(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há seis anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

Menino ou menina?

Disse-me, finalmente, depois de um silêncio ensurdecedor: “Eu não posso ir à escola porque não posso ir à casa de banho.”
Tentei disfarçar o aperto no peito e pensei: “Merda. Tu não sabes o que isso é!”
Tu não sabes o que é não saber a que casa de banho deves ir (ou melhor, saber, mas não poder fazê-lo com medo de que os outros não o saibam).
Não sabes o que é ouvi-los chamarem por ti, num nome que não queres ouvir.
Tu não sabes o que é menstruar todos os meses e saber que os rapazes não menstruam.
Não sabes o que é esmagar as mamas todas as manhãs com cinco camadas de tops, três números abaixo do teu, e ficar sem respirar o dia inteiro.
Não sabes o que é tomar banho de olhos fechados e despejar o gel diretamente do frasco para cima da pele, só para não teres de ver ou tocar o teu corpo nu.
Tu não sabes o que é ter toda a gente a falar sobre ti, justificando-te com os problemas em casa ou na escola ou com os amigos, sem nunca ninguém falar do único problema que tens.
Não sabes o que é ver a estranheza nos olhos dos outros e o tatear desajeitado na forma como se dirigem a ti.
Não sabes o que é olhar ao espelho, vezes e vezes sem conta, e nunca, em nenhuma delas te chegares a encontrar.
Tu não sabes o que é estar preso num corpo que não é o teu e quase desistir de falar com alguém, porque ninguém saberá do que falas.
Tu não sabes. Poucos sabem. Mas ELE sabe.

O termo pessoas transgénero integra todas as pessoas que vivem uma discordância entre a identidade ou expressão de género e o sexo atribuído à nascença, definido com base na observação do seus genitais. Falamos, por exemplo, de alguém com uma identidade de género masculina, mas que nasceu mulher, ou vice versa. Falamos de alguém cujo sentir de quem é, não se cumpre naquelas que são as expectativas e normas sociais que se desenham e alimentam pelos outros, ao longo da vida, exclusivamente a partir do sexo identificado desde a gravidez e/ou nascimento.

Falar de crianças e jovens transgénero neste país é ainda falar muito pouco, e tantas vezes mal. É ainda ouvir dizer, lá longe, sobretudo em relação aos filhos dos outros, que a Joana sempre foi maria rapaz ou que o Luís tem andado confuso. É alimentar silêncios, treinar a invisibilidade e agarrar-se à ideia de que se possa ser só uma fase, como se essa esperança, de um colete salva vidas se tratasse. É baralhar tudo e achar que identidade de género e orientação sexual são duas faces de uma mesma moeda e que o que é preciso mesmo é que ela tenha uma boa experiência com um rapaz para que isto tudo lhe passe.

Ser criança ou jovem transgénero nas escolas deste país ainda é ouvir todos os dias, várias vezes por dia, chamar um nome que não é o teu e ter de responder baixinho: “Presente”. É ter de inventar mil desculpas para não fazer a aula de Educação Física porque te esperam na equipa faminina, sempre que gritam: “Filipa ao campo!”. Ou porque acham que é preguiça, abrandar o passo na corrida, quando afinal só há falta de espaço no peito, não para correr, mas para respirar (pudesses tu correr para algum lado, aposto que não quererias senão, correr dali…). E depois vem o balneário, e os chuveiros sem porta e a vergonha e os olhares… Às vezes, vem até o medo.

E depois vêm os pais e os professores e os psicólogos e as avaliações e as sugestões, até que existe um dia em que finalmente se consegue dizer o que nos vai dentro ou em que alguém consegue entender aquilo que precisa de ser ouvido.

E é a partir desse dia que estas crianças e jovens passam novamente a existir em que todos à sua volta podem aprender, integrar e construir uma escola e um mundo em que todos (e cada um) podem experimentar, explorar, conhecer e construir a pessoa que são, sem olhar à pessoa que todos desejam que seja.

Falta muito ainda, mas já começámos o caminho e o que é mesmo preciso é continuar a lutar para que os direitos das pessoas LGBTI, ou melhor, para que os Direitos Humanos, não se fiquem no papel mas antes passem para a mesa do café, para a fila do supermercado e para a carteira da sala de aula, para a voz e para o corpo. Para todo o lado e por todo o lado.

Não é a Joana que é maria rapaz ou o Luís que tem andado confuso. Somos nós. Somos todos nós que andamos a precisar de entender que a diversidade da sexualidade não se encerra no entendimento binário de sexo e de género. Somos nós que andamos, sobretudo, a precisar de sentir.

Como?

Imagina o que sentirias se um dia te deitasses como mulher e acordasses num corpo de homem. Imagina agora que até podia ser assim desde o momento em que lembras de ti como gente.

Conseguiste? Pois bem, é mais ou menos isso…

 

Para saber mais e procurar apoio:

AMPLOS – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género
ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo
Rede Ex Aequo – Associação de Jovens LGBTI e apoiantes
APF – Associação para o Planeamento da Família

A importância do sono infantil.

E sai do forno, a segunda entrevista by Pés na Lua, com o amor de sempre.

A Teresa Sousa é Psicóloga Clínica, Especialista em Ritmos de Sono do Bebé. É autora do Blog do Bom Soninho e responsável pela Consulta do Sono do Bebé em vários locais no Algarve.

Nesta conversa tivemos oportunidade de conhecer um pouco do seu percurso de vida e como é que o facto de não ter sido uma criança de “sono fácil” a trouxe até à experiência de acompanhar pais e famílias para que possam ter noites progressivamente mais tranquilas.

Como já vem sendo hábito, a conversa informal levou-nos a descobrir outras coisas e a refletir sobre o crescimento, procurando algumas respostas sobre as principais dúvidas que levam os pais a procurar apoio para ajudar os filhos a dormir cada vez melhor.

E porque, tal como diz a Teresa, “nós estamos sempre a crescer como pessoas”, convido-vos a aprender mais um bocadinho sobre um tema tão pertinente. Espero que gostem! 🙂

Entre nós, há um bebé.

Preparamo-nos para tudo durante uma gravidez.
Fazemos uma lista dos sinais de alerta que podem significar risco, aprendemos a contabilizar o número de pontapés na barriga, a registá-lo num livrinho e a comer um chocolate sempre que a/o miúda/o esteja estranhamente mais calma/o. Compramos os melhores (e maiores) soutiens, espantadas com a inesperada voluptuosidade, besuntamos a barriga com toneladas de creme gordo, para evitar as estrias e até vamos, devagarinho, conformando-nos com a ideia de ter de gramar com um sem fim de malta a enfiar-nos o dedo na vagina nas idas ao hospital e durante todo o internamento.

Pelo caminho, vamos também aprendendo mais sobre o recém nascido.
Falamos sobre o choro, sobre mamas, sobre o choro por falta de mamas e ainda arrecadamos a preciosa informação de que existem cerca de 30 tipos de mamilos, e que alguns poderão facilitar-nos (ou dificultar-nos) a vida daí em diante. Aprendemos a mudar a fralda, a conhecer as melhores marcas do mercado para evitar as fugas, sabemos medir a temperatura da água ao milésimo de grau centígrado e até a fazer uma “argolhinha” com os dedos para não deixar escorregar o bebé durante o banho (ainda que qualquer semelhança entre um nenuco e um bebé, seja pura coincidência). Iniciamos uma biblioteca privada e especializadíssima que nos acompanhará para o resto da nossa existência e que promete ter resposta pronta para todas as dúvidas: o sono, a falta dele, a fome, as rotinas, as birras, a disciplina, a entrada na escola, os irmãos, os tempos livres, and so on… and on, and on…

Falamos muito sobre quase tudo e passamos a pente fino os principais desafios da maternidade, para depois nos esquecermos de um: aquilo que se transforma na relação amorosa e sexual com os/as nossos/as parceiro/as.

Pois é, a boa da sexualidade. Logo ela que tantas vezes é negligenciada, como se fosse o parente pobre da educação. Logo ela, que mexe com tudo o que somos e impregna de uma energia incrível, aquilo que sentimos enquanto pessoas e a forma como nos relacionamos com os outros.

E como é que a chegada de um bebé podia ser imune a isto? Não podia.

A sexualidade no pós parto tem de ser tema de conversa e de reflexão, nos cursos, entre os amigos, na relação, para que o tempo e o que não se perguntou, não se transformem numa espécie de elefante no meio da sala e com ele remetam ao silêncio todos os que a vivem, transformando as naturais mudanças/ ajustamentos, em barreiras difíceis de transpor.

E as barreiras, às vezes, crescem em altura com as ideias feitas que às vezes se ouvem por aí…

Quarenta dias depois do parto, a mulher pode retomar a sua vida sexual.
Pode, não quer dizer que tenha de o fazer. A prolactina, hormona responsável pela produção do leite materno é diminuidora do desejo sexual, com natural impacto na lubrificação da vagina o que, no caso de uma relação sexual com penetração, pode tornar-se mais doloroso e significar uma menor predisposição da mulher. Para além disso, a intensidade e a exigência das transformações ocorridas durante a gravidez, no momento do parto e no puerpério, podem significar à mulher a necessidade de preservação de um espaço de retorno a si própria, do acarinhar da relação com o próprio corpo e de integração e entendimento dos novos desafios, nos quais o bebé se torna muitas vezes figura central. Pode por isso restar pouco espaço para a relação com o/a parceiro/a e isso deve ser entendido, respeitado e muitas vezes, desdramatizado por ambos. Retomar a vida sexual sim, sempre que haja essa indicação médica, mas sobretudo apenas e quando a mulher assim o sentir.

É importante não deixar que o bebé desvie a atenção da relação e nos impeça de investir na relação com o/a parceiro/a. 
Quando se nasce mulher, nasce-se também com a ideia de desejabilidade social, de cuidadora exímia, de mãe extremosa, de amante sensual… no matter what. E depois, quando por razões mais do que óbvias, nada disto é possível, vem a culpa que se carrega em silêncio e se disfarça de “sins” e de lingerie nova e de jantar feito e de casa arrumada. A experiência de nos tornarmos mães, por mais que isso seja desejado e verdadeiramente apaixonante, é mais ou menos como ser abalroada por um camião em desgoverno, que nos despeja em cima um sem fim de caixotes cheios de informação variada, que é preciso digerir e arrumar devagarinho e a seu tempo, sem pressão. O sexo pode aqui não ser efetivamente o mais importante.

Depois do parto, a vagina da mulher não volta a ser o que era.
Os músculos do assoalho pélvico sofrem e alteram-se, não apenas devido à passagem do bebé, mas também devido ao aumento de peso da mãe e às inúmeras mudanças hormonais ocorridas. Esta é uma das questões que por vezes preocupa as mulheres (e os homens), ainda que isso não seja muitas vezes verbalizado. E a importância de falar sobre isto é tão pertinente que há mulheres que relatam que, após a episiotomia (incisão na região do períneo da mulher, realizada durante o período expulsivo), lhes tenha sido sugerida a possibilidade de realizar um ponto extra – “ponto do marido” que, pretensamente deixaria a vagina mais apertada, com o objetivo de proporcionar mais prazer ao parceiro durante a penetração. Ainda que na literatura científica esta prática não esteja devidamente sustentada e, sobretudo, não exista nenhuma justificação clínica para que a mesma pudesse ser sugerida, uma vez que o prazer sexual não está relacionado com o estreitamento da entrada da vagina, esta é uma questão que é referida por algumas mulheres, o que, a par da episiotomia não consentida, é considerado violência obstétrica. De facto, as mudanças ocorridas durante o parto não provocam alterações significativas e, com o passar do tempo e a recuperação natural do corpo, as mesmas são minimizadas, sobretudo pelo facto da vagina se tratar de uma região em que os músculos são elásticos e têm a fantástica propriedade de relaxar e contrair. Existem por isso, exercícios específicos para o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, como os exercícios de Kegel, que serão fundamentais a um maior bem estar e à prevenção de problemas como a incontinência urinária ou a dor durante uma relação sexual com penetração.

Depois de um bebé a relação amorosa nunca mais será a mesma.
O nascimento de um bebé e a experiência da parentalidade altera profundamente quem somos e a forma como pensamos a relação connosco e com os outros. Ter um bebé em casa, sobretudo nos primeiros tempos, altera toda a rotina familiar, interfere nos padrões de sono, implica um sem fim de reajustes e, sobretudo, assume muitas vezes contornos de uma verdadeira montanha russa emocional. Os silêncios, a falta de espaço íntimo, os medos relativos aos novos papéis, a falta de disponibilidade física e mental para o/a parceiro/a, podem efetivamente fazer mossa na relação. Tornar isto consciente, procurar partilhá-lo, sempre e quando nos for possível, e ser empático naquilo que o outro poderá estar a sentir, serão sempre ingredientes indispensáveis ao “surfar” da onda avassaladora de nos tornarmos mães e pais, sem perdermos de vista as mulheres e os homens que somos.

E se entre nós (vós) há um bebé, muitas vezes haverá também amor, amizade, companheirismo, cumplicidade, aceitação… E sempre que assim for, o bebé existirá e crescerá, na medida proporcional do amor que o gerou. Até ao fim dos tempos, ou até que o amor e o tempo, se transforme não naquilo que se esperava, mas naquilo que aconteceu.

E isso, pode ser bonito também.

Gestão emocional e padrões parentais.

Passou algum tempo desde o meu último texto.
Voltei ao tempo dos desafios maiores e com eles e apesar do cansaço, voltei a não conseguir parar a vontade, nem tão pouco a impedir que as ideias me desinquietem a alma e o corpo se ponha em sentido para as fazer nascer. Acho mesmo que não sei ser de outra maneira.

Foi com esta vontade que sonhei para a Lua o espaço “Diz quem sabe”, para que outras pessoas pudessem entrar e ajudar a refletir sobre temas relacionados com a parentalidade e o desenvolvimento infantil e adolescente, trazendo outras perspectivas, partilhando sonhos e projetos e, acima de tudo, crescendo em conjunto.

A Paula foi companheira de viagem nesta aventura de gravar a primeira entrevista do Pés na Lua em que, sob o mote da gestão emocional e dos padrões parentais, procurámos, de uma forma descontraída e muito próxima contribuir para tornar mais consciente o impacto que os modelos da nossa infância têm na relação com os nossos filhos, na certeza de que podemos sempre, enquanto pais, tornar as nossas escolhas mais equilibradas e adequadas ao que efetivamente pretendemos ensinar.

Hoje partilho contigo o resultado deste desafio que me obrigou também a receber e a aceitar algumas das minhas vulnerabilidades, sobretudo aquelas que a palavra escrita permite esconder. É com elas que aqui estou, cheia de “bengalas” no discurso, com a voz às vezes trémula e a certeza de que não perguntei tudo o que planeei perguntar, porque me entreguei me entreguei à conversa e deixei acontecer.

Com a Paula foi fácil e no final, ainda que esse momento tenha ficado só para nós, houve uma gargalhada sonora e cúmplice que só por ter acontecido, já fez tudo valer a pena.

Espero que gostes e prometo em breve trazer mais pessoas bonitas (e textos, porque continua a ser neles que me esqueço de tudo, e me encontro outra vez…)

Nota: Um agradecimento muito especial às gentes fantásticas da Tertúlia Algarvia que nos receberam de uma forma tão acolhedora e familiar e, claro, à equipa maravilha da BotodaCruz Creative Studio que fazem sempre acontecer magia por aqui. <3

Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Do elogio ao encorajamento. Descubra as diferenças.

Voltou da tarde do Centro de Ciência Viva, feliz. Procurou a taça, o copo e o algodão para fazer outra vez magia na experiência aprendida. Chamou-nos. Encantados e com a vontade incontrolável de o encantar, dissemos: “Uau, que giro!”, para depois voltarmos ao que estávamos a fazer.
Percebi que depois daquele elogio nada tinha acontecido.
O sorriso tinha-me soado pouco entusiasmado e eu não voltei a ver o brilho do espanto inicial. Resolvi voltar atrás e perguntar: “Isso foi mesmo giro! Gostava mesmo de aprender como se faz…” E num segundo, foi ver o rosto iluminar-se outra vez e as palavras darem corpo à sensação feliz de se ser capaz e de se ser reconhecido por isso.

Usamos frequentemente o elogio como forma de mostrar amor e de o ganhar na satisfação imediata dos nossos filhos, mas o problema está precisamente nesta gratificação instantânea que pouco ou nada ensina e que muitas vezes serve de travão à comunicação, exatamente como aconteceu no início da história que aqui partilhei: “Gostaste? Boa, está tudo dito…”

O elogio sabe bem, mas o encorajamento consegue ir muito além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima da criança. Pensar na forma como comunicamos o valor que sentimos nos nossos filhos, procurando estimular a ligação emocional e o desenvolvimento de um sentido de capacidade e empoderamento a cada passo dado, pode significar-lhes a diferença no enfrentar dos diferentes desafios de vida e na autonomia e confiança necessário para os superar. Ora vejamos porquê…

O elogio é uma espécie de shot de felicidade. O encorajamento faz-nos fazer sentir capazes de abraçar todos os desafios;

O elogio salienta as coisas que temos, a forma como parecemos ou aquilo que fazemos: “Que desenho bonito!” O encorajamento permite aprendizagem e conhecimento: “Olha só as cores que usaste! Gostas muito de azul?”

Um elogio é uma avaliação: “Lindo menino! Arrumaste tudo sozinho!” O encorajamento ensina-nos mais sobre nós próprios e sobre os outros: “Obrigada por teres cuidado do teu quarto. Como te sentes por ter tudo mais organizado?”

O elogio celebra o produto: “Estás linda!” O encorajamento valoriza o processo: “Vejo que hoje escolheste a tua roupa sozinha e que isso foi importante para ti. Queres contar-me como o fizeste?”

O elogio alimenta o locus de controle externo: “O que é os os outros pensam?”. O encorajamento favorece a reflexão interna: “O que é eu penso sobre isto?”

O elogio tem como objetivo a conformidade: “Fizeste muito bem!”. O encorajamento promove a compreensão: “O que senti? O que aprendi?”

O elogio usa os outros como termómetro: “Mamã, hoje fui melhor que os outros, não fui?” O encorajamento faz nascer sentido de competência: “Mamã, sinto que hoje fiz um bom trabalho.”

As diferenças são muitas e conseguem muitas vezes notar-se no imediato, porque para além do sorriso radiante, o encorajamento acrescenta ainda o brilho no olhar e a certeza de que somos donos e senhores do que é preciso para continuar a experimentar o mundo.

É aqui que passamos a gostar de quem somos, mesmo que às vezes nem todos gostem de nós.
E todos já sentimos na pele o quão é isto importante, não sentimos?

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

Seis livros para pensar o crescimento.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade, nunca se conheceram tantos especialistas na matéria e nunca se deram tantas dicas e se fizeram tantos tratados, acerca de como educar uma criança.

E isso é bom.

É bom desde que não percamos de vista quem somos e em quem nos queremos tornar enquanto educadores. É bom desde que não cedamos à tentação de não nos ouvirmos e de não ouvirmos os nossos filhos, conhecendo aquilo que os torna tão especiais. É bom desde que não nos deixemos enganar pela culpa de achar que, se não funciona assim connosco, é porque somos péssimos pais. É bom, sempre que saibamos integrar a informação e ver para além dela, à luz daquele que é o nosso caminho e enquadrando-a naquele que é o nosso contexto familiar e história de vida.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade e eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre o assunto. Estão carregados de anotações e reflexões pessoais, que se fizeram do eco que as palavras lidas deixaram em mim.

De todos eles retirei o meu melhor, em todos eles deixei um pouco de quem sou, que volto sempre para buscar, quando a vontade me dá ou quando a vida me lembra da certeza absoluta de que nada sei. Não são bíblias, porque acredito que nunca nenhum livro, nem nenhum autor, por mais especializado que seja, será capaz de transformar em fórmula universal, a complexidade e o desafio de ajudar um filho a crescer. A eles, dou-lhes a tarefa consciente de se constituírem luz e impulso para pensar e para me conhecer nos sentidos com que me identifique e naqueles que construa a partir daí.

É por isto que nos textos que escrevo, procuro deixar espaço para que cada mãe, cada pai e cada família se possa encontrar num caminho que lhe é próprio e retirar das palavras, apenas e só, aquilo que lhe sirva, para depois o transformar e lhe trazer verdadeiro significado.

É por isso assim, com este propósito, que hoje vos deixo alguns dos autores que me trouxeram reflexões importantes e me deram asas para voar a partir dos livros que escreveram.

Não os vejam como especialistas, porque o especialista mais inspirador, mora em cada um de vós e no sujeito da vossa especialidade, que será sempre um ser único e com características irrepetíveis.

É essa a magia de educar. Não a percamos de vista.

 

Aqui te deixo a referência de alguns dos livros sobre parentalidade que mais me têm ensinado, esperando que possam trazer-te sentido também… (e claro, adoraria conhecer outros que a ti te tenham marcado 🙂

 

Pais Conscientes, Educar para crescer, de Shefali Tsabary
Pais Conscientes
Educar para crescer
de Shefali Tsabary

Disciplina Sem Dramas de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel
Disciplina Sem Dramas
Zangas para quê ? Os segredos da neurociência para educar os filhos tranquilamente
de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel

Educar na Curiosidade de Catherine L'Ecuyer
Educar na Curiosidade
Como educar num mundo frenético e hiperexigente?
de Catherine L’Ecuyer

Mindfulness para Pais Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes de Laura Sanches
Mindfulness para Pais
Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes
de Laura Sanches

O Cérebro da Criança Explicado aos Pais de Álvaro Bilbao
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Como ajudar o seu filho a desenvolver todo o potencial intelectual e emocional
de Álvaro Bilbao

Free To Learn : Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
Free To Learn
Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
de Peter Gray


 

Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.