O maior desafio da parentalidade somos nós, não são os nossos filhos…

“O meu filho está sempre a provocar-me e a contrariar tudo o que eu digo. O que eu precisava mesmo era de algumas estratégias para o ajudar a ter mais disciplina…”

Nunca falámos tanto sobre disciplina, nunca soubemos tanto sobre desenvolvimento infantil, nunca tivemos ao nosso dispor tantos manuais de “técnicas infalíveis” e ainda assim, provavelmente, nunca estivemos tão distantes de nós próprios e daquela que é a verdadeira missão da parentalidade…

O desafio de nos tornarmos pais é um desafio interno, é uma transformação que acontece no lugar mais fundo de nós e nos obriga a um outro olhar sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre a pessoa que um dia, gostaríamos de ser. É uma força que nos empurra em direção ao caminho de desaprender tudo o que demos por certo, abrindo espaço a tudo o que afinal ainda não sabíamos.

Acredito de coração que os filhos são talvez o maior impulso a que isto aconteça, uma espécie de livre-passe de ouro trazido pela vida, para que que possamos polir-nos enquanto seres humanos, aceitarmo-nos nas nossas imperfeições e aprender a navegar em mar alto, às vezes espelho outras vezes tempestade.

É por acreditar nisto que quando me perguntam por estratégias para educar um filho, eu falo sempre em estratégias para nos educarmos a nós próprios, caminhos que podem ser trilhados desde o início e que nos abrirão todas as portas aquele que é o verdadeiro propósito de  acompanhar um ser humano na incrível aventura de crescer:

Auto regulação:
Compreender e gerir as nossas próprias emoções e ações será sempre o primeiro passo para sermos pais mais conscientes. Conhecer os meus gatilhos, parar para refletir sobre a forma como (re)ajo perante os diferentes desafios, procurar conhecer porque razão um determinado comportamento do meu filho me transtorna ao ponto de me fazer saltar a tampa, nos gestos e nas palavras que não quero dizer. Aquilo que eu não conheço ou que eu não aceito, dificilmente será controlado por mim e é por isso que este olhar atento para dentro de nós e daquilo que sentimos será sempre parte da formula necessária para conseguirmos, enquanto adultos, ajustar as nossas respostas emocionais e sermos cada vez mais capazes de inspirar autenticidade, tranquilidade, respeito e responsabilidade. E é assim que os nossos filhos aprenderão a fazê-lo também.

Conexão
As crianças crescem interiormente sempre que se sentem compreendidas, ligadas aos seus cuidadores, seguras do amor dos pais. É assim desde o momento do nascimento. Existe um sincronizar constante do bebé ao nosso próprio estado emocional (bebés de mães deprimidas ajustam-se à baixa estimulação e habituam-se à falta de sentimentos positivos, tal como bebés de mães agitadas aprendem a corresponder a esse estado também). Um apego seguro desenvolve-se com a capacidade dos adultos cuidadores em responder às necessidades emocionais do bebé, da mesma forma que respondem às suas necessidades físicas, sendo que serão estas relações afetivas que permitirão construir a base para o desenvolvimento de relações de confiança e intimidade, com efeitos profundos ao nível das experiências da criança, da sua expressão e ao nível da regulação das suas emoções. Sempre que somos capazes de nos ligar emocionalmente aos nossos filhos (o mais possível, livres das expectativas, da opinião dos outros, dos medos, das dúvidas…) estamos a criar os alicerces mais sólidos para todos os desafios de aprendizagem que nos surjam ao longo do seu crescimento.

Capacidade de guiar
Quando um pai ou uma mãe diz “Ele é tão desobediente!”, está na verdade a dizer “O meu filho não faz o que eu mando!”
Esta é talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade: a capacidade de olhar para os nossos filhos como parceiros de jornada, diminuindo a frequência das lutas de poder que nos tentam todos os dias. Uma criança estará naturalmente disponível à nossa orientação, sempre que se sinta respeitada, aceite e ouvida. Naturalmente também, reagirá às tentativas de controlo e de poder que lhe sejam impostas, exatamente como um adulto faria.
Os filhos não são nossos, nem no corpo, nem na vontade. São nossos no coração e será apenas essa a nossa tarefa, guiá-los no sentido de abrirem o coração à vida e a si próprios, sempre inspirados pela forma como estivemos a seu lado, nos momentos em que mais precisavam de luz.

Todos os desafios de comportamento são uma janela incrível de aprendizagem e a forma como lhes respondemos é aquela que (sempre que mais consciente e alinhada com o modelo que queremos transmitir) permitirá o desenvolvimento das competências de vida que um dia todos gostaríamos de observar nos nossos filhos.

E aqui eu quase que aposto que me falariam na auto-estima, na regulação emocional, na cooperação, na autonomia ou na empatia. Imagino que nem se lembrariam da obediência… Não é dela que reza a história das pessoas verdadeiramente felizes.

Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras resulta de um grande mal entendido. Ainda assim, é frequente que o ouçamos por aí…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada.

Ora, para que percebamos melhor do que falamos, imaginemos a cena: “Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.”

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos uma relação afetiva é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser suficientemente bons e que, por isso também, talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se transforma no mensageiro e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.

Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também… 

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu andava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse, ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto sem fim. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…

As coisas que os adultos às vezes não sabem…

Eram cinco e dez. Estávamos ambos à espera que os nossos filhos voltassem das atividades extracurriculares que tinham terminado às cinco.

Quando o filho chegou gritou-lhe aos ouvidos: “NÃO TENS RELÓGIO?!? SE CALHAR ESTÁS É A PRECISAR QUE O DEITE FORA PARA VER SE APRENDES. SE CALHAR ACHAS QUE NÃO TENHO MAIS NADA PARA FAZER, A NÃO SER ESTAR AQUI À TUA ESPERA!”

Eram cinco e dez. As atividades extracurriculares tinham terminado às cinco.

Não o olhou. Não lhe tocou. Não lhe disse olá. Deixou a porta bater e seguiu à frente, dono e senhor do mundo (e daquela criança), sem nenhuma noção daquilo que ali tinha acabado de acontecer.

Procurei o olhar do miúdo. Talvez tentasse que o meu lhe desse algum colo. Não consegui encontrá-lo.

Assim que a porta bateu, colou a cara ao chão e limitou-se a arrastar-se atrás do pai, com o hábito pesado de quem o faz todos os dias e nem sequer imagina que a vida possa ser de outra maneira.

Fiquei a vê-los subir a rampa, atravessar o portão, entrar no carro. Em nenhum momento se olharam, se tocaram ou sequer disseram olá.

Tive outra vez vontade de chorar. Tenho sempre.

E se, na pessoa que sou, procuro ter presente a importância de ler os outros de uma forma empática e cada vez mais justa, destapando as intenções que podem esconder-se no agir atabalhoado da nossa parentalidade, dou por mim a ter a certeza que os adultos às vezes não sabem o que fazem.

Mas deviam.

Os adultos às vezes não sabem que para educar um filho não é preciso aprender sobre filhos, é preciso aprender sobre nós. Sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre os medos que escondemos, sobre as expectativas que nos toldam o sentir e até sobre quem desejaríamos ser, que tantas vezes nos confunde e nos afasta da melhor versão de nós próprios (e daquela que os nossos filhos efetivamente precisam).

Os adultos às vezes não sabem que é na infância que decidimos quem somos e que é na voz dos que nos cuidam que nos encontramos e ganhamos a força de saber que somos amados, sendo também ela que nos permite um dia amar alguém.

Os adultos às vezes não sabem que não são eles os mestres, mas sim as crianças que julgam aprendizes, e que todos os dias lhes dão enormes lições de vida, de coragem e de generosidade, que só podem ser ouvidas olho no olho e com o coração aberto e atento.

Os adultos às vezes não sabem que comportamento gera comportamento e que se é agressividade, desconexão e desamor que ensinamos, é assim que os nossos filhos aprenderão a relacionar-se também.

Os adultos às vezes não sabem que todos (sobretudo as crianças) lhes perdoarão os dias menos bons, as palavras desajeitadas, a falta de chão, desde que eles, os adultos, tenham a maturidade de o partilhar e de pedir desculpa, para assim serem lembrados também pelo erro, mas sobretudo pela humildade de avançar e de aprender.

Os adultos às vezes não sabem que mais do que serem filhos, os filhos são pessoas e que por isso, não são arma de arremesso, nem saco de soco, nem gruta onde se possa afundar o grito das frustrações e desalentos e tristezas que a vida traga. As pessoas, que também são filhos, merecem sempre a nossa melhor versão.

Os adultos não sabem, por fim, que saber amar é um dever das pessoas crescidas, precisamente porque já cresceram e porque já terão aprendido no caminho, que não há coração que não bata mais forte e não se abra ao mundo, sempre que sabe que há quem espere por ele à porta e ainda lhe diga num abraço: Tive tantas saudades tuas…

Às mulheres que não queriam ter sido mães.

Uma vez cruzei-me na rua com uma mulher que se zangava com os dois filhos gémeos e ouvi-a gritar-lhes: “Eu nunca vos devia ter tido!”

Fiquei horrorizada. Achei que devia ser uma péssima mãe, achei que não merecia tê-lo sido e, acima de tudo, que nenhuma criança, em nenhum cenário, deveria ter de ouvir palavras assim.

Passaram-se alguns anos, fui mãe e nunca mais me lembrei desta história. Até há uns dias, quando encontrei um texto no qual se contava o trabalho de uma socióloga israelita, Orna Donath, que no seu livro Regretting Motherhood, se dedicou a reunir depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos mas que, se pudessem voltar atrás sabendo o que a maternidade implica, optariam por não ser mães.

Voltei a ficar horrorizada. Não pelo que as mulheres entrevistadas tiveram a coragem de assumir, mas pelos comentários de quem as ouviu (ou melhor, de quem não foi capaz de as ouvir) e prontamente lhes tirou a pinta, colando-lhes na testa o rótulo feio de “má mãe”. Exatamente como eu fiz, há uns anos atrás, ainda distante do desafio da maternidade.

E se continuo a achar que aquela mãe com quem me cruzei, poderia não ter dito aos filhos que preferia não ter sido mãe deles, porque sei o quanto estas palavras podem magoar quem não tem nenhuma responsabilidade em ter nascido, há muitas coisas em mim que se transformaram desde então e que eu procuro que, todos os dias, me ajudem a crescer.

A vida há muito que me ensina, que isto não é um guião encomendado, que as personagens não sabem as falas de cor, e que a história não se repete com os mesmos takes para todos.

A vida há muito que me ensina, que o mundo não se encerra na forma como o penso e como o sinto. Felizmente.

Conhecer as histórias destas mulheres e querer ouvi-las verdadeiramente, implica resistir ao julgamento fácil, requer o extraordinário exercício da empatia, o reconhecimento e a aceitação daqueles que são os seus desejos e daquelas que são as suas frustrações. Não têm de ser as nossas. Mas podem ser as de alguém.

Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E é seu o direito de falar sobre o assunto, de dar nome ao sentir, de sacudir, de vez, o peso do pecado que lhes puseram aos ombros.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem de assumir todos os dias um papel com o qual não se identificam, de sentirem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido.

Não há com estas mulheres nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-las, constantemente, do sacrilégio em que NÃO vivem.

Repito: Elas odeiam ser mães, mas não odeiam os filhos. E isto é quanto me basta.

Isto, e um orgulho imenso por terem sido capazes de o gritar aos sete ventos. Para que ao mundo não restem dúvidas, que nem só de maternidade se faz uma mulher.

Menino ou menina?

Disse-me, finalmente, depois de um silêncio ensurdecedor: “Eu não posso ir à escola porque não posso ir à casa de banho.”
Tentei disfarçar o aperto no peito e pensei: “Merda. Tu não sabes o que isso é!”
Tu não sabes o que é não saber a que casa de banho deves ir (ou melhor, saber, mas não poder fazê-lo com medo de que os outros não o saibam).
Não sabes o que é ouvi-los chamarem por ti, num nome que não queres ouvir.
Tu não sabes o que é menstruar todos os meses e saber que os rapazes não menstruam.
Não sabes o que é esmagar as mamas todas as manhãs com cinco camadas de tops, três números abaixo do teu, e ficar sem respirar o dia inteiro.
Não sabes o que é tomar banho de olhos fechados e despejar o gel diretamente do frasco para cima da pele, só para não teres de ver ou tocar o teu corpo nu.
Tu não sabes o que é ter toda a gente a falar sobre ti, justificando-te com os problemas em casa ou na escola ou com os amigos, sem nunca ninguém falar do único problema que tens.
Não sabes o que é ver a estranheza nos olhos dos outros e o tatear desajeitado na forma como se dirigem a ti.
Não sabes o que é olhar ao espelho, vezes e vezes sem conta, e nunca, em nenhuma delas te chegares a encontrar.
Tu não sabes o que é estar preso num corpo que não é o teu e quase desistir de falar com alguém, porque ninguém saberá do que falas.
Tu não sabes. Poucos sabem. Mas ELE sabe.

O termo pessoas transgénero integra todas as pessoas que vivem uma discordância entre a identidade ou expressão de género e o sexo atribuído à nascença, definido com base na observação do seus genitais. Falamos, por exemplo, de alguém com uma identidade de género masculina, mas que nasceu mulher, ou vice versa. Falamos de alguém cujo sentir de quem é, não se cumpre naquelas que são as expectativas e normas sociais que se desenham e alimentam pelos outros, ao longo da vida, exclusivamente a partir do sexo identificado desde a gravidez e/ou nascimento.

Falar de crianças e jovens transgénero neste país é ainda falar muito pouco, e tantas vezes mal. É ainda ouvir dizer, lá longe, sobretudo em relação aos filhos dos outros, que a Joana sempre foi maria rapaz ou que o Luís tem andado confuso. É alimentar silêncios, treinar a invisibilidade e agarrar-se à ideia de que se possa ser só uma fase, como se essa esperança, de um colete salva vidas se tratasse. É baralhar tudo e achar que identidade de género e orientação sexual são duas faces de uma mesma moeda e que o que é preciso mesmo é que ela tenha uma boa experiência com um rapaz para que isto tudo lhe passe.

Ser criança ou jovem transgénero nas escolas deste país ainda é ouvir todos os dias, várias vezes por dia, chamar um nome que não é o teu e ter de responder baixinho: “Presente”. É ter de inventar mil desculpas para não fazer a aula de Educação Física porque te esperam na equipa faminina, sempre que gritam: “Filipa ao campo!”. Ou porque acham que é preguiça, abrandar o passo na corrida, quando afinal só há falta de espaço no peito, não para correr, mas para respirar (pudesses tu correr para algum lado, aposto que não quererias senão, correr dali…). E depois vem o balneário, e os chuveiros sem porta e a vergonha e os olhares… Às vezes, vem até o medo.

E depois vêm os pais e os professores e os psicólogos e as avaliações e as sugestões, até que existe um dia em que finalmente se consegue dizer o que nos vai dentro ou em que alguém consegue entender aquilo que precisa de ser ouvido.

E é a partir desse dia que estas crianças e jovens passam novamente a existir em que todos à sua volta podem aprender, integrar e construir uma escola e um mundo em que todos (e cada um) podem experimentar, explorar, conhecer e construir a pessoa que são, sem olhar à pessoa que todos desejam que seja.

Falta muito ainda, mas já começámos o caminho e o que é mesmo preciso é continuar a lutar para que os direitos das pessoas LGBTI, ou melhor, para que os Direitos Humanos, não se fiquem no papel mas antes passem para a mesa do café, para a fila do supermercado e para a carteira da sala de aula, para a voz e para o corpo. Para todo o lado e por todo o lado.

Não é a Joana que é maria rapaz ou o Luís que tem andado confuso. Somos nós. Somos todos nós que andamos a precisar de entender que a diversidade da sexualidade não se encerra no entendimento binário de sexo e de género. Somos nós que andamos, sobretudo, a precisar de sentir.

Como?

Imagina o que sentirias se um dia te deitasses como mulher e acordasses num corpo de homem. Imagina agora que até podia ser assim desde o momento em que lembras de ti como gente.

Conseguiste? Pois bem, é mais ou menos isso…

 

Para saber mais e procurar apoio:

AMPLOS – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género
ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo
Rede Ex Aequo – Associação de Jovens LGBTI e apoiantes
APF – Associação para o Planeamento da Família

“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

Mais amor, por favor.

Li esta frase há uns anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Nunca mais a esqueci. Tenho memória aguçada para a origem das coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou paraquedas.

O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor.

É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é incondicional: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.

É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce, a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.

E é por isso que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: “É o amor”.

E é por isso que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: “É o amor”.

Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe que o amor por um filho é incondicional e à prova de tudo. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento deles não alimente a expectativa criada.

É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”.

São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha.”  e “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar”.

E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”

Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado. Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.

Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?

Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo (= afeto), a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?

Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.

Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo.

E é por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…

Melhor amor, por favor.