6 maneiras de os ajudar a “desligar” em tempo de férias (e ao longo do ano).

Este é um tema que me preocupa. Muito.

Lá em casa visto quase sempre a pele de fiscal do tablet e da televisão, mas dou por mim muitas vezes a pensar sobre a estratégia e a tentar preparar-me da melhor forma para os desafios futuros. E digo futuros, porque até agora a coisa tem funcionado bem, o Manel raramente se lembra do tablet, nós não temos por hábito andar com o dito e nas poucas vezes em que o usa, recebe bem a sugestão de o desligar ao fim de pouco tempo.

Mas eu sei que é um ilusão achar que isto vai ser sempre assim. Sei porque tenho amigos com filhos mais velhos, sei porque trabalho com adolescentes na escola, sei, porque sei, que o mundo da tecnologia e, sobretudo dos jogos online, está pensado ao pormenor para favorecer a dependência e a desconexão de quem o procura.

Ajudar os filhos a fazer um uso adequado da tecnologia é um dos maiores desafios dos pais da atualidade, pelo que seguem algumas propostas que podem ser úteis às famílias e significar pontos de início e de retorno para todos, capazes de colocar os gadgets no seu devido lugar: o do entretenimento divertido e casual:

Não fazer da tecnologia um bicho de 7 cabeças.

Este é o ponto que mais tenho de trabalhar. Odeio jogos online, odeio ver crianças e adultos constantemente agarrados tablet e morro de medo de que isto se torne uma realidade cá em casa. E isto, faz com que ande constantemente a reagir à sua utilização e a verbalizá-lo: “Que perda de tempo!”. Não é, definitivamente, a melhor estratégia. Para entender o que se passa no ecrã, para poder aproveitar o seu lado bom e explicar o lado menos bom, é preciso não espantar os pequenos seres que por ele se encantam. A velha máxima do “fruto proibido é o mais apetecido” faz aqui todo o sentido e é por isso tão importante dar espaço para se falar no assunto e tentar compreender melhor a tentação: “Bem, isso parece mesmo desafiante!” ou “Queres explicar-me como se joga?”, são geralmente bons pontos de partida.

Falar abertamente acerca dos riscos associados ao uso excessivo de ecrãs.

Tal como em tudo na vida, nem todos os jogos ou vídeos são terríveis e nem sempre o recurso à tecnologia é um problema. Mas quando se transforma em tal, é nossa a tarefa de ajudar a pensar no impacto que a sua utilização excessiva pode provocar-nos, no que se refere ao bem estar e à saúde: “Reparei que quando jogas durante mais tempo, acabas por faltar ao treino de futebol” ou “Como te sentirias se dormisses um pouco mais?” ou ainda, “Tenho um colega no trabalho que está com dificuldades por causa do uso excessivo do computador…”, são exemplos que poderão ajudar a que cheguem eles próprios aos riscos que esta utilização representa.

Definir regras em conjunto.

A maioria das situações que me chegam de pais com dificuldade em definir limites aos filhos para a utilização do telefone ou do tablet, são situações em que o tema nunca foi discutido em família, muito menos aquando da tomada de decisão de comprar o dito aparelho. E acredito que este deve ser um ponto fundamental, capaz de evitar algumas dificuldades no futuro. Combinar que à mesa não se usa telemóvel, definir um lugar na casa onde guardar os gadgets durante a noite, estabelecer limites máximos de tempo para o jogo e estipular dias da semana específicos em que isso pode acontecer, limitar a existência de computadores e televisões às áreas comuns da casa, são algumas ideias que podem ser facilitar a saudável convivência com a tecnologia, protegendo, claro está, a convivência em família. (Nota importante: não esquecer que as regras aplicam-se a todos os elementos do agregado.)

Mostrar compreensão.

Terminar um jogo ou uma atividade que nos está a provocar sensações de bem estar e de prazer, só porque alguém nos diz para o fazermos, não é fácil e na maioria das vezes não será pacífico. Se, enquanto pais, mostrarmos empatia em relação a isto, ajudamos a lidar com a frustração e a facilitar que aceitem melhor a nossa colaboração nesta gestão: “Eu sei que estavas a gostar de jogar, mas já chegámos ao fim do tempo que combinámos”, relembra a importância de desligar, mas compreende que tal possa ser difícil.

Criar momentos em família do tipo “tecnologia não entra”.

“Vamos acampar? Deixamos o tablet em casa.” “Vamos jantar com  amigos? Não precisamos de telemóvel.” Fazer da experiência uma espécie de estudo sociológico e envolvê-los na sua implementação, análise e avaliação pode ser uma boa forma de motivar à participação. Aproveitar a moda do detox tecnológico: “Quanto tempo acham que aguentaríamos sem usar o telemóvel?” lança o desafio e torna tudo muito mais interessante.

Dar o exemplo.

Se eles são nativos digitais, nós já temos comportamentos muitos semelhantes, ainda que não tenhamos nascido com um telemóvel no bolso. Quantos de nós já se esconderam por uns instantes para espreitar as mensagens, quantos de nós já sacaram o telefone do bolso para fazer scroll no facebook assim que nos sentamos em qualquer lado, quantos de nós já levaram o tablet para a cama à noite? Quantos de nós já gritaram: “Já vou!”, só para estar mais um pouco no computador. Provavelmente todos. E a verdade é que em todas essas vezes, há alguém pequenino que nos observa. E aprende. Não nos esqueçamos disto.

E por fim, sabendo que estas propostas servirão assim a algumas famílias, e a outras servirão de outra forma, sendo que a todas será possível enfrentar o desafio imenso que esta coisa de viver num mundo cada vez mais digital representa, proponho ainda que não nos esqueçamos das coisas que nos fazem verdadeiramente sentir vivos: um banho de mar, as gargalhadas dos amigos, um desgosto de amor, um piquenique no parque, um concerto ao ar livre, uma viagem… estas são as experiências capazes de aguçar a vontade de mundo. E são elas que baterão aos pontos qualquer jogo online.

Sejamos vivos assim e não nos esqueçamos de os trazer connosco. Mesmo que às vezes a cara se faça feia, a memória não se fará dela…

Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.

Se os adultos…

Ao folhear um livro antigo, encontrei este texto que, tendo sido escrito em 1952, me fez revisitar aquilo em que acredito quando penso no desafio que é ser mãe e no impacto que a forma como agimos, pode significar no desenvolvimento dos nossos filhos. Não seremos nunca pais perfeitos (nem isso seria desejável) mas morará sempre em nós, a capacidade de refletir, aprender e crescer enquanto seres humanos, de forma a que o melhor que somos, seja sempre bússola. E perdure.

“Se as crianças vivem com crítica, aprender a condenar.

Se as crianças vivem com hostilidade, aprendem a ser agressivas.

Se as crianças vivem com medo, aprender a ser apreensivas.

Se as crianças vivem com pena, aprendem a ter pena de si próprias.

Se as crianças vivem com vergonha, aprendem a sentir-se culpadas.

Se as crianças vivem com encorajamento, aprendem a ser confiantes.

Se as crianças vivem com tolerância aprendem a ser pacientes.

Se as crianças vivem com elogios, aprendem a apreciar.

Se as crianças vivem com aceitação, aprendem a amar.”

Dorothy Law Nolte

 

Mum is not the boss

Às vezes não oiço o que sinto.
E tenho de isolar as vozes que me ecoam na cabeça, para as identificar e lhes tirar as manhas. Depois, preciso de tempo para me reencontrar no meio da multidão e escutar-me, com a atenção que me é merecida.

Acredito cada vez mais, que esta mania de não nos ouvirmos é aprendida na infância e que as vozes que nos ecoam vezes demais e nos atrapalham o sentir, são as vozes dos adultos com que nos cruzámos ao longo do nosso crescimento. Não que tenha sido educada de uma forma castradora. Não fui. Cresci até com a liberdade e o respeito que me eram devidos, mas cresci num contexto social que ensina às crianças que é o adulto que sabe sempre, que decide, que manda, desde as coisas importantes, até às mais triviais.

“Esse escorrega não é para subir, apenas e só porque foi pensado para descer”; “Eu tenho frio e por isso, mesmo que tu não tenhas, esse casaco é para vestir”; “Eu já te disse que o banho é para ser tomado antes da brincadeira (mesmo que o corpo te peça desesperadamente para fazer já o desenho que trazes na cabeça)!”; “E sim, hoje levas os calções azuis porque eu acho que são os que ficam melhor com essa t-shirt.”; “Onde é que já se viu um céu verde? Vai lá buscar outra folha…”

Os adultos são modelos fundamentais na vida de uma criança, mas a autoridade e o respeito que inspiram, não será nunca medido pelas ordens inquestionáveis que decidam suas por direito, que tantas vezes são obedecidas mais pelo medo, do que propriamente pelo entendimento daquilo que as originou. E confundir a recusa do autoritarismo, com permissividade, é não saber do que se fala.

Há uns dias, num jantar de amigos, perguntaram ao meu filho quem é que mandava lá em casa. A resposta pronta e espontânea foi: “Ninguém.”

O meu radar de mãe (ainda) rainha da culpa e de pessoa crescida bem ensinada, deu o alerta e acionou uma espécie de desconforto crescente, alimentado pelas vozes dos outros e pelas ideias que me vinham à cabeça: “Será que ele devia responder que era eu? Será que ele pensa que isto é a república das bananas? Será que era assim que era suposto ser? Será… Será…. Será…

Trouxe as suposições comigo e deixei que me habitassem mais umas horas. E foi depois de as isolar, de as identificar e de as compreender, que me encontrei, a mim e ao meu filho, na relação que temos e naquilo que já construímos juntos, nesta oportunidade imensa de aprendermos um com o outro.

E é nas vezes em que ele me torce o nariz, em que me contesta, em que contrapõe com uma proposta diferente para atingir um mesmo resultado, que o meu peito se enche de orgulho pelo ser humano que é. Às vezes fazemos como eu proponho, outras fazemos como ele propõe. Às vezes ao meu ritmo, noutras tantas ao seu passo. E em muitas, muitas delas, partilhamos ideias e chegamos juntos a um “modus operandi” que sirva a ambos.

Se me era mais fácil que ele agisse sempre como um macaquinho amestrado e bem polido, ao melhor género das crianças Von Trapp? Era, sem sombra de dúvida. Se isso contribuiria para que crescesse a ouvir-se primeiro e a confiar também na luzinha de sabedoria que traz dentro e que lhe será sempre, pela vida fora, poderoso farol? Não. Com toda a certeza.

A minha tarefa enquanto mãe é ensinar o questionamento, a auto-confiança, a vontade de ser, independentemente do que queiram que o meu filho um dia seja. A minha tarefa enquanto mãe é mostrar que existem caminhos diferentes, formas diferentes de pensar e de agir no mundo e que cada um de nós deve encontrar as suas, mesmo que nos queiram ensinar por todos os meios, que a obediência cega é sempre o caminho mais fácil e mais confortável.

Não é isso que te quero ensinar, porque tu és, como alguém de forma tão bonita um dia disse, o capitão da tua alma. E eu desejo, de coração inteiro, que não percas nunca o leme e te descubras e te encantes, na essência perfeita de quem és.

Com o amor de sempre, por todas as crianças e por todos os adultos que as acompanham na aventura…

 

As razões pelas quais todos queremos ter um/a adolescente nas nossas vidas.

 

Sim, eu sei que às vezes não é fácil ser mãe ou pai de um/a adolescente (tal como não será fácil ser filho de um adulto…) mas a verdade é que, independentemente dos dias menos bons (desejáveis e necessários à transformação natural da família nesta etapa de vida), muitas são as razões que tornam tão incrível, a oportunidade de acompanhar os filhos na aventura da adolescência.

Daniel Siegel, é um neuropsiquiatra que nos últimos anos se tem dedicado a estudar o funcionamento do cérebro adolescente, cujas características e especificidades, considera fundamentais ao desenvolvimento humano. Para Siegel, é a “essência da adolescência” e a sua vivência positiva e plena, que permitirá ao cérebro manter-se saudável na idade adulta.

Assim, e para que não percamos de vista as maravilhas da adolescência, permitindo que se tornem luz e espaço para ser, cá seguem quatro bons motivos para querer tê-los por perto, e com isso, reaprender…

Gosto pela novidade, ou se quisermos, um saudável e apurado sentido de espanto. Relacionado com a ativação dos circuitos cerebrais que aumentam a sensibilidade para a procura de recompensas e sensações novas, é precisamente esta abertura às novas experiências, que alimenta o entusiasmo pela vida, a coragem para arriscar e a motivação para descobrir novas formas de realização pessoal, tão fundamentais a que um dia se sintam capazes de abandonar o conforto do ninho e construir o próprio caminho.

Intensidade emocional, alimentada pela experiência intensa dos diferentes estados emocionais que, nesta fase de vida, ainda se sobrepõe à racionalidade do córtex pré-frontal (desenvolvido por volta dos 20/25 anos). É esta vibração sonora dos diferentes estados de alma que tantas tempestades traz às famílias, desencadeando as tão conhecidas alterações de humor e a experiência de alguns momentos de grande reatividade, sobretudo perante as contrariedades ou as frustrações. No seu melhor, este arco-íris emocional proporciona aos adolescentes e a quem com eles convive, um enorme boost de energia e vitalidade, um sentido de entrega ao momento presente e uma excelente oportunidade de auto-conhecimento e auto-regulação.

Criatividade. Estimulada pelo conhecimento de que a realidade é o conjunto de todas as possibilidades, é a procura incessante de respostas e a criatividade no enfrentar dos desafios, que permite explorar o mundo, questioná-lo, testar as hipóteses e torná-las possíveis. “Experimentar o mundo ordinário como extraordinário”, contribui para desenvolver competências relacionadas com a proatividade e capacidade de adaptação e resolução de problemas e favorece o desempenho no campo das artes, da música, da ciência, trazendo descobertas únicas e crescimento pessoal.

Compromisso social. Na adolescência dá-se um pico de neurónios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento dos outros e que levam à sua repetição. Para além disso, uma maior sensibilidade à ação da oxitocina, predispõe à criação de vínculos significativos com os outros. Na prática, ganha-se uma maior disponibilidade para estar em grupo e agir socialmente, o que permite o alargamento do mapa das relações sociais, tornando-as simultaneamente mais compensadoras e ainda, estimulando a procura de suporte comunitário, fatores altamente preditores de bem estar, satisfação e felicidade ao longo da vida.

E não é isto afinal que todos queremos para os nossos filhos?
Que se mantenham curiosos e criativos, que se sintam capazes de conquistar o mundo, que se emocionem com a vida e que descubram nos outros, parte importante da sua humanidade?

Não seria isto afinal que gostaríamos de ter preservado mais em nós?
Resgatemos pois a nossa essência e celebremos a oportunidade (e o adolescente que um dia fomos), junto daqueles que nos trazem a oportunidade e o privilégio de os ajudar a crescer.

A elas e a eles, que educam os filhos dos outros.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração.

Que lhes dão colo e mimo e espaço para crescer. Que aprendem a lê-los por dentro, a cada sorriso tímido ou a cada hesitação no olhar. Que ensinam a paixão pelas histórias, a curiosidade pela natureza e lhes alimentam a fome de mundo e de saber.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que dão tudo de si, todos os dias, para que o brilho se mantenha a dançar nos olhos pequeninos e atentos e a vontade de aprender seja sempre acha de fogueira, e de calor.

Há mulheres que trazem os filhos dos outros no coração. Que escondem a tristeza dos dias tristes num sorriso doce que entregam de bandeja, a quem dele precisa para acreditar que a vida é, quase sempre, bonita de viver. Que partilham a alegria das ideias novas e dos projetos que sonharam na noite anterior, para os fazer crescer no dia seguinte, no chão da sala, entre papel de seda e de cenário, no meio dos lápis de carvão e das aguarelas, em que o único guia é a desafinação feliz das vozes que riem e gritam e se entusiasmam a cada descoberta feita.

Às mulheres e aos homens que escolheram para a caminhada, a bonita tarefa de educar os filhos dos outros, a minha gratidão eterna. Por quem são, pela forma como o são e sobretudo por se darem todos os dias, inteiros, àqueles por quem temos um amor sem fim.

Tenho cá para mim que foi a vida que vos escolheu a vocês, porque sabe da grandeza da tarefa e da importância de se tornar eterno no coração das nossas (vossas) crianças, ensinando-as a fazer do crescimento, a mais bela das histórias de aventura.

“Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

Há uns tempos partilhei um texto sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam de facto novos desafios, reflexo da sociedade na qual se integram, sobre os quais é importante refletir.

Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com as crianças de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

Não meus senhores, eu não entendo…

Não meus senhores, eu não entendo que se deixem as crianças ao portão da escola e não se possa sorrir ao professor, e aos funcionários e às outras crianças, desejando-lhes um dia feliz;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas se tenham tornado jardins de betão, sem terra, nem árvores, nem cor;

Não meus senhores, eu não entendo que a seleção dos profissionais que cuidam das crianças todos os dias, não obedeça a uma listagem extensa de critérios rigorosos, que mais não fazem do que procurar garantir-lhes o direito de crescer com os melhores modelos;

Não meus senhores, eu não entendo que se acredite que para aprender é preciso sofrer e que por isso se continue a mandar escrever 30 vezes: “Não volto a falar sem pôr o braço no ar!”;

Não meus senhores, eu não entendo que os programas curriculares se pensem de forma a espartilhar e a matar a criatividade do professor, impedindo-o de ensinar a paixão pelo conhecimento, vivendo-a;

Não meus senhores, eu não entendo que sempre que uma criança que se atrasa ou se engana num exercício da aula, fique proibida de ir ao intervalo e definhe, mais 30 minutos, sentada na mesma cadeira onde está cerca de 7 horas por dia;

Não meus senhores, eu não entendo que nos corredores das escolas se grite, se ameace, se mande caminhar em fila indiana encostada à parede, como se essa fosse forma de manter o controlo e de ensinar a crescer;

Não meus senhores, eu não entendo que uma família deixe de jantar tranquilamente ou de ir ao parque ou de ver filmes no sofá, só porque há três fichas de matemática, duas de estudo do meio e ainda um ditado para fazer;

Não meus senhores, eu não entendo que as escolas promovam desfiles de vaidades (dos pais e da própria escola), com base nas notas dos testes, deixando de fora centenas de crianças que, só por serem crianças, mereceriam todos os louvores;

Não meus senhores, eu não entendo que se pense e se apregoe, que um aluno bem comportado é um aluno que se cala e obedece;

Não meus senhores, eu não entendo que se desista de uma criança apenas e só porque ela dá trabalho e esse trabalho cabe à família.

Não meus senhores, eu não entendo…

Mas há, felizmente, quem a mim me entenda.

E é graças a eles e a elas, e à forma como amam aquilo que fazem, à forma como superam o cansaço e a frustração das histórias difíceis que lhes caem ao colo, como não esquecem a enorme honra e a responsabilidade que trazem dentro e, sobretudo, à forma como reconhecem que têm em mãos o maior legado de todos, que a escola há-de conseguir TRANSFORMAR-SE.

E assim ensinar, a quem nela vive a acreditar que afinal, as pessoas, são mesmo o melhor que a Escola tem.

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.