Gestão emocional e padrões parentais.

Passou algum tempo desde o meu último texto.
Voltei ao tempo dos desafios maiores e com eles e apesar do cansaço, voltei a não conseguir parar a vontade, nem tão pouco a impedir que as ideias me desinquietem a alma e o corpo se ponha em sentido para as fazer nascer. Acho mesmo que não sei ser de outra maneira.

Foi com esta vontade que sonhei para a Lua o espaço “Diz quem sabe”, para que outras pessoas pudessem entrar e ajudar a refletir sobre temas relacionados com a parentalidade e o desenvolvimento infantil e adolescente, trazendo outras perspectivas, partilhando sonhos e projetos e, acima de tudo, crescendo em conjunto.

A Paula foi companheira de viagem nesta aventura de gravar a primeira entrevista do Pés na Lua em que, sob o mote da gestão emocional e dos padrões parentais, procurámos, de uma forma descontraída e muito próxima contribuir para tornar mais consciente o impacto que os modelos da nossa infância têm na relação com os nossos filhos, na certeza de que podemos sempre, enquanto pais, tornar as nossas escolhas mais equilibradas e adequadas ao que efetivamente pretendemos ensinar.

Hoje partilho contigo o resultado deste desafio que me obrigou também a receber e a aceitar algumas das minhas vulnerabilidades, sobretudo aquelas que a palavra escrita permite esconder. É com elas que aqui estou, cheia de “bengalas” no discurso, com a voz às vezes trémula e a certeza de que não perguntei tudo o que planeei perguntar, porque me entreguei me entreguei à conversa e deixei acontecer.

Com a Paula foi fácil e no final, ainda que esse momento tenha ficado só para nós, houve uma gargalhada sonora e cúmplice que só por ter acontecido, já fez tudo valer a pena.

Espero que gostes e prometo em breve trazer mais pessoas bonitas (e textos, porque continua a ser neles que me esqueço de tudo, e me encontro outra vez…)

Nota: Um agradecimento muito especial às gentes fantásticas da Tertúlia Algarvia que nos receberam de uma forma tão acolhedora e familiar e, claro, à equipa maravilha da BotodaCruz Creative Studio que fazem sempre acontecer magia por aqui. <3

A boa da raiva.

Há poucas emoções mais avassaladoras do que a raiva.

A raiva faz-nos perder o controlo, tira-nos o filtro, tolda-nos a consciência. Faz-nos achar que somos poderosos, que metemos medo e que com isso ganhamos o respeito de quem nos afronta. Andamos longe, muito longe…

Apesar de ser uma emoção saudável e normativa (como todas as emoções são), a forma como é expressada torna-a, muitas vezes, numa das mais perigosas: cerca de metade dos episódios de raiva inclui gritar, cerca de 10% dos mesmos conduz a comportamentos agressivos.

É por isso útil pensar na boa da raiva e na melhor forma de lhe dar a volta, antes que ela nos tome de assalto e nos deixe de rastos. A nós e a eles (os filhos).

A cena pode passar-se assim: o(a) teu(tua) filho(a) está a ver televisão. Depois de lhe pedires para desligar a dita porque está na hora do jantar ou, porque já houve tempo de antena que chegue, resolves carregar no botão. Eis que, num passe de mágica, a Sra Raiva toma conta do teu doce rebento, franze-lhe o sobrolho, cerra-lhe os punhos, fá-lo soltar uns grunhidos valentes… E ala, que lá vai ela!

Tu, atónita(o), não sabes se agarras a criança e a raiva antes que as duas fujam, se as atas à cadeira da sala para não fazerem mais estragos ou se, simplesmente, ignoras o circo e esperas que passe.

A primeira dica é: respira fundo. A segunda: respira fundo outra vez e pensa: “Eu consigo ser a calma no caos”. E é disso que eles afinal mais precisam. Depois, pode ser útil ter presente o seguinte:

As crianças e adolescentes sentem muitas vezes raiva e há sempre um motivo para que isso aconteça. Procura conhecê-lo e entendê-lo.

Não é a raiva em si que é um problema, mas sim a forma como é expressada. O teu papel é ajudar neste processo, mantendo as coisas no seu devido lugar e não permitindo que se quebre a vossa conexão.

É possível aprender a gerir a raiva. Não se trata de a esconder ou de a evitar, mas sim de lhe tirar o retrato, para melhor lhe conhecer as manhas: o coração acelerado, as bochechas a ferver, a visão turva… Ter conhecimento dos mecanismos fisiológicos que acompanham a raiva, faz-nos sentir que temos a capacidade de os acalmar. Pode ser tornar mais consciente a respiração, conseguindo que se faça progressivamente mais pausada, pode ser “sair de cena” ou até contar até 10. Abrandar ajuda a deixar passar a onda e a pensar de forma mais clara e mais “morninha”.

E por último, mas tão, tão importante: a explosão enraivecida do teu filho ou filha, não é um ataque pessoal. É resultado de um episódio de descontrolo emocional, de quem está a crescer e a aprender a gerir-se por dentro. Tu, podes ser a rocha que acalma o curso das águas, mantendo forte a ideia de que o amor que vos une aguenta isto, e muito mais.

E já agora, na próxima vez que estiveres no trânsito e algum(a) imbecil se te atravesse à frente na rotunda, respira fundo, conta até 10 ou, em última instância, morde a língua. Eles, estão no banco de trás.