“Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Terça-feira. Oito e meia da manhã.

Estávamos a tomar o pequeno-almoço, ou melhor, estávamos a engolir o pequeno almoço, porque o tempo “rugia” e dentro da minha cabeça piscavam, em luzes néon, as frases de sempre: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto!

O Manel que adora conversar, prosseguia com as suas reflexões, aparentemente alheio ao meu histerismo matinal. Continuámos ambos nos nossos devaneios, até chegarmos ao tema tabu (sobretudo quando já devias ter saído de casa há pelo menos 30 minutos): “Mãe, eu não quero ir à escola!”

Na minha cabeça, a tempestade intensificou-se com a tão temida variável: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto! O teu filho não quer ir à escola!

Merda! E agora?

E ali, no meio do caos, não sei como (mas talvez porque ando a aprender uma coisas), respirei fundo, voltei a sentar-me ao lado dele e perguntei-lhe: “Porquê passarinho?”

Do alto dos seus 4 anos de vida (que às vezes mais parecem 40), o Manel respondeu-me: “Porque na escola toda a gente decide o que fazer por mim. Dizem quando é para brincar, dizem quando é para sentar, dizem quando é para ir para a rua, quando é para pintar, quando é para dormir…”

Eu, pensei com os meus botões: Agora é que a arranjaste bonita, porque a criança tem toda a razão… e respondi-lhe, em modo “desculpa esfarrapada”: “Mas sabes filhote, a tua sala tem muitos meninos e por isso as atividades têm de estar mais organizadas para que as coisas possam funcionar melhor.”

Ele, olhou para mim como se eu estivesse a milhas do cerne da questão e disse: “Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Dei-lhe um beijo. Acabámos o que restava dos cereais, lavámos os dentes, vestimos os casacos e saímos.

Na viagem até à escola, surgiram espontaneamente outras conversas. Falámos da primavera, falámos do mealheiro para a viagem à Nova Zelândia, falámos do projeto da casa na árvore a fazer com os avós. À chegada, demos o abraço do costume e eu repeti a frase de todos os dias: “Brinca muito, meu amor”.

Passei o dia a pensar nisto. Passei o dia a pensar que disto, eu não ia conseguir protegê-lo. Que nesta matéria, eu nem sequer conseguia ser grande fonte inspiração. Ou pelo menos, sê-lo na maior parte do tempo.

Sou comandada pelo tempo, sou comandada pelo dinheiro, sou comandada pelas convenções sociais, sou comandada pelo que esperam de mim, pelas tarefas que tenho de terminar, sou comandada pelas 8, ou 9, ou 10 horas de trabalho diário. Pela lista do supermercado. Pelo mapa de férias. Pelo despertador. Pela roupa para lavar. Pela mudança de horário.

Na maior parte do tempo, sou comandada por um sem fim de passos pensados, que tantas vezes me sufocam e que em tantas outras me fazem falta, como se deles dependesse para ser quem sou.

Ele, é arrastado neste frenesim constante e aprende, como bom menino que é, a ser um bom soldadinho. E eu, só queria poder dizer-lhe todos os dias quando o deixo na escola: “Brinca o que te apetecer, meu amor. Porque vais poder fazê-lo a vida inteira.”

 

Nota: A imagem que me diz tanto é da Lília Nunes Reis, e traz à tona esta minha vontade de que ele não se fique pelas “chaves” que lhe dão. Porque são únicas e infindáveis as portas que nos podem surgir pelo caminho… Obrigada Lília, mais uma vez. 🙂

 

 

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

Quando o gato lhes come a língua.
E demora a devolvê-la…

– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habitou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem:

Banalizar os momentos de conversa. Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária a que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata.

Fechar as perguntas. Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas. “Qual foi a aula mais interessante hoje? A de Português ou a de Matemática?” ou “ Numa escala de 0-10, como é que correu o teu dia?”

Partilhar quem somos. Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

Sermos honestos. “Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar fá-los sentirem-se respeitados.

Não levar a peito. Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que não vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

Dar asas à comunicação. A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

Propor alternativas. Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.

“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

Isto não é um mar de rosas

Sim, isto de ser mãe e de ser pai tem mais do que se lhe diga.

Mete medo.

Assombra-nos com a ideia de que temos de ser perfeitos e aguentar-nos “à bomboca”, mesmo quando as coisas se tornam mais difíceis.

Desafia-nos com as famílias dos outros, que parecem sempre melhores do que a nossa. Mais “limpas”, mais bonitas, mais felizes.

Obriga-nos a tomar decisões que, para além do impacto que têm em nós, podem também ser determinantes na vida de alguém. Alguém que é, nem mais nem menos, aquele que tem o nosso coração cativo, desde o momento em que lhe pusemos a vista em cima.

Por mais livros que leia sobre parentalidade, sinto sempre que as palavras não traduzem a vida, mas podem, algumas, ter o dom de apaziguar o desassossego de não estar à altura do desafio. Ou, pelo menos, levar-nos a pensar sobre ele.

Tenho por isso para mim, que os ensinamentos mais importantes vêm das coisas mais simples e que a nossa grandeza enquanto pais surge, sempre que somos capazes de:

Tornar conscientes os caminhos.

Sabendo que podem não ter sido os melhores mas que foram, naquele momento, os possíveis. Isto, dá-nos a esperança de tentar de novo, a possibilidade de não repetir e de nos treinarmos para o próximo guião.

Pedir desculpa.

Há, num pedido de desculpas, uma coragem e uma humildade imensas que nos libertam do arrependimento e sobretudo, nos aproximam dos nossos filhos, fazendo-os sentir que afinal, por aqui, “há carne e há osso.” E há vontade de aprender.

Aceitar.

Quando aceitamos, ficamos em paz com quem somos e, não significando isto aprovar ou baixar a guarda, dá-nos uma maior clareza relativamente ao ponto em que estamos, aguçando a vontade de mudança, se ela for sentida como necessária, claro.

A parentalidade não é um mar de rosas. É mar que é calmo, é mar que é turbulento, é mar que muitas vezes quase nos afoga e que em tantas outras nos dá fôlego e batida de coração feliz, quase a saltar do peito.

A parentalidade constrói-se todos os dias. Faz-se de passos mal dados e de dúvidas constantes mas faz-se, sobretudo, da capacidade de aceitar que assim é e de refletir, sempre. Sabendo que é na reflexão que ganhamos o enorme privilégio de aprender.

Tenhamos nós esta certeza e teremos nas mãos a melhor e a mais sábia bússola. Aquela que tem em si, a força de enfrentar todos os mares.

Mesmo nos dias de tempestade.

 

Hi-tech, mas pouco.

Temos em família um princípio de ouro: a tecnologia não substitui as pessoas. Agarradas a este princípio, claro está, vêm algumas regras, definidas com o mais novo cá de casa.

A saber:

  • Durante a refeição não há tablets, não há televisão, não há telemóveis;
  • Uma conversa com alguém presente não se interrompe para atender uma chamada ou espreitar o facebook;
  • O Ipad tem acesso controlado (quase nulo) e a televisão limita-se a 1h/dia ao fim de semana e a uns 30m durante os dias da semana, quando e se for possível, porque o jantar às vezes demora. Fora estes momentos, por norma, a televisão está sempre desligada;
  • Os canais são limitados ao Panda, à Disney e ao Baby Tv e no Ipad não há jogos instalados.

Muitas vezes, assaltada pelos apelos do mundo digital, questiono esta nossa estratégia: “Será que o Manel vai ser um “totó” no que se refere às competências tecnológicas?” ou “Será que vai estranhar quando lhe for solicitado dominar estas ferramentas, na escola ou no trabalho?”.

Felizmente, isto dá-me poucas vezes. Infelizmente, porque assisto vezes sem contas ao lado mau de uma má utilização das tecnologias.

E o lado mau é mesmo muito mau. É terrível.

Consegue pôr famílias inteiras à mesa sem que as pessoas olhem umas para as outras, sem que falem de banalidades e muito menos de coisas importantes.

Consegue pôr adolescentes a adormecer às 4 da manhã em dias de semana, impedindo-os de ter um sono reparador, como todos os sonos devem ser.

Consegue provocar nos miúdos, comportamentos típicos da síndrome de abstinência de uma substância psicoativa: descontrolo motor, ansiedade, irritabilidade, nervosismo, mudança de humor…

Consegue pôr pais a dizer aos filhos: “Agora não posso”, demasiadas vezes, porque é preciso enviar um email fora de horas ou ver o número de likes da selfie tirada no último almoço de trabalho.

E com tudo isto consegue, lentamente, fazer com que nos esqueçamos que somos, por natureza, seres sociais e que por isso, precisamos do afeto e do contacto emocional e físico, quase como quem precisa da água para viver. Porque é afinal na relação com os outros que crescemos todos os dias e que nos tornamos seres humanos melhores.

O Manel tem quatro anos e sabe que o pinguim-macaroni vive na Antártida e que no nosso terraço crescem os melhores morangos do mundo. Sabe dizer qual foi a melhor coisa que lhe aconteceu no dia e partilhar o momento mais triste que teve. Sabe dar abraços e dizer os nomes dos nossos amigos todos. Pergunta o que vamos levar quando vamos jantar a casa de alguém e reconhece na nossa expressão facial sempre que alguma coisa não nos correu bem.

O Manel tem quatro anos, tem o coração apinhado de gente e sabe a coisa mais importante de todas: ser feliz, como ninguém.

Não me lixem, os computadores não fazem isto.