Não esquecer que a história é deles. (3 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.

“Um Bom não é uma boa nota?”

Uma amiga de quem gosto muito e que admiro imenso enquanto mãe, contou-me há uns dias uma história que considero deliciosa, pela forma simples, honesta e tão certeira, com que nos põe no nosso lugar.

A Sara, que está no 2º ano, fez um teste na escola. A professora, no dia de devolver as notas aos alunos, fê-lo em voz alta, para que todos ouvissem as notas de todos (vá-se lá saber porquê, mas isso “são outros quinhentos”…)

A Sara teve um Bom.

Ao chegar a casa, feliz com a conquista, partilhou com a mãe a nota recebida. A reação da mãe, fruto do impulso do momento, foi: “Então e a Mariana, que nota teve?”. Ao que a Sara respondeu prontamente: “Porquê mãe? Um Bom não é uma boa nota?”.

A mãe deu-lhe razão, pediu-lhe desculpa e abraçou-a com força. As duas cresceram por dentro nessa noite.

E assim, sem pedir licença e do alto dos seus 7 anos, a Sara deu-nos, à mãe e a mim, uma enorme lição. Uma lição sobre a vida e sobre tudo aquilo que é efetivamente importante preservar: a capacidade de acarinharmos quem somos e de celebrar os objetivos que alcançamos, sem viver na sombra de ninguém.

Não tenho nada a acrescentar a esta história. Acho que ela se basta a si própria e não quero que palavras a mais, desviem a atenção das coisas grandes que ela ensina.

Eu, sou grata, por tudo o que a Sara me trouxe, quando tão corajosamente lutou, pelo melhor de si.

P.S – Hei-de voltar a este assunto…