“Quando os filhos voam” – por Rubem Alves

Admiração profunda por tudo o que este senhor pensou, e disse, e escreveu…

“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.

Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança.

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase.

Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível.

Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar.

E não há estrada mais bela do que essa.”

 

Texto de Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro, psicanalista, “professor do espanto”, e tantas outras coisas bonitas…

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há cinco anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…

As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos um jogo.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

Aprender pelo espanto ou o espanto de aprender.

Tu, pela milionésima vez: “Vá, vamos embora. Já chega!”

O teu filho, como se fosse a primeira… “Olha só para isto, mamã!”

A ideia da aprendizagem pelo espanto é a base da teoria educativa de Catherine L´Ecuyer, investigadora canadiana, que se dedica a estudar a forma como as crianças aprendem e aquilo que as move na construção de significados próprios, decorrentes das experiências que vivem.

A autora, que valoriza a curiosidade como o factor chave no crescimento, capaz de despertar nas crianças o desejo e a busca constante de conhecimento, empurrando-as assim para que descubram o mundo, diz-nos ainda que na infância mora o sentido inato para nos estimularmos com o que acontece à nossa volta e que por isso, aos pais, cabe apenas tarefa de serem jardineiros (e nunca carpinteiros ou escultores), capazes de regar e fazer crescer esse sentido.

Há, nas crianças, uma predisposição natural para a observação atenta do que as rodeia, numa atitude de enorme respeito pelo mistério e pela beleza das coisas de todos os dias. A décima descida no escorrega nunca é igual à anterior. A estrelinha ao lado da lua parece ainda mais brilhante esta noite.

Há, nos adultos, uma pretensão aprendida de quem já sabe muito e por isso acha, que o muito que sabe, é suficiente para não ter que insistir num segundo olhar: Quem já viu um pôr do sol já viu todos. Quem já correu à chuva não precisa de se molhar outra vez.

E depois há a vida que acontece, com eles a espantarem-se a cada passo dado e connosco a seguir caminho, quase cegos.

Acredito pois, que sempre que nascemos pais ou mães, temos em mãos uma espécie de segunda oportunidade. A oportunidade de nos reconciliarmos com a criança que fomos, o privilégio de nos pasmarmos com a criança que os nossos filhos são e com tudo aquilo que de mágico podemos descobrir juntos, a cada virar de esquina.

E são essas descobertas que movidas pela curiosidade insaciável e pela atenção no olhar, serão capazes de nos arrancar suspiros e assim nos mudar por dentro, fazendo perdurar no tempo o respeito e a gratidão com que lemos o mundo.

Para que entendamos, de uma vez por todas, que por mais coisas que saibamos e que tenhamos vivido, os dias nunca acontecem da mesma maneira, o céu tem sempre um azul diferente e aquele sorriso, daquela pessoa, jamais se fará igual.

Para que na próxima vez que ouvirmos: “Olha só para isto, mamã!”, nos deixemos de tretas e tenhamos a humildade de estar e chegar perto, permitindo que os seus olhos nos guiem e nos tragam deslumbramento. Pela vida nas coisas e pelas coisas da vida.

 

Nota: E porque em 8 minutos se pode dizer tanto e porque em 8 minutos cabe a vontade gigante de não esquecer e recuperar a cor perdida, algures, na rotina dos dias. Aqui vos deixo então, esta pequena delícia…

O meu filho não é como eu. E isso é extraordinário.

De todas as aprendizagens que tenho feito enquanto mãe, esta tem sido a que mais me tem desafiado nos últimos tempos.

Talvez se tenha tornado mais presente agora, que a idade do meu filho já lhe permite argumentar, contestar e contrariar, aquelas que são as minhas ideias sobre a forma como deve agir ou sobre a pessoa que deve ser.

Talvez eu já devesse ter entendido isto, no momento em que deixámos de ser um só, para nos tornarmos dois. No corpo, na vontade, na voz. Mas não… Ainda dou por mim a insistir na culpa ou na frustração, sempre que ele, dando firmeza a quem é, age de forma diferente da que previ.

No dia em que nasceu, eu já sabia que a liberdade de ser é o maior bem que se pode dar a um filho. Mas não basta sabê-lo. É preciso experimentá-lo.

Nesta transformação de mulher e de mãe (de homem e de pai), é preciso caminhar e deixar acontecer, para assim aprender que um amor maior como este nosso, não precisa de ser espelho, nem montra, nem sequer precisa de um guião que antecipe todos os passos, ou reproduza todas as falas.

Pelo contrário, querê-lo seria reduzir a quase nada, a nobre missão de ajudar a crescer.

Um amor maior faz-se das vezes em que aceitamos quem os nossos filhos são, sem filtro ou condição. Das vezes em que trazemos à consciência que não são (nem serão) iguais a nós, nas escolhas, no sentir, nem tão pouco no agir. Faz-se, tanto, das vezes em que abraçamos todas as emoções que o seu comportamento nos acende, nos momentos fáceis e apaixonantes mas, sobretudo, nos mais terríveis e desesperantes.

Aceitar os nossos filhos tal como são. Tarefa que eu julguei tão fácil e que afinal, me é ainda tão exigente.

E se às vezes eu ainda penso: Caramba, não era isto que eu esperava que tu fizesses… também já consigo responder a mim própria: Quem me mandou a mim esperar?

Eu só preciso que sejas, não assim e nem assado. Que sejas. E me permitas a extraordinária aventura de o ser contigo.

 

P.S – E tu? Aceitas os teus filhos tal como são? Acredito tanto que vale a pena pensarmos sobre isto…

Três mitos sobre a adolescência que todos repetimos.

“Quando ela chegar à adolescência é que vais ver…“ ou,
“Quem me dera ter um botão para o desligar durante esta fase…” ou ainda,
“Como te entendo, o meu também está na “aborrescência”

Quantas vezes não ouvimos já algumas destas frases, vindas de quem atravessa com os filhos a desafiante fase da adolescência. Quantas vezes não pensámos nós: “E agora, o que é que eu faço?”.

Estas e outras ideias sempre estiveram (e continuam a estar), muito associadas ao processo de desenvolvimento adolescente, não facilitando uma adaptação mais positiva dos jovens e das famílias a tudo o que de novo e único acontece.

A adolescência traz consigo mudanças biológicas, intelectuais, emocionais e sexuais importantes, que se traduzem em aquisições singulares no desenvolvimento humano, alterando quem somos, a nossa visão do mundo e a forma como nos relacionamos com os outros. Estas mudanças têm, de facto, um impacto profundo em toda a dinâmica familiar, com os necessários ajustes de quem está numa fase de “sopas e descanso” em relação às relações amorosas, ao círculo de amigos, à profissão – os pais, e de quem vive e goza o mundo pela primeira vez, conquista amizades, experimenta o primeiro amor, sonha planos para o futuro – os filhos. E é muitas vezes este desequilíbrio na balança dos valores e desejos de pais e filhos, que tantos conflitos provoca no relacionamento entre ambos, escurecendo as lentes através das quais se observam e dificultando uma comunicação mais próxima e mais empática.

Vejamos pois algumas das ideias que por aí circulam sobre a adolescência e que em nada facilitam a forma como nos relacionamos com os adolescentes das nossas vidas:

O mito da fase terrível.
A adolescência é uma fase de vida não só fundamental como absolutamente necessária. As transformações que nela acontecem são uma oportunidade única de desenvolvimento pessoal e social, de auto conhecimento, de definição de uma identidade própria, de construção da autonomia e pretendem preparar o indivíduo para a vida adulta, treinando competências práticas que lhes permitirão afinal, construir o próprio caminho, independente do dos pais.
Pensar neste período como um período difícil e quase indesejado, faz-nos temer a mudança, antecipando de uma forma negativa todas as conquistas que nela acontecem. E aquilo que pensamos, é aquilo que transparecemos e aquilo que muitas vezes contamina a comunicação com os nossos filhos, impedindo-nos de nos libertarmos de ideias feitas, e crescer.

O mito da imaturidade.
As últimas investigações sobre o desenvolvimento cerebral nesta etapa de vida permitem pensar os adolescentes como seres altamente adaptáveis e de uma sensibilidade única, preparados para lidar com todas as tarefas com que se deparam. Contrariamente ao que muitas vezes pensamos, na adolescência torna-se já possível fazer a avaliação dos riscos de um determinado comportamento (de uma forma muito próxima da dos adultos), sendo também já possível antecipar as suas consequências. O que aqui interfere na tomada de decisão, é a ponderação que fazem desses riscos, ou seja, o facto de atribuírem uma maior importância à recompensa que pode advir de um determinado comportamento, como por exemplo, obter a admiração dos amigos. Para além disso, a ideia de que não serão capazes de se safar sozinhos, quer no que se refere à gestão doméstica, quer no que se refere à concretização de projetos pessoais, apenas contribui para que se sintam efetivamente incompetentes e inseguros face às decisões que já se encontram, naturalmente, aptos a fazer.

O mito dos pais desnecessários.
Aviso à navegação: a adolescência pode significar alguma turbulência nas relações entre pais e filhos, mas é ela que lhes permitirá “ganhar espaço” e definir quem são, não significando contudo, que os pais deixem de ter um papel fundamental na vida dos filhos. A família constituirá sempre o modelo de identificação mais importante na vida das crianças e adolescentes e são as normas e valores por ela transmitidos que se assumirão como bússola na vida adulta, mesmo que sejam recebidas com uma saudável dose de contestação (desafio-te a garantir que nunca fizeste um rolar de olhos a uma frase dos teus pais, que acabaste por nunca mais esquecer, de tão certeira que se tornou…). As relações positivas na família, marcadas pelo equilíbrio entre autonomia adolescente e controlo parental, são os melhores preditores de bem estar e ajustamento emocional dos jovens, permitindo-lhes ainda a capacidade de lidar de uma forma mais segura e resiliente com os dilemas de vida com que se deparem.

Ajudar a crescer com sentido de honra e admiração, confiar em quem são e naquilo que serão capazes de fazer e estar presente, na maré calma e na tempestade, são afinal as verdades que lhes serão luz e força e espaço para ser. O resto, é ruído de fundo, que impede de ouvir tudo o que de tão fantástico trazem dentro…

 

Nota: E agora, se ainda te faltou um bocadinho para ficares convencido/a, podes deliciar-te com este vídeo. E acreditar. 🙂

“Um Bom não é uma boa nota?”

Uma amiga de quem gosto muito e que admiro imenso enquanto mãe, contou-me há uns dias uma história que considero deliciosa, pela forma simples, honesta e tão certeira, como que nos põe no nosso lugar.

A Sara, que está no 2º ano, fez um teste na escola. A professora, no dia de devolver as notas aos alunos, fê-lo em voz alta, para que todos ouvissem as notas de todos (vá-se lá saber porquê, mas isso “são outros quinhentos”…)

A Sara teve um Bom.

Ao chegar a casa, feliz com a conquista, partilhou com a mãe a nota recebida. A reação da mãe, fruto do impulso do momento, foi: “Então e a Mariana, que nota teve?”. Ao que a Sara respondeu prontamente: “Porquê mãe? Um Bom não é uma boa nota?”.

A mãe deu-lhe razão, pediu-lhe desculpa e abraçou-a com força. As duas cresceram por dentro nessa noite.

E assim, sem pedir licença e do alto dos seus 7 anos, a Sara deu-nos, à mãe e a mim, uma enorme lição. Uma lição sobre a vida e sobre tudo aquilo que é efetivamente importante preservar: a capacidade de acarinharmos quem somos e de celebrar os objetivos que alcançamos, sem viver na sombra de ninguém.

Não tenho nada a acrescentar a esta história.

Acho que ela se basta a si própria e não quero que palavras a mais, desviem a atenção das coisas grandes que ela ensina.

Eu, sou grata, por tudo o que a Sara me trouxe, quando tão corajosamente lutou, pelo melhor de si.

 

“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.