As coisas que os adultos às vezes não sabem…

Eram cinco e dez. Estávamos ambos à espera que os nossos filhos voltassem das atividades extracurriculares que tinham terminado às cinco.

Quando o filho chegou gritou-lhe aos ouvidos: “NÃO TENS RELÓGIO?!? SE CALHAR ESTÁS É A PRECISAR QUE O DEITE FORA PARA VER SE APRENDES. SE CALHAR ACHAS QUE NÃO TENHO MAIS NADA PARA FAZER, A NÃO SER ESTAR AQUI À TUA ESPERA!”

Eram cinco e dez. As atividades extracurriculares tinham terminado às cinco.

Não o olhou. Não lhe tocou. Não lhe disse olá. Deixou a porta bater e seguiu à frente, dono e senhor do mundo (e daquela criança), sem nenhuma noção daquilo que ali tinha acabado de acontecer.

Procurei o olhar do miúdo. Talvez tentasse que o meu lhe desse algum colo. Não consegui encontrá-lo.

Assim que a porta bateu, colou a cara ao chão e limitou-se a arrastar-se atrás do pai, com o hábito pesado de quem o faz todos os dias e nem sequer imagina que a vida possa ser de outra maneira.

Fiquei a vê-los subir a rampa, atravessar o portão, entrar no carro. Em nenhum momento se olharam, se tocaram ou sequer disseram olá.

Tive outra vez vontade de chorar. Tenho sempre.

E se, na pessoa que sou, procuro ter presente a importância de ler os outros de uma forma empática e cada vez mais justa, destapando as intenções que podem esconder-se no agir atabalhoado da nossa parentalidade, dou por mim a ter a certeza que os adultos às vezes não sabem o que fazem.

Mas deviam.

Os adultos às vezes não sabem que para educar um filho não é preciso aprender sobre filhos, é preciso aprender sobre nós. Sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre os medos que escondemos, sobre as expectativas que nos toldam o sentir e até sobre quem desejaríamos ser, que tantas vezes nos confunde e nos afasta da melhor versão de nós próprios (e daquela que os nossos filhos efetivamente precisam).

Os adultos às vezes não sabem que é na infância que decidimos quem somos e que é na voz dos que nos cuidam que nos encontramos e ganhamos a força de saber que somos amados, sendo também ela que nos permite um dia amar alguém.

Os adultos às vezes não sabem que não são eles os mestres, mas sim as crianças que julgam aprendizes, e que todos os dias lhes dão enormes lições de vida, de coragem e de generosidade, que só podem ser ouvidas olho no olho e com o coração aberto e atento.

Os adultos às vezes não sabem que comportamento gera comportamento e que se é agressividade, desconexão e desamor que ensinamos, é assim que os nossos filhos aprenderão a relacionar-se também.

Os adultos às vezes não sabem que todos (sobretudo as crianças) lhes perdoarão os dias menos bons, as palavras desajeitadas, a falta de chão, desde que eles, os adultos, tenham a maturidade de o partilhar e de pedir desculpa, para assim serem lembrados também pelo erro, mas sobretudo pela humildade de avançar e de aprender.

Os adultos às vezes não sabem que mais do que serem filhos, os filhos são pessoas e que por isso, não são arma de arremesso, nem saco de soco, nem gruta onde se possa afundar o grito das frustrações e desalentos e tristezas que a vida traga. As pessoas, que também são filhos, merecem sempre a nossa melhor versão.

Os adultos não sabem, por fim, que saber amar é um dever das pessoas crescidas, precisamente porque já cresceram e porque já terão aprendido no caminho, que não há coração que não bata mais forte e não se abra ao mundo, sempre que sabe que há quem espere por ele à porta e ainda lhe diga num abraço: Tive tantas saudades tuas…

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

A verdadeira missão da parentalidade.

Ter um filho.

Podemos começar por aqui.
Pela ideia que tantas vezes ouvimos acerca das motivações para a parentalidade: “Engravidei porque queria muito ter um filho” ou, “Desde miúda que sonhava ter filhos. Não um, mas muitos”, ou até, “A minha mulher sempre quis ter uma menina. Eu já me dava por contente por já ter o João.”

Ter um filho.

Pari-lo, alimentá-lo, cuidá-lo, mimá-lo. Dar-lhe o nosso melhor para que um dia se torne muito melhor do que nós, e assim nos afague o ego, nos redima de todos os lados lunares e se cumpra nas expectativas da pessoa que gostaríamos de ter sido.

Ter um filho.

Vinculá-lo a nós, amarrá-lo à ideia que temos de quem é, torná-lo refém da nossa aprovação, para que nos honre e se torne merecedor do nosso mais perfeito amor.

Desaprender.

Sentir o seu crescimento, a sua força de ser, a luz, que às vezes, de tão intensa, quase nos cega. Vê-lo desabrochar, sem saber ao certo o tom predominante das pétalas que lhe nascem dentro. Ouvir a sua essência, celebrar a sua unicidade e permitir-lhe a liberdade de a experimentar, a cada descoberta que faça sobre si.

Renascer.

Em quem somos e em tudo o que somos juntos. Um filho que é afinal mestre de vida, capaz de iluminar os lugares mais esquecidos em nós, não só porque precisamos de nos relacionar com eles, mas também porque precisamos de os compreender, de os sarar e, progressivamente, nos tornarmos conscientes de quem somos, abrindo o coração à ideia de que este filho É, para além de nós.

Aceitar.

Olhá-lo como parceiro de jornada. Livre, meticulosamente perfeito na sua imperfeição, nas escolhas que faça, na personificação do seu espírito. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queira ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de si.

É aqui que se aprende a amar incondicionalmente. Só aqui.

E é aqui, precisamente neste ponto de viragem e de consciência, que começa verdadeiramente a mais corajosa e transformadora viagem da nossa existência: Sermos pais.

Tudo, porque um dia sonhámos ter um filho e descobrimos que afinal, éramos nós que nos tornávamos para sempre seus…

Gestão emocional e padrões parentais.

Passou algum tempo desde o meu último texto.
Voltei ao tempo dos desafios maiores e com eles e apesar do cansaço, voltei a não conseguir parar a vontade, nem tão pouco a impedir que as ideias me desinquietem a alma e o corpo se ponha em sentido para as fazer nascer. Acho mesmo que não sei ser de outra maneira.

Foi com esta vontade que sonhei para a Lua o espaço “Diz quem sabe”, para que outras pessoas pudessem entrar e ajudar a refletir sobre temas relacionados com a parentalidade e o desenvolvimento infantil e adolescente, trazendo outras perspectivas, partilhando sonhos e projetos e, acima de tudo, crescendo em conjunto.

A Paula foi companheira de viagem nesta aventura de gravar a primeira entrevista do Pés na Lua em que, sob o mote da gestão emocional e dos padrões parentais, procurámos, de uma forma descontraída e muito próxima contribuir para tornar mais consciente o impacto que os modelos da nossa infância têm na relação com os nossos filhos, na certeza de que podemos sempre, enquanto pais, tornar as nossas escolhas mais equilibradas e adequadas ao que efetivamente pretendemos ensinar.

Hoje partilho contigo o resultado deste desafio que me obrigou também a receber e a aceitar algumas das minhas vulnerabilidades, sobretudo aquelas que a palavra escrita permite esconder. É com elas que aqui estou, cheia de “bengalas” no discurso, com a voz às vezes trémula e a certeza de que não perguntei tudo o que planeei perguntar, porque me entreguei me entreguei à conversa e deixei acontecer.

Com a Paula foi fácil e no final, ainda que esse momento tenha ficado só para nós, houve uma gargalhada sonora e cúmplice que só por ter acontecido, já fez tudo valer a pena.

Espero que gostes e prometo em breve trazer mais pessoas bonitas (e textos, porque continua a ser neles que me esqueço de tudo, e me encontro outra vez…)

Nota: Um agradecimento muito especial às gentes fantásticas da Tertúlia Algarvia que nos receberam de uma forma tão acolhedora e familiar e, claro, à equipa maravilha da BotodaCruz Creative Studio que fazem sempre acontecer magia por aqui. <3