Sento-me sozinha para almoçar. Estranha, esta coisa de nos desabituarmos da nossa companhia, de passarmos a fazer cerimónia com a nossa própria solidão. Na cadeira em frente, a frase: “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Obedeço ao convite com a mão a tremer-me e a sacar-me a caneta do bolso. Agora tenho esta sina, das palavras me tomarem o corpo de assalto nos momentos mais inoportunos. Ou é quando me sento para comer, ou é quando decido deitar-me, ou é quando me deixo escorrer, inteira, debaixo do chuveiro. É como se quisessem ocupar-me espaço, ganhar protagonismo, sobrepor-se à satisfação das obrigações terrenas. Comer, dormir, respirar. Escrever, escrever, escrever. “Deixe aqui o seu tabuleiro”. Apetece-me engolir o arroz de pato e despejar no tabuleiro tudo o que não quero mastigar na alma. E o tudo, hoje, é tanto… Na mesa ao lado duas senhoras entretidas numa conversa sem interesse nenhum. O marido insuportável, a libido da vizinha de cima, as madeixas loiras demais feitas pelo cabeleireiro a que não voltarão. Toda a vida me aborreceram as conversas sem interesse nenhum. Aprendi a disfarçá-lo bem. Mantenho o esgar no sorriso, aceno delicadamente com a cabeça, vou rematando com meia dúzia de interjeições meticulosamente posicionadas, e nos entretantos, alheia ao clímax dos enredos, deixo-me voar por aí sem destino nem vontade nenhuma. Pergunto-me, se na mesa ao lado, as senhoras saberão que podem largar os martírios, as invejas e os queixumes no tabuleiro, junto aos guardanapos usados e às cascas de melancia. Pergunto-me se saberão que podem despejar-se todas no tabuleiro, entregar os maridos e as vizinhas e os cabeleireiros, assim, de bandeja, para não mais voltarem a pôr-lhes a vista em cima. Aposto que lhes saberia pela vida. Pela que querem esquecer e pela que ainda não desistiram de viver. Talvez as conversas se enchessem de reticências, o cabelo voltasse ao vermelho fogo e a pele se arrepiasse toda, apenas e só pela possibilidade leve do desconhecido.