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“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

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Não são “pós de perlimpimpim”, mas ajudam…

Sim eu sei… sou um pouco avessa a manuais de instruções mas, a pedido de muitas famílias, aqui proponho algumas pistas sobre as quais pode ser interessante pensar. Sobretudo, quem tem filhos assim a ficar para o crescido…

  1. Esquece tudo o que pensaste que seria ser mãe/pai de um/a adolescente. A realidade supera todas as expectativas.

  2. Habitua-te ao humor imprevisível, aos comportamentos impulsivos, à alterações emocionais, à necessidade de uma maior privacidade.. E respeita-os. Fazem parte do processo de crescimento e, como tudo, têm uma explicação. Neste caso, é neurológica.

  3. Não insistas em querer que concordem com tudo o que dizes. Aliás, é até desejável que não o façam. Uma das características mais interessantes da adolescência é a procura de significados próprios, a necessidade de contestar, o espírito pouco conformista… São estes movimentos que lhes permitirão construir a sua própria identidade e definir-se enquanto pessoas.

  4. Conversa muito, ou pelo menos, mostra que estás por perto e que podes ouvir, sem pré-julgamentos (mesmo que a vontade de dizer meia dúzia de coisas te roa por dentro). Isto não quer dizer que não dês a tua opinião e que não te faças ouvir, mas fará sentir que estás disponível e que contigo poderão contar, mesmo que as coisas corram mal. Incondicionalmente.

  5. Se já o eras, mantém-te beijoqueira/o (mas com discrição e sentido de oportunidade). Há sítios proibidos como o portão da escola ou os jantares de amigos mas, mesmo que o contestem, não há nada que lhes saiba tão bem como um abraço ou um miminho no momento certo. Tenhamos nós 5, 15 ou 50 anos.

  6. Janta com os teus filhos. Vários estudos demonstram que as refeições em família funcionam como um ritual protetor, relativamente à adopção de comportamentos de risco na adolescência.

  7. Participa em atividades comunitárias. Vai ao teatro, a concertos, exposições… E leva-os contigo. Todas as experiências culturais e artísticas a que possam ter acesso na infância e na adolescência, contribuirão para o autoconhecimento e para o seu desenvolvimento pessoal e social.

  8. Incentiva-os sempre a avançar para um desporto. Existe uma associação muito positiva entre a prática desportiva e o desempenho escolar, sendo a primeira uma excelente forma de libertação das tensões acumuladas e de estimulação da atenção, da reflexividade… Para além disso, a maioria dos desportos não se compadece com estilos de vida pouco saudáveis, o que só por si, é um fator extremamente positivo.

  9. Não queiras ser amiga/o dos teus filhos (leia-se: “não queiras substituir os amigos dos teus filhos”). Os pais e mães demasiado cool e intrusivos, deixam os adolescentes confusos. É fundamental que cada um se assuma no seu papel e não “misture as águas”. A referência de um pai ou de uma mãe é fundamental como modelo de responsabilidade, apoio e sabedoria para lidar com a realidade. Para além disso, existirão sempre coisas que se contam aos amigos e não aos pais. E ainda bem.

  10. E por último, mas não menos importante, CUIDA DE TI. Tu és, e serás sempre, o principal modelo dos teus filhos. É contigo que aprenderão a amar a vida, a relacionar-se com outros, a querer o melhor para si, a não desistir… Se fores feliz, ensinarás a sê-lo também e a não abdicar disso.

E chegados ao fim, são 10.

Que não sejam mandamentos, até porque não acredito em relações imaculadas e perfeitas. Acredito sim, que as relações crescem nas suas imperfeições, desde que tenhamos a coragem de as reconhecer e aceitar em nós, mantendo assim viva a certeza, de que todos os dias são dias a estrear e por isso, dias bons para aprender.

Aprender a ser pais de coração cheio, para aqueles que serão, sempre, a melhor parte de nós.

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A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas, para educar as crianças que por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

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Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável, os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima maneira de testar as aprendizagens feitas é deixá-los explicar-nos os conteúdos que tenham estado a trabalhar, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma como conseguiram ultrapassá-las;

Pensar em conjunto algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste, e treiná-las: respiração mais consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, podem ser boas ajudas, para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.”

Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.

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A ansiedade face aos testes. O desafio deles.

ansiedade no estudo

Este assunto preocupa-me. Mesmo.
Porque tenho clara noção de que a eles os preocupa. Muito.
Porque sei que a ansiedade face aos testes pode transformar o seu percurso escolar num verdadeiro inferno, minar-lhes a autoconfiança e com isso bloquear a capacidade de pensar o sucesso pessoal como a conjugação de múltiplos fatores, que não apenas os relacionados com a nota num exame.

Cada vez mais me deparo com situações de alunos que têm verdadeiro pavor aos momentos de avaliação, sejam eles testes, seja a apresentação de trabalhos de grupo, sejam exames nacionais.

Corre entre eles a ideia que estes momentos vão decidir o rumo das suas vidas, que falhar uma batalha é perder a luta e que não há margem para negociações, nesta corrida desenfreada pelo melhor resultado.

A ansiedade pode manifestar-se a nível físico, cognitivo e comportamental, com impacto importante na capacidade do adolescente em gerir adequadamente os momentos de maior pressão e desafio.

Esta incapacidade pode materializar-se, por exemplo, em comportamentos de evitamento e de procrastinação na preparação dos testes, bem como em dificuldades em gerir o tempo e em evocar a informação (as conhecidas “brancas”) durante a realização do mesmo. Para além disso e como “um mal nunca vem só”, são frequentes os pensamentos negativos e quase catastróficos: “Vou chumbar” ou “Nunca vou ser capaz de ultrapassar isto”, que em nada contribuem para a autoconfiança.

Reconhecer o impacto da ansiedade no bem estar psicológico dos jovens e, consequentemente, no seu sucesso académico, pode ajudar-nos a nós, pais e professores, a refletir sobre aquelas que poderão ser estratégias importantes no ultrapassar das dificuldades:

adequada gestão do tempo, evitando o estudo intensivo na véspera dos testes, que apenas contribui para que se sintam mais cansados (interferindo com a qualidade do sono) e ainda mais nervosos;

recurso a técnicas de estudo, adequadas às diferentes disciplinas e o esclarecimento de dúvidas que possam surgir durante este processo;

tomada de consciência dos pensamentos automáticos e negativos, frequentes nestas situações e a sua substituição por outros, mais positivos. Ex: “Vou dar o meu melhor e vou ficar contente com isso”, em vez de “Isto vai correr mal e eu vou ter negativa”;

adopção de técnicas como o relaxamento muscular progressivo e a respiração profunda, que podem ajudar a desenvolver uma maior consciência corporal e a acalmar as manifestações físicas da ansiedade, para um nível em que se tornem mais fáceis de gerir;

prática de exercício físico e a realização de atividades que proporcionem prazer e ajudem a libertar as tensões diárias. É importante por isso enquadrar estes momentos na agenda semanal;

reflexão sobre os resultados obtidos, que ajude a integrar o insucesso como parte do processo e como uma oportunidade de aprendizagem e crescimento individual. Ex. Se o teste correu menos bem, é importante perceber se existem comportamentos que devam ser alterados (antes e durante o teste), para que sintam que é sua, a capacidade de superar as dificuldades na próxima oportunidade.

E finalmente, mas não menos importante: falar sobre o assunto.

E aqui o papel dos amigos e da família é, mais uma vez, fundamental.
Para que se sintam apoiados e compreendidos, naqueles que são os seus desafios, os desafios de um mundo centrado na competição e no resultado, que todos os dias os põe à prova, e que pode, naturalmente, ser sentido como extraordinariamente assustador.

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Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si o poder mágico de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

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Quando o gato lhes come a língua.
E demora a devolvê-la…

– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habitou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem:

Banalizar os momentos de conversa. Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária a que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata.

Fechar as perguntas. Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas. “Qual foi a aula mais interessante hoje? A de Português ou a de Matemática?” ou “ Numa escala de 0-10, como é que correu o teu dia?”

Partilhar quem somos. Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

Sermos honestos. “Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar fá-los sentirem-se respeitados.

Não levar a peito. Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que não vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

Dar asas à comunicação. A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

Propor alternativas. Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.

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Culpa, porque não te quero.

Tenho 4 anos de mãe em cima.

Pouco tempo, dirão alguns. Muito tempo, devolverei eu. Pela imensidão de aprendizagens que cabem nestes 4 anos de vida conjunta. Aprendizagens que me trazem a sabedoria de aceitar que a maternidade não é sempre “cor de rosinha” como a pintam, que há momentos em que me apetece fugir e que é meu o direito de não me sentir derrotada, sempre que não estou à altura das expectativas que criei (ou que criaram por mim).

E assim na tentativa de firmar este compromisso e na esperança de que existam por aí outras mães (ou pais), que também queiram expiar os seus pecados, hoje apetece-me partilhar alguns dos meus. Se calhar não são pecados, são antes “pecadinhos” mas já me lixaram a cabeça algumas vezes…

As vezes em que desejei, nas saídas para levar o lixo e quando toda eu era leite, fraldas e noites sem dormir, atravessar a estrada e continuar a andar. Sem destino nem regresso marcado.

As vezes em que estive tão perto de mandar à merda quem me disse, no primeiro ano de vida do meu filho, que estava na hora de ir ao segundo.

As vezes em que me atrapalhei no jogo do faz de conta, com carros e Invizimals e piratas, apenas e só, porque me sinto ridícula.

As vezes em que comi, às escondidas, os últimos biscoitos do frasco, simplesmente porque estava farta de partilhar.

As vezes em que aldrabei a história antes de dormir para uma versão muito resumida, só porque queria despachar a coisa e cair no sofá.

As vezes em que fui a mãe que me era possível ser, porque os dias não são perfeitos e às vezes as rotinas cansam a alma.

Tenho 4 anos de mãe em cima.

Os mais felizes, os mais angustiantes, os mais desafiantes, os mais corajosos e sem sombra de dúvida, os mais extraordinários da minha vida. E ainda assim, com a consciência de que há momentos difíceis e que só tenho de os aceitar e assumir sem culpas, antes de publicar este texto, pensei duas vezes. “E se acharem que eu sou uma má mãe?”

E é isto. É disto que falo…

 

Nota: A foto que dá asas à liberdade, é da Lília Nunes Reis, que todos os dias me enche o olhar com imagens bonitas. Obrigada a ti, outra vez.

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“Vossos filhos não são vossos filhos.”

Coisas bonitas. E tão necessárias…

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Fim da conversa no bate-papo
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.”

 Khalil Gibran

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Aos 37!

Aos 17 anos apaixonei-me por este poema. Fazia parte do manual de Português do 12º ano.
Não lhe conheço o autor* mas tenho-o na cabeça e cito-o de cor há 20 anos.
Hoje, aos 37, compreendo-o como nunca porque sei, que às vezes, as palavras não dizem tudo, que o tempo corre e torna tudo mais sereno e que o azul dos dias seguintes é afinal tudo o que temos.
Assim seja, porque a vida é boa assim…
“Aqui cheguei,
aos limites, onde não é preciso falar,
tudo se aprende com o tempo e o oceano.
a lua aparecia
com as suas linhas prateadas
e aos poucos, desfazia-se a sombra
com um golpe de onda
e na varanda do mar, o dia abre as asas,
nasce o fogo,
e tudo continua azul, como amanhã.”
* Depois da partilha deste poema, as palavras ganham “dono”, como tão honrosamente merecem.
E sim, só podia ser mesmo do Pablo Neruda. Obrigada Dina! 🙂