Aprender pelo espanto ou o espanto de aprender.

Tu, pela milionésima vez: “Vá, vamos embora. Já chega!”

O teu filho, como se fosse a primeira… “Olha só para isto, mamã!”

A ideia da aprendizagem pelo espanto é a base da teoria educativa de Catherine L´Ecuyer, investigadora canadiana, que se dedica a estudar a forma como as crianças aprendem e aquilo que as move na construção de significados próprios, decorrentes das experiências que vivem.

A autora, que valoriza a curiosidade como o factor chave no crescimento, capaz de despertar nas crianças o desejo e a busca constante de conhecimento, empurrando-as assim para que descubram o mundo, diz-nos ainda que na infância mora o sentido inato para nos estimularmos com o que acontece à nossa volta e que por isso, aos pais, cabe apenas tarefa de serem jardineiros (e nunca carpinteiros ou escultores), capazes de regar e fazer crescer esse sentido.

Há, nas crianças, uma predisposição natural para a observação atenta do que as rodeia, numa atitude de enorme respeito pelo mistério e pela beleza das coisas de todos os dias. A décima descida no escorrega nunca é igual à anterior. A estrelinha ao lado da lua parece ainda mais brilhante esta noite.

Há, nos adultos, uma pretensão aprendida de quem já sabe muito e por isso acha, que o muito que sabe, é suficiente para não ter que insistir num segundo olhar: Quem já viu um pôr do sol já viu todos. Quem já correu à chuva não precisa de se molhar outra vez.

E depois há a vida que acontece, com eles a espantarem-se a cada passo dado e connosco a seguir caminho, quase cegos.

Acredito pois, que sempre que nascemos pais ou mães, temos em mãos uma espécie de segunda oportunidade. A oportunidade de nos reconciliarmos com a criança que fomos, o privilégio de nos pasmarmos com a criança que os nossos filhos são e com tudo aquilo que de mágico podemos descobrir juntos, a cada virar de esquina.

E são essas descobertas que movidas pela curiosidade insaciável e pela atenção no olhar, serão capazes de nos arrancar suspiros e assim nos mudar por dentro, fazendo perdurar no tempo o respeito e a gratidão com que lemos o mundo.

Para que entendamos, de uma vez por todas, que por mais coisas que saibamos e que tenhamos vivido, os dias nunca acontecem da mesma maneira, o céu tem sempre um azul diferente e aquele sorriso, daquela pessoa, jamais se fará igual.

Para que na próxima vez que ouvirmos: “Olha só para isto, mamã!”, nos deixemos de tretas e tenhamos a humildade de estar e chegar perto, permitindo que os seus olhos nos guiem e nos tragam deslumbramento. Pela vida nas coisas e pelas coisas da vida.

 

Nota: E porque em 8 minutos se pode dizer tanto e porque em 8 minutos cabe a vontade gigante de não esquecer e recuperar a cor perdida, algures, na rotina dos dias. Aqui vos deixo então, esta pequena delícia…