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Quando eles preferem morrer…

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

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Hi-tech, mas pouco.

Temos em família um princípio de ouro: a tecnologia não substitui as pessoas. Agarradas a este princípio vêm algumas regras, definidas com o mais novo cá de casa.

A saber:

  • Durante a refeição não há tablets, não há televisão, não há telemóveis;
  • Uma conversa com alguém presente não se interrompe para atender uma chamada ou espreitar o facebook;
  • O tablet tem acesso controlado (quase inexistente) e a televisão limita-se a 1h/dia ao fim de semana e a uns 30m durante os dias da semana, quando e se for possível, porque o jantar às vezes demora. Fora estes momentos, por norma, a televisão está sempre desligada e o tablet guardado (dica de ouro – nem se lembra que ele existe);
  • Os canais de televisão infantis são limitados ao Panda, ao Disney e à RTP2 e no Ipad não há jogos instalados (há umas aplicações de pinturas e de histórias);
  • Na sala há uma estante cheia de jogos como o mikado, cartas, xadrez, dominó, o jogo da memória… e são eles que nos fazem as alegrias ao serão, sentados no tapete da sala.

Muitas vezes, assaltada pelos apelos do mundo digital, questiono esta nossa estratégia: “Será que o Manel vai ser um “totó” no que se refere às competências tecnológicas?” ou “Será que vai estranhar quando lhe for solicitado dominar estas ferramentas, na escola ou no trabalho?”.

Felizmente, isto dá-me poucas vezes. Infelizmente, porque assisto vezes sem contas ao lado mau de uma má utilização das tecnologias.

E o lado mau é mesmo muito mau. É terrível.

Consegue pôr famílias inteiras à mesa sem que as pessoas olhem umas para as outras, sem que falem de banalidades e muito menos de coisas importantes.

Consegue pôr adolescentes a adormecer às 4 da manhã em dias de semana, impedindo-os de ter um sono reparador, como todos os sonos devem ser.

Consegue provocar nos miúdos, comportamentos típicos da síndrome de abstinência de uma substância psicoativa: descontrolo motor, ansiedade, irritabilidade, nervosismo, mudança de humor…

Consegue pôr os pais a dizer aos filhos: “Já vou”, demasiadas vezes, porque é preciso enviar um email fora de horas ou ver o número de likes da selfie tirada no último almoço de trabalho.

E com tudo isto consegue, lentamente, fazer com que nos esqueçamos que somos, por natureza, seres sociais e que por isso, precisamos do afeto e do contacto emocional e físico, quase como quem precisa da água para viver. Porque é afinal na relação com os outros que crescemos todos os dias e que nos tornamos seres humanos melhores.

O Manel tem cinco anos e sabe que o pinguim-macaroni vive na Antártida e que no nosso terraço crescem os melhores morangos do mundo. Sabe dizer qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu na escola e partilhar o momento mais triste que teve. Sabe dar abraços e dizer os nomes dos nossos amigos todos. Pergunta o que vamos levar quando vamos jantar a casa de alguém e reconhece na nossa expressão facial que o dia não nos correu bem.

O Manel tem cinco anos, tem o coração apinhado de gente e sabe a coisa mais importante de todas: ser feliz, como ninguém.

Não me lixem, os computadores não fazem isto.

 

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É a saudade, meu amor…

Não fomos ao Madame Tussauds, não vimos o Big Ben, nem sequer assistimos à Troca da Guarda no palácio de Buckingham. Em vez disso, demorámo-nos nos pequenos almoços, matámos as saudades dos amigos, passeámos à chuva e comemos sandes no jardim. Fingimos que a nossa casa era ali, na construção de madeira do parque infantil e deixámo-nos ficar em cada lugar, com o sossego e o sentido de honra, típicos da primeira vez. Apanhámos um comboio para descer a sul. Sentámo-nos ao lado de uma portuguesa e julgámo-la inglesa. Calada e de sorriso cúmplice, ouviu-nos os disparates à “turista chico-esperto” até ao final da viagem, para depois nos dizer: “Vão para Bournemouth, certo? Já chegaram.” Saímos aos tropeços e às gargalhadas pela coincidência feliz. Matámos saudades outra vez, porque os portugueses estão em todo o lado e os que nos moram no coração não são disso excepção. Dormimos até tarde, ficámos à espera dos esquilos e fomos cheirar o mar bravo do atlântico. Cinco dias depois, voltámos a sentar-nos no avião e tu, com um olhar inquieto, disseste-me: “Já estou com saudades outra vez mãe…”

E ali, naquele segundo, antes de rumares ao sol, ao caminho para escola e aos legos espalhados no chão do teu quarto, eu soube que há em ti alma de viajante. E que é a saudade que te fará voltar, meu amor…

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Não são “pós de perlimpimpim”, mas ajudam…

Sim eu sei… sou um pouco avessa a manuais de instruções mas, a pedido de muitas famílias, aqui proponho algumas pistas sobre as quais pode ser interessante pensar. Sobretudo, quem tem filhos assim a ficar para o crescido…

  1. Esquece tudo o que pensaste que seria ser mãe/pai de um/a adolescente. A realidade supera todas as expectativas.

  2. Habitua-te ao humor imprevisível, aos comportamentos impulsivos, à alterações emocionais, à necessidade de uma maior privacidade.. E respeita-os. Fazem parte do processo de crescimento e, como tudo, têm uma explicação. Neste caso, é neurológica.

  3. Não insistas em querer que concordem com tudo o que dizes. Aliás, é até desejável que não o façam. Uma das características mais interessantes da adolescência é a procura de significados próprios, a necessidade de contestar, o espírito pouco conformista… São estes movimentos que lhes permitirão construir a sua própria identidade e definir-se enquanto pessoas.

  4. Conversa muito, ou pelo menos, mostra que estás por perto e que podes ouvir, sem pré-julgamentos (mesmo que a vontade de dizer meia dúzia de coisas te roa por dentro). Isto não quer dizer que não dês a tua opinião e que não te faças ouvir, mas fará sentir que estás disponível e que contigo poderão contar, mesmo que as coisas corram mal. Incondicionalmente.

  5. Se já o eras, mantém-te beijoqueira/o (mas com discrição e sentido de oportunidade). Há sítios proibidos como o portão da escola ou os jantares de amigos mas, mesmo que o contestem, não há nada que lhes saiba tão bem como um abraço ou um miminho no momento certo. Tenhamos nós 5, 15 ou 50 anos.

  6. Janta com os teus filhos. Vários estudos demonstram que as refeições em família funcionam como um ritual protetor, relativamente à adopção de comportamentos de risco na adolescência.

  7. Participa em atividades comunitárias. Vai ao teatro, a concertos, exposições… E leva-os contigo. Todas as experiências culturais e artísticas a que possam ter acesso na infância e na adolescência, contribuirão para o autoconhecimento e para o seu desenvolvimento pessoal e social.

  8. Incentiva-os sempre a avançar para um desporto. Existe uma associação muito positiva entre a prática desportiva e o desempenho escolar, sendo a primeira uma excelente forma de libertação das tensões acumuladas e de estimulação da atenção, da reflexividade… Para além disso, a maioria dos desportos não se compadece com estilos de vida pouco saudáveis, o que só por si, é um fator extremamente positivo.

  9. Não queiras ser amiga/o dos teus filhos (leia-se: “não queiras substituir os amigos dos teus filhos”). Os pais e mães demasiado cool e intrusivos, deixam os adolescentes confusos. É fundamental que cada um se assuma no seu papel e não “misture as águas”. A referência de um pai ou de uma mãe é fundamental como modelo de responsabilidade, apoio e sabedoria para lidar com a realidade. Para além disso, existirão sempre coisas que se contam aos amigos e não aos pais. E ainda bem.

  10. E por último, mas não menos importante, CUIDA DE TI. Tu és, e serás sempre, o principal modelo dos teus filhos. É contigo que aprenderão a amar a vida, a relacionar-se com outros, a querer o melhor para si, a não desistir… Se fores feliz, ensinarás a sê-lo também e a não abdicar disso.

E chegados ao fim, são 10.

Que não sejam mandamentos, até porque não acredito em relações imaculadas e perfeitas. Acredito sim, que as relações crescem nas suas imperfeições, desde que tenhamos a coragem de as reconhecer e aceitar em nós, mantendo assim viva a certeza, de que todos os dias são dias a estrear e por isso, dias bons para aprender.

Aprender a ser pais de coração cheio, para aqueles que serão, sempre, a melhor parte de nós.

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Quando a cenoura é a perfeição.

A Sofia tem notas excelentes. Está, desde sempre, no quadro de honra da escola e todos a têm como modelo. Descansa professores, é chamada a ajudar os outros, a dar a resposta mais acertada, a ver os seus testes usados como modelo de correção. Perfeito.

A Sofia não é motivo de preocupação. Conhece as melhores técnicas de estudo, abandonou a dança para se dedicar ao horário diário de exercícios e preparação para os testes e só sai de casa quando não aceitam as suas desculpas. Perfeito.

A Sofia respira, mas não vive e falta-lhe o ar sempre que o pior acontece: Errar.

E sempre que erra, a Sofia dá força à certeza de que não vale nada, de que nada em si será, alguma vez, suficiente e que nunca, nunca estará preparada para os desafios que tem de enfrentar. E com isto a Sofia sofre. Mas só por dentro, porque já se cansou de ouvir dizer: “Andas sempre nesse stress mas tens sempre as melhores notas da turma.” Perfeito.

Conheço cada vez mais alunos a sentirem-se assim. Acredito que, enquanto adultos e enquanto sociedade, temos muita responsabilidade nisto, na forma como os ensinamos a crescer e naquilo que lhes vamos exigindo ao longo do seu percurso escolar, tornando incrivelmente redutora e limitada a noção daquilo que é ser-se um bom aluno. O sistema em que que crescem é afinal um sistema que lhes grita constantemente: “Tu és aquilo que produzes!”

O perfecionismo manifesta-se de muitas formas que podem tornar-se um verdadeiro inferno para quem com ele se habitua a viver: pode ser a dificuldade, o adiamento ou a recusa em iniciar uma tarefa para a qual não se tenha resposta 100% segura, pode ser a insatisfação permanente face ao resultado alcançado, pode ser um ritmo de trabalho mais lento, de forma a não deixar escapar nenhum pormenor, pode ser o enfoque nos bons resultados dos outros e a luta constante para os superar e pode, sobretudo, significar um sofrimento desmedido sempre que a nota final fuja do número definido como meta, ou que um erro “perfeitamente desnecessário” aconteça.

Muitas vezes são alunos vistos pelos outros como altamente irritantes, armados em espertos, marrões e isso não contribui para o estabelecimento de relações sociais capazes de funcionar como verdadeiro escudo de proteção, face às vulnerabilidades sentidas.

Os alunos perfecionistas são, na maior parte das vezes, alunos preocupados, ansiosos, com baixa auto-estima e estratégias de coping pouco eficazes.

Saber disto, ajuda-nos a ser capazes de compreender e ajudar os nossos filhos e alunos, de forma a que se tornem progressivamente mais confiantes face aos sucessos e mais tranquilos perante os insucessos:

Aceitar o que estão a sentir e ser paciente.

É difícil ver os nossos filhos fazer uma tempestade num copo de água por causa de um resultado num teste ou de um engano num trabalho, assistir à sua insatisfação permanente e à constante busca da perfeição. É por isso fácil, deixar sair as palavras: “Que disparate. Isso lá vale a pena!”. Garanto que estão cansados de o ouvir. Seguramente sentirão que ainda são mais esquisitos do que pensavam, porque de facto ninguém os entende.

Nenhuma criança ou jovem escolhe ser prisioneiro do medo de falhar e da ansiedade de não cumprir a expectativa de si próprio. Todas as crianças e jovens, se pudessem, libertar-se-iam num abrir e fechar de olhos.

Um simples: “Eu sei que isto é difícil para ti e é por isso que vamos resolvê-lo juntos…” é suficiente para fazer sentir que compreendemos, que aceitamos e que estamos disponíveis para pensar o problema e encontrar soluções. Demore o tempo que demorar. E assim, mediante reflexão conjunta e questionamento das crenças pessoais, se torna possível reconstruir a forma como é pensado o (in)sucesso.

Acarinhar o erro como parte do processo.

Passamos a infância a estimular as crianças a serem vencedoras e o mais eficazes possíveis nas tarefas a que se dediquem. Valorizamos o pintar dentro do risco e dizemos que está mal quando a couve é pintada de azul. Aplaudimos, sempre que a atividade é concluída dentro dos padrões que nós próprios criámos, mas olhamos pouco para o esforço que é despendido pelo caminho.

Errar desenvolve competências tão importantes como a paciência, a tolerância e a persistência e isso é tão mais rico do que tudo o que se possa assemelhar à perfeição. Partilhar com os nossos filhos aquelas que são as nossas dificuldades e os erros que cometemos (bem como a aprendizagem que deles advém), torna-nos mais humanos e ajuda-os a perceber que no fim, o que verdadeiramente importa é orgulharmo-nos do percurso feito e saber que temos em nós o que é preciso para continuar a tentar.

Valorizar o esforço, muito mais do que o resultado.

Lembro-me sempre da história de uma aluna que, quando mostrava ao pai o 95% que tinha tido no teste, levava com a seguinte resposta: “Boa. Mas mais importante que o resultado no teste, é que tenhas dado o teu melhor.” E mesmo que esta não fosse a resposta mais desejada, para quem só queria ter a família inteira em ovação, era uma resposta que servia aos 95%, assim como serviria aos 59%, cabendo nela a ideia que não é a nota num teste que define o aluno, mas sim o esforço, a dedicação e a capacidade de arriscar, que seja capaz de imprimir a cada desafio do seu caminho académico.

E aqui o nosso papel torna-se ainda mais importante, sobretudo porque desde o momento em que os nossos filhos entram na escola e ao longo de todo o seu crescimento, tentarão vender-lhes a ideia de que o seu mérito enquanto pessoas dependerá, em primeira instância, dos prémios, das menções honrosas, dos certificados, dos louvores que consigam arrecadar, transformando a fantástica aventura de aprender numa corrida desenfreada em direção ao pódio.

Estarmos atentos, enquanto pais, a cada conquista feita no atingir de um determinado objetivo ajuda a redirecionar-lhes o olhar e a torná-las parte fundamental da aprendizagem: “Adoro ver-te entusiasmado a ultrapassar os problemas.” ou “Reparei que arriscaste em dar a resposta, mesmo não tendo a certeza. Que bom!”, constituem palavras de alento que contribuirão também para que entendam o valor do esforço e da persistência, mais do que o resultado que dele advenha.

Viver na senda da perfeição é difícil. Porque nos atrasa, porque limita a capacidade de resposta ao imprevisto, porque nos angustia, porque nos faz sentir incapazes, porque nos incita à comparação com o outro, porque nos cristaliza o olhar no resultado final e com isso nos faz perder tanto do que pelo meio acontece.

Viver na senda da perfeição será, muitas vezes, um caminho infeliz, simplesmente porque a perfeição não existe.

E é por isso tão vital ensinar a amar os desafios, a aceitar os erros e a procurar na cenoura, o valor do esforço e o crescimento da aprendizagem constante.

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A carta que agora me apetece.

 

Meu querido Pai Natal,

Hoje sou eu que te escrevo. Talvez já o faça tarde, mas sinto que preciso de apaziguar as dúvidas que me assaltam em relação aos métodos que usas, para educar as crianças que por esta altura, sonham contigo todos os dias. E porque eu sei que com esse teu ar bonacheirão, só podes mesmo ser boa pessoa, aqui te proponho algumas reflexões. Sem censura.

A carta (vulgo lista). Eu entendo que a Lapónia seja longe e que por isso os manuscritos enviados pelo correio sejam até uma boa alternativa. Mas sabes Pai Natal, as crianças quando ensinadas sobre a importância e a magia desta carta, depositam nela tudo o que têm, tudo o que desejam ter e até tudo o que gostariam que fosse diferente. Às vezes até pedem que o pai ou a mãe, que já cá não estão, voltem, imagina tu. E cá entre nós Pai Natal, há coisas que tu, definitivamente, não podes fazer…

As diferenças no tamanho do saco. Pai Natal, já pensaste que se calhar seria boa ideia encomendar os sacos que deixas em cada chaminé (ou exaustor), a uma qualquer empresa têxtil que os fizesse a todos iguais, bem mais pequenos de preferência? Todos sabemos que começaste com sapatos e meias e que as exigências da tarefa te obrigaram a mudar, mas a continuar assim, qualquer dia, conduzes um camião TIR. Não há rena que aguente puxar um trenó tão pesado e, sobretudo, não há criança que compreenda o valor de um presente, quando recebe 30 de uma só vez;

A seleção dos destinatários. Eu sei que o mundo tem muitas crianças, que tu tens imenso trabalho e que por isso, precisas de justificar porque é que umas serão merecedoras dos teus presentes e outras não. Mas fazer isso com base no critério “bom” ou “mau”, parece-me a mim um bocadinho injusto. Sobretudo quando se fala de crianças. Todas as crianças são boas crianças, todas as crianças se portam bem (mesmo quando fazem birras) e todas as crianças são capazes de pedir, com toda a força que têm, os presentes com que sonharam ao longo do ano. E ainda assim, sabemos nós, nem todas as crianças têm o privilégio de os receber;

O desafio dos pais. Amigo “Barbuchas”, é ponto assente que nós somos os teus principais aliados nesta missão, às vezes ardilosa, de fazer crianças felizes, mas custa-me pensar que para isso temos de lhes mentir. Sobretudo nós, que desde que eles aprendem a falar, lhes dizemos que mentir é feio. Muito. Então ando eu a afiançar que o “homem do saco” não existe para castigar os maus meninos e depois digo-lhes que há um senhor vestido de vermelho que atravessa os céus a uma velocidade estonteante, para premiar os bons? Huummm, não sei se isto será um bom princípio…

Meu querido Pai Natal, findo este desabafo sei que outras coisas haveria para dizer mas parece-me que o principal é que se revejam alguns procedimentos, de forma a impedir que a falta de atenção ao outro e o consumo desenfreado e pouco consciente, nos roube aquele que é o verdadeiro sentido de estarmos juntos, nesta que é a melhor missão do mundo.

E sabes que mais, Pai Natal?

Esta carta que hoje te escrevo traz-me a clareza de perceber que afinal, sou eu que te devo um pedido de desculpas. Porque tu és, apenas e só, aquilo que nós fizemos de ti.

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O mérito, o valor e a excelência.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.

Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito, as flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco, a toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava. 

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada e os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes e por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

“Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.

“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.

“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.

Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.

“Ahãã…” avançou corajosamente alguém: “Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…”

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e juntos, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

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O teu filho é vítima de bullying? O que podes fazer para ajudar.

Estava no 3º ano do primeiro ciclo. Devia ter uns 8 ou 9 anos. Era a primeira vez naquela escola. Aproximei-me do grupo de rapazes e raparigas que se tinha juntado na lateral do pavilhão onde aconteciam as aulas. Queria fazer amigos. Assim que perceberam que me aproximava, apontaram o dedo para as calças de xadrez que trazia vestidas e, às gargalhadas, gritaram: “Sai daqui oh calças de palhaço!” Nunca mais me esqueci disto. Lembro-me do sítio, lembro-me das caras, do gozo e do som alto do riso conjunto. Lembro-me da vergonha, da cara a arder e da vontade incontrolável de chorar, enquanto fugia dali, aos tropeções. Lembro-me, também, de odiar as malditas calças de xadrez que me tinham vestido naquela manhã. E sei hoje, que se aquela manhã se tivesse repetido e se tivesse colado a mim, eu teria aprendido também a odiar a pele por baixo das calças, o corpo, a voz, a vontade de me aproximar dos outros e de querer torná-los meus. Teria, por fim, aprendido a odiar quem sou.

As sensações que aqui recordo deste dia, que felizmente não se repetiu, tornam-me mais próxima, outra vez, de quem sofre com isto na escola todos os dias. Os miúdos que observo, as famílias com quem trabalho e claro, a experiência da maternidade, fazem-me compreender como nunca, o medo e a dor de perceber que um filho ou filha carrega este peso dentro, que tanto altera a noção de quem somos e a forma como nos amamos ou nos sentimos dignos de amor.

Bullying é a expressão usada para definir os comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos (ou com potencial para a repetição), entre crianças e jovens em idade escolar. Manifesta-se através de um desequilíbrio de poder entre quem agride e entre quem é agredido e inclui comportamentos como insultar, gozar, espalhar boatos, excluir, agredir fisicamente, entre outros.

Contrariamente ao que tantas vezes ouço dizer, o bullying não está na moda.

Está na moda falar-se sobre ele e ainda bem.  E é a falar sobre o assunto que conseguimos estar mais atentos, mais despertos, que podemos ser mais empáticos, mais solidários, mais interventivos, nesta responsabilidade conjunta, de tornar seguros e mais felizes, os espaços escolares.

E se à escola cabe a tarefa de envolver todos os elementos da comunidade escolar: professores, educadores, assistentes operacionais, alunos, técnicos psicossociais, enfermeiros de saúde escolar… na criação de estratégias promotoras da saúde e preventivas de todas as situações de violência escolar, aos pais cabe a dura tarefa de apanhar os cacos e de ajudar a reparar a auto-estima, transmitindo a esperança e a certeza de que a vida não tem de ser assim.

Importa por isso e ainda que nunca tenhamos enfrentado este desafio, refletir sobre o assunto e definir, de uma forma prática, como é que podemos ajudar…

  • Mantendo a calma.

A forma como reagimos à situação é determinante na forma como os nossos filhos a encaram. Demasiado nervosismo, ansiedade ou indignação, podem afastá-los e impedir que voltem a falar sobre assunto, o que pode ser motivado pela culpa que sentem por serem fonte de preocupação. É importante também escolher o momento para abordar o assunto, de forma a que estejam, o mais possível, tranquilos e num espaço em que se sintam seguros. Evitar os momentos logo à chegada da escola, deixando-os recuperar e descansar na sensação de porto seguro que somos, contribui para que se sintam mais tranquilos e disponíveis para conversar.

  • Sendo empática/o.

De todas as formas de apoiar uma criança ou adolescente que é agredido, a mais importante é aquela que lhe permita sentir que o compreendes e que o teu apoio será sempre incondicional. Resiste por isso à tentação de fazer todas as perguntas de forma imediata. Acolhe e deixa que partilhem todas as respostas que lhe vêm à mente. Só assim entenderás o que verdadeiramente por lá se passa.

  • Procurando obter mais informação em relação à situação específica.

Depois de aceitares e ouvires o que lhes vai na alma, existem informações que são importantes e que, ao ritmo deles e com a calma necessária, podem ser fundamentais na definição da melhor abordagem à situação. Se possível, procura compreender o contexto em que a violência aconteceu: com quem estavam, onde estavam, o que aconteceu antes, quem assistiu, o que aconteceu depois. É fundamental também estimular a partilha da forma como se sentiram, o que foi mais difícil e se houve alguma coisa que contribuísse para que se sentissem melhor. Perguntas como: “Como te sentiste?” ou “Sentiste-te triste, humilhado, zangado…?”, ao invés de “Sentiste-te triste?”, dá-lhes mais espaço a que se identifiquem com as diferentes emoções possíveis.

  • Trabalhando as competências necessárias para que aprendam a lidar com desafios semelhantes.

Criar situações fictícias, imaginando em conjunto respostas possíveis e antecipando consequências para cada uma delas. É fundamental fazer sentir que o bullying é uma situação difícil de lidar, mas que não é impossível fazê-lo e haverá sempre alternativas para lidar com a situação. Trabalhar competências ligadas à auto-confiança, à comunicação, à assertividade, à diferenciação emocional, à resolução de problemas, permitirá que se sintam mais confortáveis e confiantes nas relações sociais. Ajudar a obter mais informação, demonstrando que é uma situação que pode acontecer a qualquer um e que é preciso compreender e apoiar vítimas, agressores e espectadores, numa atitude preventiva da reicindência, contribui para que não se sintam sozinhos e desenvolve uma maior consciência social e empowerment na resolução dos conflitos. Incentivar a que se envolvam em atividades fora da escola, permite que treinem estas competências e que procurem suporte social no estabelecimento de outras relações de amizade e de grupo.

  • Estimulando ao desenvolvimento de uma perspectiva positiva do espaço escolar.

Depois de sabermos que isto se passa ou passou com o nosso filho ou filha na escola, podemos ter mais dificuldade em sair do estado de alerta e com isso centrar todos os temas de conversa nesta questão. É fundamental trazer à tona os sentimentos positivos, as pessoas de quem se gosta, as aprendizagens e as conquistas proporcionadas pelo dia a dia na escola, de forma a que sintam que há muito mais por que lutar e acreditar, do que a situação de mal estar e agressão.

  • Sendo parceira/o da escola na resolução do problema.

Marcar uma reunião com a direção ou o professor responsável pela turma, tornar comuns as preocupações que tens e, de acordo com o conhecimento que o professor tenha em relação ao funcionamento do grupo e às características dos miúdos envolvidos, definir em conjunto a melhor estratégia para atuar. É importante que o teu filho/a saiba que esta reunião se realizará e que compreenda a sua importância na resolução do problema. Sempre que sintas que as medidas adoptadas e apoio familiar e escolar não estão a ser suficientes para resolver a situação ou sempre que notes uma ansiedade crescente ou comportamentos de maior isolamento e tristeza, procura apoio e aconselhamento junto dos serviços de psicologia da escola, ou externamente.

O bullying acontece todos os dias, em todas as escolas, com os nossos filhos ou com os filhos dos outros. Passa-se na sala de aula, nos balneários, na cantina, no recreio. E alimenta-se do nosso silêncio, das vezes em que fazemos de conta ou daquelas em que achamos que o assunto não é connosco.

Será sempre, tal como é nossa, a responsabilidade de impedir que alguma criança ou jovem, um dia, se sinta assim:

“Parece que passam sem ver-me os instantes
mas passam sem que o seu passo seja breve.”

Álvaro de Campos

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“Isso não é para brincar!!!”

Começo assim…

O Manel devia ter uns 2 anos. Estávamos numa feira de artesanato e parámos numa tenda cheia de caixas e caixinhas carregadas de missangas, pedras semi preciosas, estatuetas pequeninas de madeira… Ele, encantado com as cores e o brilho à nossa volta queria tocar em tudo e enterrava as mãos sapudas no meio das caixas de contas e pedrinhas. Eu, em pânico, dizia: “Não mexas querido. Só podemos ver.” Andei nesta aflição, em modo helicóptero, durante uns minutos, até que ouvi alguém dizer, do canto da tenda improvisada: “Menina, as crianças conhecem as coisas, tocando-lhes.” Era senegalesa e trazia, na suavidade da voz, a soberania de não esquecer de que substância de faz uma criança.

E a substância de uma criança mora na forma sábia como lê o mundo, com honestidade, curiosidade, coragem e bondade sem fim. Faz-se, também, da procura constante daquilo que verdadeiramente lhe alimenta a alma e que está, tantas vezes, na sua aptidão para brincar. E é a brincar que tenta, incansavelmente e com a seriedade que o assunto merece, ensinar-nos a nós, adultos, a viver outra vez.

O problema está naquilo que fazemos com os sinais que as crianças nos oferecem, nas vezes em que fingimos não ouvir ou ignoramos o apelo e, sobretudo, nas vezes em que esquecemos o cerne da questão e deixamos que nos saia da boca a frase fácil: “Isso não é para brincar.”

E eu, que provavelmente ouvi esta frase a vida inteira, sem lhe dar a devida atenção, tenho agora o privilégio de aprender com quem faz do brincar motivo de vida e com isso percebo, que a ouço vezes demais.

E de todas essas vezes, em que a mastigo e regurgito enjoada, acendo em mim a certeza de que há coisas que não deviam mesmo ser ditas, de tão disparatadas que são, nas situações como as que se seguem…

A criança explora as caixas de brinquedos na prateleira do supermercado. Nós: “Isso não é para mexer (brincar)!

A criança equilibra-se num muro do jardim. Nós: “Isso não é para andar aí em cima (brincar)!”

A criança desmonta a porta da casinha de brincar. Nós: “Isso não é para fazer (brincar)!”

A criança empilha um monte de livros na biblioteca. Nós: “Isso não é para desarrumar (brincar)!”

A criança sobe a uma árvore. Nós: “Isso não é para trepar (brincar)!

A criança desce o corrimão das escadas. Nós: “Isto não é para escorregar (brincar)!”

A criança corre no corredor livre da escola. Nós: “Aqui não é para correr (brincar)!”

A criança mexe na terra, à procura de bichos de conta. Nós: “Isso não é para andar a meter as mãos (brincar)!

Caramba!

Parece-me compreensível que se diga a uma criança que não se brinca com facas afiadas ou que não se brinca com fogo (e ainda assim o mundo está cheio de malabaristas e de faquires extraordinários), mas é só disto que, honestamente, me lembro.

Tudo o resto é para ser mexido, transformado, explorado, trepado, conhecido, escorregado, descoberto, partido, desmontado, reinventado… E é bom que assim seja, é assim que se cresce e é aí que se compreende, afinal, onde reside a magia de brincar: escancarar a janela do conhecimento, puxar o lustro ao pensamento divergente e estimular a criatividade, experimentando-a.

Quando as crianças brincam, descobrem o mundo, dão-lhe sentido e expressam a forma como o sentem e como se sentem nele. É, através da atividade lúdica, que se gravam na memória as aprendizagens mais importantes, aquelas que se revelarão fundamentais pela vida fora e que facilitarão, no futuro, a relação com o meio, a criação de vínculos afetivos, a interação social, a cooperação e a resolução de problemas, materializando quem somos e experimentando as fronteiras do possível e a liberdade da imaginação.

É por isso urgente, entender de uma vez por todas, que brincar é um assunto sério, trazendo esta consciência para dentro de casa, para os cafés, para os bairros, para os jardins, para as escolas, sobretudo para as escolas…

Porque se houve em tempos quem, de forma tão sagaz, nos tirasse a pinta assim:

“Os adultos adoram números. Sempre que falamos aos adultos de um amigo novo, nunca perguntam o mais importante. Nunca dizem: “Como soa a sua voz? De que jogos gosta? Coleciona borboletas?” Em vez disso perguntam: “Quantos anos tem? Quantos irmãos? Quanto pesa? Quanto ganha o pai dele?” E só então parece que o conhecem. Se disserem aos adultos “Vi uma casa muito bonita de tijolos cor de rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado…”, eles não conseguem imaginar a casa. Mas se lhes dissermos “Vi uma casa de 200 mil euros!” Então eles exclamam: “Tão bonita!” *

… continuará felizmente a existir, uma mão pequenina e esperta, que nos corrige o olhar, nos aponta para o sítio certo e nos garante, num sorriso feliz, que nunca é tarde para voltar a ver os gerânios nas janelas.
São tão mais bonitos do que os números…

 

*excerto retirado de “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry.

P.S – Desafio-te a ver este pequeno vídeo sem ficar com um sorriso no rosto (e uma pontinha de inveja), por tudo o que de bom estas crianças podem experimentar. E eu acredito que era assim, que lhes devíamos mostrar o mundo…

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Estes dias, que se querem doces…

Eles estão na escola. Nós estamos a trabalhar.

Provavelmente não é a vida que sonhámos, mas é a vida que temos.

Aquela que vai agora começar a correr mais depressa e que nas manhãs de segunda, nos vai deixar a suspirar pelos sábados seguintes. E sim, esta coisa de voltarmos a ter de cumprir horários e não podermos continuar ao sabor do sol e do mar, é chata. Mas faz-se.

A parte mais difícil e a que tantas vezes me atordoa, é a noção clara de que é nesta velocidade dos dias que eles crescem, que mudam, que se tornam gente e que com isso ganham tantas outras coisas, verdadeiramente incríveis, a cada instante.

E enquanto tudo isto se passa, nós estamos, demasiadas vezes, sem tempo ou sem disponibilidade efetiva, para absorver cada segundo desta transformação quase mágica.

O desafio parece tornar-se maior na proporção do “encolher” dos dias, que se mede pela infindável lista de tarefas a que temos de dar resposta.

É por isso a partir deste momento, que devemos estar ainda mais atentos e disponíveis (tornando consciente essa necessidade), para aquilo que é realmente importante na relação com os nossos filhos, que será também o que constituirá porto seguro, nos momentos que se façam mais difíceis.

Depois do afastamento físico do dia, uma boa forma de restabelecer a ligação é em cada chegada a casa, através de um abraço, de uma conversa, da partilha dos desafios vividos: o que foi mais positivo, o que nos fez sentir tristes, o que nos surpreendeu, enfim… tudo o que em nós mudou desde que acordámos de manhã.

Na comunicação com os nossos filhos, as perguntas mais fechadas ajudam ao retorno de respostas específicas, estimulando a conversa e facilitando a construção de pontes de comunicação e afetividade.

E atenção às armadilhas a que cedemos facilmente e que acabam por tomar conta de nós: “Ok, deixa-me só tomar um duche, tirar a loiça da máquina, ler os emails… e já conversamos um bocadinho.”

No excuses.

É fundamental dar-lhes tempo (o que temos e o que precisamos de arranjar), de uma forma real e presente e ser também capaz de o fazer por nossa iniciativa, sem que eles tenham de o pedir ou, no caso dos adolescentes, sem que eles aprendam a achar que isso já não é necessário.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em cada regresso a casa…

 

P.S- Escrever este texto trouxe-me também a vontade de partilhar este vídeo. Convido-te a que o vejas, de coração aberto e atento, para não esquecer…