Não esquecer que a história é deles. (4 de 5)

Sermos conscientes da importância da família, não significa que sejamos nós a assumir as rédeas de um destino que não é o nosso. E eu sei que a tentação é grande… Afinal existem coisas que a vida já se encarregou de nos ensinar e que com certeza lhes poupariam algum trabalho. E até algumas desilusões.

O medo da frustração dos desejos dos pais e o receio de não estar à altura das suas expectativas, é um dos fatores que mais atormenta os adolescentes, dificultando a tomada de decisões face ao percurso na escola ou às áreas/experiências que venham a desenvolver.

“O meu pai diz que esta profissão não tem futuro.” ou, “O que eu gostava mesmo era de fazer um curso profissional, mas lá em casa diz-se que é para os maus alunos…” ou ainda, “A minha mãe sempre quis ser advogada e eu gostava de poder cumprir esse objetivo.” Estas são apenas algumas das ideias que eles absorvem e que, invariavelmente, acabam por influenciar as escolhas que têm de fazer, que deveriam ser, o mais possível, livres de pressões e de medos.

Apoiar os nossos filhos não significa decidir por eles, nem tão pouco direcionar aquelas que serão as suas opções. Significa orientá-los ao longo do seu crescimento, significa sobretudo estar por perto, motivar, valorizar e ajudar a refletir e a debater, para que as decisões aconteçam de uma forma responsável, mais consciente e ponderada.

Apoiar os nossos filhos implica que sejamos capazes de aceitar que as suas escolhas podem ser diferentes das nossas, estimulando a sua autonomia e contribuindo para que sintam confiantes em todos os desafios que lhes surjam. A autonomia promove a responsabilidade, pelo que eles crescem enquanto pessoas sempre que sentem que existe da nossa parte, a confiança necessária para que possam experimentar, arriscar, concretizar.

E por fim, para que tudo isto possa acontecer, é importante recordar que o diálogo e o respeito serão sempre as chaves mágicas que abrem todas as portas. Ainda que discordemos de muitas das opiniões que têm, é seu o direito de as partilharem, de as defenderem, de as porem em comum.

E é precisamente nesta partilha que podem surgir outras reflexões, que os ajudem a pensar nas diferentes opções de uma forma mais sólida, e sobretudo mais próxima da decisão que, no momento, dê sentido a quem são e aos sonhos que namoram por dentro.

Na prática: Mesmo que os projetos que os nossos filhos equacionam nos pareçam disparatados ou pouco consistentes, se nos limitarmos a gritar: “Nem penses nisso!”, estaremos inevitavelmente a afastá-los e a fazer com que magiquem todos os planos em segredo ou, pior, que frustrem sonhos e projetos apenas e só, porque não houve abertura para sequer pensar sobre eles. Pegar nas ideias que têm e, em conjunto, identificar e disponibilizar informações objetivas, que permitam conhecer os diferentes percursos e opções disponíveis, será sempre uma boa estratégia e muitas vezes, aquela que permite a que cheguem eles próprios a novas alternativas e possibilidades.

Quantos filhos tens?

Há muito que me apetece escrever sobre isto.

Há muito que o adio, talvez porque pôr no papel é também uma forma de tornar matéria aquilo que se pensa, trazer à tona o que se sente…

Ao ler o que a Joana escreve, vi serem minhas as palavras que usa. E assim, sem que a conheça, e de uma forma tão crua, tão honesta e tão necessária, a Joana trouxe-me a vontade de escrever sobre mim.

Há quatro anos que sou mãe.

Há quatro anos que aprendi a viver com o coração fora do corpo. Lugar comum eu sei, mas até hoje não encontro outra expressão que traduza, de modo tão literal, a experiência da maternidade.

Quando nos nasce um filho, nasce outra de nós. Aquela que tem de saber tudo, aquela que tem de estar pronta para tudo, a que é exemplo de vida 24 horas por dia, a que se apaixona para a eternidade. A que tem sono, mas tem de estar acordada. A que tem medo, mas tem de o enfrentar. Aquela que é filha, que é mulher, que é amante, que tem uma carreira, que é amiga e que, para além de tudo isto, agora, também é mãe.

Quando tens um filho, perguntam-te pelo segundo e justificam: “Ah, e tal, os filhos únicos são tramados, não aprendem a partilhar…”, ou “Agora só falta o mano/a para ficarem com um casalinho”.

Quando tens dois filhos (e se são do mesmo sexo), contra-argumentam: “Pois, mas agora tens de ir ao terceiro para ver se acertam na/o menina/o.”

Felizmente, ao terceiro, os ânimos tendem a acalmar até porque “três é a conta que deus fez”. Ou não… E tu pensas: “Raios os partam, que nunca estão satisfeitos!”.

Acontece que, no meio desta coisa maravilhosa que é a diversidade humana, há pessoas que não querem ter filhos.  Há pessoas que só querem ter um filho e há pessoas que querem ter filhos enquanto tal lhes for possível. E ainda há as que não podem tê-los.

Por isso, e porque a decisão exige uma responsabilidade e coragem brutais (pelo menos para mim), quando me perguntam pelo segundo, a minha resposta é, simplesmente, “Não sei.”

Não sei se quero, nem sei se posso. Não sei se demora muito ou se é já amanhã. Não sei, porque ainda estou a encaixar esta mãe nos outros pedaços de mim e isso, por si só, basta-me. Preenche-me. Pelo menos por agora.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos na boca o sabor do maior amor do mundo e isso tem tanto de maravilhoso como de absolutamente assustador, para que saibamos assim, de chofre, qual é a nossa soma.