Três mitos sobre a adolescência que todos repetimos.

“Quando ela chegar à adolescência é que vais ver…“ ou,
“Quem me dera ter um botão para o desligar durante esta fase…” ou ainda,
“Como te entendo, o meu também está na “aborrescência”

Quantas vezes não ouvimos já algumas destas frases, vindas de quem atravessa com os filhos a desafiante fase da adolescência. Quantas vezes não pensámos nós: “E agora, o que é que eu faço?”.

Estas e outras ideias sempre estiveram (e continuam a estar), muito associadas ao processo de desenvolvimento adolescente, não facilitando uma adaptação mais positiva dos jovens e das famílias a tudo o que de novo e único acontece.

A adolescência traz consigo mudanças biológicas, intelectuais, emocionais e sexuais importantes, que se traduzem em aquisições singulares no desenvolvimento humano, alterando quem somos, a nossa visão do mundo e a forma como nos relacionamos com os outros. Estas mudanças têm, de facto, um impacto profundo em toda a dinâmica familiar, com os necessários ajustes de quem está numa fase de “sopas e descanso” em relação às relações amorosas, ao círculo de amigos, à profissão – os pais, e de quem vive e goza o mundo pela primeira vez, conquista amizades, experimenta o primeiro amor, sonha planos para o futuro – os filhos. E é muitas vezes este desequilíbrio na balança dos valores e desejos de pais e filhos, que tantos conflitos provoca no relacionamento entre ambos, escurecendo as lentes através das quais se observam e dificultando uma comunicação mais próxima e mais empática.

Vejamos pois algumas das ideias que por aí circulam sobre a adolescência e que em nada facilitam a forma como nos relacionamos com os adolescentes das nossas vidas:

O mito da fase terrível.
A adolescência é uma fase de vida não só fundamental como absolutamente necessária. As transformações que nela acontecem são uma oportunidade única de desenvolvimento pessoal e social, de auto conhecimento, de definição de uma identidade própria, de construção da autonomia e pretendem preparar o indivíduo para a vida adulta, treinando competências práticas que lhes permitirão afinal, construir o próprio caminho, independente do dos pais.
Pensar neste período como um período difícil e quase indesejado, faz-nos temer a mudança, antecipando de uma forma negativa todas as conquistas que nela acontecem. E aquilo que pensamos, é aquilo que transparecemos e aquilo que muitas vezes contamina a comunicação com os nossos filhos, impedindo-nos de nos libertarmos de ideias feitas, e crescer.

O mito da imaturidade.
As últimas investigações sobre o desenvolvimento cerebral nesta etapa de vida permitem pensar os adolescentes como seres altamente adaptáveis e de uma sensibilidade única, preparados para lidar com todas as tarefas com que se deparam. Contrariamente ao que muitas vezes pensamos, na adolescência torna-se já possível fazer a avaliação dos riscos de um determinado comportamento (de uma forma muito próxima da dos adultos), sendo também já possível antecipar as suas consequências. O que aqui interfere na tomada de decisão, é a ponderação que fazem desses riscos, ou seja, o facto de atribuírem uma maior importância à recompensa que pode advir de um determinado comportamento, como por exemplo, obter a admiração dos amigos. Para além disso, a ideia de que não serão capazes de se safar sozinhos, quer no que se refere à gestão doméstica, quer no que se refere à concretização de projetos pessoais, apenas contribui para que se sintam efetivamente incompetentes e inseguros face às decisões que já se encontram, naturalmente, aptos a fazer.

O mito dos pais desnecessários.
Aviso à navegação: a adolescência pode significar alguma turbulência nas relações entre pais e filhos, mas é ela que lhes permitirá “ganhar espaço” e definir quem são, não significando contudo, que os pais deixem de ter um papel fundamental na vida dos filhos. A família constituirá sempre o modelo de identificação mais importante na vida das crianças e adolescentes e são as normas e valores por ela transmitidos que se assumirão como bússola na vida adulta, mesmo que sejam recebidas com uma saudável dose de contestação (desafio-te a garantir que nunca fizeste um rolar de olhos a uma frase dos teus pais, que acabaste por nunca mais esquecer, de tão certeira que se tornou…). As relações positivas na família, marcadas pelo equilíbrio entre autonomia adolescente e controlo parental, são os melhores preditores de bem estar e ajustamento emocional dos jovens, permitindo-lhes ainda a capacidade de lidar de uma forma mais segura e resiliente com os dilemas de vida com que se deparem.

Ajudar a crescer com sentido de honra e admiração, confiar em quem são e naquilo que serão capazes de fazer e estar presente, na maré calma e na tempestade, são afinal as verdades que lhes serão luz e força e espaço para ser. O resto, é ruído de fundo, que impede de ouvir tudo o que de tão fantástico trazem dentro…

 

Nota: E agora, se ainda te faltou um bocadinho para ficares convencido/a, podes deliciar-te com este vídeo. E acreditar. 🙂

“Um Bom não é uma boa nota?”

Uma amiga de quem gosto muito e que admiro imenso enquanto mãe, contou-me há uns dias uma história que considero deliciosa, pela forma simples, honesta e tão certeira, como que nos põe no nosso lugar.

A Sara, que está no 2º ano, fez um teste na escola. A professora, no dia de devolver as notas aos alunos, fê-lo em voz alta, para que todos ouvissem as notas de todos (vá-se lá saber porquê, mas isso “são outros quinhentos”…)

A Sara teve um Bom.

Ao chegar a casa, feliz com a conquista, partilhou com a mãe a nota recebida. A reação da mãe, fruto do impulso do momento, foi: “Então e a Mariana, que nota teve?”. Ao que a Sara respondeu prontamente: “Porquê mãe? Um Bom não é uma boa nota?”.

A mãe deu-lhe razão, pediu-lhe desculpa e abraçou-a com força. As duas cresceram por dentro nessa noite.

E assim, sem pedir licença e do alto dos seus 7 anos, a Sara deu-nos, à mãe e a mim, uma enorme lição. Uma lição sobre a vida e sobre tudo aquilo que é efetivamente importante preservar: a capacidade de acarinharmos quem somos e de celebrar os objetivos que alcançamos, sem viver na sombra de ninguém.

Não tenho nada a acrescentar a esta história.

Acho que ela se basta a si própria e não quero que palavras a mais, desviem a atenção das coisas grandes que ela ensina.

Eu, sou grata, por tudo o que a Sara me trouxe, quando tão corajosamente lutou, pelo melhor de si.

 

“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

A analogia que me tornou melhor companheira de viagem do meu filho.

Falam-me dos “terrible two” e eu devolvo: Então e os “fabulous five”?

Cá em casa andamos a aprender a gerir as emoções: as dele geradas pela frustração, as minhas provocadas por tudo o que o descontrolo dele acende em mim.

Neste caminho, fiquei feliz por encontrar um texto que me fez todo o sentido e que me tem ajudado imenso, pela enormidade de coisas que me ajudou a entender.

A analogia do comboio pensa as emoções difíceis como se fossem túneis e faz de nós, passageiros do comboio que os atravessa. E como acontece em todos os túneis, somos convidados a tolerar alguma escuridão, para chegarmos depois a um lugar mais iluminado, mais calmo e mais desperto para tudo o que acontece à nossa volta.

Vou dar-vos um exemplo de uma situação que se passou connosco há uns dias, quando o meu filho se desentendeu com um dos amigos com quem brincava e correu para perto de mim num choro compulsivo.

O motivo prendia-se com o facto do amigo não querer brincar ao jogo que ele lhe tinha proposto e como tal, o melhor seria eu resolver o problema e ir dizer-lhe que aquela brincadeira era afinal, uma excelente ideia.
Disse ao Manel que não o faria, expliquei-lhe que o seu amigo tinha todo o direito de decidir se queria brincar ou não.

Dito isto, e depois da tristeza inicial, veio uma onda repentina de raiva, provocada pela percepção de que eu não lhe resolveria o problema. Deitou-se no chão, esperneou, gritou, cerrou os pulsos, num enorme descontrolo de si, do seu corpo e de todas as sensações desconcertantes pelas quais passava.

Noutros momentos, provavelmente teria tentado acalmá-lo, ter-lhe-ia dito que não valia a pena aborrecer-se com isso, que podiam escolher outra brincadeira ainda mais gira… Tê-lo-ia dito, tentando amenizar a situação, sem que no entanto adviesse daí algum resultado que valesse realmente a pena.

Mas desta vez, lembrei-me da história lida e limitei-me a entrar no comboio com ele, sentando-me ao seu lado.

Ele, no meio de todo aquele caos, conseguiu pousar a cabeça no meu colo e eu fiquei a fazer-lhe festas no cabelo. Sem dizer uma palavra.

Fizemos a viagem assim e uns minutos depois o Manel levantou a cabeça, sentou-se, limpou as lágrimas e disse-me: Vou brincar, mamã.” E lá foi, como se nada se tivesse passado ali.

Eu, fiquei a vê-lo afastar-se tão dono de si e pensei: Caramba, como é que uma atitude tão simples pode ter um resultado tão poderoso? Porque é que eu andei a desgastar-me por me sentir incapaz de travar as emoções mais difíceis do meu filho, sempre que elas eram avassaladoras demais, quando afinal só tinha de as aceitar e deixar ir?

Resposta simples, sei agora. Melhor do que nunca.

Quando os nossos filhos lidam com a frustração, com a vergonha, com a culpa, com o medo… dentro de nós reativa-se a sensação difícil dessas emoções e acabamos por tentar protegê-los, evitando que passem por elas. Muito, porque a dor dos nossos filhos nos dói como nenhuma outra.

Afinal, somos nós que precisamos que parem de chorar, não eles.

Mas é connosco que eles podem aprender a sentar-se com o que sentem e seguir viagem, rumo a tudo o que de mais claro, apaziguador e consciente, os espera na paisagem seguinte.

Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei. É assim que cresço, é assim que tu podes crescer.

Se há cinco anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi uma das minhas bandeiras de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que ali é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

10 coisas que odiavas quando eras adolescente.

Toda a gente sabe que quando nos tornamos mães e pais somos acometidos por uma espécie de amnésia seletiva, que nos leva a esquecer uma boa parte de quem fomos antes.

É como se nos reinventássemos, numa desejada melhor versão de nós próprios que, por mais bem intencionada que seja, acaba sempre por deixar pelo caminho coisas importantes, como por exemplo, o facto de já termos tido a idade dos nossos filhos e de já ter sido nosso, o seu sentir.

E porque às vezes é preciso fazer um rewind para que os passos em frente se façam mais felizes, arrisco-me hoje a trazer de volta algumas das coisas que talvez te tenham feito “subir as paredes” quando eras adolescente.

Ora vamos a elas…

  1. Que não te ouvissem. Exatamente quando ias começar a explicar-te, lá vinha a voz da razão que dizia algo deste género: “Já estou a ver onde queres chegar! Nem penses nisso!” E tanto que tu tinhas treinado a argumentação na noite anterior…
  2. Que banalizassem tudo. Tenho uma amiga a quem a mãe dizia: “Deixa lá filha, os homens são como os autocarros. Não apanhas este, apanhas o próximo!” Lembras-te de alguma semelhante, que te fizesse ter a certeza que os teus pais estavam a milhas do que estavas a sentir?
  3. Que partilhassem a tua intimidade com toda a gente. “Nem imaginas o tempo que passa a pôr laca na poupa.” ou, “Agora lá em casa só come ervas. Manias.”. E tu só desejavas enfiar-te no primeiro buraco que te aparecesse…
  4. Que generalizassem tudo o que fazias. Andavas tu a dar o teu melhor e lá vinham os vaticínios começados por: “Estás sempre a…” ou “Tu nunca…” Bah.
  5. Que criticassem a roupa que vestias (válido para o penteado, para a música, alimentação…) Ah, e que te aconselhassem a levar um casaquinho.
  6. Que exigissem que soubesses o que fazer no futuro. “Já sabes qual é o curso? Não vais estudar, vais trabalhar!” ou “Tens de pensar bem, porque isto não está para brincadeiras!” E tu sabias disso, mas nem sempre era fácil decidir.
  7. Que duvidassem da tua capacidade para escolher os amigos (válido para os namorados/as também…). E logo quando tu te tinhas conseguido aproximar da malta mais arrojada do liceu…
  8. Que perguntassem “Como foi a escola? Havia sempre tanto para a dizer mas o enjoo da mesma pergunta todos os dias, só resultava num também enjoado: “Correu bem.”
  9. Que ligassem 30 vezes por dia.
  10. Que mandassem ligar outras 30.
  11. Que te comparassem aos outros. “Ah e tal, mas a Mariana foi para a Católica.” “E o que é que eu tenho a ver com isso? – perguntavas tu…” Absolutamente nada, te digo agora eu.
  12. Que pusessem em causa as tuas competências. “Tens a certeza que ficas bem? Se calhar a mãe deixa-te um franguinho guisado feito e basta aquecer…” E tu só querias que se fossem embora depressa, para poderes comer Nestum no sofá (ou quem sabe convidar o resto da malta lá para casa…)
Estas são 12 das frases que, muito provavelmente, odiavas ouvir na adolescência.

Aposto que com boa vontade, conseguias arranjar mais meia dúzia, tal como aposto também que se usares estes exemplos como checklist das tuas reações aos comportamentos dos teus filhos , ainda dás por ti a assinalar alguns.

Toda a gente sabe, que quando nos tornamos mães e pais, a coisa muda de figura e é tão mais fácil falar do que fazer. Afinal, amamentámos as criaturas e aturámos-lhes todas as birras, o que quase nos dá o direito de dizer todas estas coisas. Isso, e o facto de os amarmos como ninguém.

Toda a gente sabe disto, mas às vezes é mesmo preciso trazer a memória do adolescente que fomos e voltar a calçar os ténis, para entender…

P.S – Não te proponho que coles esta lista no frigorífico, porque existem coisas que devemos guardar para nós, mas se a colares num lugar mais reservado (pode ser no coração), sempre dá para lhe dar uma olhadela volta e meia… Eles agradecem. E tu já te lembras porquê. 

Pré-adolescência, essa bela localidade…

Falamos muito sobre a adolescência, falamos ainda mais sobre a infância mas pouco falamos sobre a transição de uma fase para a outra, sobre as mudanças que chegam de mansinho (ou de rompante) e, sem pedir licença, se instalam na vida deles e na nossa, conduzindo-nos a todos às naturais mudanças e reajustes.

É geralmente a partir dos 9/10 anos, que começam a surgir os primeiros sinais de que a adolescência está próxima e, muito embora estas alterações sejam vividas de forma única por cada criança e por cada família, existem alguns comportamentos típicos nesta altura:

Maior necessidade de espaço próprio. Às vezes oiço pais a dizer: “Em minha casa não há portas fechadas!” Percebo. Mas percebo também, que a partir de uma determinada altura, eles começam a sentir falta desse espaço, a gostar de estar mais tempo sozinhos e a precisar de uma maior privacidade e respeito pelos espaços individuais. Estar por perto mas permitir uma maior intimidade nos cuidados pessoais, no banho, no tempo passado no quarto, são boas premissas e não são incompatíveis com o tempo em família. Pelo contrário, são perfeitamente conjugáveis, e devem sê-lo.

Maior irritabilidade, às vezes sem razão óbvia ou facilmente identificável. Atividades ou brincadeiras anteriormente aceites, podem tornar-se extremamente intoleráveis nesta altura. Não insistir, respeitar e sobretudo não ridicularizar, sendo sensível às mudanças (e não fazendo delas um cavalo de batalha), pode ser uma boa ajuda. Para todos.

Rejeição de atividades anteriormente desejadas, como determinadas brincadeiras ou programas de tempos livres, por exemplo. Importa aqui compreender e permitir que a seleção e a experimentação se faça espontaneamente. Lembra-te: a pré-adolescência permite que se comece a preparar terreno para aquisições importantes: um maior auto-conhecimento, a definição de uma identidade própria, uma maior autonomia… E para isso, é preciso experimentar, rejeitar, mudar de opinião, arriscar coisas diferentes.

Mau humor ou estados de tristeza mais frequentes. Geralmente, as crianças a partir desta idade experienciam mais emoções negativas e isso não significa que exista algum problema, mas sim que estão em processo de adaptação e a aprender a lidar com os estados emocionais de uma forma mais complexa. Se estiveres triste e eu te acenar com um gelado, a tristeza desaparece? Não. Pois a partir desta idade, começa a ser semelhante.

Se para nós estas alterações nem sempre são pacíficas ou até esperadas nas idades de que falamos, não é menos verdade que para eles, que as vivem na primeira pessoa, também não. E é por isso que é tão fundamental conhecê-las e aceitá-las como adaptativas e parte integrante do fantástico processo de crescer.

Não esquecendo nunca, que aos pais, cabe o papel de porto seguro no meio das águas (por vezes agitadas) do crescimento dos filhos. Aos filhos, a coragem de navegar e de tornar sua, a rota a percorrer.

É através dela que se tornarão, progressivamente, capazes de se compreender melhor, de compreender os outros, de desenvolver relações afetivas coesas e seguras, de pensar o futuro e ter vontade de rumar aos portos seguintes. Com a esperança e a vontade que lhes é merecida.

Afinal, de mares calmos, não reza a história dos bons marinheiros.