A saga do material escolar: vale tudo, menos tirar olhos.

Com a entrada do Manel no ensino pré-escolar público, abriu-se-me a caixa de Pandora. Sim, porque nos últimos anos toda eu era inocência e alegria sem fim em Setembro, longe de saber a “tourada” por que passavam outros pais, com a preparação do ano letivo.

Pois bem meus amigos, já cá estou.

Tudo começou com a reunião de pais na qual foi distribuída uma lista (assim para o compridita) de material a adquirir. Aqui, aplaudo a atitude da educadora, que salientou a importância de reutilizar materiais que tivéssemos em casa e de não gastar dinheiro desnecessariamente, dando-nos também total liberdade para optar por outras marcas que não as sugeridas. Até aqui tudo bem. Identifiquei-me com a abordagem, compreendi a forma como o material seria gerido e lá fui, cheia de vontade, tratar do assunto.

Achei eu, ingénua outra vez, que podia cumprir a tarefa a qualquer hora do dia e assim, às 18:30, entrei com o pé direito numa grande superfície comercial (ou terá sido com o esquerdo? A avaliar pelo que se seguiu, é bem provável…).

Fui imediatamente engolida por um mar de gente, de braços no ar, de cócoras, de bicos de pé, à corrida… tudo o que permitisse agarrar o último exemplar do tão desejado objeto. No meio disto, as crianças, os adolescentes, os adultos saudosistas… todos, em estado de puro êxtase contemplativo, com as cores, os tamanhos, os desenhos, os cheiros… Tudo o que perniciosamente, pudesse desviar os pais do seu propósito: agarrar no dito e fugir dali!

Perante o cenário quase dantesco, foquei-me no objetivo de ir direta ao assunto e tracei um mapa mental para não me perder para sempre. Foi difícil, porque ainda por cima a coisa está organizada de forma sadicamente labiríntica, mas lá consegui identificar alguns dos materiais da lista e sair.

No dia seguinte, levantei-me confiante, fiz uns alongamentos e pensei: “Hoje já não me apanham. Vou às três da tarde, que é uma hora que ninguém desconfia.”

Wrong again.

Mas estas pessoas não trabalham? Mas será que nunca ninguém pensou fazer um manual de sobrevivência para isto? Quais os truques, as dicas, os segredos, para nos safarmos ilesos?

Depois da odisseia, que felizmente se arrumou em duas experiências sociologicamente enriquecedoras, agradeci aos céus o marido artista, que conseguiu arranjar metade das coisas no meio dos seus próprios materiais e pensei: Caramba, Setembro era o meu mês preferido, bucólico e imaculado, e agora carregará para sempre o trauma desta estreia.

Posto isto, pais com filhos em idade escolar: o meu coração está, irremediavelmente, convosco e eu proponho que façamos uns círculos xamânicos antes e depois da coisa, para que a malta se recomponha e sobreviva às sequelas seguintes.

E olhem que serão pelo menos 12. Já pensaram nisso?

P.S – Assumo aqui o compromisso de criar um manual de boas práticas sobre este assunto, mas preciso da vossa ajuda. Dicas, experiências, truques macacos… tudo é válido, pela sanidade mental de todos. Meus senhores/as, isto sim é serviço público… Venham daí esses contributos, ser-me-ão preciosos para os anos que aí vêm. Muito grata. 🙂

Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si o poder mágico de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

E porque a distância é a melhor conselheira, aproveito os dias que antecedem o ano letivo para recuperar um tema que me é tão querido: O bom do trabalho de casa.

Trago-o também porque foi levantado de chofre pelo meu filho, ontem no regresso da praia, com da seguinte pergunta: “Mamã, trabalhar é a melhor coisa do mundo?”

A resposta estava-me na ponta da língua: “Trabalhar naquilo que gostamos é uma das melhores coisas do mundo, meu amor.”

Resposta aceite.

Next round, porque a cabeça aos cinco anos fervilha e não arrefece: “Fazer trabalhos da escola é a coisa mais importante da vida? O M. diz que sim…”

A resposta foi outra vez imediata e fácil: “Não!” Mas desta vez foi seguida do peso da responsabilidade parental, que me fez morder a língua para não iniciar um discurso anti-trabalhos-de-casa e continuei… “Há trabalhos de casa que podem ser importantes, se nos ajudarem a saber mais e a descobrir coisas novas.” (Blarghhh, não era bem isto, mas foi o melhor que consegui…)

Resposta aceite.

Aproveitei a satisfação temporária para não me alongar no discurso. Deixo-o para depois, aquando da entrada no 1º ciclo, na esperança de que tenhamos sorte porque há cada vez mais professores e pais a defender que:

As crianças passam demasiado tempo na escola, para terem ainda de trazer o trabalho da escola para dentro de casa. Já chega de contas, já chega de letras impostas, já chega de problemas por resolver. Não quer isto dizer que não acompanhemos o seu crescimento enquanto alunos, que não falemos sobre as aprendizagens realizadas e até que não arranjemos forma de lhes mostrar a sua utilidade nas coisas do dia-a-dia, consolidando as aquisições feitas. Quer isto dizer, que há tantas outras maneiras interessantes de o fazer que não envolvem fichas, cadernos, cadeiras e mesas.

O regresso a casa deve ser o regresso ao tempo em família, ao tempo para não fazer nada, ao tempo para respirar, ao tempo para jantares e conversas demoradas e histórias bonitas para dormir. Ora, se quando chegamos a casa, com o sol a pôr-se, ainda tivermos que nos sentar à mesa e olhar com os olhos pesados de cansaço para as fichas de um livro, vamos ter de deixar todas as outras coisas para depois… E o depois tarda em chegar, porque no dia seguinte começa tudo outra vez.

Não há nenhuma associação entre a realização de trabalhos de casa e o sucesso escolar. São vários os estudos que deitam por terra a ideia de que os alunos que fazem muitos trabalhos de casa, são melhores alunos. Aliás, de acordo com a neurociência, o que as crianças aprendem durante o dia de escola, só é metabolizado nessa noite, o que, traduzido em miúdos, significa que “mastigar” a matéria dada no próprio dia não serve absolutamente para nada. Este argumento seria suficiente para convencer os mais céticos, não?

O melhor motor para a aprendizagem é a curiosidade e as crianças sabem como ninguém pô-lo a funcionar. É através da curiosidade sobre o que acontece à sua volta, que exploram e aprendem, motivando-se a si mesmas a saber mais e a descobrir o mundo. Ora se essa curiosidade nasce do lado de dentro, se estivermos constantemente a estimular a criança até ao limite e a cansá-la com excesso de trabalho, não estamos a permitir-lhe o espaço necessário para que se reorganize, para que consolide as aprendizagens feitas, alimentando a sede das que virão. Depois de um dia intenso de escola e de estímulos, o tempo para “não fazer nada” ou para inventar o que fazer, deve ser entendido como um tempo sagrado, pela importância que assume no bem estar cognitivo e emocional infantil.

É preciso brincar. Muito e todos os dias. E para brincar é preciso tempo, tempo esse que num dia normal de uma criança se circunscreve aos 20 minutos de intervalo da manhã e às duas horas entre o regresso a casa e o jantar, que muitas vezes ainda têm de ser divididas entre outras tarefas. São tantas as investigações que provam que o hábito de brincar ajuda a desenvolver a alfabetização, favorece a leitura, a familiaridade com os números, promove a criatividade, potencia a criação de laços afetivos e o treino de competências pessoais e sociais, que é difícil entender porque é que a brincadeira é a primeira a saltar do barco, sempre que achamos que a criança precisa de melhorar os resultados na escola.

E depois de tudo isto e porque falamos de coisas sérias, continuemos a pensar sobre o assunto para que, em conjunto (pais, professores, educadores…), não tenhamos medo da mudança e mantenhamos a coragem de questionar o hábito e contrariar as ideias feitas, aprendendo sempre mais sobre aquilo que fazemos e sobre aquilo que podemos fazer melhor.

Tudo, pela causa mais importante do mundo: ajudar miúdos a crescer, mantendo acesa a chama da paixão por aprender, que naturalmente trazem dentro.

P.S – Bom ano letivo. Com poucos trabalhos de casa. Ou muitos, como este…

Saber que a família importa. (2 de 5)

A partir do momento em que nos tornamos mães e pais, passamos a viver com uns olhinhos cravados em nós, atentos a tudo o que dizemos e, sobretudo, atentos a tudo o que fazemos.

Para os filhos, os pais constituem o exemplo mais próximo e mais significativo daquilo que é ser-se adulto, pelo que a grande maioria das suas atitudes e comportamentos, se desenham a partir daquilo que aprenderam connosco.

Tal como acontece a outros níveis, os pais afetam as escolhas vocacionais dos filhos, quer através daquilo que expressam verbalmente e das ideias que têm em relação à escola e ao mundo do trabalho quer através do desempenho dos seus diferentes papéis de vida – enquanto pais, enquanto companheiros, enquanto trabalhadores…

Neste sentido, a forma como nos posicionamos em cada um desses papéis, bem como os valores que guiam os nossos comportamentos e atitudes acabam por constituir, por isso só, uma poderosa fonte de inspiração – se eu cresço num ambiente em que o esforço e o empenho são valorizados e realizados, é isso que, naturalmente, procurarei no meu percurso…

Ainda que com a entrada na adolescência tenhamos a sensação de passar a representar uma espécie de papel secundário, neste que é o romance da nossa vida, a investigação tem demonstrado que, paralelamente à importância dos amigos nesta fase de vida, os adolescentes continuam a reconhecer a família como a fonte mais fidedigna de informação. E isto faz com que esperem dos pais compreensão e apoio no debater das suas dúvidas, bem como encorajamento no sentido da exploração e da construção de projetos de vida.

Envolver-se de forma intencional e refletida no percurso escolar e profissional dos nossos filhos, implica construir pontes de diálogo e de comunicação, que se revelarão insubstituíveis nos momentos de maior desafio. Fazê-lo com consciência, afetividade e empatia, traz-lhes a força que precisam para fazer todas as escolhas. De cabeça erguida e coração ao alto.

Na prática: Participar nas reuniões e iniciativas da escola, sempre e até ao fim do seu percurso escolar (a participação da família na vida escolar dos filhos tende a diminuir à medida que progridem no sistema de ensino, mas não é por estarem mais crescidos que deixa de ser importante…). Falar sobre as profissões da família e os percursos feitos, favorece o sentido de pertença (tão protetor para os jovens), bem como o reconhecimento de características comuns, contribuindo também para a obtenção de informações práticas sobre as diferentes possibilidades. Favorecer os momentos de exploração de informação sobre o mundo do trabalho, através de conversas informais com amigos e aproveitar as situações do dia-a-dia para pôr em comum ideias e projetos individuais e familiares, são atividades que promovem a reflexão conjunta, reforçando o impacto positivo que a família pode desempenhar nos processos de exploração e de tomada de decisão vocacional. 

Ansiedade nos testes. A nossa tarefa.

Já por aqui falámos no impacto que a ansiedade pode ter nos jovens, transformando os momentos de avaliação numa verdadeira dor de cabeça, capaz de os impedir de enfrentar de forma mais positiva e saudável os desafios com que lidam em contexto escolar.

E tal como existem estratégias que lhes podem facilitar a vida, ajudando-os a lidar de forma mais adaptativa com o stress, também nós, como em tantas outras situações, podemos ter um papel fundamental nos momentos que antecedem os testes e nos momentos que a eles se seguem. Vejamos como:

Aprender com eles. Uma óptima estratégia para testar as aprendizagens é deixá-los explicar-nos a matéria aprendida, ou fazer-lhes perguntas e deixar que respondam por palavras suas;

Não insistir demasiado com afirmações como: “É só mais um teste…” ou “Não te preocupes tanto!”. A intenção é boa e até pode ser tranquilizadora para alguns, no entanto, quando eles se preocupam demais, pode fazê-los sentir que não compreendemos o que sentem. Quando assim é, é preferível lembrá-los de outras situações semelhantes pelas quais já passaram e a forma positiva como a ultrapassaram;

Pensar em conjunto em algumas estratégias que possam apoiar no momento do teste e treiná-las: respiração consciente e profunda, pensamentos tranquilizadores e promotores da auto-confiança; leitura atenta dos enunciados, gestão do tempo e das respostas (passando à frente as questões mais difíceis para voltar a elas mais tarde, por exemplo);

Pô-los a dormir. Não, não se trata de os “sedar”, mas sim de garantir que têm uma boa noite de sono. Deitarem-se tarde e estudarem intensivamente na véspera do teste apenas alimenta a ansiedade e contribui para uma maior insegurança, sempre que percebam que há conteúdos que não dominam tão bem. Um banho quente, uma refeição tranquila e um pouco de conversa em família antes de dormir, pode ser uma boa ajuda para que consigam relaxar e ter um sono mais reparador, que deixe o cérebro preparado para dar o seu melhor no dia seguinte;

Encorajar a reflexão sobre o processo: “O que funcionou? O que não funcionou? O que é poderias ter feito de diferente?” Ajudar a pensar sobre a forma como se preparam para o teste e como se organizam na hora H, pode contribuir para que sejam capazes de identificar comportamentos a alterar ou pelo contrário, valorizar outros como estratégias eficazes e portanto, a manter.

E por último, e talvez a ideia mais importante a transmitir-lhes: “Tu não és um resultado num teste ou num exame e o teu valor vai muito mais para além disso.” Terem a certeza de que sabemos disto, contribui para fazer crescer a força que lá dentro empurra para a frente e faz crer, que mesmo que a vida não seja perfeita todos os dias, é em nós que mora o sol capaz de nos guiar por muitas e muitas conquistas.

ansiedade no estudo

A ansiedade face aos testes. O desafio deles.

Este assunto preocupa-me. Mesmo. Porque tenho a clara noção de que a eles os preocupa muito. Porque sei que a ansiedade face aos testes pode transformar o seu percurso escolar num verdadeiro inferno, minar-lhes a autoconfiança e com isso bloquear a capacidade de pensar o sucesso pessoal como a conjugação de múltiplos fatores, que não apenas os relacionados com uma nota num exame.

Cada vez mais me deparo com situações de alunos que têm verdadeiro pavor aos momentos de avaliação, sejam eles testes, seja a apresentação de trabalhos de grupo, sejam exames nacionais. Corre entre eles a ideia de que estes momentos vão decidir o rumo das suas vidas, que falhar uma batalha é perder a luta e que não há margem para negociações, nesta corrida desenfreada pelo melhor resultado.

A ansiedade pode manifestar-se a nível físico, cognitivo e comportamental, com impacto importante na capacidade do adolescente em gerir adequadamente os momentos de maior pressão e desafio. Esta incapacidade pode materializar-se, por exemplo, em comportamentos de evitamento e procrastinação na preparação do teste, bem como em dificuldades em gerir o tempo e em evocar a informação (as conhecidas “brancas”) durante a realização do mesmo. Para além disso e como “um mal nunca vem só”, são frequentes os pensamentos negativos e quase catastróficos: “Vou chumbar” ou “Nunca vou ser capaz de ultrapassar isto”, que em nada contribuem para a autoconfiança.

Reconhecer o impacto da ansiedade no seu bem estar psicológico e, consequentemente, no seu sucesso académico, pode ajudar-nos a nós, pais e professores, a refletir sobre aquelas que poderão ser estratégias importantes no ultrapassar das dificuldades:

A adequada gestão do tempo, evitando o estudo intensivo na véspera dos testes, que apenas contribui para que nos sintamos mais cansados (interferindo com o sono) e ainda mais nervosos;

O recurso a técnicas de estudo, adequadas às diferentes disciplinas e o esclarecimento de dúvidas que possam surgir durante este processo;

A tomada de consciência dos pensamentos automáticos e negativos frequentes nestas situações e a sua substituição por outros, mais positivos. Ex: “Vou dar o meu melhor e vou ficar contente com isso”, em vez de “Isto vai correr mal e eu vou ter negativa”;

A adopção de técnicas como o relaxamento muscular progressivo e a respiração profunda, que podem ajudar a desenvolver uma maior consciência corporal e a acalmar as manifestações físicas da ansiedade, para um nível em que se torne mais fácil de gerir;

A prática de exercício físico e a realização de atividades que proporcionem prazer e ajudem a libertar as tensões diárias. É importante por isso enquadrar estes momentos na agenda semanal;

A reflexão sobre os resultados obtidos, que ajude a integrar o insucesso como parte do processo e como uma oportunidade de aprendizagem e crescimento individual. Ex. Se o teste correu menos bem, é importante perceber se existem comportamentos que devam ser alterados (antes e durante o teste), para que possamos superar as dificuldades na próxima oportunidade.

E finalmente, mas não menos importante: falar sobre o assunto. E aqui o papel dos amigos e da família é, mais uma vez, fundamental. Para que se sintam apoiados e reconhecidos, naqueles que são os seus desafios, num mundo que todos os dias os põe à prova e pode ser, às vezes, entendido como extraordinariamente assustador.

“Um Bom não é uma boa nota?”

Uma amiga de quem gosto muito e que admiro imenso enquanto mãe, contou-me há uns dias uma história que considero deliciosa, pela forma simples, honesta e tão certeira, com que nos põe no nosso lugar.

A Sara, que está no 2º ano, fez um teste na escola. A professora, no dia de devolver as notas aos alunos, fê-lo em voz alta, para que todos ouvissem as notas de todos (vá-se lá saber porquê, mas isso “são outros quinhentos”…)

A Sara teve um Bom.

Ao chegar a casa, feliz com a conquista, partilhou com a mãe a nota recebida. A reação da mãe, fruto do impulso do momento, foi: “Então e a Mariana, que nota teve?”. Ao que a Sara respondeu prontamente: “Porquê mãe? Um Bom não é uma boa nota?”.

A mãe deu-lhe razão, pediu-lhe desculpa e abraçou-a com força. As duas cresceram por dentro nessa noite.

E assim, sem pedir licença e do alto dos seus 7 anos, a Sara deu-nos, à mãe e a mim, uma enorme lição. Uma lição sobre a vida e sobre tudo aquilo que é efetivamente importante preservar: a capacidade de acarinharmos quem somos e de celebrar os objetivos que alcançamos, sem viver na sombra de ninguém.

Não tenho nada a acrescentar a esta história. Acho que ela se basta a si própria e não quero que palavras a mais, desviem a atenção das coisas grandes que ela ensina.

Eu, sou grata, por tudo o que a Sara me trouxe, quando tão corajosamente lutou, pelo melhor de si.

P.S – Hei-de voltar a este assunto…

Dicas para estudar…

Vocês veem-se a braços com a necessidade de melhor organizar o estudo. Nós, queremos ajudar mas às vezes a coisa não é fácil e depressa estamos a despejar conselhos do tipo: “No meu tempo…”

Quando isso acontece, vocês ouvem: “No tempo da Maria Cachucha…” E o resto é barulho de fundo.

Malta jovem, nós sabemos, já por aí andámos… mas, conflitos de geração à parte, bora pensar um pouco sobre isto de estudar?

Partindo da certeza de que quando organizamos o nosso estudo e usamos técnicas que ajudam a aprender, os resultados que obtemos melhoram e os objetivos que definimos não se perdem pelo caminho, aqui ficam algumas ideias que podem ser boas sugestões quando o tempo é de estudo:

  1. Começa a estudar cedo e planeia aquilo que vais estudar durante a semana. Podes usar um calendário em papel ou até recorrer aos calendários do Google. Nele podes anotar tudo o que pretendes fazer em cada dia. Inclui neste registo os tempos de estudo, os tempos de lazer e os tempos dedicados às atividades extracurriculares (e claro, as refeições, a escola e o tempo de dormir). Este calendário deve espelhar as tuas rotinas e deve ser flexível quanto baste: se num dia ficaste até mais tarde na gelataria com os amigos, não é o fim do mundo. Compensas no dia seguinte.

  2. Um espaço de estudo bem iluminado e bem organizado é meio caminho andado para que os momentos que lá passas sejam produtivos. Antes de qualquer sessão de estudo é importante que confirmes se tens à mão tudo o que precisas: canetas, cadernos, dicionários, manuais… Todas as vezes que te levantares quando acabaste de te sentar, vão ser vezes em que a tua concentração se vai quebrar e tu vais ter de começar tudo outra vez.

  3. Evita as distrações. O telemóvel e a televisão não são bons companheiros de estudo, por isso dá uma vista de olhos no facebook e nas mensagens antes de começar a estudar e depois desliga tudo o que é tecnologia tentadora. Chato eu sei, mas muito, muito importante.

  4. Usa marcadores fluorescentes para sublinhar os tópicos e as ideias-chave a destacar e post-it para agrupar a informação mais relevante. Estes pequenos truques ajudam a memorizar a matéria com mais facilidade e rapidez.

  5. Se ouvir música te ajuda a concentrares-te melhor, podes fazê-lo mas mantém o volume baixo e tenta que a playlist que escolhes não seja a que mais te entusiasma. A ideia é evitar que desates a dançar e a cantar durante a sessão de estudo.

  6. Transforma a informação que estás trabalhar e coloca-a em palavras tuas. Pode ser um resumo ou um esquema, ou até “dar uma aula” em voz alta. Estes exercícios obrigam-te a perceber se consegues explicar aquilo que acabaste de estudar.

  7. A alimentação e o sono são muito importantes para manter o nosso cérebro disponível para aprender. Dormir bem e pelo menos 7 horas por noite e comer alimentos como as nozes, as maças, os cereais integrais, os frutos vermelhos, o peixe, os ovos e o chocolate preto, ajuda a melhorar a concentração e a estimular as nossas capacidades.

  8. Orgulha-te das tuas conquistas e dos teus erros também. Quando as coisas correm menos bem, importa pensar que estratégias podemos melhorar para ultrapassar as dificuldades. Pode ser o método de estudo, pode ser melhorar os apontamentos nas aulas e até esclarecer todas as dúvidas com o/a professor/a antes dos testes. Lembra-te: uma nota baixa num teste não significa um “Nunca”, mas sim um ”Ainda não”.

E para terminar, porque tu és a pessoa mais importante nesta história, CUIDA DE TI!

Sempre que terminares um período de testes ou uma semana mais desafiante, tira uma tarde para fazeres algo que gostes: pode ser uma saída com um grupo de amigos, pode ser uma ida ao cinema, podem ser umas horas no sofá a ouvir música ou uma maratona da tua série preferida.

Tudo o que te permita fazer uma pausa e quebrar a rotina vai ser importante para ganhar a força que precisas para atingir todos os teus objetivos, para chegar a todos os sonhos. Na escola e na vida.

Bora?

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me. Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola e nos outros contextos, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou antes, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedaços e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer naquele momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo o que eu trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Aprender a estudar.

Chamamos-lhes estudantes mas a maioria dos alunos não sabe estudar, o que até é perfeitamente compreensível uma vez que tal, nunca lhes foi ensinado. Estranhamente, porque todos vão ter de o fazer durante, pelo menos, uma década de vida.

E se até ao 3º ciclo as coisas correm mais ou menos tranquilas e basta agarrar nos livros um ou dois dias antes do teste, o ingresso no ensino secundário traz consigo novos desafios para os quais é importante que eles estejam preparados. E nós também.

Aprende-se a estudar estudando mas existem algumas premissas que já aqui foram abordadas e que podem fazer a diferença. A ideia é que a tarefa se torne mais fácil e o hábito se desenvolva, de uma forma positiva e autónoma, sem que miúdos e pais tenham de ficar à beira de um ataque de nervos, sempre que um teste se aproxima. Para além disso, pode ser útil pensar sobre questões como a rotina de estudo e as metodologias mais eficazes quando o objetivo é estudar e, sobretudo, estudar bem:

O ambiente. Todos sabemos que quando estamos num local onde nos sentimos bem, somos capazes de produzir mais e com maior qualidade. Assim é em relação ao local de estudo. O espaço onde se dedicam a aprender deve ser um espaço calmo, organizado, agradável no que se refere à temperatura e à luminosidade e adequado do ponto de vista da ergonomia – cadeira e secretária que permitam uma boa postura corporal. Muitas vezes noto que o hábito é andar a saltitar pela casa. Ora estudam na sala, ora na cozinha, ora no quarto, o que pode não ser muito favorável à sensação de tranquilidade e de organização, aqui são tão necessárias.

A regularidade. A ideia é evitar o estudo intensivo na véspera dos testes, que deve ser um dia dedicado apenas à revisão dos conteúdos que foram sendo trabalhados atempadamente. Sem stress. Isto implica que regularmente se dedique algum tempo a pensar nos conteúdos que foram aprendidos, o que, para além de permitir consolidar a informação recebida, permite também a percepção de eventuais dúvidas, que deverão ser esclarecidas com o professor nas aulas seguintes. Para além disso, em cada sessão de estudo e como forma de manter a motivação, é importante alternar as disciplinas preferidas com aquelas em que se sente mais dificuldade, a par da realização de pausas de 15 minutos por cada 45 minutos de trabalho.

As técnicas. Diferentes disciplinas requerem diferentes estratégias, mas conhecer algumas pode ser fundamental para obter melhores resultados. Para começar, é importante aprender a destacar as ideias principais ou as palavras-chave, de um determinado texto. Sublinhar, com recurso a marcadores coloridos, fazer anotações adicionais, ajuda a integrar a informação, de forma a que sejamos capazes de a compreender. Depois, pode ser importante fazer um resumo ou esquema da matéria trabalhada, já que isso nos obriga a ser capazes de a explicar por outras palavras, o que por si só, ajuda à sua consolidação. Também a resolução de exercícios é uma forma de testar os conhecimentos adquiridos e de perceber os pontos que é ainda necessário rever. Ainda neste contexto, uma estratégia que costuma ter bons resultados é pedir-lhes que nos “dêem uma aula” acerca daquilo que aprenderam. De facto, a aprendizagem torna-se mais efetiva, sempre que temos de ensinar a alguém um determinado assunto e por isso, nada melhor do que estarmos disponíveis a aprender com eles.

Finalmente, e porque se sabe que é preciso tempo e treino até que se “entranhe” uma rotina de estudo produtiva, autónoma e personalizada, é fundamental valorizar e congratular os nossos filhos/ alunos pelo esforço despendido, mais do que pelo resultado alcançado. Só assim contribuiremos para que se sintam motivados, na consciência poderosa de que têm em si, a capacidade de chegar a todo o lado, sempre que assim o decidam.