O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

O teu filho é vítima de bullying? O que podes fazer para ajudar.

Estava no 3º ano do primeiro ciclo. Devia ter uns 8 ou 9 anos. Era a primeira vez naquela escola. Aproximei-me do grupo de rapazes e raparigas que se tinha juntado na lateral do pavilhão onde aconteciam as aulas. Queria fazer amigos. Assim que perceberam que me aproximava, apontaram o dedo para as calças de xadrez que trazia vestidas e, às gargalhadas, gritaram: “Sai daqui oh calças de palhaço!” Nunca mais me esqueci disto. Lembro-me do sítio, lembro-me das caras, do gozo e do som alto do riso conjunto. Lembro-me da vergonha, da cara a arder e da vontade incontrolável de chorar, enquanto fugia dali, aos tropeções. Lembro-me, também, de odiar as malditas calças de xadrez que me tinham vestido naquela manhã. E sei hoje, que se aquela manhã se tivesse repetido e se tivesse colado a mim, eu teria aprendido também a odiar a pele por baixo das calças, o corpo, a voz, a vontade de me aproximar dos outros e de querer torná-los meus. Teria, por fim, aprendido a odiar quem sou.

As sensações que aqui recordo deste dia, que felizmente não se repetiu, tornam-me mais próxima, outra vez, de quem sofre com isto na escola todos os dias. Os miúdos que observo, as famílias com quem trabalho e claro, a experiência da maternidade, fazem-me compreender como nunca, o medo e a dor de perceber que um filho ou filha carrega este peso dentro, que tanto altera a noção de quem somos e a forma como nos amamos ou nos sentimos dignos de amor.

Bullying é a expressão usada para definir os comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos (ou com potencial para a repetição), entre crianças e jovens em idade escolar. Manifesta-se através de um desequilíbrio de poder entre quem agride e entre quem é agredido e inclui comportamentos como insultar, gozar, espalhar boatos, excluir, agredir fisicamente, entre outros.

Contrariamente ao que tantas vezes ouço dizer, o bullying não está na moda.

Está na moda falar-se sobre ele e ainda bem.  E é a falar sobre o assunto que conseguimos estar mais atentos, mais despertos, que podemos ser mais empáticos, mais solidários, mais interventivos, nesta responsabilidade conjunta, de tornar seguros e mais felizes, os espaços escolares.

E se à escola cabe a tarefa de envolver todos os elementos da comunidade escolar: professores, educadores, assistentes operacionais, alunos, técnicos psicossociais, enfermeiros de saúde escolar… na criação de estratégias promotoras da saúde e preventivas de todas as situações de violência escolar, aos pais cabe a dura tarefa de apanhar os cacos e de ajudar a reparar a auto-estima, transmitindo a esperança e a certeza de que a vida não tem de ser assim.

Importa por isso e ainda que nunca tenhamos enfrentado este desafio, refletir sobre o assunto e definir, de uma forma prática, como é que podemos ajudar…

  • Mantendo a calma.

A forma como reagimos à situação é determinante na forma como os nossos filhos a encaram. Demasiado nervosismo, ansiedade ou indignação, podem afastá-los e impedir que voltem a falar sobre assunto, o que pode ser motivado pela culpa que sentem por serem fonte de preocupação. É importante também escolher o momento para abordar o assunto, de forma a que estejam, o mais possível, tranquilos e num espaço em que se sintam seguros. Evitar os momentos logo à chegada da escola, deixando-os recuperar e descansar na sensação de porto seguro que somos, contribui para que se sintam mais tranquilos e disponíveis para conversar.

  • Sendo empática/o.

De todas as formas de apoiar uma criança ou adolescente que é agredido, a mais importante é aquela que lhe permita sentir que o compreendes e que o teu apoio será sempre incondicional. Resiste por isso à tentação de fazer todas as perguntas de forma imediata. Acolhe e deixa que partilhem todas as respostas que lhe vêm à mente. Só assim entenderás o que verdadeiramente por lá se passa.

  • Procurando obter mais informação em relação à situação específica.

Depois de aceitares e ouvires o que lhes vai na alma, existem informações que são importantes e que, ao ritmo deles e com a calma necessária, podem ser fundamentais na definição da melhor abordagem à situação. Se possível, procura compreender o contexto em que a violência aconteceu: com quem estavam, onde estavam, o que aconteceu antes, quem assistiu, o que aconteceu depois. É fundamental também estimular a partilha da forma como se sentiram, o que foi mais difícil e se houve alguma coisa que contribuísse para que se sentissem melhor. Perguntas como: “Como te sentiste?” ou “Sentiste-te triste, humilhado, zangado…?”, ao invés de “Sentiste-te triste?”, dá-lhes mais espaço a que se identifiquem com as diferentes emoções possíveis.

  • Trabalhando as competências necessárias para que aprendam a lidar com desafios semelhantes.

Criar situações fictícias, imaginando em conjunto respostas possíveis e antecipando consequências para cada uma delas. É fundamental fazer sentir que o bullying é uma situação difícil de lidar, mas que não é impossível fazê-lo e haverá sempre alternativas para lidar com a situação. Trabalhar competências ligadas à auto-confiança, à comunicação, à assertividade, à diferenciação emocional, à resolução de problemas, permitirá que se sintam mais confortáveis e confiantes nas relações sociais. Ajudar a obter mais informação, demonstrando que é uma situação que pode acontecer a qualquer um e que é preciso compreender e apoiar vítimas, agressores e espectadores, numa atitude preventiva da reicindência, contribui para que não se sintam sozinhos e desenvolve uma maior consciência social e empowerment na resolução dos conflitos. Incentivar a que se envolvam em atividades fora da escola, permite que treinem estas competências e que procurem suporte social no estabelecimento de outras relações de amizade e de grupo.

  • Estimulando ao desenvolvimento de uma perspectiva positiva do espaço escolar.

Depois de sabermos que isto se passa ou passou com o nosso filho ou filha na escola, podemos ter mais dificuldade em sair do estado de alerta e com isso centrar todos os temas de conversa nesta questão. É fundamental trazer à tona os sentimentos positivos, as pessoas de quem se gosta, as aprendizagens e as conquistas proporcionadas pelo dia a dia na escola, de forma a que sintam que há muito mais por que lutar e acreditar, do que a situação de mal estar e agressão.

  • Sendo parceira/o da escola na resolução do problema.

Marcar uma reunião com a direção ou o professor responsável pela turma, tornar comuns as preocupações que tens e, de acordo com o conhecimento que o professor tenha em relação ao funcionamento do grupo e às características dos miúdos envolvidos, definir em conjunto a melhor estratégia para atuar. É importante que o teu filho/a saiba que esta reunião se realizará e que compreenda a sua importância na resolução do problema. Sempre que sintas que as medidas adoptadas e apoio familiar e escolar não estão a ser suficientes para resolver a situação ou sempre que notes uma ansiedade crescente ou comportamentos de maior isolamento e tristeza, procura apoio e aconselhamento junto dos serviços de psicologia da escola, ou externamente.

O bullying acontece todos os dias, em todas as escolas, com os nossos filhos ou com os filhos dos outros. Passa-se na sala de aula, nos balneários, na cantina, no recreio. E alimenta-se do nosso silêncio, das vezes em que fazemos de conta ou daquelas em que achamos que o assunto não é connosco.

Será sempre, tal como é nossa, a responsabilidade de impedir que alguma criança ou jovem, um dia, se sinta assim:

“Parece que passam sem ver-me os instantes
mas passam sem que o seu passo seja breve.”

Álvaro de Campos

“Isso não é para brincar!!!”

Começo assim…

O Manel devia ter uns 2 anos. Estávamos numa feira de artesanato e parámos numa tenda cheia de caixas e caixinhas carregadas de missangas, pedras semi preciosas, estatuetas pequeninas de madeira… Ele, encantado com as cores e o brilho à nossa volta queria tocar em tudo e enterrava as mãos sapudas no meio das caixas de contas e pedrinhas. Eu, em pânico, dizia: “Não mexas querido. Só podemos ver.” Andei nesta aflição, em modo helicóptero, durante uns minutos, até que ouvi alguém dizer, do canto da tenda improvisada: “Menina, as crianças conhecem as coisas, tocando-lhes.” Era senegalesa e trazia, na suavidade da voz, a soberania de não esquecer de que substância de faz uma criança.

E a substância de uma criança mora na forma sábia como lê o mundo, com honestidade, curiosidade, coragem e bondade sem fim. Faz-se, também, da procura constante daquilo que verdadeiramente lhe alimenta a alma e que está, tantas vezes, na sua aptidão para brincar. E é a brincar que tenta, incansavelmente e com a seriedade que o assunto merece, ensinar-nos a nós, adultos, a viver outra vez.

O problema está naquilo que fazemos com os sinais que as crianças nos oferecem, nas vezes em que fingimos não ouvir ou ignoramos o apelo e, sobretudo, nas vezes em que esquecemos o cerne da questão e deixamos que nos saia da boca a frase fácil: “Isso não é para brincar.”

E eu, que provavelmente ouvi esta frase a vida inteira, sem lhe dar a devida atenção, tenho agora o privilégio de aprender com quem faz do brincar motivo de vida e com isso percebo, que a ouço vezes demais.

E de todas essas vezes, em que a mastigo e regurgito enjoada, acendo em mim a certeza de que há coisas que não deviam mesmo ser ditas, de tão disparatadas que são, nas situações como as que se seguem…

A criança explora as caixas de brinquedos na prateleira do supermercado. Nós: “Isso não é para mexer (brincar)!

A criança equilibra-se num muro do jardim. Nós: “Isso não é para andar aí em cima (brincar)!”

A criança desmonta a porta da casinha de brincar. Nós: “Isso não é para fazer (brincar)!”

A criança empilha um monte de livros na biblioteca. Nós: “Isso não é para desarrumar (brincar)!”

A criança sobe a uma árvore. Nós: “Isso não é para trepar (brincar)!

A criança desce o corrimão das escadas. Nós: “Isto não é para escorregar (brincar)!”

A criança corre no corredor livre da escola. Nós: “Aqui não é para correr (brincar)!”

A criança mexe na terra, à procura de bichos de conta. Nós: “Isso não é para andar a meter as mãos (brincar)!

Caramba!

Parece-me compreensível que se diga a uma criança que não se brinca com facas afiadas ou que não se brinca com fogo (e ainda assim o mundo está cheio de malabaristas e de faquires extraordinários), mas é só disto que, honestamente, me lembro.

Tudo o resto é para ser mexido, transformado, explorado, trepado, conhecido, escorregado, descoberto, partido, desmontado, reinventado… E é bom que assim seja, é assim que se cresce e é aí que se compreende, afinal, onde reside a magia de brincar: escancarar a janela do conhecimento, puxar o lustro ao pensamento divergente e estimular a criatividade, experimentando-a.

Quando as crianças brincam, descobrem o mundo, dão-lhe sentido e expressam a forma como o sentem e como se sentem nele. É, através da atividade lúdica, que se gravam na memória as aprendizagens mais importantes, aquelas que se revelarão fundamentais pela vida fora e que facilitarão, no futuro, a relação com o meio, a criação de vínculos afetivos, a interação social, a cooperação e a resolução de problemas, materializando quem somos e experimentando as fronteiras do possível e a liberdade da imaginação.

É por isso urgente, entender de uma vez por todas, que brincar é um assunto sério, trazendo esta consciência para dentro de casa, para os cafés, para os bairros, para os jardins, para as escolas, sobretudo para as escolas…

Porque se houve em tempos quem, de forma tão sagaz, nos tirasse a pinta assim:

“Os adultos adoram números. Sempre que falamos aos adultos de um amigo novo, nunca perguntam o mais importante. Nunca dizem: “Como soa a sua voz? De que jogos gosta? Coleciona borboletas?” Em vez disso perguntam: “Quantos anos tem? Quantos irmãos? Quanto pesa? Quanto ganha o pai dele?” E só então parece que o conhecem. Se disserem aos adultos “Vi uma casa muito bonita de tijolos cor de rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado…”, eles não conseguem imaginar a casa. Mas se lhes dissermos “Vi uma casa de 200 mil euros!” Então eles exclamam: “Tão bonita!” *

… continuará felizmente a existir, uma mão pequenina e esperta, que nos corrige o olhar, nos aponta para o sítio certo e nos garante, num sorriso feliz, que nunca é tarde para voltar a ver os gerânios nas janelas.
São tão mais bonitos do que os números…

 

*excerto retirado de “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry.

P.S – Desafio-te a ver este pequeno vídeo sem ficar com um sorriso no rosto (e uma pontinha de inveja), por tudo o que de bom estas crianças podem experimentar. E eu acredito que era assim, que lhes devíamos mostrar o mundo…

Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer… 

“Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

Há uns dias partilhei um texto, já publicado, sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam, de facto, novos desafios sobre os quais é importante refletir. Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

Socorro, eles estão de férias!!!

E já são crescidos.

A escola acabou, a maioria dos exames também.

Para eles chega o tempo mais desejado do ano (e diga-se de passagem que bem o merecem!). Para nós, pode ser o início de um tempo com alguns desafios, dependendo do adolescente que temos, dos planos que tenha para as tão almejadas férias de verão e dependendo, claro está, da forma como lidamos com todas estas variáveis.

Ora vejamos então o top 5 dos cenários mais prováveis e algumas dicas para sobreviver a cada um deles:

Dormir até às 13h, almoçar, voltar a dormir, praia à tarde e discoteca até de manhã. Esta modalidade é um mix, preferido por muitos. A malta descansa, apanha um sol, sai com os amigos… e começa tudo outra vez. Como vão passando algum tempo em casa (ainda que a dormir), consegues ir percebendo se estão inteiros e ir repetindo os mesmos conselhos todos os dias. Lambe-os enquanto estiverem por perto e deixa-os sair e aproveitar as férias.

  • Dica importante: A negociação de algumas regras, como por exemplo a hora de chegada a casa, a importância de saberes com quem vão e com quem estão e quais os planos para o dia/noite, ajuda a que tudo corra de forma mais pacífica,

Ficar em casa. Há quem prefira ficar em casa. Ler um livro, fazer maratonas no sofá a ver a série preferida, jogar computador, são algumas das opções mais populares. Se tens um adolescente que prefere passar mais tempo sozinho, respeita-o nas suas características e necessidades individuais mas não deixes de o procurar para os momentos em família e de ir tentando que faça outras coisas, de vez em quando. Isto é particularmente importante se a atividade de eleição for jogar computador e aqui é imperativa a existência de regras para o uso do mesmo, tendo em conta os riscos associados aos jogos online. Sair para comer um gelado, convidar uns amigos para jantar, ir à praia dar um mergulho… são atividades que servirão para quebrar a rotina e proporcionar outras experiências.

  • Dica importante: Se saírem em família, procura trazê-los sempre contigo. Mesmo que reclamem, mesmo que revirem os olhos, não há nada tão protetor como sentirmo-nos parte da tribo. Podes dizer-lhes: “Eu percebo que te apetecesse ficar em casa, mas a tua presença é importante para mim…”

Acampar com amigos. Hummm, este é o início de uma grande aventura: aprender a conviver com a ideia de que vão dormir fora de casa e que andarão, por sua conta e risco, a fazer tudo o que lhes der na gana. E que bom que é… Para eles, claro está. Acampar, alugar uma casa de férias com o grupo, fazer um intercâmbio… são experiências únicas e muito importantes para que testem competências individuais e experimentem uma maior autonomia. Ajuda-os a preparar a mala para garantir que lá colocam tudo o que possa fazer falta. Roupa interior, casaco, carregador de telemóvel, protetor solar, repelente de insetos, chapéu, preservativos (por esta não esperavas tu…), enfim, tudo o que se adequar à situação em questão. Nada te garante que farão uso de tudo o que levarem, mas pelo menos tê-lo-ão por perto e tu ficarás mais tranquila(o).

  • Dica importante: Nas situações em que dormem fora, é boa ideia ficar com o contacto de um ou mais amigos e combinar que telefonarão a dar notícias.Ah, e basta ligar 1 vez por dia, não é preciso ligar 30…

Festivais de verão. Bom bom era antigamente, que a malta não tinha de se preocupar com estas andanças… Se for só por um dia, é importante roupa fresca e confortável e uns ténis, que permitam andar por todo o lado e evitar lesões ou cortes provocados por garrafas e vidros no chão. Se, para mal dos teus pecados, for um daqueles festivais dos bons que duram 7 dias, aplicam-se todas as sugestões do tópico anterior.

  • Dica importante: Aqui vale a pena tentar também uma conversa estratégica e tranquila sobre os consumos de álcool e outras substâncias e os comportamentos de risco que a eles se associam (condução, relações sexuais desprotegidas…).

Viajar com os pais. Este é o meu preferido e pode ser complementar a todos os outros. Considero que viajar e fazê-lo em família, será sempre um dos maiores privilégios que lhes podemos proporcionar ao longo do seu crescimento. Dá-lhes a possibilidade de conhecer outras culturas e de confrontarem com outros hábitos e formas de estar na vida. Para além disso, quebra a rotina, relativiza tudo aquilo que julgam indispensável e obriga-os a sair da zona de conforto. Benefícios à parte, é importante lembrar que, se na infância vão para todo o lado e só temos de nos preocupar com a logística da coisa, quando chegam à adolescência pode não ser bem assim, pelo que é útil pensar estratégias que os façam sentirem-se bem durante a viagem. Decidir em conjunto o destino das férias, pedir-lhes ajuda com a definição do itinerário, dar-lhes a tarefa da reportagem fotográfica ou pedir-lhes que definam o programa de festas para um dia, são boas maneira de o fazer. Viajar com amigos, com filhos de idades próximas e com quem se deem bem também facilita a que se sintam mais entusiasmados, permitindo-lhes alguma autonomia durante a estadia.

  • Dica importante: Se possível, combinar em família que os tablets e afins não vão de férias convosco. Facilita a que o tempo em que estão juntos, seja efetivamente tempo em família.

Ainda que o título deste texto apele ao desespero da ideia de que estão de férias (tudo truques para chamar a tua atenção), considero que este é um tempo que, ainda que desafiante por muitas razões, é um tempo necessário.

Um tempo em que ganhamos de novo a oportunidade de respirar fundo, esquecer o relógio e recuperar a conexão com os nossos e connosco próprios. Um tempo para recarregar baterias e absorver cada segundo, para no fim, ainda que estafados e desejosos de voltar à rotina, voltarmos a suspirar pelas férias seguintes.

O resto vais mesmo ter de deixar ao universo… E vai tudo correr bem.

Pensar nas escolhas como um processo. (4 de 5)

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do nosso ciclo de vida, atravessando as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Constitui-se assim como uma dimensão do desenvolvimento psicológico global, que nos permite estabelecer relações com o mundo físico e social, através do questionamento e da experimentação, e nos prepara para o desenvolvimento dos diferentes papéis de vida, nos quais se incluem claro, os de estudante e de trabalhador.

Tal como nós, também o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras, o que faz com que, atualmente, não existam setores ou profissões imunes a esta transformação. Consequentemente, e tendo em conta as características e desafios do mundo como o conhecemos hoje, as pessoas deparam-se com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

Posto isto, é importante aceitar que a ideia que aprendemos do “emprego para a vida”, não será a realidade dos nossos filhos, o que implica que o seu futuro escolar e profissional deva ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Mas então, como se prepara os filhos para isto?

Primeiro passo: Dizer-lhes, as vezes que forem necessárias, que as decisões que tomem não se encerram em si e que poderão sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Fazê-los sentir que assim é, mediante a aceitação das frustrações, dos erros, das tentativas, como parte normal e saudável do processo.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que irão trabalhar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para subir um degrau de cada vez.

Segundo passo: Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os diferentes momentos de transição, preparando-os para a possibilidade de exercerem vários trabalhos ao longo da vida.

criatividade, a flexibilidade, a autonomia, a adaptabilidade, o empreendedorismo e o pensamento crítico, mas também a inteligência emocional, a capacidade de comunicação e o espírito de equipa, são as competências mais valorizadas no mercado de trabalho atual e serão também aquelas que se revelarão fundamentais para fazer face aos diferentes desafios que a vida lhes trará.

Para além disso, favorecer o conhecimento daquelas que são as suas características pessoais e daquilo que valorizam enquanto pessoas, é importante para permitir que antecipem as vantagens e desvantagens de cada possibilidade, abrindo caminho a que as escolhas feitas se aproximem, o mais possível, dos fatores que contribuirão para o seu bem estar e satisfação.

Alimentando sempre a ideia de que a pessoa que são, constrói-se a cada passo dado e cresce, em todos os sentidos, sempre que aceita na bagagem todas as experiências e caminhos percorridos.

Na prática: Estimula os teus filhos a que participem em atividades comunitárias, incentiva a que se associem a uma causa humanitária, a que colaborem com uma associação juvenil ou a que se agarrem a um part-time nas férias… Estas experiências contribuirão para que desenvolvam competências como as que acima foram descritas, permitindo ainda que alarguem o círculo relacional e aprendam a adaptar-se e a funcionar em ambientes diferentes daqueles que estão habituados. E isso dá-lhes muita estaleca. Para além disso, é fundamental favorecer a possibilidade de se dedicarem a atividades extracurriculares como a música, a dança, o desporto… Estas aprendizagens promovem o autoconhecimento, representando para os adolescentes uma oportunidade para explorar e desenvolver as suas aptidões e interesses, que poderão mais tarde revelar-se verdades sobre si.

Tribos sem índios.

Ela apanhava-me em casa todas as manhãs para seguirmos juntas para o liceu. Vestíamos camisa de xadrez, larga, calças de ganga e ténis AllStar. À tiracolo, uma bolsinha a puxar para o hippie, completava o figurino. Casaco nem vê-lo. Fizesse chuva ou um frio de rachar. Nada que não se aguente aos 16 anos, porque o importante mesmo, é dar o corpo ao manifesto.

Nos intervalos das aulas, encontrávamo-nos todos junto ao parapeito da janela que dava para o corredor do refeitório. Comíamos croissants de massa folhada a meio da manhã. Éramos um “bando”. Cúmplices nos gestos, na música, nos gostos. Parceiros nos sonhos, nos planos para as férias e a achar que teríamos sempre todo o tempo do mundo. Não tivemos, mas ainda assim, aproveitámo-lo bem.

A adolescência representa talvez, no ciclo vital, o período de desenvolvimento mais desafiante e exigente do indivíduo, pela natureza das transformações que nela ocorrem. Uma dessas transformações, muitas vezes a que causa maior impacto na família, é a que ocorre ao nível das relações sociais, num processo de alargamento das crenças e valores, em que os amigos assumem o papel principal.

Um adolescente de 16 anos quer ainda misturar-se na multidão, ser aceite e respeitado pelo grupo de pertença e isso implica muitas vezes comportar-se como os amigos e adotar os comportamentos preconizados pela maioria. É o grupo que afinal condiciona as relações sociais dos seus membros e que define o manual de normas – valores, estilos de vida, moda, música… entendido e aceite por todos. E esta sensação confortável de que “este é o meu lugar” é de uma enorme proteção para o jovem, contribuindo para o seu bem estar e permitindo que se construam relações de proximidade e suporte significativas.

Por outro lado, como já era de esperar porque tudo tem o seu revés, o conformismo ao grupo pode tornar-se tóxico, sempre que coloque em causa os valores do adolescente e o obrigue a adoptar comportamentos com os quais não concorda, transformando-o em alguém que efetivamente não é. Importa por isso pensar de que forma podemos estar próximos, contribuindo para que se “enturmem” sem perder aquela que é a sua individualidade:

Treinar competências pessoais e sociais, estimulando a tomada de posição e a auto-afirmação no palco lá de casa. Podemos não concordar, podemos achar que têm o mundo no umbigo, mas é seu o direito de defenderem e expressarem aqueles que são os seus valores;

Alargar o círculo relacional da família. Viver numa redoma pais-filho(s) limita a possibilidade de interação. Quando os pais têm também eles relações significativas fora do seio familiar e se envolvem em projetos na comunidade, permitem aos filhos movimentar-se em diferentes grupos e ter diferentes experiências de socialização;

Conhecer a companhia dos filhos e convidá-la a entrar. Tenho um amigo na casa de quem eram sempre feitas as jantaradas de grupo da universidade e há pouco tempo, quando me encontrei com a mãe, valorizei-lhe a paciência dessa altura (a casa ficava em “estado de sítio”!), ao que ela me respondeu: “Assim tive oportunidade de vos conhecer a todos e isso deixou-me sempre mais tranquila”. Saber quem são os amigos dos filhos permite-nos estar próximos das pessoas de quem gostam, compreendendo a importância que assumem nas suas vidas e o papel que desempenham no funcionamento do grupo.

E por fim mas não menos importante, lembrarmo-nos de como foi connosco. Da cumplicidade, dos risos, das lágrimas partilhadas nos desgostos de amor, das zangas que eram o fim do mundo, para no dia seguinte tudo voltar a ser como antes.

A experiência de um amigo é talvez a que mais nos ilumina por dentro e a que mais nos protege ao longo da vida, e para que esse milagre aconteça e eles escolham as suas tribos é preciso deixá-los seguir, explorar e conhecer… os desconhecidos.

Nota: E como já vem sendo um hábito bom, os créditos da imagem são da muito querida Lília Nunes Reis.

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me. Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola e nos outros contextos, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou antes, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedaços e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer naquele momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo o que eu trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Vida de escola

Nos corredores da escola já todos caminham com maior segurança. Professores e alunos conhecem-se melhor, os horários e as salas já estão na cabeça e o corpo habituou-se às novas rotinas. É momento pois, de agitar as hostes e começar um período temido por muitos: o dos primeiros testes de avaliação.

Conheço de perto o stress que os testes provocam nos alunos, o medo da avaliação, a competitividade entre colegas…

Percebo-os, porque acho que continuamos a atribuir um peso demasiado elevado a estes “termómetros do conhecimento” que, muitas vezes, instigam ao empinanço e posterior cuspidela, dos conteúdos de uma determinada matéria prevista no currículo.

Percebo-os, porque continuamos a achar que a honra de um aluno se mede pelas notas no final do ano e a insistir em premiá-lo pelo resultado, e não pelo processo.

Esta é a escola que ainda temos e pese embora a necessidade de mudança, não deixa de ser necessário que tenhamos a capacidade de nos adaptar àquelas que são as suas exigências. E nesta adaptação, à família destina-se também uma espécie de papel principal.

É em casa que os adolescentes podem chorar frustrações, é em casa que podem assumir o medo de não estar à altura, é em casa que podem “explodir”, na certeza de que, quem os rodeia, não vai desatar a fugir. Estes, representam um dos grandes desafios de se ser família, mas são também algumas das suas maiores virtudes.

Aprender a estudar constitui uma importante estratégia para lidar com o stress perante a escola, contribuindo para que as notas melhorem e os estudantes se sintam mais confiantes perante situações de avaliação. Neste caminho, aos pais, pode ser importante:

Compreender as dificuldades por que passam e aceitar a importância que lhes atribuem. Podem existir mil e uma razões que explicam uma maior resistência ao estudo: medo de falhar, dificuldade numa determinada matéria ou a necessidade de maior apoio.

Aceitar que lhes seja difícil chegar a casa depois de um dia inteiro de escola e ainda ter de fazer trabalhos de casa ou revisões da matéria (basta pensares em ti e naquilo que te apeteceria realmente ao final do dia…). Aqui pode ser útil relaxar um pouco para depois ajudar a começar, definir objetivos diários, claros e atingíveis tendo em conta as tarefas a desempenhar.

Ajustar expectativas. Muitas vezes, sem intenção, colocamos padrões demasiado altos aos nossos filhos, que os constringem e aumentam a pressão. É de longe mais importante valorizar o esforço e a dedicação a uma determinada tarefa, do que o resultado que dela advém.

E por fim, mas igualmente fundamental: ser flexível. Manter uma rotina de estudo é importante, quebrá-la de vez em quando, também. Uma vez por semana façam alguma coisa de que gostem, em família. Ir ao cinema, fazer uma caminhada ao final do dia, comer um gelado, ou até, “não fazer nenhum”.

Aquilo que vos faça sentir bem, dar-vos-á também a força para continuar a fazer face aos desafios e receber as conquistas que a escola da vida ou a vida na escola nos trazem, todos os dias.