“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

Isto não é um mar de rosas

Sim, isto de ser mãe e de ser pai tem mais do que se lhe diga.

Mete medo.

Assombra-nos com a ideia de que temos de ser perfeitos e aguentar-nos “à bomboca”, mesmo quando as coisas se tornam mais difíceis.

Desafia-nos com as famílias dos outros, que parecem sempre melhores do que a nossa. Mais “limpas”, mais bonitas, mais felizes.

Obriga-nos a tomar decisões que, para além do impacto que têm em nós, podem também ser determinantes na vida de alguém. Alguém que é, nem mais nem menos, aquele que tem o nosso coração cativo, desde o momento em que lhe pusemos a vista em cima.

Por mais livros que leia sobre parentalidade, sinto sempre que as palavras não traduzem a vida, mas podem, algumas, ter o dom de apaziguar o desassossego de não estar à altura do desafio. Ou, pelo menos, levar-nos a pensar sobre ele.

Tenho por isso para mim, que os ensinamentos mais importantes vêm das coisas mais simples e que a nossa grandeza enquanto pais surge, sempre que somos capazes de:

Tornar conscientes os caminhos.

Sabendo que podem não ter sido os melhores mas que foram, naquele momento, os possíveis. Isto, dá-nos a esperança de tentar de novo, a possibilidade de não repetir e de nos treinarmos para o próximo guião.

Pedir desculpa.

Há, num pedido de desculpas, uma coragem e uma humildade imensas que nos libertam do arrependimento e sobretudo, nos aproximam dos nossos filhos, fazendo-os sentir que afinal, por aqui, “há carne e há osso.” E há vontade de aprender.

Aceitar.

Quando aceitamos, ficamos em paz com quem somos e, não significando isto aprovar ou baixar a guarda, dá-nos uma maior clareza relativamente ao ponto em que estamos, aguçando a vontade de mudança, se ela for sentida como necessária, claro.

A parentalidade não é um mar de rosas. É mar que é calmo, é mar que é turbulento, é mar que muitas vezes quase nos afoga e que em tantas outras nos dá fôlego e batida de coração feliz, quase a saltar do peito.

A parentalidade constrói-se todos os dias. Faz-se de passos mal dados e de dúvidas constantes mas faz-se, sobretudo, da capacidade de aceitar que assim é e de refletir, sempre. Sabendo que é na reflexão que ganhamos o enorme privilégio de aprender.

Tenhamos nós esta certeza e teremos nas mãos a melhor e a mais sábia bússola. Aquela que tem em si, a força de enfrentar todos os mares.

Mesmo nos dias de tempestade.

 

Hi-tech, mas pouco.

Temos em família um princípio de ouro: a tecnologia não substitui as pessoas. Agarradas a este princípio, claro está, vêm algumas regras, definidas com o mais novo cá de casa.

A saber:

  • Durante a refeição não há tablets, não há televisão, não há telemóveis;
  • Uma conversa com alguém presente não se interrompe para atender uma chamada ou espreitar o facebook;
  • O Ipad tem acesso controlado (quase nulo) e a televisão limita-se a 1h/dia ao fim de semana e a uns 30m durante os dias da semana, quando e se for possível, porque o jantar às vezes demora. Fora estes momentos, por norma, a televisão está sempre desligada;
  • Os canais são limitados ao Panda, à Disney e ao Baby Tv e no Ipad não há jogos instalados.

Muitas vezes, assaltada pelos apelos do mundo digital, questiono esta nossa estratégia: “Será que o Manel vai ser um “totó” no que se refere às competências tecnológicas?” ou “Será que vai estranhar quando lhe for solicitado dominar estas ferramentas, na escola ou no trabalho?”.

Felizmente, isto dá-me poucas vezes. Infelizmente, porque assisto vezes sem contas ao lado mau de uma má utilização das tecnologias.

E o lado mau é mesmo muito mau. É terrível.

Consegue pôr famílias inteiras à mesa sem que as pessoas olhem umas para as outras, sem que falem de banalidades e muito menos de coisas importantes.

Consegue pôr adolescentes a adormecer às 4 da manhã em dias de semana, impedindo-os de ter um sono reparador, como todos os sonos devem ser.

Consegue provocar nos miúdos, comportamentos típicos da síndrome de abstinência de uma substância psicoativa: descontrolo motor, ansiedade, irritabilidade, nervosismo, mudança de humor…

Consegue pôr pais a dizer aos filhos: “Agora não posso”, demasiadas vezes, porque é preciso enviar um email fora de horas ou ver o número de likes da selfie tirada no último almoço de trabalho.

E com tudo isto consegue, lentamente, fazer com que nos esqueçamos que somos, por natureza, seres sociais e que por isso, precisamos do afeto e do contacto emocional e físico, quase como quem precisa da água para viver. Porque é afinal na relação com os outros que crescemos todos os dias e que nos tornamos seres humanos melhores.

O Manel tem quatro anos e sabe que o pinguim-macaroni vive na Antártida e que no nosso terraço crescem os melhores morangos do mundo. Sabe dizer qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu no dia e partilhar o momento mais triste que teve. Sabe dar abraços e dizer os nomes dos nossos amigos todos. Pergunta o que vamos levar quando vamos jantar a casa de alguém e reconhece na nossa expressão facial sempre que alguma coisa não nos correu bem.

O Manel tem quatro anos, tem o coração apinhado de gente e sabe a coisa mais importante de todas: ser feliz, como ninguém.

Não me lixem, os computadores não fazem isto.