Outra vez a saga do material escolar…

 

Lembram-se do primeiro episódio desta saga?

Pois bem, tal como prometido e graças ao contributo de várias mães experientes e cheias de truques, que foram incansáveis a partilhar dicas de utilidade máxima sobre o tema das listas de material escolar, aqui vos deixo 7 magníficas ideias para sobreviver ao que aí se avizinha:

1.Implorarás aos educadores/ professores dos teus filhos que te dêem a lista aquando da reunião do final de ano letivo. Se não fores suficientemente convincente, podes sempre suborná-los, o motivo é nobre. Ganharás tempo e encontrarás o que precisas sem ter um colapso nervoso. Os menos sagazes andarão a banhos, temos pena…o mundo é dos mais fortes. Depois de comprares tudo, ainda podes leiloar a lista na darknet. Mas só depois de estares aviada/o ok?

2. Farás um mealheiro ao longo do ano, porque o rombo é grande. Podes até vender rifas e sortear um dos rolos de papel autocolante que te sobrou do ano passado ou até o cadernão preto cheio de vincos e tão mal forrado que tiveste vergonha de o deixar sair de casa nas mãos da criança. Bastará o mote: “Pela Educação do João”, para que a coisa pegue e faça furor entre avós e tios. Com sorte, com os trocos, ainda passam o fim de semana no Alentejo.

3. Resistirás estoicamente à tentação de te arrastares atrás da mochila mais pindérica ou do estojo mais multifunções. O mundo do material escolar é um mundo pernicioso, cheio de glitters, de promessas fajutas, de artimanhas para te desviar do teu propósito. Simples e eficaz: este deve ser o teu mantra. Repete-o em voz alta, ao mesmo tempo que fazes tapping na testa. Agora sim, podes sair de casa.

4. Comprarás no comércio local. A vizinha do quiosque do bairro ou o Sr António da papelaria da esquina, anseiam por que lá passes e conheças em 1ª mão, as maravilhas que por lá moram. Simpatia, atenção personalizada, preço acessível e conselhos altamente especializados são apenas alguns dos bónus desta opção, sem esquecer o impacto do teu apoio na economia das empresas familiares. Quem sabe, ainda descobres alguma pechincha vintage…

5. Se não tiveres papelarias por perto, encomendarás tudo o que possas, online. Centras-te no que é essencial, evitas a pressão das massas, manténs o ritmo cardíaco e a integridade física e com isso, ganhas foco e lucidez. Bebe um copo de vinho tinto. E desfruta. Pré requisitos: os miúdos têm de estar a dormir.

6. Reduzirás. Reutilizarás e Reciclarás. Há imensa coisa que se pode aproveitar. Os manuais escolares são uma delas (sempre que possível), os lápis, borrachas e marcadores sobreviventes do ano passado, a mochila que mesmo que tenha um buraquinho, haverá sempre um remendo mega fashion capaz de a tornar outra vez especial. E mesmo que eles te digam que o material para funcionar tem mesmo de ser novo, não te esqueças nunca que és modelo, de consumidor(a) e de vida. Apenas às coisas que já tenham sofrido as “passinhas do algarve” e tenham sido esgotadas todas as alternativas criativas de utilização, a essas sim, poderás permitir o descanso eterno: no amarelo, no verde ou no azul.

7. Quando finalmente o ano letivo começar, reservarás uma tarde num SPA (ou noutro sítio com um efeito semelhante). Serás massajada(o), perfumada(o), relaxada(o). E a cada snifadela de incenso e borrifadela de água de rosas, farás uma respiração intensa e profunda e acarinharás em ti a seguinte constatação: Miúda(o), qualquer dia estás a dar masterclasses disto. Para o ano, não te apanham outra vez…

Nota importante: Ainda que depois destas sugestões, nenhuma grande marca de mochilas ou de marcadores fluorescentes, ou nem sequer de apara lápis de zinco, queira patrocinar este blogue, por aqui dormiremos descansados outra vez: disseminámos conhecimento e prestámos serviço público.
Caramba, é mesmo isso que nos move! 😉

Ah, e se por aí surgirem outras ideias capazes de melhorar a vida das famílias com filhos em idade escolar, venham elas. O propósito é de valor. E eu conto convosco.

“Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

Há uns tempos partilhei um texto sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam de facto novos desafios, reflexo da sociedade na qual se integram, sobre os quais é importante refletir.

Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

Saber que a família importa. (2 de 5)

A partir do momento em que nos tornamos mães e pais, passamos a viver com uns olhinhos cravados em nós, atentos a tudo o que dizemos e, sobretudo, atentos a tudo o que fazemos.

Para os filhos, os pais constituem o exemplo mais próximo e mais significativo daquilo que é ser-se adulto, pelo que a grande maioria das suas atitudes e comportamentos, se desenham a partir daquilo que aprenderam connosco.

Tal como acontece a outros níveis, os pais afetam as escolhas vocacionais dos filhos, quer através daquilo que expressam verbalmente e das ideias que têm em relação à escola e ao mundo do trabalho quer através do desempenho dos seus diferentes papéis de vida – enquanto pais, enquanto companheiros, enquanto trabalhadores…

Neste sentido, a forma como nos posicionamos em cada um desses papéis, bem como os valores que guiam os nossos comportamentos e atitudes acabam por constituir, por isso só, uma poderosa fonte de inspiração – se eu cresço num ambiente em que o esforço e o empenho são valorizados e realizados, é isso que, naturalmente, procurarei no meu percurso…

Ainda que com a entrada na adolescência tenhamos a sensação de passar a representar uma espécie de papel secundário, neste que é o romance da nossa vida, a investigação tem demonstrado que, paralelamente à importância dos amigos nesta fase de vida, os adolescentes continuam a reconhecer a família como a fonte mais fidedigna de informação. E isto faz com que esperem dos pais compreensão e apoio no debater das suas dúvidas, bem como encorajamento no sentido da exploração e da construção de projetos de vida.

Envolver-se de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, implica construir pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

Na prática: Participar nas reuniões e iniciativas da escola, sempre e até ao fim do seu percurso escolar (a participação da família na vida escolar dos filhos tende a diminuir à medida que progridem no sistema de ensino, mas não é por estarem mais crescidos que deixa de ser importante…). Falar sobre as profissões da família e os percursos feitos, favorece o sentido de pertença (tão protetor para os jovens), bem como o reconhecimento de características comuns, contribuindo também para a obtenção de informações práticas sobre as diferentes possibilidades. Favorecer os momentos de exploração de informação sobre o mundo do trabalho, através de conversas informais com amigos e aproveitar as situações do dia-a-dia para pôr em comum ideias e projetos individuais e familiares, são atividades que promovem a reflexão conjunta, reforçando o impacto positivo que a família pode desempenhar nos processos de exploração e de tomada de decisão vocacional. 

“Quando os filhos voam” – por Rubem Alves

Admiração profunda por tudo o que este senhor pensou, e disse, e escreveu…

“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira…

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o vôo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós.

É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.

Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança.

Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase.

Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assustam por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível.

Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar.

E não há estrada mais bela do que essa.”

 

Texto de Rubem Alves, escritor e pedagogo brasileiro, psicanalista, “professor do espanto”, e tantas outras coisas bonitas…

Entender o momento. (1 de 5)

aqui falámos sobre a importância das escolhas e de que forma as mesmas podem ser vividas pelos adolescentes. Falámos também na influência que a nossa reação às suas (in)decisões pode ter sobre eles, na medida em que afeta a forma como vão refletindo sobre as opções que surgem ao longo do seu percurso escolar.

Considero que pensar sobre as nossas intenções enquanto mães e enquanto pais, ajuda a tornar mais conscientes e ponderadas as expectativas que temos em relação aos nossos filhos e em relação ao seu futuro. E por isso acredito, que é essa reflexão que nos faz ser capazes de controlar ou minorar o impacto que essas mesmas expectativas, possam vir a ter sobre quem são e sobre quem quererão ser.

O futuro deles às vezes mete-nos medo, eu sei, mas é nossa a tarefa de lhes dar o mapa sem lhes assinalar o caminho. E este é o momento ideal para que isso aconteça. Vejamos porquê…

A adolescência é um período de vida marcado por um conjunto de alterações biofisiológicas, psicológicas, intelectuais e sociais significativas, que implicam aos jovens uma readaptação profunda a si próprios e ao mundo que os rodeia. Essas alterações são fundamentais ao seu crescimento e vão permitir-lhes que ao longo desta etapa de vida, sejam cumpridas tarefas de desenvolvimento importantes, tais como:

       Construção da identidade: Significa ser capaz de se definir como pessoa, com valores e   necessidades próprias, com as quais nos comprometemos. Dá-se através do questionamento e da construção de valores, pela forma personalizada de ver o mundo e de o compreender com a afirmação de gostos próprios.

       Construção de projetos de vida: Materializa a procura de uma maior independência e crescente autonomização. A necessidade da tomada de decisões escolares e profissionais, favorece a disponibilidade para o autoconhecimento, uma maior reflexão pessoal, a capacidade de integração no grupo de iguais e a progressiva capacitação para a entrada no mundo dos adultos.

A noção da adolescência como um período particularmente desafiante mas profundamente adaptável e com objetivos muito claros, representa para os jovens e para quem os ajuda a crescer, uma oportunidade fantástica de aprendizagem e de crescimento pessoal e social.

Entender o momento, torna-nos mais empáticos na relação com os nossos filhos e isso contribui para que sejamos capazes de compreender que é normal estar indeciso, que é normal ter medo, que é normal ter mil e uma vontades e, às vezes, perder-se no meio delas.

Entender o momento ajuda a apaziguar a incerteza do futuro, a dar esperança e a transmitir a ideia de que a vida pode (e deve), ser feita de muitas escolhas e que haverá sempre espaço para abraçar mais uma das que possa fazer-nos estar mais próximos de quem queremos ser.

Ver crescer um filho implica o difícil exercício de deixar ir quem leva dentro o nosso coração. De o aceitar enquanto ser autónomo, capaz de fazer as suas escolhas, de seguir o seu caminho, na certeza de que é seu o direito de arriscar e nosso o dever de deixar que os seus passos se façam diferentes dos nossos.

Na prática: Lembra-te do adolescente que foste. Das dúvidas que te assaltaram o presente sempre que pensaste no futuro, dos momentos que te fizeram incomparavelmente feliz, daqueles que te causaram medo e até falta de esperança. A forma como os ultrapassaste. Partilha algumas dessas histórias com o teu/tua filho(a) e deixa-o(a) conhecer-te nessa altura, fazer perguntas… Saber que os pais passaram por momentos e dúvidas semelhantes, estimula a reflexão sobre si próprios e fá-los sentir que serão capazes de enfrentar os obstáculos com que se venham a deparar. Para além disso, ajuda a que sintam que conseguimos compreendê-los e isso normaliza o turbilhão de emoções e sobretudo, aproxima-vos.

P.S – Este é o primeiro de 5 posts, nos quais vou propor algumas ideias para ajudar a pensar o futuro deles. Espero que te sejam úteis. 🙂

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…

Entrevista: O papel da família no desenvolvimento vocacional dos filhos.

Há uns meses atrás, a convite do Programa Uma Janela Aberta à Família, estive à conversa sobre a importância da família no desenvolvimento vocacional dos filhos.

A experiência diz-me que sempre que nos envolvemos de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, construímos pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

P.S – Vale a pena conhecer este projeto iniciado em 2007, que assume como honrosa missão, apoiar e esclarecer as famílias, através da abertura de uma “janela” de comunicação sobre parentalidade, saúde materno infantil e promoção de hábitos de vida saudáveis. Foi para eles que escrevi o meu primeiro texto, e é esta família que trarei também para sempre no coração.

ouvir mp3

Mais amor, por favor.

Li esta frase há uns anos, escrita a giz, na parede de um restaurante. Nunca mais a esqueci. Tenho memória aguçada para a origem das coisas que me mudam por dentro e tendo a trazê-las na bagagem, como se me preparasse para os momentos em que se tornarão bússola, ou paraquedas.

O amor que marca o vínculo que desenvolvemos com um filho é diferente de todos os outros tipos de amor.

É diferente porque é forte, porque é irresistível, porque é inabalável e porque dura para lá da nossa existência, para lá de quem somos, transformando-nos irremediavelmente. É diferente ainda, porque é incondicional: Não deixaremos de gostar deles, nem eles deixarão de gostar de nós. No matter what.

É esta certeza (e sobretudo este sentir), que lhes permite ir mais longe, pisar o risco, ganhar coragem para se lançarem em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite que se mostrem sem filtro e sem disfarce, a quem tem por eles um amor sem fim, que resistirá sempre, a todos os lados lunares.

E é por isso que quando me perguntam qual é o ingrediente mais importante para ajudar a crescer uma criança, eu respondo, a cada dia mais convicta: “É o amor”.

E é por isso que quando me perguntam qual é a solução para um determinado desafio na relação com os filhos, eu respondo, antes de qualquer outra coisa: “É o amor”.

Até aqui, nada de novo. O mundo há muito que sabe que o amor por um filho é incondicional e à prova de tudo. O problema está, nas vezes em que o mundo acha que este amor pode ser usado para moldar, para gerir, para manipular e para dosear, sempre que o comportamento deles não alimente a expectativa criada.

É o inocente “ Ai não me dás um beijinho? Assim, já não gosto de ti” ou o “Depois dessa birra, achas que mereces um abraço?”.

São os bem intencionados “Deixa o bebé chorar. Isto já começa a ser manha.”  e “Pára imediatamente com isso ou vais para o quarto sozinho até te passar”.

E são ainda as pérolas de sabedoria que, prontamente, diagnosticam: “O problema desta criança é mimo a mais…”

Estes são apenas alguns dos exemplos, tão enraizados em nós, que ensinam a ideia de que o amor tem de ser merecido, tem de ser conquistado, deve ser refreado e até que pode diminuir, sempre que o passo se faça mal dado. Afinal, amam-me pelo que eu faço. Não pelo que eu sou.

Se o amor por um filho não é moeda de troca, não é punição ou sequer recompensa (e eu acredito que no fundo, todos concordamos com isto), então porque não é assim que às vezes o mostramos?

Se o amor e a sua materialização física e emocional é o maior bem que podemos dar aos nossos filhos, então porque raio é que atribuímos ao mimo (= afeto), a responsabilidade dos momentos mais desafiantes na sua educação?

Se calhar, porque estamos todos a precisar de parar e pensar naquilo que andamos a fazer, de nos tornarmos mais conscientes das mensagens que transmitimos e, sobretudo, a precisar de baixar a guarda, sacudir o peso das frases gastas, abrir o coração e ouvir, tudo o que de extraordinário e libertador acontece cá dentro.

Se calhar, porque andamos todos a precisar de mimo.

E é por isso que, chegada ao fim deste texto, já só me apetece pedir…

Melhor amor, por favor.

O meu filho não é como eu. E isso é extraordinário.

De todas as aprendizagens que tenho feito enquanto mãe, esta tem sido a que mais me tem desafiado nos últimos tempos.

Talvez se tenha tornado mais presente agora, que a idade do meu filho já lhe permite argumentar, contestar e contrariar, aquelas que são as minhas ideias sobre a forma como deve agir ou sobre a pessoa que deve ser.

Talvez eu já devesse ter entendido isto, no momento em que deixámos de ser um só, para nos tornarmos dois. No corpo, na vontade, na voz. Mas não… Ainda dou por mim a insistir na culpa ou na frustração, sempre que ele, dando firmeza a quem é, age de forma diferente da que previ.

No dia em que nasceu, eu já sabia que a liberdade de ser é o maior bem que se pode dar a um filho. Mas não basta sabê-lo. É preciso experimentá-lo.

Nesta transformação de mulher e de mãe (de homem e de pai), é preciso caminhar e deixar acontecer, para assim aprender que um amor maior como este nosso, não precisa de ser espelho, nem montra, nem sequer precisa de um guião que antecipe todos os passos, ou reproduza todas as falas.

Pelo contrário, querê-lo seria reduzir a quase nada, a nobre missão de ajudar a crescer.

Um amor maior faz-se das vezes em que aceitamos quem os nossos filhos são, sem filtro ou condição. Das vezes em que trazemos à consciência que não são (nem serão) iguais a nós, nas escolhas, no sentir, nem tão pouco no agir. Faz-se, tanto, das vezes em que abraçamos todas as emoções que o seu comportamento nos acende, nos momentos fáceis e apaixonantes mas, sobretudo, nos mais terríveis e desesperantes.

Aceitar os nossos filhos tal como são. Tarefa que eu julguei tão fácil e que afinal, me é ainda tão exigente.

E se às vezes eu ainda penso: Caramba, não era isto que eu esperava que tu fizesses… também já consigo responder a mim própria: Quem me mandou a mim esperar?

Eu só preciso que sejas, não assim e nem assado. Que sejas. E me permitas a extraordinária aventura de o ser contigo.

 

P.S – E tu? Aceitas os teus filhos tal como são? Acredito tanto que vale a pena pensarmos sobre isto…