Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer… 

“Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

Há uns dias partilhei um texto, já publicado, sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam, de facto, novos desafios sobre os quais é importante refletir. Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

Socorro, eles estão de férias!!!

E já são crescidos.

A escola acabou, a maioria dos exames também.

Para eles chega o tempo mais desejado do ano (e diga-se de passagem que bem o merecem!). Para nós, pode ser o início de um tempo com alguns desafios, dependendo do adolescente que temos, dos planos que tenha para as tão almejadas férias de verão e dependendo, claro está, da forma como lidamos com todas estas variáveis.

Ora vejamos então o top 5 dos cenários mais prováveis e algumas dicas para sobreviver a cada um deles:

Dormir até às 13h, almoçar, voltar a dormir, praia à tarde e discoteca até de manhã. Esta modalidade é um mix, preferido por muitos. A malta descansa, apanha um sol, sai com os amigos… e começa tudo outra vez. Como vão passando algum tempo em casa (ainda que a dormir), consegues ir percebendo se estão inteiros e ir repetindo os mesmos conselhos todos os dias. Lambe-os enquanto estiverem por perto e deixa-os sair e aproveitar as férias.

  • Dica importante: A negociação de algumas regras, como por exemplo a hora de chegada a casa, a importância de saberes com quem vão e com quem estão e quais os planos para o dia/noite, ajuda a que tudo corra de forma mais pacífica,

Ficar em casa. Há quem prefira ficar em casa. Ler um livro, fazer maratonas no sofá a ver a série preferida, jogar computador, são algumas das opções mais populares. Se tens um adolescente que prefere passar mais tempo sozinho, respeita-o nas suas características e necessidades individuais mas não deixes de o procurar para os momentos em família e de ir tentando que faça outras coisas, de vez em quando. Isto é particularmente importante se a atividade de eleição for jogar computador e aqui é imperativa a existência de regras para o uso do mesmo, tendo em conta os riscos associados aos jogos online. Sair para comer um gelado, convidar uns amigos para jantar, ir à praia dar um mergulho… são atividades que servirão para quebrar a rotina e proporcionar outras experiências.

  • Dica importante: Se saírem em família, procura trazê-los sempre contigo. Mesmo que reclamem, mesmo que revirem os olhos, não há nada tão protetor como sentirmo-nos parte da tribo. Podes dizer-lhes: “Eu percebo que te apetecesse ficar em casa, mas a tua presença é importante para mim…”

Acampar com amigos. Hummm, este é o início de uma grande aventura: aprender a conviver com a ideia de que vão dormir fora de casa e que andarão, por sua conta e risco, a fazer tudo o que lhes der na gana. E que bom que é… Para eles, claro está. Acampar, alugar uma casa de férias com o grupo, fazer um intercâmbio… são experiências únicas e muito importantes para que testem competências individuais e experimentem uma maior autonomia. Ajuda-os a preparar a mala para garantir que lá colocam tudo o que possa fazer falta. Roupa interior, casaco, carregador de telemóvel, protetor solar, repelente de insetos, chapéu, preservativos (por esta não esperavas tu…), enfim, tudo o que se adequar à situação em questão. Nada te garante que farão uso de tudo o que levarem, mas pelo menos tê-lo-ão por perto e tu ficarás mais tranquila(o).

  • Dica importante: Nas situações em que dormem fora, é boa ideia ficar com o contacto de um ou mais amigos e combinar que telefonarão a dar notícias.Ah, e basta ligar 1 vez por dia, não é preciso ligar 30…

Festivais de verão. Bom bom era antigamente, que a malta não tinha de se preocupar com estas andanças… Se for só por um dia, é importante roupa fresca e confortável e uns ténis, que permitam andar por todo o lado e evitar lesões ou cortes provocados por garrafas e vidros no chão. Se, para mal dos teus pecados, for um daqueles festivais dos bons que duram 7 dias, aplicam-se todas as sugestões do tópico anterior.

  • Dica importante: Aqui vale a pena tentar também uma conversa estratégica e tranquila sobre os consumos de álcool e outras substâncias e os comportamentos de risco que a eles se associam (condução, relações sexuais desprotegidas…).

Viajar com os pais. Este é o meu preferido e pode ser complementar a todos os outros. Considero que viajar e fazê-lo em família, será sempre um dos maiores privilégios que lhes podemos proporcionar ao longo do seu crescimento. Dá-lhes a possibilidade de conhecer outras culturas e de confrontarem com outros hábitos e formas de estar na vida. Para além disso, quebra a rotina, relativiza tudo aquilo que julgam indispensável e obriga-os a sair da zona de conforto. Benefícios à parte, é importante lembrar que, se na infância vão para todo o lado e só temos de nos preocupar com a logística da coisa, quando chegam à adolescência pode não ser bem assim, pelo que é útil pensar estratégias que os façam sentirem-se bem durante a viagem. Decidir em conjunto o destino das férias, pedir-lhes ajuda com a definição do itinerário, dar-lhes a tarefa da reportagem fotográfica ou pedir-lhes que definam o programa de festas para um dia, são boas maneira de o fazer. Viajar com amigos, com filhos de idades próximas e com quem se deem bem também facilita a que se sintam mais entusiasmados, permitindo-lhes alguma autonomia durante a estadia.

  • Dica importante: Se possível, combinar em família que os tablets e afins não vão de férias convosco. Facilita a que o tempo em que estão juntos, seja efetivamente tempo em família.

Ainda que o título deste texto apele ao desespero da ideia de que estão de férias (tudo truques para chamar a tua atenção), considero que este é um tempo que, ainda que desafiante por muitas razões, é um tempo necessário.

Um tempo em que ganhamos de novo a oportunidade de respirar fundo, esquecer o relógio e recuperar a conexão com os nossos e connosco próprios. Um tempo para recarregar baterias e absorver cada segundo, para no fim, ainda que estafados e desejosos de voltar à rotina, voltarmos a suspirar pelas férias seguintes.

O resto vais mesmo ter de deixar ao universo… E vai tudo correr bem.

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

Pensar nas escolhas como um processo. (4 de 5)

O desenvolvimento vocacional é um processo que se inicia desde o momento do nascimento e nos acompanha ao longo do nosso ciclo de vida, atravessando as mudanças necessárias, inerentes ao crescimento.

Constitui-se assim como uma dimensão do desenvolvimento psicológico global, que nos permite estabelecer relações com o mundo físico e social, através do questionamento e da experimentação, e nos prepara para o desenvolvimento dos diferentes papéis de vida, nos quais se incluem claro, os de estudante e de trabalhador.

Tal como nós, também o mercado de trabalho está em constante mudança. Surgem novas profissões, extinguem-se outras, o que faz com que, atualmente, não existam setores ou profissões imunes a esta transformação. Consequentemente, e tendo em conta as características e desafios do mundo como o conhecemos hoje, as pessoas deparam-se com a necessidade de reequacionar as suas trajetórias de vida e de carreira, de forma a adaptar-se às novas exigências.

Posto isto, é importante aceitar que a ideia que aprendemos do “emprego para a vida”, não será a realidade dos nossos filhos, o que implica que o seu futuro escolar e profissional deva ser pensado como um projeto em permanente construção, passível de ser alterado e reconstruído, as vezes que forem necessárias.

Mas então, como se prepara os filhos para isto?

Primeiro passo: Dizer-lhes, as vezes que forem necessárias, que as decisões que tomem não se encerram em si e que poderão sempre voltar atrás, mudar o rumo e recomeçar. Fazê-los sentir que assim é, mediante a aceitação das frustrações, dos erros, das tentativas, como parte normal e saudável do processo.

A escolha de um curso não significa necessariamente que é nessa área que irão trabalhar. Saber disto (e saber que nós sabemos disto), tira-lhes um peso enorme de cima e deixa-os mais tranquilos para subir um degrau de cada vez.

Segundo passo: Ajudar a que desenvolvam um mapa de competências que, pela sua transversalidade, lhes permita enfrentar os diferentes momentos de transição, preparando-os para a possibilidade de exercerem vários trabalhos ao longo da vida.

criatividade, a flexibilidade, a autonomia, a adaptabilidade, o empreendedorismo e o pensamento crítico, mas também a inteligência emocional, a capacidade de comunicação e o espírito de equipa, são as competências mais valorizadas no mercado de trabalho atual e serão também aquelas que se revelarão fundamentais para fazer face aos diferentes desafios que a vida lhes trará.

Para além disso, favorecer o conhecimento daquelas que são as suas características pessoais e daquilo que valorizam enquanto pessoas, é importante para permitir que antecipem as vantagens e desvantagens de cada possibilidade, abrindo caminho a que as escolhas feitas se aproximem, o mais possível, dos fatores que contribuirão para o seu bem estar e satisfação.

Alimentando sempre a ideia de que a pessoa que são, constrói-se a cada passo dado e cresce, em todos os sentidos, sempre que aceita na bagagem todas as experiências e caminhos percorridos.

Na prática: Estimula os teus filhos a que participem em atividades comunitárias, incentiva a que se associem a uma causa humanitária, a que colaborem com uma associação juvenil ou a que se agarrem a um part-time nas férias… Estas experiências contribuirão para que desenvolvam competências como as que acima foram descritas, permitindo ainda que alarguem o círculo relacional e aprendam a adaptar-se e a funcionar em ambientes diferentes daqueles que estão habituados. E isso dá-lhes muita estaleca. Para além disso, é fundamental favorecer a possibilidade de se dedicarem a atividades extracurriculares como a música, a dança, o desporto… Estas aprendizagens promovem o autoconhecimento, representando para os adolescentes uma oportunidade para explorar e desenvolver as suas aptidões e interesses, que poderão mais tarde revelar-se verdades sobre si.

Não esquecer que a história é deles. (3 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.

Saber que a família importa. (2 de 5)

A partir do momento em que nos tornamos mães e pais, passamos a viver com uns olhinhos cravados em nós, atentos a tudo o que dizemos e, sobretudo, atentos a tudo o que fazemos.

Para os filhos, os pais constituem o exemplo mais próximo e mais significativo daquilo que é ser-se adulto, pelo que a grande maioria das suas atitudes e comportamentos, se desenham a partir daquilo que aprenderam connosco.

Tal como acontece a outros níveis, os pais afetam as escolhas vocacionais dos filhos, quer através daquilo que expressam verbalmente e das ideias que têm em relação à escola e ao mundo do trabalho quer através do desempenho dos seus diferentes papéis de vida – enquanto pais, enquanto companheiros, enquanto trabalhadores…

Neste sentido, a forma como nos posicionamos em cada um desses papéis, bem como os valores que guiam os nossos comportamentos e atitudes acabam por constituir, por isso só, uma poderosa fonte de inspiração – se eu cresço num ambiente em que o esforço e o empenho são valorizados e realizados, é isso que, naturalmente, procurarei no meu percurso…

Ainda que com a entrada na adolescência tenhamos a sensação de passar a representar uma espécie de papel secundário, neste que é o romance da nossa vida, a investigação tem demonstrado que, paralelamente à importância dos amigos nesta fase de vida, os adolescentes continuam a reconhecer a família como a fonte mais fidedigna de informação. E isto faz com que esperem dos pais compreensão e apoio no debater das suas dúvidas, bem como encorajamento no sentido da exploração e da construção de projetos de vida.

Envolver-se de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, implica construir pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

Na prática: Participar nas reuniões e iniciativas da escola, sempre e até ao fim do seu percurso escolar (a participação da família na vida escolar dos filhos tende a diminuir à medida que progridem no sistema de ensino, mas não é por estarem mais crescidos que deixa de ser importante…). Falar sobre as profissões da família e os percursos feitos, favorece o sentido de pertença (tão protetor para os jovens), bem como o reconhecimento de características comuns, contribuindo também para a obtenção de informações práticas sobre as diferentes possibilidades. Favorecer os momentos de exploração de informação sobre o mundo do trabalho, através de conversas informais com amigos e aproveitar as situações do dia-a-dia para pôr em comum ideias e projetos individuais e familiares, são atividades que promovem a reflexão conjunta, reforçando o impacto positivo que a família pode desempenhar nos processos de exploração e de tomada de decisão vocacional. 

Entender o momento. (1 de 5)

aqui falámos sobre a importância das escolhas e de que forma as mesmas podem ser vividas pelos adolescentes. Falámos também na influência que a nossa reação às suas (in)decisões pode ter sobre eles, na medida em que afeta a forma como vão refletindo sobre as opções que surgem ao longo do seu percurso escolar.

Considero que pensar sobre as nossas intenções enquanto mães e enquanto pais, ajuda a tornar mais conscientes e ponderadas as expectativas que temos em relação aos nossos filhos e em relação ao seu futuro. E por isso acredito, que é essa reflexão que nos faz ser capazes de controlar ou minorar o impacto que essas mesmas expectativas, possam vir a ter sobre quem são e sobre quem quererão ser.

O futuro deles às vezes mete-nos medo, eu sei, mas é nossa a tarefa de lhes dar o mapa sem lhes assinalar o caminho. E este é o momento ideal para que isso aconteça. Vejamos porquê…

A adolescência é um período de vida marcado por um conjunto de alterações biofisiológicas, psicológicas, intelectuais e sociais significativas, que implicam aos jovens uma readaptação profunda a si próprios e ao mundo que os rodeia. Essas alterações são fundamentais ao seu crescimento e vão permitir-lhes que ao longo desta etapa de vida, sejam cumpridas tarefas de desenvolvimento importantes, tais como:

       Construção da identidade: Significa ser capaz de se definir como pessoa, com valores e   necessidades próprias, com as quais nos comprometemos. Dá-se através do questionamento e da construção de valores, pela forma personalizada de ver o mundo e de o compreender com a afirmação de gostos próprios.

       Construção de projetos de vida: Materializa a procura de uma maior independência e crescente autonomização. A necessidade da tomada de decisões escolares e profissionais, favorece a disponibilidade para o autoconhecimento, uma maior reflexão pessoal, a capacidade de integração no grupo de iguais e a progressiva capacitação para a entrada no mundo dos adultos.

A noção da adolescência como um período particularmente desafiante mas profundamente adaptável e com objetivos muito claros, representa para os jovens e para quem os ajuda a crescer, uma oportunidade fantástica de aprendizagem e de crescimento pessoal e social.

Entender o momento, torna-nos mais empáticos na relação com os nossos filhos e isso contribui para que sejamos capazes de compreender que é normal estar indeciso, que é normal ter medo, que é normal ter mil e uma vontades e, às vezes, perder-se no meio delas.

Entender o momento ajuda a apaziguar a incerteza do futuro, a dar esperança e a transmitir a ideia de que a vida pode (e deve), ser feita de muitas escolhas e que haverá sempre espaço para abraçar mais uma das que possa fazer-nos estar mais próximos de quem queremos ser.

Ver crescer um filho implica o difícil exercício de deixar ir quem leva dentro o nosso coração. De o aceitar enquanto ser autónomo, capaz de fazer as suas escolhas, de seguir o seu caminho, na certeza de que é seu o direito de arriscar e nosso o dever de deixar que os seus passos se façam diferentes dos nossos.

Na prática: Lembra-te do adolescente que foste. Das dúvidas que te assaltaram o presente sempre que pensaste no futuro, dos momentos que te fizeram incomparavelmente feliz, daqueles que te causaram medo e até falta de esperança. A forma como os ultrapassaste. Partilha algumas dessas histórias com o teu/tua filho(a) e deixa-o(a) conhecer-te nessa altura, fazer perguntas… Saber que os pais passaram por momentos e dúvidas semelhantes, estimula a reflexão sobre si próprios e fá-los sentir que serão capazes de enfrentar os obstáculos com que se venham a deparar. Para além disso, ajuda a que sintam que conseguimos compreendê-los e isso normaliza o turbilhão de emoções e sobretudo, aproxima-vos.

P.S – Este é o primeiro de 5 posts, nos quais vou propor algumas ideias para ajudar a pensar o futuro deles. Espero que te sejam úteis. 🙂

Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas. Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

A carta que agora me apetece.

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas, para educar as crianças que por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, meu querido Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.