Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu pairava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas por alguém. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse (porque às vezes, de algumas pessoas, ainda conseguimos proteger-nos), ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

As mamas da discórdia.

Sou eu nesta foto. Eu e o meu filho.

Partilho-a em modo de protesto, porque estou farta de ouvir falar das mamas das mulheres como se fossem propriedade comum. Património mundial da humanidade.

É porque dão de mamar, é porque não dão de mamar. É porque é em livre demanda, é porque é a toque de relógio. É porque as tapam, é porque as põem ao léu… Toda a minha gente sabe, melhor do que nós próprias, se havemos de guardar a mama ou se havemos de a pôr de fora. Se havemos de aproveitar a produção caseira ou se havemos de nos render ao pó da lata. Se havemos de gostar de amamentar ou se havemos de fingir que gostamos, só porque sim e porque é isso que se espera de uma boa mãe.

Amamentei até aos dois anos de vida do Manel. Senti sempre que era um privilégio quase mágico, o da possibilidade de poder alimentar o meu filho, apenas e só, com o meu corpo. Parei de o fazer, no dia em que me senti colapsar pela ressaca das noites sem dormir. Foram muitas noites. Mais precisamente, 730.

A mudança foi tranquila para os dois e absolutamente necessária. E eu decidi que era assim que tinha de ser, nesta que é a MINHA história.

Durante este tempo de mãe que amamenta, ouvi de tudo. Desde: “ele não para de chorar, o leite deve ser fraco…”, até a “um moço deste tamanho e ainda agarrado à mama…” Nunca estavam satisfeitos.

Durante este tempo de mãe que amamenta, conheci mulheres que adoraram dar de mamar e outras que odiaram fazê-lo, num esforço quase sobre humano, até ao dia em que, apoiadas numa qualquer desculpa socialmente aceite, puseram fim ao martírio.

Uma mãe não se mede pelo leite que dá. Mede-se pelo amor, mede-se pelo brilho no olhar, pelo toque quente do colo. Mede-se, também, pela coragem de ser quem é e de assumir que aquele pode não ser o seu caminho, mesmo que os outros o impinjam insistentemente.

Se o leite materno é das melhores coisas que podemos dar a um recém nascido? É. Se é uma sensação de conexão única? Para mim, foi. Se às vezes não é possível? Não é. Se às vezes não é desejado? Não é. É e será sempre, uma decisão da mulher a quem as mamas pertencem.

Estas com que nasci, não são do meu filho, não são do meu marido, não são vossas, fiéis juízes de bancada…

São minhas. E eu faço com elas o que bem me aprouver.

 

Nota: E porque nem só de mamas vive a discórdia, aqui fica um vídeo para ajudar a pensar sobre o que é efetivamente importante, neste caminho da parentalidade… 🙂

 

Culpa, porque não te quero.

Tenho 4 anos de mãe em cima.

Pouco tempo, dirão alguns. Muito tempo, devolverei eu. Pela imensidão de aprendizagens que cabem nestes 4 anos de vida conjunta. Aprendizagens que me trazem a sabedoria de aceitar que a maternidade não é sempre “cor de rosinha” como a pintam, que há momentos em que me apetece fugir e que é meu o direito de não me sentir derrotada, sempre que não estou à altura das expectativas que criei (ou que criaram por mim). E assim na tentativa de firmar este compromisso e na esperança de que existam por aí outras mães (ou pais), que também queiram expiar os seus pecados, hoje apetece-me partilhar alguns dos meus. Se calhar não são pecados, são antes “pecadinhos” mas já me lixaram a cabeça algumas vezes…

As vezes em que desejei, nas saídas para levar o lixo e quando toda eu era leite, fraldas e noites sem dormir, atravessar a estrada e continuar a andar. Sem destino nem regresso marcado.

As vezes em que estive tão perto de mandar à merda quem me disse, no primeiro ano de vida do meu filho, que estava na hora de ir ao segundo.

As vezes em que me atrapalhei no jogo do faz de conta, com carros e Invizimals e piratas, apenas e só, porque me sinto ridícula.

As vezes em que comi, às escondidas, os últimos biscoitos do frasco, simplesmente porque estava farta de partilhar.

As vezes em que aldrabei a história antes de dormir para uma versão muito resumida, só porque queria despachar a coisa e cair no sofá.

As vezes em que fui a mãe que me era possível ser, porque os dias não são perfeitos e às vezes as rotinas cansam a alma.

Tenho 4 anos de mãe em cima.

Os mais felizes, os mais angustiantes, os mais desafiantes, os mais corajosos e sem sombra de dúvida, os mais extraordinários da minha vida. E ainda assim, com a consciência de que há momentos difíceis e que só tenho de os aceitar e assumir sem culpas, antes de publicar este texto, pensei duas vezes. “E se acharem que eu sou uma má mãe?”

E é isto. É disto que falo…

 

Nota: A foto que dá asas à liberdade, é da Lília Nunes Reis, que todos os dias me enche o olhar com imagens bonitas. Obrigada a ti, outra vez.

Voar sem capa.

Inscrevi-me no mestrado em 2012, motivada pela oportunidade de validar a experiência profissional já desenvolvida em contexto escolar. Estava no 8º mês de gravidez.

Convencida com a ideia que me tinham “vendido”, de que a maternidade era um estado de graça constante e que não havia nada de que tivéssemos de abdicar nesse caminho (desde que a isso estivéssemos determinadas), lá fui eu, ingénua, a pensar: Olha que boa ideia para aproveitar o tempo da licença de maternidade!

O expectável aconteceria, no mês de Setembro seguinte: matrícula congelada. Por tempo indeterminado.

Acredito que a maternidade nos traz uma espécie de super-poderes: a capacidade de estar dias, meses, anos, sem dormir 6 horas seguidas e ainda assim não falhar uma noite, o dom de entender o choro, de ler a expressão facial, de conhecer de cor a temperatura do corpo e de pressentir, sempre que estão a tramar alguma… São tantas as aprendizagens que se fazem e as forças que se descobrem que, às vezes, corremos o risco de achar que somos super-mulheres.

Não somos.

Não vamos conseguir fazer tudo no momento certo e da forma como planeámos. Não vamos conseguir sentir-nos sexy, só porque é preciso manter a chama acesa. Não vamos conseguir trabalhar até tarde todos os dias e não vamos cumprir todos os prazos que estabeleçamos. E vamos sentir, muitas e muitas vezes, que não conseguimos estar inteiras em nada, porque temos os pedaços espalhados por aí. Assim será, até que, devagarinho, consigamos aceitar tudo o que em nós mudou e acarinhemos as falhas como parte do processo, entendendo-as como forças para o caminho.

Aprendi com o tempo, que a maternidade precisa de tempo e que sempre que tentamos ser menos exigentes connosco e nos borrifamos naquilo que esperam de nós, aproximamo-nos do que de melhor temos cá dentro e damos aos sonhos a tranquilidade de poder esperar, em fogo lento, que nos aquece mas não nos consome.

Passaram-se 5 anos. Já leio outras coisas que não os livros do Mário Cordeiro, já vou a concertos, já faço planos de viagens com amigos, vou começar as aulas de pilates e até já escrevo num blogue.

Passaram-se 5 anos e no dia 12 deste mês defendi a minha tese de mestrado. E hoje, eu que todos os dias me orgulho dos feitos de quem me rodeia e lhes invejo a força e a coragem, não vou envergonhar-me de dizer que me sinto também, orgulhosa de mim.

Por todas as razões certas. Por ter sabido abrandar, sem desistir. Por ter sabido aceitar, sem esquecer e por continuar a correr atrás de tudo o que me faz sentido.

Por te trazer comigo. Tu, que serás sempre, o meu maior feito.

Quantos filhos tens?

Há muito que me apetece escrever sobre isto.

Há muito que o adio, talvez porque pôr no papel é também uma forma de tornar matéria aquilo que se pensa, trazer à tona o que se sente…

Ao ler o que a Joana escreve, vi serem minhas as palavras que usa. E assim, sem que a conheça, e de uma forma tão crua, tão honesta e tão necessária, a Joana trouxe-me a vontade de escrever sobre mim.

Há quatro anos que sou mãe.

Há quatro anos que aprendi a viver com o coração fora do corpo. Lugar comum eu sei, mas até hoje não encontro outra expressão que traduza, de modo tão literal, a experiência da maternidade.

Quando nos nasce um filho, nasce outra de nós. Aquela que tem de saber tudo, aquela que tem de estar pronta para tudo, a que é exemplo de vida 24 horas por dia, a que se apaixona para a eternidade. A que tem sono, mas tem de estar acordada. A que tem medo, mas tem de o enfrentar. Aquela que é filha, que é mulher, que é amante, que tem uma carreira, que é amiga e que, para além de tudo isto, agora, também é mãe.

Quando tens um filho, perguntam-te pelo segundo e justificam: “Ah, e tal, os filhos únicos são tramados, não aprendem a partilhar…”, ou “Agora só falta o mano/a para ficarem com um casalinho”.

Quando tens dois filhos (e se são do mesmo sexo), contra-argumentam: “Pois, mas agora tens de ir ao terceiro para ver se acertam na/o menina/o.”

Felizmente, ao terceiro, os ânimos tendem a acalmar até porque “três é a conta que deus fez”. Ou não… E tu pensas: “Raios os partam, que nunca estão satisfeitos!”.

Acontece que, no meio desta coisa maravilhosa que é a diversidade humana, há pessoas que não querem ter filhos.  Há pessoas que só querem ter um filho e há pessoas que querem ter filhos enquanto tal lhes for possível. E ainda há as que não podem tê-los.

Por isso, e porque a decisão exige uma responsabilidade e coragem brutais (pelo menos para mim), quando me perguntam pelo segundo, a minha resposta é, simplesmente, “Não sei.”

Não sei se quero, nem sei se posso. Não sei se demora muito ou se é já amanhã. Não sei, porque ainda estou a encaixar esta mãe nos outros pedaços de mim e isso, por si só, basta-me. Preenche-me. Pelo menos por agora.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos na boca o sabor do maior amor do mundo e isso tem tanto de maravilhoso como de absolutamente assustador, para que saibamos assim, de chofre, qual é a nossa soma.