“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.

Aprender a estudar.

Chamamos-lhes estudantes mas a maioria dos alunos não sabe estudar, o que até é perfeitamente compreensível uma vez que tal, nunca lhes foi ensinado. Estranhamente, porque todos vão ter de o fazer durante, pelo menos, uma década de vida.

E se até ao 3º ciclo as coisas correm mais ou menos tranquilas e basta agarrar nos livros um ou dois dias antes do teste, o ingresso no ensino secundário traz consigo novos desafios para os quais é importante que eles estejam preparados. E nós também.

Aprende-se a estudar estudando mas existem algumas premissas que já aqui foram abordadas e que podem fazer a diferença. A ideia é que a tarefa se torne mais fácil e o hábito se desenvolva, de uma forma positiva e autónoma, sem que miúdos e pais tenham de ficar à beira de um ataque de nervos, sempre que um teste se aproxima. Para além disso, pode ser útil pensar sobre questões como a rotina de estudo e as metodologias mais eficazes quando o objetivo é estudar e, sobretudo, estudar bem:

O ambiente. Todos sabemos que quando estamos num local onde nos sentimos bem, somos capazes de produzir mais e com maior qualidade. Assim é em relação ao local de estudo. O espaço onde se dedicam a aprender deve ser um espaço calmo, organizado, agradável no que se refere à temperatura e à luminosidade e adequado do ponto de vista da ergonomia – cadeira e secretária que permitam uma boa postura corporal. Muitas vezes noto que o hábito é andar a saltitar pela casa. Ora estudam na sala, ora na cozinha, ora no quarto, o que pode não ser muito favorável à sensação de tranquilidade e de organização, aqui são tão necessárias.

A regularidade. A ideia é evitar o estudo intensivo na véspera dos testes, que deve ser um dia dedicado apenas à revisão dos conteúdos que foram sendo trabalhados atempadamente. Sem stress. Isto implica que regularmente se dedique algum tempo a pensar nos conteúdos que foram aprendidos, o que, para além de permitir consolidar a informação recebida, permite também a percepção de eventuais dúvidas, que deverão ser esclarecidas com o professor nas aulas seguintes. Para além disso, em cada sessão de estudo e como forma de manter a motivação, é importante alternar as disciplinas preferidas com aquelas em que se sente mais dificuldade, a par da realização de pausas de 15 minutos por cada 45 minutos de trabalho.

As técnicas. Diferentes disciplinas requerem diferentes estratégias, mas conhecer algumas pode ser fundamental para obter melhores resultados. Para começar, é importante aprender a destacar as ideias principais ou as palavras-chave, de um determinado texto. Sublinhar, com recurso a marcadores coloridos, fazer anotações adicionais, ajuda a integrar a informação, de forma a que sejamos capazes de a compreender. Depois, pode ser importante fazer um resumo ou esquema da matéria trabalhada, já que isso nos obriga a ser capazes de a explicar por outras palavras, o que por si só, ajuda à sua consolidação. Também a resolução de exercícios é uma forma de testar os conhecimentos adquiridos e de perceber os pontos que é ainda necessário rever. Ainda neste contexto, uma estratégia que costuma ter bons resultados é pedir-lhes que nos “dêem uma aula” acerca daquilo que aprenderam. De facto, a aprendizagem torna-se mais efetiva, sempre que temos de ensinar a alguém um determinado assunto e por isso, nada melhor do que estarmos disponíveis a aprender com eles.

Finalmente, e porque se sabe que é preciso tempo e treino até que se “entranhe” uma rotina de estudo produtiva, autónoma e personalizada, é fundamental valorizar e congratular os nossos filhos/ alunos pelo esforço despendido, mais do que pelo resultado alcançado. Só assim contribuiremos para que se sintam motivados, na consciência poderosa de que têm em si, a capacidade de chegar a todo o lado, sempre que assim o decidam.