Quando a cenoura é a perfeição.

A Sofia tem notas excelentes. Está, desde sempre, no quadro de honra da escola e todos a têm como modelo. Descansa professores, é chamada a ajudar os outros, a dar a resposta mais acertada, a ver os seus testes usados como modelo de correção. Perfeito.

A Sofia não é motivo de preocupação. Conhece as melhores técnicas de estudo, abandonou a dança para se dedicar ao horário diário de exercícios e preparação para os testes e só sai de casa quando não aceitam as suas desculpas. Perfeito.

A Sofia respira, mas não vive e falta-lhe o ar sempre que o pior acontece: Errar.

E sempre que erra, a Sofia dá força à certeza de que não vale nada, de que nada em si será, alguma vez, suficiente e que nunca, nunca estará preparada para os desafios que tem de enfrentar. E com isto a Sofia sofre. Mas só por dentro, porque já se cansou de ouvir dizer: “Andas sempre nesse stress mas tens sempre as melhores notas da turma.” Perfeito.

Conheço cada vez mais alunos a sentirem-se assim. Acredito que, enquanto adultos e enquanto sociedade, temos muita responsabilidade nisto, na forma como os ensinamos a crescer e naquilo que lhes vamos exigindo ao longo do seu percurso escolar, tornando incrivelmente redutora e limitada a noção daquilo que é ser-se um bom aluno. O sistema em que que crescem é afinal um sistema que lhes grita constantemente: “Tu és aquilo que produzes!”

O perfecionismo manifesta-se de muitas formas que podem tornar-se um verdadeiro inferno para quem com ele se habitua a viver: pode ser a dificuldade, o adiamento ou a recusa em iniciar uma tarefa para a qual não se tenha resposta 100% segura, pode ser a insatisfação permanente face ao resultado alcançado, pode ser um ritmo de trabalho mais lento, de forma a não deixar escapar nenhum pormenor, pode ser o enfoque nos bons resultados dos outros e a luta constante para os superar e pode, sobretudo, significar um sofrimento desmedido sempre que a nota final fuja do número definido como meta, ou que um erro “perfeitamente desnecessário” aconteça.

Muitas vezes são alunos vistos pelos outros como altamente irritantes, armados em espertos, marrões e isso não contribui para o estabelecimento de relações sociais capazes de funcionar como verdadeiro escudo de proteção, face às vulnerabilidades sentidas.

Os alunos perfecionistas são, na maior parte das vezes, alunos preocupados, ansiosos, com baixa auto-estima e estratégias de coping pouco eficazes.

Saber disto, ajuda-nos a ser capazes de compreender e ajudar os nossos filhos e alunos, de forma a que se tornem progressivamente mais confiantes face aos sucessos e mais tranquilos perante os insucessos:

Aceitar o que estão a sentir e ser paciente.

É difícil ver os nossos filhos fazer uma tempestade num copo de água por causa de um resultado num teste ou de um engano num trabalho, assistir à sua insatisfação permanente e à constante busca da perfeição. É por isso fácil, deixar sair as palavras: “Que disparate. Isso lá vale a pena!”. Garanto que estão cansados de o ouvir. Seguramente sentirão que ainda são mais esquisitos do que pensavam, porque de facto ninguém os entende.

Nenhuma criança ou jovem escolhe ser prisioneiro do medo de falhar e da ansiedade de não cumprir a expectativa de si próprio. Todas as crianças e jovens, se pudessem, libertar-se-iam num abrir e fechar de olhos.

Um simples: “Eu sei que isto é difícil para ti e é por isso que vamos resolvê-lo juntos…” é suficiente para fazer sentir que compreendemos, que aceitamos e que estamos disponíveis para pensar o problema e encontrar soluções. Demore o tempo que demorar. E assim, mediante reflexão conjunta e questionamento das crenças pessoais, se torna possível reconstruir a forma como é pensado o (in)sucesso.

Acarinhar o erro como parte do processo.

Passamos a infância a estimular as crianças a serem vencedoras e o mais eficazes possíveis nas tarefas a que se dediquem. Valorizamos o pintar dentro do risco e dizemos que está mal quando a couve é pintada de azul. Aplaudimos, sempre que a atividade é concluída dentro dos padrões que nós próprios criámos, mas olhamos pouco para o esforço que é despendido pelo caminho.

Errar desenvolve competências tão importantes como a paciência, a tolerância e a persistência e isso é tão mais rico do que tudo o que se possa assemelhar à perfeição. Partilhar com os nossos filhos aquelas que são as nossas dificuldades e os erros que cometemos (bem como a aprendizagem que deles advém), torna-nos mais humanos e ajuda-os a perceber que no fim, o que verdadeiramente importa é orgulharmo-nos do percurso feito e saber que temos em nós o que é preciso para continuar a tentar.

Valorizar o esforço, muito mais do que o resultado.

Lembro-me sempre da história de uma aluna que, quando mostrava ao pai o 95% que tinha tido no teste, levava com a seguinte resposta: “Boa. Mas mais importante que o resultado no teste, é que tenhas dado o teu melhor.” E mesmo que esta não fosse a resposta mais desejada, para quem só queria ter a família inteira em ovação, era uma resposta que servia aos 95%, assim como serviria aos 59%, cabendo nela a ideia que não é a nota num teste que define o aluno, mas sim o esforço, a dedicação e a capacidade de arriscar, que seja capaz de imprimir a cada desafio do seu caminho académico.

E aqui o nosso papel torna-se ainda mais importante, sobretudo porque desde o momento em que os nossos filhos entram na escola e ao longo de todo o seu crescimento, tentarão vender-lhes a ideia de que o seu mérito enquanto pessoas dependerá, em primeira instância, dos prémios, das menções honrosas, dos certificados, dos louvores que consigam arrecadar, transformando a fantástica aventura de aprender numa corrida desenfreada em direção ao pódio.

Estarmos atentos, enquanto pais, a cada conquista feita no atingir de um determinado objetivo ajuda a redirecionar-lhes o olhar e a torná-las parte fundamental da aprendizagem: “Adoro ver-te entusiasmado a ultrapassar os problemas.” ou “Reparei que arriscaste em dar a resposta, mesmo não tendo a certeza. Que bom!”, constituem palavras de alento que contribuirão também para que entendam o valor do esforço e da persistência, mais do que o resultado que dele advenha.

Viver na senda da perfeição é difícil. Porque nos atrasa, porque limita a capacidade de resposta ao imprevisto, porque nos angustia, porque nos faz sentir incapazes, porque nos incita à comparação com o outro, porque nos cristaliza o olhar no resultado final e com isso nos faz perder tanto do que pelo meio acontece.

Viver na senda da perfeição será, muitas vezes, um caminho infeliz, simplesmente porque a perfeição não existe.

E é por isso tão vital ensinar a amar os desafios, a aceitar os erros e a procurar na cenoura, o valor do esforço e o crescimento da aprendizagem constante.