O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

A mais honrosa missão do mundo.

Acredito que a escola é um lugar de todos e um lugar para todos.

Quando a penso, penso-a enquanto espaço comunitário, de crescimento, de construção e aprendizagem conjunta, com a participação ativa e envolvida de todos os que têm a capacidade de a transformar: alunos, pais, assistentes operacionais, educadores, professores, técnicos. Cada um tem o seu papel e cada um terá, na mais firme certeza, contributos importantíssimos a dar, em nome da mais honrosa missão do mundo e que à Escola cabe: Educar.

E ainda que todos saibamos disto (uns mais do que outros), há escolas que ainda se fecham aos pais, há pais que ainda recusam abrir-se à escola, há funcionários que ainda acham que a sua opinião não conta (porque há quem nunca pergunte por ela), há professores que acreditam que a sua tarefa se encerra nas páginas do manual da disciplina que ensinam. E depois há os miúdos, esses, que depressa tiram a pinta aos adultos que, perdidos no meio das regras e dos números, vão tratando de transformar a escola num lugar inerte, de passos e caminhos contados, tantas vezes assustadoramente limitados, no pensamento, nas portas fechadas, nos horários, nas mesas arrumadinhas em fila.

E à medida que os meninos vão crescendo em tamanho, a comunicação vai deixando de existir, deixamos de saber os nomes dos funcionários, os carros limitam-se a parar ao portão de manhã e ao cair da noite, as festas já não se fazem, as reuniões de pais têm cada vez mais cadeiras vazias…

A Escola vai perdendo assim a sua essência e afasta-se da mais honrosa missão do mundo, aquela que ela lhe caberia, se tudo estivesse no seu devido lugar e se misturasse, muitas e muitas vezes, para crescimento de todos.

Hoje assumi o compromisso de integrar a equipa da associação de pais da escola do meu filho. Se me vai dar um trabalho do caraças? Vai. Se vai valer a pena? Vai. Se quero que a Escola mude? Quero. E vou lutar a cada instante para que a mudança aconteça e se construa positiva, refletida e sempre, sempre partilhada.

É isto afinal que eu quero que ele mais aprenda: que cá dentro mora o sonho de que o mundo se pode tornar num lugar melhor e que a transformação bem pode começar no chão da Escola, com a participação de todos os que dela fazem espaço de Ser, espaço de Educação.

A analogia que me tornou melhor companheira de viagem do meu filho.

Falam-me dos “terrible two” e eu devolvo: Então e os “fabulous five”?

Cá em casa andamos a aprender a gerir as emoções: as dele geradas pela frustração, as minhas provocadas por tudo o que o descontrolo dele acende em mim.

Neste caminho, fiquei feliz por encontrar um texto que me fez todo o sentido e que me tem ajudado imenso, pela enormidade de coisas que me ajudou a entender.

A analogia do comboio pensa as emoções difíceis como se fossem túneis e faz de nós, passageiros do comboio que os atravessa. E como acontece em todos os túneis, somos convidados a tolerar alguma escuridão, para chegarmos depois a um lugar mais iluminado, mais calmo e mais desperto para tudo o que acontece à nossa volta.

Vou dar-vos um exemplo de uma situação que se passou connosco há uns dias, quando o meu filho se desentendeu com um dos amigos com quem brincava e correu para perto de mim num choro compulsivo.

O motivo prendia-se com o facto do amigo não querer brincar ao jogo que ele lhe tinha proposto e como tal, o melhor seria eu resolver o problema e ir dizer-lhe que aquela brincadeira era afinal, uma excelente ideia.
Disse ao Manel que não o faria, expliquei-lhe que o seu amigo tinha todo o direito de decidir se queria brincar ou não.

Dito isto, e depois da tristeza inicial, veio uma onda repentina de raiva, provocada pela percepção de que eu não lhe resolveria o problema. Deitou-se no chão, esperneou, gritou, cerrou os pulsos, num enorme descontrolo de si, do seu corpo e de todas as sensações desconcertantes pelas quais passava.

Noutros momentos, provavelmente teria tentado acalmá-lo, ter-lhe-ia dito que não valia a pena aborrecer-se com isso, que podiam escolher outra brincadeira ainda mais gira… Tê-lo-ia dito, tentando amenizar a situação, sem que no entanto adviesse daí algum resultado que valesse realmente a pena.

Mas desta vez, lembrei-me da história lida e limitei-me a entrar no comboio com ele, sentando-me ao seu lado.

Ele, no meio de todo aquele caos, conseguiu pousar a cabeça no meu colo e eu fiquei a fazer-lhe festas no cabelo. Sem dizer uma palavra.

Fizemos a viagem assim e uns minutos depois o Manel levantou a cabeça, sentou-se, limpou as lágrimas e disse-me: Vou brincar, mamã.” E lá foi, como se nada se tivesse passado ali.

Eu, fiquei a vê-lo afastar-se tão dono de si e pensei: Caramba, como é que uma atitude tão simples pode ter um resultado tão poderoso? Porque é que eu andei a desgastar-me por me sentir incapaz de travar as emoções mais difíceis do meu filho, sempre que elas eram avassaladoras demais, quando afinal só tinha de as aceitar e deixar ir?

Resposta simples, sei agora. Melhor do que nunca.

Quando os nossos filhos lidam com a frustração, com a vergonha, com a culpa, com o medo… dentro de nós reativa-se a sensação difícil dessas emoções e acabamos por tentar protegê-los, evitando que passem por elas. Muito, porque a dor dos nossos filhos nos dói como nenhuma outra.

Afinal, somos nós que precisamos que parem de chorar, não eles.

Mas é connosco que eles podem aprender a sentar-se com o que sentem e seguir viagem, rumo a tudo o que de mais claro, apaziguador e consciente, os espera na paisagem seguinte.

Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer… 

A saga do material escolar: vale tudo, menos tirar olhos.

Com a entrada do Manel no ensino pré-escolar público, abriu-se-me a caixa de Pandora. Sim, porque nos últimos anos toda eu era inocência e alegria sem fim em Setembro, longe de saber a “tourada” por que passavam outros pais, com a preparação do ano letivo.

Pois bem meus amigos, já cá estou.

Tudo começou com a reunião de pais na qual foi distribuída uma lista (assim para o compridita) de material a adquirir. Aqui, aplaudo a atitude da educadora, que salientou a importância de reutilizar materiais que tivéssemos em casa e de não gastar dinheiro desnecessariamente, dando-nos também total liberdade para optar por outras marcas que não as sugeridas. Até aqui tudo bem. Identifiquei-me com a abordagem, compreendi a forma como o material seria gerido e lá fui, cheia de vontade, tratar do assunto.

Achei eu, ingénua outra vez, que podia cumprir a tarefa a qualquer hora do dia e assim, às 18:30, entrei com o pé direito numa grande superfície comercial (ou terá sido com o esquerdo? A avaliar pelo que se seguiu, é bem provável…).

Fui imediatamente engolida por um mar de gente, de braços no ar, de cócoras, de bicos de pé, à corrida… tudo o que permitisse agarrar o último exemplar do tão desejado objeto. No meio disto, as crianças, os adolescentes, os adultos saudosistas… todos, em estado de puro êxtase contemplativo, com as cores, os tamanhos, os desenhos, os cheiros… Tudo o que perniciosamente, pudesse desviar os pais do seu propósito: agarrar no dito e fugir dali!

Perante o cenário quase dantesco, foquei-me no objetivo de ir direta ao assunto e tracei um mapa mental para não me perder para sempre. Foi difícil, porque ainda por cima a coisa está organizada de forma sadicamente labiríntica, mas lá consegui identificar alguns dos materiais da lista e sair.

No dia seguinte, levantei-me confiante, fiz uns alongamentos e pensei: “Hoje já não me apanham. Vou às três da tarde, que é uma hora que ninguém desconfia.”

Wrong again.

Mas estas pessoas não trabalham? Mas será que nunca ninguém pensou fazer um manual de sobrevivência para isto? Quais os truques, as dicas, os segredos, para nos safarmos ilesos?

Depois da odisseia, que felizmente se arrumou em duas experiências sociologicamente enriquecedoras, agradeci aos céus o marido artista, que conseguiu arranjar metade das coisas no meio dos seus próprios materiais e pensei: Caramba, Setembro era o meu mês preferido, bucólico e imaculado, e agora carregará para sempre o trauma desta estreia.

Posto isto, pais com filhos em idade escolar: o meu coração está, irremediavelmente, convosco e eu proponho que façamos uns círculos xamânicos antes e depois da coisa, para que a malta se recomponha e sobreviva às sequelas seguintes.

E olhem que serão pelo menos 12. Já pensaram nisso?

P.S – Assumo aqui o compromisso de criar um manual de boas práticas sobre este assunto, mas preciso da vossa ajuda. Dicas, experiências, truques macacos… tudo é válido, pela sanidade mental de todos. Meus senhores/as, isto sim é serviço público… Venham daí esses contributos, ser-me-ão preciosos para os anos que aí vêm. Muito grata. 🙂

Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

Socorro, eles estão de férias!!!

E já são crescidos.

A escola acabou, a maioria dos exames também.

Para eles chega o tempo mais desejado do ano (e diga-se de passagem que bem o merecem!). Para nós, pode ser o início de um tempo com alguns desafios, dependendo do adolescente que temos, dos planos que tenha para as tão almejadas férias de verão e dependendo, claro está, da forma como lidamos com todas estas variáveis.

Ora vejamos então o top 5 dos cenários mais prováveis e algumas dicas para sobreviver a cada um deles:

Dormir até às 13h, almoçar, voltar a dormir, praia à tarde e discoteca até de manhã. Esta modalidade é um mix, preferido por muitos. A malta descansa, apanha um sol, sai com os amigos… e começa tudo outra vez. Como vão passando algum tempo em casa (ainda que a dormir), consegues ir percebendo se estão inteiros e ir repetindo os mesmos conselhos todos os dias. Lambe-os enquanto estiverem por perto e deixa-os sair e aproveitar as férias.

  • Dica importante: A negociação de algumas regras, como por exemplo a hora de chegada a casa, a importância de saberes com quem vão e com quem estão e quais os planos para o dia/noite, ajuda a que tudo corra de forma mais pacífica,

Ficar em casa. Há quem prefira ficar em casa. Ler um livro, fazer maratonas no sofá a ver a série preferida, jogar computador, são algumas das opções mais populares. Se tens um adolescente que prefere passar mais tempo sozinho, respeita-o nas suas características e necessidades individuais mas não deixes de o procurar para os momentos em família e de ir tentando que faça outras coisas, de vez em quando. Isto é particularmente importante se a atividade de eleição for jogar computador e aqui é imperativa a existência de regras para o uso do mesmo, tendo em conta os riscos associados aos jogos online. Sair para comer um gelado, convidar uns amigos para jantar, ir à praia dar um mergulho… são atividades que servirão para quebrar a rotina e proporcionar outras experiências.

  • Dica importante: Se saírem em família, procura trazê-los sempre contigo. Mesmo que reclamem, mesmo que revirem os olhos, não há nada tão protetor como sentirmo-nos parte da tribo. Podes dizer-lhes: “Eu percebo que te apetecesse ficar em casa, mas a tua presença é importante para mim…”

Acampar com amigos. Hummm, este é o início de uma grande aventura: aprender a conviver com a ideia de que vão dormir fora de casa e que andarão, por sua conta e risco, a fazer tudo o que lhes der na gana. E que bom que é… Para eles, claro está. Acampar, alugar uma casa de férias com o grupo, fazer um intercâmbio… são experiências únicas e muito importantes para que testem competências individuais e experimentem uma maior autonomia. Ajuda-os a preparar a mala para garantir que lá colocam tudo o que possa fazer falta. Roupa interior, casaco, carregador de telemóvel, protetor solar, repelente de insetos, chapéu, preservativos (por esta não esperavas tu…), enfim, tudo o que se adequar à situação em questão. Nada te garante que farão uso de tudo o que levarem, mas pelo menos tê-lo-ão por perto e tu ficarás mais tranquila(o).

  • Dica importante: Nas situações em que dormem fora, é boa ideia ficar com o contacto de um ou mais amigos e combinar que telefonarão a dar notícias.Ah, e basta ligar 1 vez por dia, não é preciso ligar 30…

Festivais de verão. Bom bom era antigamente, que a malta não tinha de se preocupar com estas andanças… Se for só por um dia, é importante roupa fresca e confortável e uns ténis, que permitam andar por todo o lado e evitar lesões ou cortes provocados por garrafas e vidros no chão. Se, para mal dos teus pecados, for um daqueles festivais dos bons que duram 7 dias, aplicam-se todas as sugestões do tópico anterior.

  • Dica importante: Aqui vale a pena tentar também uma conversa estratégica e tranquila sobre os consumos de álcool e outras substâncias e os comportamentos de risco que a eles se associam (condução, relações sexuais desprotegidas…).

Viajar com os pais. Este é o meu preferido e pode ser complementar a todos os outros. Considero que viajar e fazê-lo em família, será sempre um dos maiores privilégios que lhes podemos proporcionar ao longo do seu crescimento. Dá-lhes a possibilidade de conhecer outras culturas e de confrontarem com outros hábitos e formas de estar na vida. Para além disso, quebra a rotina, relativiza tudo aquilo que julgam indispensável e obriga-os a sair da zona de conforto. Benefícios à parte, é importante lembrar que, se na infância vão para todo o lado e só temos de nos preocupar com a logística da coisa, quando chegam à adolescência pode não ser bem assim, pelo que é útil pensar estratégias que os façam sentirem-se bem durante a viagem. Decidir em conjunto o destino das férias, pedir-lhes ajuda com a definição do itinerário, dar-lhes a tarefa da reportagem fotográfica ou pedir-lhes que definam o programa de festas para um dia, são boas maneira de o fazer. Viajar com amigos, com filhos de idades próximas e com quem se deem bem também facilita a que se sintam mais entusiasmados, permitindo-lhes alguma autonomia durante a estadia.

  • Dica importante: Se possível, combinar em família que os tablets e afins não vão de férias convosco. Facilita a que o tempo em que estão juntos, seja efetivamente tempo em família.

Ainda que o título deste texto apele ao desespero da ideia de que estão de férias (tudo truques para chamar a tua atenção), considero que este é um tempo que, ainda que desafiante por muitas razões, é um tempo necessário.

Um tempo em que ganhamos de novo a oportunidade de respirar fundo, esquecer o relógio e recuperar a conexão com os nossos e connosco próprios. Um tempo para recarregar baterias e absorver cada segundo, para no fim, ainda que estafados e desejosos de voltar à rotina, voltarmos a suspirar pelas férias seguintes.

O resto vais mesmo ter de deixar ao universo… E vai tudo correr bem.

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu pairava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas por alguém. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse (porque às vezes, de algumas pessoas, ainda conseguimos proteger-nos), ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

“Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Terça-feira. Oito e meia da manhã.

Estávamos a tomar o pequeno-almoço, ou melhor, estávamos a engolir o pequeno almoço, porque o tempo “rugia” e dentro da minha cabeça piscavam, em luzes néon, as frases de sempre: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto!

O Manel que adora conversar, prosseguia com as suas reflexões, aparentemente alheio ao meu histerismo matinal. Continuámos ambos nos nossos devaneios, até chegarmos ao tema tabu (sobretudo quando já devias ter saído de casa há pelo menos 30 minutos): “Mãe, eu não quero ir à escola!”

Na minha cabeça, a tempestade intensificou-se com a tão temida variável: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto! O teu filho não quer ir à escola!

Merda! E agora?

E ali, no meio do caos, não sei como (mas talvez porque ando a aprender uma coisas), respirei fundo, voltei a sentar-me ao lado dele e perguntei-lhe: “Porquê passarinho?”

Do alto dos seus 4 anos de vida (que às vezes mais parecem 40), o Manel respondeu-me: “Porque na escola toda a gente decide o que fazer por mim. Dizem quando é para brincar, dizem quando é para sentar, dizem quando é para ir para a rua, quando é para pintar, quando é para dormir…”

Eu, pensei com os meus botões: Agora é que a arranjaste bonita, porque a criança tem toda a razão… e respondi-lhe, em modo “desculpa esfarrapada”: “Mas sabes filhote, a tua sala tem muitos meninos e por isso as atividades têm de estar mais organizadas para que as coisas possam funcionar melhor.”

Ele, olhou para mim como se eu estivesse a milhas do cerne da questão e disse: “Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Dei-lhe um beijo. Acabámos o que restava dos cereais, lavámos os dentes, vestimos os casacos e saímos.

Na viagem até à escola, surgiram espontaneamente outras conversas. Falámos da primavera, falámos do mealheiro para a viagem à Nova Zelândia, falámos do projeto da casa na árvore a fazer com os avós. À chegada, demos o abraço do costume e eu repeti a frase de todos os dias: “Brinca muito, meu amor”.

Passei o dia a pensar nisto. Passei o dia a pensar que disto, eu não ia conseguir protegê-lo. Que nesta matéria, eu nem sequer conseguia ser grande fonte inspiração. Ou pelo menos, sê-lo na maior parte do tempo.

Sou comandada pelo tempo, sou comandada pelo dinheiro, sou comandada pelas convenções sociais, sou comandada pelo que esperam de mim, pelas tarefas que tenho de terminar, sou comandada pelas 8, ou 9, ou 10 horas de trabalho diário. Pela lista do supermercado. Pelo mapa de férias. Pelo despertador. Pela roupa para lavar. Pela mudança de horário.

Na maior parte do tempo, sou comandada por um sem fim de passos pensados, que tantas vezes me sufocam e que em tantas outras me fazem falta, como se deles dependesse para ser quem sou.

Ele, é arrastado neste frenesim constante e aprende, como bom menino que é, a ser um bom soldadinho. E eu, só queria poder dizer-lhe todos os dias quando o deixo na escola: “Brinca o que te apetecer, meu amor. Porque vais poder fazê-lo a vida inteira.”

 

Nota: A imagem que me diz tanto é da Lília Nunes Reis, e traz à tona esta minha vontade de que ele não se fique pelas “chaves” que lhe dão. Porque são únicas e infindáveis as portas que nos podem surgir pelo caminho… Obrigada Lília, mais uma vez. 🙂