Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também… 

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.

As coisas que os adultos às vezes não sabem…

Eram cinco e dez. Estávamos ambos à espera que os nossos filhos voltassem das atividades extracurriculares que tinham terminado às cinco.

Quando o filho chegou gritou-lhe aos ouvidos: “NÃO TENS RELÓGIO?!? SE CALHAR ESTÁS É A PRECISAR QUE O DEITE FORA PARA VER SE APRENDES. SE CALHAR ACHAS QUE NÃO TENHO MAIS NADA PARA FAZER, A NÃO SER ESTAR AQUI À TUA ESPERA!”

Eram cinco e dez. As atividades extracurriculares tinham terminado às cinco.

Não o olhou. Não lhe tocou. Não lhe disse olá. Deixou a porta bater e seguiu à frente, dono e senhor do mundo (e daquela criança), sem nenhuma noção daquilo que ali tinha acabado de acontecer.

Procurei o olhar do miúdo. Talvez tentasse que o meu lhe desse algum colo. Não consegui encontrá-lo.

Assim que a porta bateu, colou a cara ao chão e limitou-se a arrastar-se atrás do pai, com o hábito pesado de quem o faz todos os dias e nem sequer imagina que a vida possa ser de outra maneira.

Fiquei a vê-los subir a rampa, atravessar o portão, entrar no carro. Em nenhum momento se olharam, se tocaram ou sequer disseram olá.

Tive outra vez vontade de chorar. Tenho sempre.

E se, na pessoa que sou, procuro ter presente a importância de ler os outros de uma forma empática e cada vez mais justa, destapando as intenções que podem esconder-se no agir atabalhoado da nossa parentalidade, dou por mim a ter a certeza que os adultos às vezes não sabem o que fazem.

Mas deviam.

Os adultos às vezes não sabem que para educar um filho não é preciso aprender sobre filhos, é preciso aprender sobre nós. Sobre quem somos, sobre quem fomos, sobre os medos que escondemos, sobre as expectativas que nos toldam o sentir e até sobre quem desejaríamos ser, que tantas vezes nos confunde e nos afasta da melhor versão de nós próprios (e daquela que os nossos filhos efetivamente precisam).

Os adultos às vezes não sabem que é na infância que decidimos quem somos e que é na voz dos que nos cuidam que nos encontramos e ganhamos a força de saber que somos amados, sendo também ela que nos permite um dia amar alguém.

Os adultos às vezes não sabem que não são eles os mestres, mas sim as crianças que julgam aprendizes, e que todos os dias lhes dão enormes lições de vida, de coragem e de generosidade, que só podem ser ouvidas olho no olho e com o coração aberto e atento.

Os adultos às vezes não sabem que comportamento gera comportamento e que se é agressividade, desconexão e desamor que ensinamos, é assim que os nossos filhos aprenderão a relacionar-se também.

Os adultos às vezes não sabem que todos (sobretudo as crianças) lhes perdoarão os dias menos bons, as palavras desajeitadas, a falta de chão, desde que eles, os adultos, tenham a maturidade de o partilhar e de pedir desculpa, para assim serem lembrados também pelo erro, mas sobretudo pela humildade de avançar e de aprender.

Os adultos às vezes não sabem que mais do que serem filhos, os filhos são pessoas e que por isso, não são arma de arremesso, nem saco de soco, nem gruta onde se possa afundar o grito das frustrações e desalentos e tristezas que a vida traga. As pessoas, que também são filhos, merecem sempre a nossa melhor versão.

Os adultos não sabem, por fim, que saber amar é um dever das pessoas crescidas, precisamente porque já cresceram e porque já terão aprendido no caminho, que não há coração que não bata mais forte e não se abra ao mundo, sempre que sabe que há quem espere por ele à porta e ainda lhe diga num abraço: Tive tantas saudades tuas…