é uma excelente forma de lhes proporcionar os estímulos de que precisam, para crescer de uma forma saudável, mais confiante e mais autónoma. E sobretudo, a acreditar que serão sempre donas e senhoras dos recursos necessários para conquistar tudo a que se decidam.

Mas minha gente, antes que comecemos a disparar elogios aos nossos benjamins (que aliás serão sempre os melhores do mundo), é importante pensar sobre a melhor forma de o fazer. Aquela que tem o dom de conseguir tudo o que atrás foi dito.

Ora tiremos então as manhas ao bom do elogio:

O elogio deve ser sincero. Às vezes recorremos a ele de forma automática e quase compensatória, de tudo aquilo que gostaríamos que fosse diferente na relação com os nossos filhos. Eles topam-nos a milhas e, com o tempo, deixam de dar significado àquilo que está a ser valorizado, sobretudo se o desenho do cavalo parecer um cão esquisito ou se os primeiros biscoitos terem saído intragáveis (podemos sempre dizer-lhes que com mais algum treino, vão sair-se ainda melhor…);

O elogio basta-se a si próprio. Não precisa de saber que a Joana nunca mais aprende a fazer o pino ou que o André teve uma nota melhor no teste de Português. A ideia é mesmo que nos sintamos especiais, por isso nada de alimentar o ego com as dificuldades do vizinho, nem “cortar o barato” com as especialidades dos outros;

O elogio gosta de atitudes, mais do que de capacidades. Se o/a nosso/a filho/a teve um bom resultado num trabalho na escola, devemos elogiar o seu esforço, o seu empenho nesse processo (e não a sua inteligência), como responsável pelo resultado final. Quando dizemos “Uau, és tão esperto”, estamos a transmitir a ideia de que a inteligência é algo inato, quase um dom que temos ou não, o que nos retira o papel ativo na capacidade de nos superarmos sempre.

Todos os elogios devem ter sabor de mimo extra, reforçando a dedicação investida numa determinada tarefa. E é esta sensação de que demos o nosso melhor e que fomos valorizados por isso, que nos traz a noção poderosa de que todas vitórias (e fracassos também) não terminam em si, mas significam sempre mais um passo, na construção de todos os objetivos a que nos proponhamos. Com a confiança da certeza de que para crescer e aprender, basta acreditar e arriscar.

Ainda voltando à situação que inspirou este texto e em jeito de resumo: Se fosse com o meu filho eu diria: “Estás tão bonito hoje. As cores da roupa que escolheste ficam-te mesmo bem”. Como foi comigo, que me aproximo a passos largos dos 40, aquele “Achei-te bonita”, veio na medida certa. Aquela que em segundos, me levou ao topo do mundo.

Obrigada, rapariga desconhecida.

Brinquedos sem pilhas ou o boicote
ao camião da Patrulha Pata.

O camião da Patrulha Pata precisa de pilhas e precisa dos sonhos de quase todas as crianças de quatro anos.

O camião da Patrulha Pata precisa de pilhas e precisa de pais que estejam dispostos a pagar 120 euros, por um brilho no olhar e um sorriso no rosto. Ainda que fugazes.

O camião da Patrulha Pata está esgotado em todas as superfícies comerciais do país e isto, na minha opinião, diz muito sobre aquilo que andamos a fazer.

A mim, diz-me que estamos com as prioridades trocadas. Diz-me que andamos a refletir pouco e diz-me ainda que cedemos a um apelo que é, no mínimo, desonesto. Porque se serve dos desejos deles para crescer. Porque se serve do nosso amor para vender.

Eu faço greve aos brinquedos com pilhas e faço greve aos brinquedos que custam um mês inteiro de comida na mesa. Pelas mesmíssimas razões. Pela ideia de consumo rápido e descartável que alimentam. Pela falta de autonomia e criatividade que promovem.

Se eu podia comprar o camião da Patrulha Pata? Podia. Mas não estaria a ser honesta com os princípios que defendo e com os sonhos que gostava que um dia, o Manel quisesse alcançar.

Os sonhos que apenas precisam de gente dentro e de amor no coração, para acontecer.

 

P.S – A foto que ilustra este texto é da autoria da Lília Reis, que tão carinhosamente a cedeu, para que a Lua ficasse mais bonita. Obrigada Lília.