Ideias para ensinar a amar o verde do mundo. E a protegê-lo.

Preocupamo-nos muito em saber se os nossos filhos dizem bom dia, ensinamo-los a dizer desculpa e a pedir por favor, insistimos com a arrumação do quarto e com as tarefas da casa, mas muitas vezes esquecemo-nos de outras coisas igualmente importantes, que transcendem aquele que é nosso cantinho ou o conforto imediato a que nos habituámos.

Falo da importância de os ensinar a cuidar do planeta no qual têm o privilégio de crescer e que lhes oferece, todos os dias, experiências absolutamente extraordinárias. Falo da urgência de educar para um consumo mais consciente, que seja capaz de desacelerar (e quem me dera travar), todas as atrocidades ambientais que temos cometido, desde o dia em que passámos a achar que éramos os reis da selva.

Afinal o mundo merece bem melhor do que aquilo que lhe temos feito e eu acredito que este pequeno grande ser de quem tenho a honra de ser mãe, pode ter em mãos o enorme desafio da mudança que urge.

Partilho por isso três premissas base, que procuramos ter como norte aqui em casa, nesta tarefa tão necessária de educar para um consumo mais consciente e cada vez mais responsável e refletido:

Nós ensinamos aquilo que fazemos.

Este será sempre o primeiro passo, nesta e em todas as missões da parentalidade. De pouco adianta dizer-lhes que é importante poupar água, se depois nos veem a lavar os legumes com a torneira aberta. Fazer será sempre mais impactante do que dizer e eles aprenderão naturalmente a seguir os hábitos ecológicos da família. Partilho convosco um dos momentos recentes em que isto se tornou ainda mais claro para mim. Tentamos ter o hábito de, na praia ou noutros sítios por onde passamos, encher um saco com algum do lixo que vamos encontrando pelo caminho. Ontem, num dos passeios de final do dia com o Manel dei por ele a apanhar uma garrafa de plástico que estava no chão e levá-la conosco até ao ecoponto mais próximo. Confesso que nem reparei na dita, mas lembrei-me porque é que ele estava a fazê-lo, inchei o peito de orgulho e dei-lhe um beijo, seguido de um sussurro: “Boa Manel!”

Antes de comprar, pensar.

O mundo é uma montra gigante. São as lojas, são os outdoors, são os anúncios do canal Panda, são os brinquedos dos outros, são as pessoas, que oferecem prometem, acenam… E nós andamos maravilhados em busca daquele produto mágico que promete resolver todos os nossos problemas. Eles também, porque aprendem e porque precisam de ajuda para aprender a ler nas entrelinhas. Lutar contra o apelo constante do marketing e da publicidade é tarefa inglória, ensiná-los a refletir, a questionar, a perguntar porquê e para quê, é o caminho que mais nos faz sentido. Seja sobre o catálogo dos brinquedos, seja acerca da escolha dos iogurtes que têm menos papel ou plástico à volta, seja na compra dos legumes ao pequeno produtor, seja no hábito de pensar e criar os presentes para os amigos (ao invés de os comprar), seja na roupa emprestada dos amigos, tudo são boas desculpas para contrariar o consumo desenfreado e torná-lo cada vez mais sustentável.

O mundo é a nossa casa.

Para querer proteger o mundo, é preciso sentir de que substância se faz a sua preciosidade. É preciso pôr os pés na terra e fazer bolos de lama, é preciso apanhar com a chuva na cara e lamber-lhe as gotas, é preciso saber os nomes dos animais todos e conhecer-lhes a casa. É preciso amar o sol, venerar as árvores e olhar a lua, sabendo que tudo aquilo que somos é apenas uma ínfima parte de um bem tão maior do que nós. É preciso lutar contra a tentação fácil de deixar que as crianças cresçam enjauladas, sem saber de onde lhes vem a comida que têm no prato ou achar que a vida se encerra na estrada que percorrem todos os dias para a escola ou no baloiço do parque do bairro.

Eu, enquanto mãe e sobretudo enquanto ser humano, penso todos os dias que o meu contributo podia ter sido maior, que podia ter-me descentrado um pouco mais do meu bem estar imediato e escolhido o caminho menos fácil, mesmo que estivesse com pressa.

Penso nisto todos os dias e todos os dias aprendo mais um bocadinho e faço melhor, com a vantagem de que agora, conto com ele, para me dar a mão e dizer: “Olha mãe, está ali uma garrafa de plástico. Vamos levá-la connosco?”

Nota: A imagem perfeita que aqui partilho, nasceu da perfeição do olhar da Lília e traz-me força à vontade de lhes quebrar a redoma e ensinar o verde do mundo. Obrigada Lília. Sempre.

A mais honrosa missão do mundo.

Acredito que a escola é um lugar de todos e um lugar para todos.

Quando a penso, penso-a enquanto espaço comunitário, de crescimento, de construção e aprendizagem conjunta, com a participação ativa e envolvida de todos os que têm a capacidade de a transformar: alunos, pais, assistentes operacionais, educadores, professores, técnicos. Cada um tem o seu papel e cada um terá, na mais firme certeza, contributos importantíssimos a dar, em nome da mais honrosa missão do mundo e que à Escola cabe: Educar.

E ainda que todos saibamos disto (uns mais do que outros), há escolas que ainda se fecham aos pais, há pais que ainda recusam abrir-se à escola, há funcionários que ainda acham que a sua opinião não conta (porque há quem nunca pergunte por ela), há professores que acreditam que a sua tarefa se encerra nas páginas do manual da disciplina que ensinam. E depois há os miúdos, esses, que depressa tiram a pinta aos adultos que, perdidos no meio das regras e dos números, vão tratando de transformar a escola num lugar inerte, de passos e caminhos contados, tantas vezes assustadoramente limitados, no pensamento, nas portas fechadas, nos horários, nas mesas arrumadinhas em fila.

E à medida que os meninos vão crescendo em tamanho, a comunicação vai deixando de existir, deixamos de saber os nomes dos funcionários, os carros limitam-se a parar ao portão de manhã e ao cair da noite, as festas já não se fazem, as reuniões de pais têm cada vez mais cadeiras vazias…

A Escola vai perdendo assim a sua essência e afasta-se da mais honrosa missão do mundo, aquela que ela lhe caberia, se tudo estivesse no seu devido lugar e se misturasse, muitas e muitas vezes, para crescimento de todos.

Hoje assumi o compromisso de integrar a equipa da associação de pais da escola do meu filho. Se me vai dar um trabalho do caraças? Vai. Se vai valer a pena? Vai. Se quero que a Escola mude? Quero. E vou lutar a cada instante para que a mudança aconteça e se construa positiva, refletida e sempre, sempre partilhada.

É isto afinal que eu quero que ele mais aprenda: que cá dentro mora o sonho de que o mundo se pode tornar num lugar melhor e que a transformação bem pode começar no chão da Escola, com a participação de todos os que dela fazem espaço de Ser, espaço de Educação.

A que sabe um elogio?

Ela tinha cerca de 20 e poucos anos. Passou por mim e seguiu caminho. Reparei que voltava atrás e ao aproximar-se, disse-me: “Não queria deixar de lhe dizer que olhei para si e a achei bonita.”

Eu, quase engasgada de tanto pasmo, ainda consegui balbuciar um tímido “Obrigada”. E fiquei ali, com um sorriso palerma na cara, a vê-la passar a estrada.

Os pensamentos que se seguiram questionaram de imediato a lucidez da rapariga, apesar da sua aparente “normalidade”. Não podia ser. Ninguém pára na rua e diz a alguém que nunca viu, que a acha bonita.

Depois, pensei: “E porque não?”

Será que estamos tão pouco habituados a que nos valorizem, que a tendência imediata é encontrar uma justificação?

Pois é. Estamos mesmo.

O elogio constitui uma ferramenta fundamental ao nível do nosso desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima e autoconfiança. É uma espécie de shot de felicidade, que tem o poder de nos fazer sentir no topo do mundo, capazes de abraçar todos os desafios.

Com as crianças não é diferente e elogiá-las é uma excelente forma de lhes proporcionar os estímulos de que precisam, para crescer de uma forma saudável, mais confiante e mais autónoma. E sobretudo, a acreditar que serão sempre donas e senhoras dos recursos necessários para conquistar tudo a que se decidam.

Mas minha gente, antes que comecemos a disparar elogios aos nossos benjamins (que aliás serão sempre os melhores do mundo), é importante pensar sobre a melhor forma de o fazer. Aquela que tem o dom de conseguir tudo o que atrás foi dito.

Ora tiremos então as manhas ao bom do elogio:

O elogio deve ser sincero. Às vezes recorremos a ele de forma automática e quase compensatória, de tudo aquilo que gostaríamos que fosse diferente na relação com os nossos filhos. Eles topam-nos a milhas e, com o tempo, deixam de dar significado àquilo que está a ser valorizado, sobretudo se o desenho do cavalo parecer um cão esquisito ou se os primeiros biscoitos terem saído intragáveis (podemos sempre dizer-lhes que com mais algum treino, vão sair-se ainda melhor…);

O elogio basta-se a si próprio. Não precisa de saber que a Joana nunca mais aprende a fazer o pino ou que o André teve uma nota melhor no teste de Português. A ideia é mesmo que nos sintamos especiais, por isso nada de alimentar o ego com as dificuldades do vizinho, nem “cortar o barato” com as especialidades dos outros;

O elogio gosta de atitudes, mais do que de capacidades. Se o/a nosso/a filho/a teve um bom resultado num trabalho na escola, devemos elogiar o seu esforço, o seu empenho nesse processo (e não a sua inteligência), como responsável pelo resultado final. Quando dizemos “Uau, és tão esperto”, estamos a transmitir a ideia de que a inteligência é algo inato, quase um dom que temos ou não, o que nos retira o papel ativo na capacidade de nos superarmos sempre.

Todos os elogios devem ter sabor de mimo extra, reforçando a dedicação investida numa determinada tarefa. E é esta sensação de que demos o nosso melhor e que fomos valorizados por isso, que nos traz a noção poderosa de que todas vitórias (e fracassos também) não terminam em si, mas significam sempre mais um passo, na construção de todos os objetivos a que nos proponhamos. Com a confiança da certeza de que para crescer e aprender, basta acreditar e arriscar.

Ainda voltando à situação que inspirou este texto e em jeito de resumo: Se fosse com o meu filho eu diria: “Estás tão bonito hoje. As cores da roupa que escolheste ficam-te mesmo bem”. Como foi comigo, que me aproximo a passos largos dos 40, aquele “Achei-te bonita”, veio na medida certa. Aquela que em segundos, me levou ao topo do mundo.

Obrigada, rapariga desconhecida.

Castigo educação Infantil

Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras é um grande mal entendido. Mas, porque o tema é fraturante (adoro esta palavra da moda), vamos com a calma possível e por partes…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada. Afinal, há coisas que não se podem deixar passar e por isso, o melhor mesmo é agir em conformidade. Verdade. Só não é verdade que tenhamos de o fazer através da punição física.

Não existe nada de mais ameaçador do que sermos batidos por alguém. Certo?

Imaginemos a cena: Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos relação é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser bons para nós e talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se torna parte de nós e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.