A mais honrosa missão do mundo.

Acredito que a escola é um lugar de todos e um lugar para todos.

Quando a penso, penso-a enquanto espaço comunitário, de crescimento, de construção e aprendizagem conjunta, com a participação ativa e envolvida de todos os que têm a capacidade de a transformar: alunos, pais, assistentes operacionais, educadores, professores, técnicos. Cada um tem o seu papel e cada um terá, na mais firme certeza, contributos importantíssimos a dar, em nome da mais honrosa missão do mundo e que à Escola cabe: Educar.

E ainda que todos saibamos disto (uns mais do que outros), há escolas que ainda se fecham aos pais, há pais que ainda recusam abrir-se à escola, há funcionários que ainda acham que a sua opinião não conta (porque há quem nunca pergunte por ela), há professores que acreditam que a sua tarefa se encerra nas páginas do manual da disciplina que ensinam. E depois há os miúdos, esses, que depressa tiram a pinta aos adultos que, perdidos no meio das regras e dos números, vão tratando de transformar a escola num lugar inerte, de passos e caminhos contados, tantas vezes assustadoramente limitados, no pensamento, nas portas fechadas, nos horários, nas mesas arrumadinhas em fila.

E à medida que os meninos vão crescendo em tamanho, a comunicação vai deixando de existir, deixamos de saber os nomes dos funcionários, os carros limitam-se a parar ao portão de manhã e ao cair da noite, as festas já não se fazem, as reuniões de pais têm cada vez mais cadeiras vazias…

A Escola vai perdendo assim a sua essência e afasta-se da mais honrosa missão do mundo, aquela que ela lhe caberia, se tudo estivesse no seu devido lugar e se misturasse, muitas e muitas vezes, para crescimento de todos.

Hoje assumi o compromisso de integrar a equipa da associação de pais da escola do meu filho. Se me vai dar um trabalho do caraças? Vai. Se vai valer a pena? Vai. Se quero que a Escola mude? Quero. E vou lutar a cada instante para que a mudança aconteça e se construa positiva, refletida e sempre, sempre partilhada.

É isto afinal que eu quero que ele mais aprenda: que cá dentro mora o sonho de que o mundo se pode tornar num lugar melhor e que a transformação bem pode começar no chão da Escola, com a participação de todos os que dela fazem espaço de Ser, espaço de Educação.

A que sabe um elogio?

Ela tinha cerca de 20 e poucos anos. Passou por mim e seguiu caminho. Reparei que voltava atrás e ao aproximar-se, disse-me: “Não queria deixar de lhe dizer que olhei para si e a achei bonita.”

Eu, quase engasgada de tanto pasmo, ainda consegui balbuciar um tímido “Obrigada”. E fiquei ali, com um sorriso palerma na cara, a vê-la passar a estrada.

Os pensamentos que se seguiram questionaram de imediato a lucidez da rapariga, apesar da sua aparente “normalidade”. Não podia ser. Ninguém pára na rua e diz a alguém que nunca viu, que a acha bonita.

Depois, pensei: “E porque não?”

Será que estamos tão pouco habituados a que nos valorizem, que a tendência imediata é encontrar uma justificação?

Pois é. Estamos mesmo.

O elogio constitui uma ferramenta fundamental ao nível do nosso desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima e autoconfiança. É uma espécie de shot de felicidade, que tem o poder de nos fazer sentir no topo do mundo, capazes de abraçar todos os desafios.

Com as crianças não é diferente e elogiá-las é uma excelente forma de lhes proporcionar os estímulos de que precisam, para crescer de uma forma saudável, mais confiante e mais autónoma. E sobretudo, a acreditar que serão sempre donas e senhoras dos recursos necessários para conquistar tudo a que se decidam.

Mas minha gente, antes que comecemos a disparar elogios aos nossos benjamins (que aliás serão sempre os melhores do mundo), é importante pensar sobre a melhor forma de o fazer. Aquela que tem o dom de conseguir tudo o que atrás foi dito.

Ora tiremos então as manhas ao bom do elogio:

O elogio deve ser sincero. Às vezes recorremos a ele de forma automática e quase compensatória, de tudo aquilo que gostaríamos que fosse diferente na relação com os nossos filhos. Eles topam-nos a milhas e, com o tempo, deixam de dar significado àquilo que está a ser valorizado, sobretudo se o desenho do cavalo parecer um cão esquisito ou se os primeiros biscoitos terem saído intragáveis (podemos sempre dizer-lhes que com mais algum treino, vão sair-se ainda melhor…);

O elogio basta-se a si próprio. Não precisa de saber que a Joana nunca mais aprende a fazer o pino ou que o André teve uma nota melhor no teste de Português. A ideia é mesmo que nos sintamos especiais, por isso nada de alimentar o ego com as dificuldades do vizinho, nem “cortar o barato” com as especialidades dos outros;

O elogio gosta de atitudes, mais do que de capacidades. Se o/a nosso/a filho/a teve um bom resultado num trabalho na escola, devemos elogiar o seu esforço, o seu empenho nesse processo (e não a sua inteligência), como responsável pelo resultado final. Quando dizemos “Uau, és tão esperto”, estamos a transmitir a ideia de que a inteligência é algo inato, quase um dom que temos ou não, o que nos retira o papel ativo na capacidade de nos superarmos sempre.

Todos os elogios devem ter sabor de mimo extra, reforçando a dedicação investida numa determinada tarefa. E é esta sensação de que demos o nosso melhor e que fomos valorizados por isso, que nos traz a noção poderosa de que todas vitórias (e fracassos também) não terminam em si, mas significam sempre mais um passo, na construção de todos os objetivos a que nos proponhamos. Com a confiança da certeza de que para crescer e aprender, basta acreditar e arriscar.

Ainda voltando à situação que inspirou este texto e em jeito de resumo: Se fosse com o meu filho eu diria: “Estás tão bonito hoje. As cores da roupa que escolheste ficam-te mesmo bem”. Como foi comigo, que me aproximo a passos largos dos 40, aquele “Achei-te bonita”, veio na medida certa. Aquela que em segundos, me levou ao topo do mundo.

Obrigada, rapariga desconhecida.

Castigo educação Infantil

Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras é um grande mal entendido. Mas, porque o tema é fraturante (adoro esta palavra da moda), vamos com a calma possível e por partes…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada. Afinal, há coisas que não se podem deixar passar e por isso, o melhor mesmo é agir em conformidade. Verdade. Só não é verdade que tenhamos de o fazer através da punição física.

Não existe nada de mais ameaçador do que sermos batidos por alguém. Certo?

Imaginemos a cena: Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos relação é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser bons para nós e talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se torna parte de nós e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.