Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Do elogio ao encorajamento. Descubra as diferenças.

Voltou da tarde do Centro de Ciência Viva, feliz. Procurou a taça, o copo e o algodão para fazer outra vez magia na experiência aprendida. Chamou-nos. Encantados e com a vontade incontrolável de o encantar, dissemos: “Uau, que giro!”, para depois voltarmos ao que estávamos a fazer.
Percebi que depois daquele elogio nada tinha acontecido.
O sorriso tinha-me soado pouco entusiasmado e eu não voltei a ver o brilho do espanto inicial. Resolvi voltar atrás e perguntar: “Isso foi mesmo giro! Gostava mesmo de aprender como se faz…” E num segundo, foi ver o rosto iluminar-se outra vez e as palavras darem corpo à sensação feliz de se ser capaz e de se ser reconhecido por isso.

Usamos frequentemente o elogio como forma de mostrar amor e de o ganhar na satisfação imediata dos nossos filhos, mas o problema está precisamente nesta gratificação instantânea que pouco ou nada ensina e que muitas vezes serve de travão à comunicação, exatamente como aconteceu no início da história que aqui partilhei: “Gostaste? Boa, está tudo dito…”

O elogio sabe bem, mas o encorajamento consegue ir muito além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima da criança. Pensar na forma como comunicamos o valor que sentimos nos nossos filhos, procurando estimular a ligação emocional e o desenvolvimento de um sentido de capacidade e empoderamento a cada passo dado, pode significar-lhes a diferença no enfrentar dos diferentes desafios de vida e na autonomia e confiança necessário para os superar. Ora vejamos porquê…

O elogio é uma espécie de shot de felicidade. O encorajamento faz-nos fazer sentir capazes de abraçar todos os desafios;

O elogio salienta as coisas que temos, a forma como parecemos ou aquilo que fazemos: “Que desenho bonito!” O encorajamento permite aprendizagem e conhecimento: “Olha só as cores que usaste! Gostas muito de azul?”

Um elogio é uma avaliação: “Lindo menino! Arrumaste tudo sozinho!” O encorajamento ensina-nos mais sobre nós próprios e sobre os outros: “Obrigada por teres cuidado do teu quarto. Como te sentes por ter tudo mais organizado?”

O elogio celebra o produto: “Estás linda!” O encorajamento valoriza o processo: “Vejo que hoje escolheste a tua roupa sozinha e que isso foi importante para ti. Queres contar-me como o fizeste?”

O elogio alimenta o locus de controle externo: “O que é os os outros pensam?”. O encorajamento favorece a reflexão interna: “O que é eu penso sobre isto?”

O elogio tem como objetivo a conformidade: “Fizeste muito bem!”. O encorajamento promove a compreensão: “O que senti? O que aprendi?”

O elogio usa os outros como termómetro: “Mamã, hoje fui melhor que os outros, não fui?” O encorajamento faz nascer sentido de competência: “Mamã, sinto que hoje fiz um bom trabalho.”

As diferenças são muitas e conseguem muitas vezes notar-se no imediato, porque para além do sorriso radiante, o encorajamento acrescenta ainda o brilho no olhar e a certeza de que somos donos e senhores do que é preciso para continuar a experimentar o mundo.

É aqui que passamos a gostar de quem somos, mesmo que às vezes nem todos gostem de nós.
E todos já sentimos na pele o quão é isto importante, não sentimos?

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

Seis livros para pensar o crescimento.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade, nunca se conheceram tantos especialistas na matéria e nunca se deram tantas dicas e se fizeram tantos tratados, acerca de como educar uma criança.

E isso é bom.

É bom desde que não percamos de vista quem somos e em quem nos queremos tornar enquanto educadores. É bom desde que não cedamos à tentação de não nos ouvirmos e de não ouvirmos os nossos filhos, conhecendo aquilo que os torna tão especiais. É bom desde que não nos deixemos enganar pela culpa de achar que, se não funciona assim connosco, é porque somos péssimos pais. É bom, sempre que saibamos integrar a informação e ver para além dela, à luz daquele que é o nosso caminho e enquadrando-a naquele que é o nosso contexto familiar e história de vida.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade e eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre o assunto. Estão carregados de anotações e reflexões pessoais, que se fizeram do eco que as palavras lidas deixaram em mim.

De todos eles retirei o meu melhor, em todos eles deixei um pouco de quem sou, que volto sempre para buscar, quando a vontade me dá ou quando a vida me lembra da certeza absoluta de que nada sei. Não são bíblias, porque acredito que nunca nenhum livro, nem nenhum autor, por mais especializado que seja, será capaz de transformar em fórmula universal, a complexidade e o desafio de ajudar um filho a crescer. A eles, dou-lhes a tarefa consciente de se constituírem luz e impulso para pensar e para me conhecer nos sentidos com que me identifique e naqueles que construa a partir daí.

É por isto que nos textos que escrevo, procuro deixar espaço para que cada mãe, cada pai e cada família se possa encontrar num caminho que lhe é próprio e retirar das palavras, apenas e só, aquilo que lhe sirva, para depois o transformar e lhe trazer verdadeiro significado.

É por isso assim, com este propósito, que hoje vos deixo alguns dos autores que me trouxeram reflexões importantes e me deram asas para voar a partir dos livros que escreveram.

Não os vejam como especialistas, porque o especialista mais inspirador, mora em cada um de vós e no sujeito da vossa especialidade, que será sempre um ser único e com características irrepetíveis.

É essa a magia de educar. Não a percamos de vista.

 

Aqui te deixo a referência de alguns dos livros sobre parentalidade que mais me têm ensinado, esperando que possam trazer-te sentido também… (e claro, adoraria conhecer outros que a ti te tenham marcado 🙂

 

Pais Conscientes, Educar para crescer, de Shefali Tsabary
Pais Conscientes
Educar para crescer
de Shefali Tsabary

Disciplina Sem Dramas de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel
Disciplina Sem Dramas
Zangas para quê ? Os segredos da neurociência para educar os filhos tranquilamente
de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel

Educar na Curiosidade de Catherine L'Ecuyer
Educar na Curiosidade
Como educar num mundo frenético e hiperexigente?
de Catherine L’Ecuyer

Mindfulness para Pais Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes de Laura Sanches
Mindfulness para Pais
Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes
de Laura Sanches

O Cérebro da Criança Explicado aos Pais de Álvaro Bilbao
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Como ajudar o seu filho a desenvolver todo o potencial intelectual e emocional
de Álvaro Bilbao

Free To Learn : Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
Free To Learn
Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
de Peter Gray

 

Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.

As razões pelas quais todos queremos ter um/a adolescente nas nossas vidas.

 

Sim, eu sei que às vezes não é fácil ser mãe ou pai de um/a adolescente (tal como não será fácil ser filho de um adulto…) mas a verdade é que, independentemente dos dias menos bons (desejáveis e necessários à transformação natural da família nesta etapa de vida), muitas são as razões que tornam tão incrível, a oportunidade de acompanhar os filhos na aventura da adolescência.

Daniel Siegel, é um neuropsiquiatra que nos últimos anos se tem dedicado a estudar o funcionamento do cérebro adolescente, cujas características e especificidades, considera fundamentais ao desenvolvimento humano. Para Siegel, é a “essência da adolescência” e a sua vivência positiva e plena, que permitirá ao cérebro manter-se saudável na idade adulta.

Assim, e para que não percamos de vista as maravilhas da adolescência, permitindo que se tornem luz e espaço para ser, cá seguem quatro bons motivos para querer tê-los por perto, e com isso, reaprender…

Gosto pela novidade, ou se quisermos, um saudável e apurado sentido de espanto. Relacionado com a ativação dos circuitos cerebrais que aumentam a sensibilidade para a procura de recompensas e sensações novas, é precisamente esta abertura às novas experiências, que alimenta o entusiasmo pela vida, a coragem para arriscar e a motivação para descobrir novas formas de realização pessoal, tão fundamentais a que um dia se sintam capazes de abandonar o conforto do ninho e construir o próprio caminho.

Intensidade emocional, alimentada pela experiência intensa dos diferentes estados emocionais que, nesta fase de vida, ainda se sobrepõe à racionalidade do córtex pré-frontal (desenvolvido por volta dos 20/25 anos). É esta vibração sonora dos diferentes estados de alma que tantas tempestades traz às famílias, desencadeando as tão conhecidas alterações de humor e a experiência de alguns momentos de grande reatividade, sobretudo perante as contrariedades ou as frustrações. No seu melhor, este arco-íris emocional proporciona aos adolescentes e a quem com eles convive, um enorme boost de energia e vitalidade, um sentido de entrega ao momento presente e uma excelente oportunidade de auto-conhecimento e auto-regulação.

Criatividade. Estimulada pelo conhecimento de que a realidade é o conjunto de todas as possibilidades, é a procura incessante de respostas e a criatividade no enfrentar dos desafios, que permite explorar o mundo, questioná-lo, testar as hipóteses e torná-las possíveis. “Experimentar o mundo ordinário como extraordinário”, contribui para desenvolver competências relacionadas com a proatividade e capacidade de adaptação e resolução de problemas e favorece o desempenho no campo das artes, da música, da ciência, trazendo descobertas únicas e crescimento pessoal.

Compromisso social. Na adolescência dá-se um pico de neurónios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento dos outros e que levam à sua repetição. Para além disso, uma maior sensibilidade à ação da oxitocina, predispõe à criação de vínculos significativos com os outros. Na prática, ganha-se uma maior disponibilidade para estar em grupo e agir socialmente, o que permite o alargamento do mapa das relações sociais, tornando-as simultaneamente mais compensadoras e ainda, estimulando a procura de suporte comunitário, fatores altamente preditores de bem estar, satisfação e felicidade ao longo da vida.

E não é isto afinal que todos queremos para os nossos filhos?
Que se mantenham curiosos e criativos, que se sintam capazes de conquistar o mundo, que se emocionem com a vida e que descubram nos outros, parte importante da sua humanidade?

Não seria isto afinal que gostaríamos de ter preservado mais em nós?
Resgatemos pois a nossa essência e celebremos a oportunidade (e o adolescente que um dia fomos), junto daqueles que nos trazem a oportunidade e o privilégio de os ajudar a crescer.

“Quando os filhos voam” – por Rubem Alves

Admiração profunda por tudo o que este senhor pensou, e disse, e escreveu…

“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.

Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança.

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase.

Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível.

Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar.

E não há estrada mais bela do que essa.”

 

Texto de Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro, psicanalista, “professor do espanto”, e tantas outras coisas bonitas…

(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há cinco anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…