O tipo de amor que dói.

A Sara saiu a correr da sala. Quis ser a primeira a chegar ao bar. Nem teve tempo de anotar as dicas do professor de Filosofia para o teste do dia seguinte. O João detestava estar na fila e era dela a tarefa de assegurar que isso não acontecia. “Sim, é a tosta mista de sempre. Bem tostadinha, como ele gosta…”

O Sérgio idolatrava a Inês. Há séculos que andava atrás dela. Finalmente tinha conseguido que olhasse para si e há algumas semanas que saíam juntos. A Inês dizia-lhe que tinha potencial, mas que se queria estar com ela, havia coisas que tinham de mudar. O cabelo, a música que ouvia, a forma de falar, até as tardes de jogos de xadrez com os amigos de sempre. “Não posso deixar que pensem que ando com um totó”. O totó era ele, mas se calhar ela tinha razão.

A Bia adorava pessoas. Tinha amigos em todo o lado e nunca lhe faltava programa. Quando conheceu a Marta, achou que era amor para a vida toda. Uma cumplicidade única, a gargalhada sempre a saltar da boca. A forma despreocupada de encarar a vida. Já andavam há 6 meses e a Marta começou a achar que precisavam de mais tempo para estar juntas. “Um amor a sério não precisa de mais ninguém”. A carteira da sala era a mesma, a mesa na cantina encostada à parede também, os dois bancos no cinema, o único número de telefone… As amigas já não ligavam, a Bia estava uma “cortes” e já não havia nada a fazer.

O Paulo já tinha tido relações sexuais. Para a Ana, era a primeira vez. Falaram sobre o assunto, mas ela ainda não estava bem segura se o passo seria para já. Num dos dias em casa do Paulo, as coisas aqueceram e a Ana achou que sim. Quando tiraram a roupa interior, ele tentou penetrá-la e ela empurrou-o: “Espera. Não sei se quero.” Fingiu não a ouvir, disse-lhe que isso não se fazia a um gajo e que agora era para ir até ao fim. A Ana não se lembra de mais nada, só das lágrimas a aquecerem-lhe a pele e da sensação de sonho desfeito. Assim que pôde, levantou-se, vestiu-se e saiu. Nunca mais o viu.

A Inês já o tinha avisado: “Se me deixas faço-te a vida negra.” O Tiago sabia do que ela era capaz, mas já lhe bastava um ano inteiro de cenas à frente de toda a gente, discussões constantes, insultos. Nem sabia como é que tinha aguentado tanto tempo. Os amigos ajudaram-no a ganhar coragem e o Tiago disse à Inês que ficavam por ali. A calma dela surpreendeu-o, deu-lhe um abraço e seguiu caminho. No dia seguinte, ao entrar na escola, sentiu as risadas à volta, o burburinho, os olhares… Valeu-lhe o Pedro que o agarrou e lhe disse: “Meu, não te passa as coisas que a Inês anda a dizer de ti na net. Até um vídeo vosso na curtição lá anda…”

São estas. São outras. São muitas.
Infelizmente, conheço algumas.

Infelizmente sei que o tipo de amor que ensinam é amor que dói. É amor que acredita que o ciúme apimenta a relação. É amor que só precisa do outro para ser feliz. É amor que sabe que o sofrimento e as lágrimas o tornam mais forte. É amor que acha que há coisas tão íntimas que não devem ser partilhadas com mais ninguém. É amor que às vezes perde a cabeça, mas que só queria ajuda para mudar.

É amor que não mata mas mói. Ou melhor, é amor que pode matar.

E é preciso que todos saibam disto, que todos se metam no assunto, que agarrem a mão que ainda está livre e que esperem que a outra se liberte.

É preciso que o façamos. Sempre. As vezes que forem necessárias.

A violência no namoro é crime público e alimenta-se de todas as vezes em que fechamos a boca e olhamos para o lado: “Eles lá sabem entender-se…”

Não, eles não sabem. E há ainda quem não queira ser amado assim…

 

P.S – Um em cada quatro jovens portugueses são vítimas de violência no namoro. Podem ser os teus filhos, os teus amigos, os teus vizinhos… É por isso fundamental valorizar o assunto e saber mais (podes fazê-lo aqui), partilhando e refletindo a informação com eles.