Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, sempre que faz uma descoberta. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos, na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

Mãe, quero ir brincar! Já fizeste os trabalhos de casa?

E porque a distância é a melhor conselheira, aproveito os dias que antecedem o ano letivo para recuperar um tema que me é tão querido: O bom do trabalho de casa.

Trago-o também porque foi levantado de chofre pelo meu filho, ontem no regresso da praia, com da seguinte pergunta: “Mamã, trabalhar é a melhor coisa do mundo?”

A resposta estava-me na ponta da língua: “Trabalhar naquilo que gostamos é uma das melhores coisas do mundo, meu amor.”

Resposta aceite.

Next round, porque a cabeça aos cinco anos fervilha e não arrefece: “Fazer trabalhos da escola é a coisa mais importante da vida? O M. diz que sim…”

A resposta foi outra vez imediata e fácil: “Não!” Mas desta vez foi seguida do peso da responsabilidade parental, que me fez morder a língua para não iniciar um discurso anti-trabalhos-de-casa e continuei… “Há trabalhos de casa que podem ser importantes, se nos ajudarem a saber mais e a descobrir coisas novas.” (Blarghhh, não era bem isto, mas foi o melhor que consegui…)

Resposta aceite.

Aproveitei a satisfação temporária para não me alongar no discurso. Deixo-o para depois, aquando da entrada no 1º ciclo, na esperança de que tenhamos sorte porque há cada vez mais professores e pais a defender que:

As crianças passam demasiado tempo na escola, para terem ainda de trazer o trabalho da escola para dentro de casa. Já chega de contas, já chega de letras impostas, já chega de problemas por resolver. Não quer isto dizer que não acompanhemos o seu crescimento enquanto alunos, que não falemos sobre as aprendizagens realizadas e até que não arranjemos forma de lhes mostrar a sua utilidade nas coisas do dia-a-dia, consolidando as aquisições feitas. Quer isto dizer, que há tantas outras maneiras interessantes de o fazer que não envolvem fichas, cadernos, cadeiras e mesas.

O regresso a casa deve ser o regresso ao tempo em família, ao tempo para não fazer nada, ao tempo para respirar, ao tempo para jantares e conversas demoradas e histórias bonitas para dormir. Ora, se quando chegamos a casa, com o sol a pôr-se, ainda tivermos que nos sentar à mesa e olhar com os olhos pesados de cansaço para as fichas de um livro, vamos ter de deixar todas as outras coisas para depois… E o depois tarda em chegar, porque no dia seguinte começa tudo outra vez.

Não há nenhuma associação entre a realização de trabalhos de casa e o sucesso escolar. São vários os estudos que deitam por terra a ideia de que os alunos que fazem muitos trabalhos de casa, são melhores alunos. Aliás, de acordo com a neurociência, o que as crianças aprendem durante o dia de escola, só é metabolizado nessa noite, o que, traduzido em miúdos, significa que “mastigar” a matéria dada no próprio dia não serve absolutamente para nada. Este argumento seria suficiente para convencer os mais céticos, não?

O melhor motor para a aprendizagem é a curiosidade e as crianças sabem como ninguém pô-lo a funcionar. É através da curiosidade sobre o que acontece à sua volta, que exploram e aprendem, motivando-se a si mesmas a saber mais e a descobrir o mundo. Ora se essa curiosidade nasce do lado de dentro, se estivermos constantemente a estimular a criança até ao limite e a cansá-la com excesso de trabalho, não estamos a permitir-lhe o espaço necessário para que se reorganize, para que consolide as aprendizagens feitas, alimentando a sede das que virão. Depois de um dia intenso de escola e de estímulos, o tempo para “não fazer nada” ou para inventar o que fazer, deve ser entendido como um tempo sagrado, pela importância que assume no bem estar cognitivo e emocional infantil.

É preciso brincar. Muito e todos os dias. E para brincar é preciso tempo, tempo esse que num dia normal de uma criança se circunscreve aos 20 minutos de intervalo da manhã e às duas horas entre o regresso a casa e o jantar, que muitas vezes ainda têm de ser divididas entre outras tarefas. São tantas as investigações que provam que o hábito de brincar ajuda a desenvolver a alfabetização, favorece a leitura, a familiaridade com os números, promove a criatividade, potencia a criação de laços afetivos e o treino de competências pessoais e sociais, que é difícil entender porque é que a brincadeira é a primeira a saltar do barco, sempre que achamos que a criança precisa de melhorar os resultados na escola.

E depois de tudo isto e porque falamos de coisas sérias, continuemos a pensar sobre o assunto para que, em conjunto (pais, professores, educadores…), não tenhamos medo da mudança e mantenhamos a coragem de questionar o hábito e contrariar as ideias feitas, aprendendo sempre mais sobre aquilo que fazemos e sobre aquilo que podemos fazer melhor.

Tudo, pela causa mais importante do mundo: ajudar miúdos a crescer, mantendo acesa a chama da paixão por aprender, que naturalmente trazem dentro.

P.S – Bom ano letivo. Com poucos trabalhos de casa. Ou muitos, como este…

Pré-adolescência, essa bela localidade…

Falamos muito sobre a adolescência, falamos ainda mais sobre a infância mas pouco falamos sobre a transição de uma fase para a outra, sobre as mudanças que chegam de mansinho (ou de rompante) e, sem pedir licença, se instalam na vida deles e na nossa, conduzindo-nos a todos às naturais mudanças e reajustes.

É geralmente a partir dos 9/10 anos, que começam a surgir os primeiros sinais de que a adolescência está próxima e, muito embora estas alterações sejam vividas de forma única por cada criança e por cada família, existem alguns comportamentos típicos nesta altura:

Maior necessidade de espaço próprio. Às vezes oiço pais a dizer: “Em minha casa não há portas fechadas!” Percebo. Mas percebo também, que a partir de uma determinada altura, eles começam a sentir falta desse espaço, a gostar de estar mais tempo sozinhos e a precisar de uma maior privacidade e respeito pelos espaços individuais. Estar por perto mas permitir uma maior intimidade nos cuidados pessoais, no banho, no tempo passado no quarto, são boas premissas e não são incompatíveis com o tempo em família. Pelo contrário, são perfeitamente conjugáveis, e devem sê-lo.

Maior irritabilidade, às vezes sem razão óbvia ou facilmente identificável. Atividades ou brincadeiras anteriormente aceites, podem tornar-se extremamente intoleráveis nesta altura. Não insistir, respeitar e sobretudo não ridicularizar, sendo sensível às mudanças (e não fazendo delas um cavalo de batalha), pode ser uma boa ajuda. Para todos.

Rejeição de atividades anteriormente desejadas, como determinadas brincadeiras ou programas de tempos livres, por exemplo. Importa aqui compreender e permitir que a seleção e a experimentação se faça espontaneamente. Lembra-te: a pré-adolescência permite que se comece a preparar terreno para aquisições importantes: um maior auto-conhecimento, a definição de uma identidade própria, uma maior autonomia… E para isso, é preciso experimentar, rejeitar, mudar de opinião, arriscar coisas diferentes.

Mau humor ou estados de tristeza mais frequentes. Geralmente, as crianças a partir desta idade experienciam mais emoções negativas e isso não significa que exista algum problema, mas sim que estão em processo de adaptação e a aprender a lidar com os estados emocionais de uma forma mais complexa. Se estiveres triste e eu te acenar com um gelado, a tristeza desaparece? Não. Pois a partir desta idade, começa a ser semelhante.

Se para nós estas alterações nem sempre são pacíficas ou até esperadas nas idades de que falamos, não é menos verdade que para eles, que as vivem na primeira pessoa, também não. E é por isso que é tão fundamental conhecê-las e aceitá-las como adaptativas e parte integrante do fantástico processo de crescer.

Não esquecendo nunca, que aos pais, cabe o papel de porto seguro no meio das águas (por vezes agitadas) do crescimento dos filhos. Aos filhos, a coragem de navegar e de tornar sua, a rota a percorrer.

É através dela que se tornarão, progressivamente, capazes de se compreender melhor, de compreender os outros, de desenvolver relações afetivas coesas e seguras, de pensar o futuro e ter vontade de rumar aos portos seguintes. Com a esperança e a vontade que lhes é merecida.

Afinal, de mares calmos, não reza a história dos bons marinheiros.

 

“Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

Há uns dias partilhei um texto, já publicado, sobre a tão corriqueira “palmada pedagógica”. Fundamentei a minha opinião sobre o assunto, com base nas minhas convicções pessoais, no trabalho que desenvolvo com crianças, jovens e famílias e claro, na minha vivência enquanto mãe.

O que se seguiu foi um sem fim de comentários acesos, alguns a concordar com o que era defendido, outros a contestar a ideia, defendendo que as palmadas são benéficas para as crianças e constituem “corretivos” indispensáveis ao crescimento e à aprendizagem. Até aqui tudo bem, não estava à espera que todos concordássemos com uma ideia que é afinal contrária a tudo aquilo que aprendemos ao longo da nossa existência. Até aí tudo bem, até porque acredito e defendo que é nas diferenças e na capacidade de as pormos em comum, que podemos avançar e crescer enquanto seres humanos.

Aquilo que verdadeiramente me assustou (a par do ódio que as pessoas são capazes de destilar na defesa dos seus argumentos), foi ver repetir-se a ideia de que o problema dos jovens de hoje reside na falta que têm de umas belas bofetadas. Assustou-me perceber que há pessoas que julgam que os limites se impõem pela violência e que, à falta de melhor, é com violência que se resolvem as dificuldades e se dá o exemplo. Assustou-me, sobretudo, porque sei que a maioria dos miúdos que manifesta problemas de comportamento na adolescência são precisamente, aqueles que cresceram a ser batidos, a não serem ouvidos, que confundem amor com pancada e que desenvolvem vínculos afetivos de enorme fragilidade com os seus cuidadores.

Confrontar-me com estas ideias trouxe-me à memória a pergunta que tantas vezes oiço: “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?” E muito embora ache que parte desta ideia tem origem naquilo que gosto de pensar como uma espécie de saudosismo geracional, que nos leva a achar que no nosso tempo as coisas corriam sempre melhor, considero que as crianças e os jovens que hoje enfrentam, de facto, novos desafios sobre os quais é importante refletir. Estes são, na minha opinião, alguns deles:

Cansaço emocional e físico das pessoas em geral e dos pais em particular. Vivemos a um ritmo alucinante, queremos fazer tudo e estar em todo lado, trabalhamos 8h por dia (na melhor das hipóteses), os miúdos entram no infantário aos 5 meses de idade e por lá ficam 8h também. A tudo isto, acresce o facto da vida em comunidade ter deixado de existir, o facto da maioria dos avós trabalhar também e a dificuldade de criar redes de suporte social que permitam às crianças mais tempo em família. Deixa mossa, vos garanto.

Obsessão pelo mundo digital. Se eles são nativos digitais, nós somos emigrantes e andamos a absorver demasiado rápido tudo o que nos encanta neste admirável mundo novo. São os likes nas fotos e nas frases feitas, são as selfies para mostrar a vida boa que levamos, é a aplicação XPTO que promete fazer milagres e poupar tempo… É a estimulação excessiva, constante, frenética, que nos faz andar à roda, maravilhados e, mais grave ainda, levá-los a reboque. Não come? Distrai-o com o vídeo do Panda e enfia-lhe mais uma colher na boca. Não dorme? Põe a música da Xana TocToc a tocar ao pé da cama. Birra no restaurante? Por sorte trouxe o Ipad e sempre dá para se entreter um bocadinho. E de repente, ninguém está onde deveria estar, ninguém sente o que devia sentir.

Estilo de vida sedentário. Quantos de nós subiram às árvores, inventaram brincadeiras com canas e paus, desapareceram horas sem fim a explorar o terreno à volta da casa dos avós, apanharam nêsperas, ficaram de molho no rio até ficar com a pele enrugada? Quantos miúdos têm a oportunidade de experimentar estas e outras coisas? Quantos miúdos têm o privilégio de se aborrecer porque não há nada para fazer e de terem de arranjar uma solução? Poucos, muito poucos, arriscaria eu. Há o tablet, há a consola, há o sem fim de tralha de plástico no quarto, há a televisão… E depois há o shopping, o cinema, as pipocas, o supermercado, a pizza encomendada… Tudo dentro de quatro paredes, enquanto a vida lá fora acontece, sem que percebam como.

Falta de tempo com os outros e para os outros. Cada vez mais tenho a sensação de que as pessoas vivem sozinhas, de que as famílias crescem isoladas. Pais a viver para os filhos, filhos a receberem a atenção exclusiva dos pais. Perde-se o hábito de abrir a porta de casa, perde-se o hábito de arriscar amigos novos e de mansinho, vamos desaprendendo a gostar de pessoas. O resultado? Começamos a acreditar que a mensagem de telemóvel substitui o abraço, que se a relação não está a dar, o facebook pode dizer-lhe isso por mim, que se eu tenho 3000 amigos virtuais, é porque sou mesmo boa pessoa… Poupa-se tempo, poupam-se emoções, foge-se à frustração e vive-se ao ritmo do gosto fácil da gratificação imediata.

E porque as palavras vão longas e já não somos assim tantos a ler tudo até ao fim, termino, com a pergunta que deu o mote a este texto:

– “Mas o que é que se passa com os miúdos de hoje?”

– “É falta de umas belas bofetadas!”, continuarão a responder alguns…

 

Nota: A fotografia fantástica que ilustra este texto é da Lília Nunes Reis e ao olhar para ela, ocorre-me sonhar que ainda é possível impedir que cresçam, a achar que voar é uma doença…

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu pairava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas por alguém. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse (porque às vezes, de algumas pessoas, ainda conseguimos proteger-nos), ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

Acreditar que o futuro vale a pena. (5 de 5)

E que vale a pena treiná-lo!

Saber que a adolescência é um período de aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção a esse futuro.

É por isso importante, ajudá-los a que desenvolvam aprendizagens que lhes facilitarão a vida mais tarde, preparando-os para lidar com os diferentes desafios que se lhes coloquem, quando entrem para a faculdade ou aquando da procura do 1º emprego.

Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, não estaremos a protegê-los mas sim a impedir que desenvolvam as estratégias necessárias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem.

Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade, tão importantes na idade adulta.

Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas para a solução dos problemas com que se deparem, fá-los também sentir que confiamos na sua capacidade para superar os desafios.

Finalmente, e sobretudo porque fazer escolhas no momento de instabilidade profissional e social atual pode ser sentido como algo extraordinariamente ameaçador, é importante ajudar a focar nos pontos positivos, que representem uma oportunidade de crescimento: o desenvolvimento de diferentes competências, a possibilidade do desempenho de tarefas variadas, a aprendizagem e, sobretudo, a valorização das experiências e características pessoais de sucesso.

Promover cenários positivos para o futuro, é fundamental para que os filhos se interessem por prepará-lo e assim se sintam capazes de superar todos os desafios e conquistar o mundo.

Que assim se mantenham. Curiosos, corajosos e especiais.

Na prática: Definir em família a partilha de responsabilidades e a participação de todos nas tarefas e rotinas da casa, desde cedo, é importante para que treinem competências como a cooperação, a partilha e a responsabilidade. A gestão do próprio dinheiro através de uma mesada, a experiência de uma viagem com amigos, a responsabilidade da lista de compras de supermercado, a confeção de refeições para a família, entre outras, são oportunidades que permitem estimular a autonomia e a independência dos nossos filhos, ajudando-os a preparar o futuro. Ajudar a identificar situações anteriores que tenham realizado pela primeira vez e em que se tenham saído bem, ajuda a que se sintam mais confiantes e não tenham medo de arriscar as diferentes opções, não desistindo nunca de tudo aquilo que poderão conquistar na vida.

O que eles precisam de ti…

“Não vale a pena. Na maior parte das vezes, ninguém lá em casa se interessa pela minha opinião ou sequer conhece as coisas que me preocupam. Simplesmente, já me habituei.”

Ela chama-se Joana. Tem 15 anos. Tem uma família que a ama. Sabe disso. Mas às vezes, sabê-lo não é suficiente, mesmo que nos digam que assim é. Às vezes (muitas vezes), é preciso sentir. É preciso que aqueles de quem mais gostamos, parem a rotina dos dias, nos olhem nos olhos e perguntem: “Como estás?” E depois sejam capazes de esperar pela resposta, e ouvi-la. Com o corpo todo.

A história da Joana, que se assemelha às histórias de muitos outros miúdos que conheço, faz-me pensar sobre aquilo que os nossos filhos podem precisar de nós, sobretudo quando entram na adolescência e lidam com um sem fim de mudanças, às vezes tão difíceis de integrar. Profundamente crente que a consciência que temos, enquanto pais e mães, destas necessidades pode ter um impacto importante na relação que com eles construímos todos os dias, melhorando-a, arrisco-me a propor que pensemos naquilo que os filhos adolescentes precisam de nós:

Precisam dos nossos limites. Poder-se-ia pensar que o que mais desejariam no mundo seria andar por sua conta e risco, sem horários, nem justificações. Nada disso (e são eles que o dizem!). Não existe sensação de maior segurança afetiva do que a de saber que existe alguém que se preocupa, que espera por nós, que se zanga quando pisamos a linha para além do aceitável. Faz-nos sentir amados. Estabelecer as regras da família, que incluem os horários de regresso, as tarefas em casa, mas também o respeito e a clareza dos diferentes papéis familiares, e acordar consequências para o não cumprimento do que foi definido, é fundamental para que se sintam mais seguros. De quem são e do que esperam de si.

Precisam que os libertemos. Embora às vezes surja alguma confusão em relação a este assunto, permitir-lhes mais liberdade nada tem a ver com a ausência de limites. Tem a ver com deixá-los experimentar coisas novas, ser autónomos, conquistar responsabilidades, fazer amigos… É assim que conhecem o mundo e se preparam para se tornarem adultos.

Precisam que os saibamos ouvir. Eles precisam de falar. Uns fazem-nos com mais facilidade e com mais pormenor do que outros, mas fazem-no, sempre que lhes é dada oportunidade ou quando sentem que é o momento. Ouvir até ao fim, sem a pretensão de acharmos que já sabemos o que vai sair dali (mesmo que em 99% das vezes seja verdade…). Ouvir sem criticar e sem fazer piadas irónicas. Ouvir, tentando imaginar o que sentem. E sempre, entender os silêncios e não desistir.

Precisam dos nossos mimos. É natural enchê-los de beijos e de festas quando são pequeninos e fofos. À medida que crescem, podemos facilmente perder o hábito do toque. Ou porque eles rejeitam, ou porque nos sentimos sem jeito. É normal que não queiram andar a receber beijos constantes da mãe ou do pai (sobretudo se há amigos por perto), mas saber-lhes-á muito bem receber um beijo ou um abraço apertado de bons dias, ou uma festa na cabeça quando passamos por perto. O toque é importante e deve manter-se como forma de comunicação, ainda que com o devido enquadramento que esta fase de vida geralmente exige.

Precisam que os queiramos conhecer. Sim, nós conhecemo-los melhor do que ninguém, mas eles continuam a mudar todos os dias. Saber mais sobre a música que ouvem, a pessoa de quem gostam, as dificuldades que têm na escola ou os projetos de vida, dá-nos muito tema de conversa e fá-los sentir que somos capazes de nos descentrar de nós e daquilo a que estamos habituados, e aprender.

E porque esta reflexão já vai longa, talvez porque enorme é o desafio de ajudar um filho a crescer, há uma coisa que eles precisarão sempre, por mais anos que passem: Precisam que acreditemos, sem nunca desistir da pessoa que são.

A vida às vezes não é fácil e a adolescência não o é com toda a certeza (lembras-te?). É não sabermos bem quem somos e absorvermos tudo o que dizem de nós. É arriscar o que nunca se fez e, quando dá para o torto, achar que é o fim o mundo. É um sem fim de coisas novas a acontecer que constantemente desafiam e ameaçam a pessoa que queremos ser. E claro, no meio de todo este turbilhão de emoções e de incertezas, é preciso alguém que acredite, que insista e que diga: “Vai em frente!”. Todos os dias.

É pela importância disto que as bancadas da primeira fila estão reservadas às mães, aos pais, aos avós… É por causa disto que eles as procuram com os olhos e sorriem por dentro, sempre que as encontram cheias.

“Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Terça-feira. Oito e meia da manhã.

Estávamos a tomar o pequeno-almoço, ou melhor, estávamos a engolir o pequeno almoço, porque o tempo “rugia” e dentro da minha cabeça piscavam, em luzes néon, as frases de sempre: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto!

O Manel que adora conversar, prosseguia com as suas reflexões, aparentemente alheio ao meu histerismo matinal. Continuámos ambos nos nossos devaneios, até chegarmos ao tema tabu (sobretudo quando já devias ter saído de casa há pelo menos 30 minutos): “Mãe, eu não quero ir à escola!”

Na minha cabeça, a tempestade intensificou-se com a tão temida variável: É tardíssimo! Vais chegar atrasada! Não dás conta disto! O teu filho não quer ir à escola!

Merda! E agora?

E ali, no meio do caos, não sei como (mas talvez porque ando a aprender uma coisas), respirei fundo, voltei a sentar-me ao lado dele e perguntei-lhe: “Porquê passarinho?”

Do alto dos seus 4 anos de vida (que às vezes mais parecem 40), o Manel respondeu-me: “Porque na escola toda a gente decide o que fazer por mim. Dizem quando é para brincar, dizem quando é para sentar, dizem quando é para ir para a rua, quando é para pintar, quando é para dormir…”

Eu, pensei com os meus botões: Agora é que a arranjaste bonita, porque a criança tem toda a razão… e respondi-lhe, em modo “desculpa esfarrapada”: “Mas sabes filhote, a tua sala tem muitos meninos e por isso as atividades têm de estar mais organizadas para que as coisas possam funcionar melhor.”

Ele, olhou para mim como se eu estivesse a milhas do cerne da questão e disse: “Eu sei mamã, mas eu não gosto de ser comandado…”

Dei-lhe um beijo. Acabámos o que restava dos cereais, lavámos os dentes, vestimos os casacos e saímos.

Na viagem até à escola, surgiram espontaneamente outras conversas. Falámos da primavera, falámos do mealheiro para a viagem à Nova Zelândia, falámos do projeto da casa na árvore a fazer com os avós. À chegada, demos o abraço do costume e eu repeti a frase de todos os dias: “Brinca muito, meu amor”.

Passei o dia a pensar nisto. Passei o dia a pensar que disto, eu não ia conseguir protegê-lo. Que nesta matéria, eu nem sequer conseguia ser grande fonte inspiração. Ou pelo menos, sê-lo na maior parte do tempo.

Sou comandada pelo tempo, sou comandada pelo dinheiro, sou comandada pelas convenções sociais, sou comandada pelo que esperam de mim, pelas tarefas que tenho de terminar, sou comandada pelas 8, ou 9, ou 10 horas de trabalho diário. Pela lista do supermercado. Pelo mapa de férias. Pelo despertador. Pela roupa para lavar. Pela mudança de horário.

Na maior parte do tempo, sou comandada por um sem fim de passos pensados, que tantas vezes me sufocam e que em tantas outras me fazem falta, como se deles dependesse para ser quem sou.

Ele, é arrastado neste frenesim constante e aprende, como bom menino que é, a ser um bom soldadinho. E eu, só queria poder dizer-lhe todos os dias quando o deixo na escola: “Brinca o que te apetecer, meu amor. Porque vais poder fazê-lo a vida inteira.”

 

Nota: A imagem que me diz tanto é da Lília Nunes Reis, e traz à tona esta minha vontade de que ele não se fique pelas “chaves” que lhe dão. Porque são únicas e infindáveis as portas que nos podem surgir pelo caminho… Obrigada Lília, mais uma vez. 🙂

 

 

Como se repara um coração partido?

Lembra-te das palavras ditas (ou das que gostarias de ter dito). Experimenta a tristeza. Revive a culpa, a vontade de correr atrás. E depois, a desilusão, o choro fácil, a mesma música no rewind, vezes e vezes sem conta, até chegares à promessa de não voltar a tentar.

A grande maioria de nós viveu o primeiro desgosto de amor na adolescência e por mais que saibamos (agora), que o tempo tudo cura e que a vida dá muitas voltas, seremos quase todos capazes de trazer à tona a dor de um coração partido e a certeza de que a vida nunca mais se faria feliz.

Uma das tarefas da adolescência é o alargamento das relações para além da família, a experimentação das primeiras ligações amorosas que cumprem uma função importante no desenvolvimento emocional e na preparação para os relacionamentos futuros.

Para nós, este é muitas vezes um momento difícil porque mesmo que já tenhamos lá estado, trazemos outras coisas na mochila, o que pode dificultar a tarefa de compreender o “tudo ou nada”, o choro inconsolável e a sensação de que o mundo desabou. Ainda assim, e muito por causa disto, é importante resgatar a memória do nosso adolescente apaixonado e, de forma empática, mostrar aos nossos filhos que estamos por perto e que podemos ajudar:

Validar sentimentos. Aposto que terás uma lista com meia dúzia de dicas óptimas sobre como poderão escolher o próximo namorado/a. Guarda-a no bolso e deixa-a para depois (talvez aos 40 eles a aceitem…). Mais do que conselhos ou palavras certas, o que eles precisam de ti é que os oiças, que os deixes chorar ao teu colo, pôr para fora aquilo que pensam. Mesmo que tudo pareça às vezes demasiado dramático, aceita-os no que sentem e fá-los sentir que estás disponível para compreender.

Normalizar o dia-a-dia. Encorajá-los a levantar da cama, a passar mais tempo com os amigos, a participar em atividades que ajudem a ocupar a mente e a descobrir outros motivos de satisfação, além de ser favorável à autoestima, estimula novas aprendizagens e, sobretudo, alimenta a relação com os outros, tão importante nos momentos de maior fragilidade emocional.

Aceitar que vida se faz destas coisas. Sim eu sei, mora cá dentro o desejo secreto de os proteger de tudo e de todos e por isso, sempre que alguém magoa os nossos filhos, “baixa” em nós uma espécie de avatar vingador, pronto a defender a cria. Por mais que te apeteça dizer umas quantas coisas ao objeto do amor desiludido, controla-te e deixa a vida acontecer-lhes. E se há coisas que a vida lhes ensinará (e as relações falhadas também) é a lidar com a frustração, a aceitar a quebra das expectativas e a aprender sobre quem são e como são com os outros.

E finalmente, porque esta história de sermos pais implica ter uns olhinhos cravados em nós a cada segundo da nossa existência, há uma ideia de que gosto muito e que procuro ter presente neste meu percurso de mãe: a importância da experiência amorosa familiar.

É com a família que se conhecem as primeiras relações afetivas, que em muito serão preponderantes na qualidade dos laços que se criarão ao longo da vida. Se connosco aprenderam a dizer “gosto de ti”, a mostrar afeto, a defender o que sentem, a comunicar, a respeitar e a ser respeitados, será isso que exigirão nas experiências afetivas que venham a ter.

E só isso, já é meio caminho andado para que mesmo que o coração quebre, muitas e muitas vezes, persista a força e a coragem para apanhar os bocadinhos e alimentar a vontade de um amor maior.

Quando o gato lhes come a língua.
E demora a devolvê-la…

– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habitou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem:

Banalizar os momentos de conversa. Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária a que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata.

Fechar as perguntas. Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas. “Qual foi a aula mais interessante hoje? A de Português ou a de Matemática?” ou “ Numa escala de 0-10, como é que correu o teu dia?”

Partilhar quem somos. Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

Sermos honestos. “Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar fá-los sentirem-se respeitados.

Não levar a peito. Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que não vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

Dar asas à comunicação. A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

Propor alternativas. Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.