…Que a comer bem, se cresce bem.

Conheço a Ana desde a minha infância.
Crescemos juntas no banco de jardim da praceta onde a minha avó morava e mesmo depois de alguns anos sem nos vermos, quis a vida que continuássemos a escrever a história, desta vez pela mão dos nossos filhos. E tem sido tão bom descobrir que o essencial não nos fugiu com os anos e que a empatia e o sorriso se mantêm de boa saúde e para ficar.

A Ana é nutricionista e a paixão pela alimentação e pela diferença que aquilo que se come pode significar no bem estar das pessoas, fê-la dedicar-se a tempo inteiro a um projeto pessoal que tem como missão ajudar as pessoas a tornarem-se mais saudáveis e mais satisfeitas com o seu peso e com quem são. Assim, para além das consultas de nutrição que assegura (a um valor atento às necessidades atuais e capaz de fazer chegar a todos e a todas a possibilidade de usufruir desse apoio), a Ana ainda é responsável pelo projeto Quintal Saudável, no qual nos brinda generosamente, com menus diários, cuidados e equilibrados, tendo como base a dieta mediterrânea e como premissas o sabor e a criatividade.

A Ana aceitou o meu convite e inaugura este nosso cantinho com algumas ideias pensadas para pais de adolescentes, relativamente à alimentação nesta fase de vida. Ora aproveitem muito, e já agora vão escolher uma receita boa para experimentar em família. 😉

Como deve ser pensada a alimentação na adolescência?

Alimentar-se de forma equilibrada e variada durante a adolescência é tão importante como em qualquer outra fase do crescimento. No entanto, muitas necessidades têm de ser supridas para assegurar o rápido desenvolvimento que acontece nesta fase de vida. Assim, podemos considerar que um dia alimentar saudável deve ser composto por 5 a 6 refeições – pequeno-almoço, meio da manhã, almoço, meio da tarde, jantar e, caso se justifique, a ceia, assumindo como regra que o intervalo entre refeições seja próximo das 3 horas/máximo.

Que dicas práticas podem ser úteis?

Devem ser evitados bolos, cereais muito açucarados, sumos/refrigerantes, croissants e folhados com cremes, pãezinhos com chocolate, leites achocolatados ou iogurtes com guloseimas incorporadas. Se os nossos filhos não gostarem de legumes ou saladas, desde que comam a sopa já não é problemático. Tentar colocar na sopa as verduras que normalmente são rejeitadas no prato, pode ser uma estratégia, por exemplo. O mesmo se passa com a fruta, quando a evitam, podemos tentar sugerir em batido com leite ou uma sobremesa com fruta triturada. É importante ter atenção aos sumos naturais que normalmente levam uma grande quantidade de fruta (+- 3 peças por copo) e são muito ricos em açúcar. São boas fontes de vitaminas e minerais, mas pobres em fibra, por isso podem ser oferecidos 1 a 2 vezes por semana.

Podes dar-nos um menu diário que consideres equilibrado nesta fase de vida?

Sim, claro. Existem muitas possibilidades mas estas podem ser algumas delas:

Pequeno-almoço: deve ser composto por um lacticínio ou substituto vegetal + cereais integrais com pouco açúcar/ pão escuro/ tostas + fruta

Exemplos: 

  • Leite + flocos de trigo integral tostados + banana
  • Leite + pão integral/ sementes + fiambre de aves + 1 kiwi
  • Iogurte natural + flocos de milho + maçã
  • Tostas integrais + queijo de barrar + 1 laranja
  • Leite + pão torrado + manteiga

Meio da manhã: pode incluir 1 peça de fruta + bolachas/ tostas integrais/ pão/ iogurte/ queijo/ frutos secos

Exemplos: 

  • maçã + bolachas de arroz/ integrais
  • iogurte + bolachas/ tostas integrais
  • fruta + iogurte
  • fruta + frutos secos
  • fruta + gelatina sem açúcar
  • palitos de cenoura + tostas integrais + queijo fundido
  • maçã + queijo flamengo + 2 nozes

Almoço: deve ser composto idealmente por uma sopa de legumes + segundo prato – com uma proporção correta dos alimentos ( ½ prato de vegetais + ¼ prato fonte proteica + ¼ prato fonte de hidratos de carbono)

Meio da tarde: deve ser constituído por derivado lácteo ou substituto vegetal + cereais/ pão / tostas + fruta.

Exemplos:

  • pão com queijo + fruta ou sumo natural de fruta
  • cereais integrais + leite/ bebida vegetal + fruta
  • pão com fiambre de aves + iogurte + fruta
  • batido de leite e fruta + bolachas integrais
  • tostas com queijo de barrar + tomate cereja + chá
  • pão torrado com queijo-fresco + fruta

Jantar: deve ser semelhante ao almoço.

Sabemos também que a alimentação desempenha um papel fundamental nos períodos de maior stress e exigência intelectual. Que sugestões darias de alimentos benéficos em período de exames, por exemplo?

Existem alguns alimentos que ajudam a melhorar a concentração e a memória, mas é necessário incluí-los numa base diária, e não somente em alturas de exames. Talvez o mais importante seja não os descurar nestas alturas mais exigentes do ponto de vista intelectual. Destaco os alimentos fornecedores de ómega 3 – salmão, sardinha, atum, cavala, óleo de fígado de bacalhau, sementes de chia/linhaça, nozes – necessário para o desenvolvimento do tecido cerebral; alimentos ricos em antioxidantes (frutos vermelhos, frutos secos, legumes e fruta em geral). E, porque a principal fonte de energia do cérebro são os açúcares, estes também têm um papel muito importante. Devem ser escolhidos os de absorção lenta – leguminosas, arroz, massa, batata, pão escuro, cereais integrais – que fazem com que os níveis de glicose no sangue se mantenham mais estáveis.

E em relação a uma das grandes preocupações atuais, a do apelo ao consumo de fast-food, que acaba por ser muito popular entre os mais jovens, como é que podemos contribuir, enquanto pais, para escolhas mais conscientes?

Sabemos que é difícil conseguir controlar tudo na alimentação dos nossos filhos, mas uma vez não são vezes, e desde que a exceção não passe a ser a regra, podemos permiti-los esporadicamente. É importante, no entanto, dar-lhes algumas dicas acerca das melhores opções – escolher água em vez de refrigerante, carne grelhada em vez de bife panado, evitar comer toda a porção das batatas fritas e dos molhos que as acompanham… e sempre, fazer em casa versões mais saudáveis e até, convidar os amigos, para comprovar o sabor!

E qual é o papel dos pais e da família no meio disto tudo?

O mais importante na alimentação das crianças e adolescentes (como em tantas outras coisas) é precisamente o exemplo que damos em casa. Os pais serão sempre modelos de vida e o exemplo contagia…ter disponível e comer regularmente sopa, acompanhar sempre o prato com uma salada (variando o máximo possível), escolher maioritariamente água como acompanhamento da refeição, evitar fritos e os cozinhados com muita gordura e privilegiar os pratos mais simples e coloridos.

Ah, e deixar que eles participem sempre na seleção dos alimentos e na preparação da refeição. Isto vai encorajá-los a provar os seus próprios petiscos. (e se a cozinha ficar um caos, será mais uma oportunidade para ensinarmos mais qualquer coisa e trabalharmos em equipa.) 🙂

Ana Leal

Contactos: 912735486
Email: info@analeal.pt
analeal.pt
quintalsaudavel.com

Coisas que devem começar a acontecer, antes que os teus filhos se tornem adolescentes.

Advertência: este texto pode conter propostas susceptíveis de provocar o pânico nos mais sensíveis. Estão, intencionalmente, misturadas com outras sugestões mais toleráveis, para que não provoquem aos leitores nenhum piripaque. Estamos prontos? 😉

No outro dia, num jantar com amigos, falávamos sobre a forma como os miúdos crescem hoje em dia. A reflexão levou-nos, claro, à memória dos nossos dias de adolescência e ao vangloriar das coisas que já fazíamos sozinhos aos 12 anos. Esta conversa trouxe-me a ideia de que efetivamente, por razões várias, são capazes de existir algumas diferenças significativas e que a forma como os protegemos (sempre com a melhor das intenções), pode ser impeditiva de uma maior autonomia.

Posto isto, acredito que existem tarefas/responsabilidades que, mesmo que aparentemente simples, poderão fazer toda a diferença na forma como se farão à vida. O mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Importa por isso pensar um bocadinho no nosso papel nesta tarefa, tornando mais conscientes as vezes em que lhes facilitamos a vida (não facilitando nada) e na forma de ajudar a desenvolver comportamentos que lhes farão toda a diferença no futuro:

Acordar por sua conta e risco. Não me lembro quando tive o meu primeiro despertador mas seguramente já o tinha bem antes de chegar à escola secundária. Conheço miúdos que aos 16 anos continuam ferrados à espera do toque no ombro, para se despacharem para ir para escola. Pode ser um despertar mais suave, mas não durará para sempre e impede que se responsabilizem pela gestão dos seus horários e compromissos pessoais. E o miminho pode sempre continuar a ser dado, com um abraço apertado de bom dia. Nada se perde, muito se ganha.

Fazer o pequeno almoço ou cozinhar uma refeição para a família. Chegar à mesa e ter, literalmente, a papinha toda feita é óptimo, mas não contribui para que aprendam a desenrascar-se sozinhos. Dar-lhes a tarefa de pensar num menu e confecioná-lo para a família, é uma excelente maneira de começar e eu aposto que eles vão adorar a confiança de serem chefes por um dia (ou vários).

Escolher a roupa (pânico!!!). Fundamental. A partir de uma determinada idade (geralmente 4/5 anos) eles próprios começam a pedir para o fazer e nós, gurus de moda experimentadíssimos, tendemos a torcer o nariz à conjugação do vermelho com o verde ou às galochas com o tutu purpurina. Borrifa-te no que vão achar se o teu filho quiser sair à rua vestido de spiderman em pleno verão. Ele está feliz não está? O resto é puramente acessório… Para além disso, se não experimentarem, não saberão como se sentem, o que por sua vez não lhes permite melhorar a escolha, de acordo com o seu próprio conforto e bem estar.

Arrumar a mochila. Organizar o material para o dia seguinte, escolher os livros, guardar a cartolina para o trabalho de grupo… são tarefas que lhes cabem a eles, por isso, nível de resistência máximo para as vezes em que percebas que, pela milionésima vez, se esqueceram de algo. Se calhar podem ter de descobri-lo sozinhos, quando chegarem à escola. No dia seguinte, o mais provável, é que o façam de uma forma mais atenta.

Fazer os trabalhos de casa sozinhos. É fundamental que os pais estejam próximos nestes momentos, mas estar próximo é andar ali por perto e não, sentarmo-nos com eles, do início ao fim da tarefa, quase a soletrar: “Vá, agora é a letra “p”…” Sempre que surja uma dificuldade, podes devolver-lhes a pergunta: “O é que tu achas que esta questão poderá querer dizer?” e, como quem não quer a coisa, estarás a ajudá-los a levantar hipóteses, para que sejam eles/as a chegar lá.

Ir a pé para escola ou ir buscar o pão à mercearia (pânico!!!). Esta é tramada eu sei, e claro que depende da distância e do contexto onde vivam. Mas se for possível, é importante que aconteça, mesmo que tenhas de vestir um fato de ninja e te vás escondendo atrás dos postes, para te assegurares que chegam em segurança. Os tempos mudaram mas é preciso desenvolver estratégias, que lhes permitam explorar, conhecer e não crescer no medo. Eles sentir-se-ão dignos de confiança e de certeza que vão estar à altura.

Tratar da própria roupa. A ideia de um adolescente que grita: “Mas eu queria aqueles calções para hoje e tu não os lavaste a tempo!!!” é algo que me dá um arrepio na espinha, sobretudo porque sei que acontece em casa de muitas famílias. E aqui te digo que a responsabilidade é toda nossa… Colocar a roupa para lavar, estendê-la, separá-la, arrumá-la, ajuda-los-á a cuidar de si e a perceber se o modelito escolhido está disponível ou não, poupando-se horas de desgaste familiar.

Resolver os seus problemas na escola. Claro que existem problemas e PROBLEMAS, mas o espírito de leoa/leão que incorporamos sempre que a nossa cria foi injustiçada na escola (por um colega ou por um professor, por exemplo), faz com que nos saiam as garras e saltemos em direção à fonte da questão. Muitas vezes, sem a necessária reflexão. E aqui, é mesmo fundamental respirar fundo e analisar em conjunto a questão, podendo até ajudá-los a pensar nas estratégias que considerem mais adequadas para assumir e enfrentar a situação. A vida é feita destas coisas, não te esqueças…

Andar de transportes públicos (pânico!!!). Podes fazer algumas viagens com eles e definirem ambos os passos mais importantes: comprar os bilhetes, pedir ajuda ao condutor se necessário, conhecer o percurso, tocar à campainha antes da paragem… E depois se tiveres preparação cardíaca para isso, deixá-los fazer um pequeno trajeto sozinhos para que testem as aprendizagens feitas.

Ir às compras. Fazer a lista do que faz falta em casa e ser responsável por assegurar que ao carrinho chega tudo aquilo que é necessário para a semana (e nada mais). Discutir com eles questões como a marca, o preço, a interpretação dos rótulos, as estratégias de marketing, deixá-los-á muito mais à vontade para as vezes em que tenham de gerir a sua própria despensa.

Falar com desconhecidos (pânicooooooooooooo!!!). Conheço um miúdo que um dia perguntou ao pai: “Mas se eu não posso falar com desconhecidos, como é que eu vou fazer amigos?” E é mais ou menos isto… A regra, à medida que vão crescendo e vão ganhando um maior discernimento, deve ser a de tentar distinguir os “desconhecidos seguros”, dos “desconhecidos estranhos”, sendo também fundamental a noção de espaço/ abordagem/limites para que os amigos se possam fazer.

Chegada ao fim destas propostas, confesso que sinto que este texto é uma espécie de “diz o roto ao nú”. Também eu tenho os meus dias e também eu cometo os meus pecados (como enfiar-lhe uma colherzinha de sopa na boca ou arrumar-lhe os brinquedos…), mas percebo que isso acontece, na maior parte das vezes, para me facilitar a vida a mim e nunca a ele. E só isto me basta, para parar, pensar e tentar fazer melhor da próxima vez.

Afinal, o mundo precisa de gente confiante, responsável e capaz de se superar a cada instante. E eles precisam de se sentir assim no mundo.

Depressão na adolescência. É preciso falar sobre isto.

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

As razões pelas quais todos queremos ter um/a adolescente nas nossas vidas.

 

Sim, eu sei que às vezes não é fácil ser mãe ou pai de um/a adolescente (tal como não será fácil ser filho de um adulto…) mas a verdade é que, independentemente dos dias menos bons (desejáveis e necessários à transformação natural da família nesta etapa de vida), muitas são as razões que tornam tão incrível, a oportunidade de acompanhar os filhos na aventura da adolescência.

Daniel Siegel, é um neuropsiquiatra que nos últimos anos se tem dedicado a estudar o funcionamento do cérebro adolescente, cujas características e especificidades, considera fundamentais ao desenvolvimento humano. Para Siegel, é a “essência da adolescência” e a sua vivência positiva e plena, que permitirá ao cérebro manter-se saudável na idade adulta.

Assim, e para que não percamos de vista as maravilhas da adolescência, permitindo que se tornem luz e espaço para ser, cá seguem quatro bons motivos para querer tê-los por perto, e com isso, reaprender…

Gosto pela novidade, ou se quisermos, um saudável e apurado sentido de espanto. Relacionado com a ativação dos circuitos cerebrais que aumentam a sensibilidade para a procura de recompensas e sensações novas, é precisamente esta abertura às novas experiências, que alimenta o entusiasmo pela vida, a coragem para arriscar e a motivação para descobrir novas formas de realização pessoal, tão fundamentais a que um dia se sintam capazes de abandonar o conforto do ninho e construir o próprio caminho.

Intensidade emocional, alimentada pela experiência intensa dos diferentes estados emocionais que, nesta fase de vida, ainda se sobrepõe à racionalidade do córtex pré-frontal (desenvolvido por volta dos 20/25 anos). É esta vibração sonora dos diferentes estados de alma que tantas tempestades traz às famílias, desencadeando as tão conhecidas alterações de humor e a experiência de alguns momentos de grande reatividade, sobretudo perante as contrariedades ou as frustrações. No seu melhor, este arco-íris emocional proporciona aos adolescentes e a quem com eles convive, um enorme boost de energia e vitalidade, um sentido de entrega ao momento presente e uma excelente oportunidade de auto-conhecimento e auto-regulação.

Criatividade. Estimulada pelo conhecimento de que a realidade é o conjunto de todas as possibilidades, é a procura incessante de respostas e a criatividade no enfrentar dos desafios, que permite explorar o mundo, questioná-lo, testar as hipóteses e torná-las possíveis. “Experimentar o mundo ordinário como extraordinário”, contribui para desenvolver competências relacionadas com a proatividade e capacidade de adaptação e resolução de problemas e favorece o desempenho no campo das artes, da música, da ciência, trazendo descobertas únicas e crescimento pessoal.

Compromisso social. Na adolescência dá-se um pico de neurónios-espelho, células ativadas pela observação do comportamento dos outros e que levam à sua repetição. Para além disso, uma maior sensibilidade à ação da oxitocina, predispõe à criação de vínculos significativos com os outros. Na prática, ganha-se uma maior disponibilidade para estar em grupo e agir socialmente, o que permite o alargamento do mapa das relações sociais, tornando-as simultaneamente mais compensadoras e ainda, estimulando a procura de suporte comunitário, fatores altamente preditores de bem estar, satisfação e felicidade ao longo da vida.

E não é isto afinal que todos queremos para os nossos filhos?
Que se mantenham curiosos e criativos, que se sintam capazes de conquistar o mundo, que se emocionem com a vida e que descubram nos outros, parte importante da sua humanidade?

Não seria isto afinal que gostaríamos de ter preservado mais em nós?
Resgatemos pois a nossa essência e celebremos a oportunidade (e o adolescente que um dia fomos), junto daqueles que nos trazem a oportunidade e o privilégio de os ajudar a crescer.

A vida dos outros.

A vida dos outros interessa-me.

Ou melhor, a vida dos miúdos com quem trabalho, interessa-me.

Interessa-me porque acredito que não é possível ajudar alguém que não vai bem na escola, sem primeiro entender como vai em casa, ou como vai por dentro.

Interessa-me porque tudo aquilo que somos, ou melhor, tudo aquilo que mostramos aos outros, é resultado das nossas vivências, reflexo de tudo o que trazemos na “mochila” que colocamos às costas todos os dias.

E há “mochilas” tão pesadas que eu às vezes dou por mim a conter a vontade de chorar, quando ouço as histórias que nelas se carrega.

São histórias de perda, de abandono, de desilusão. São histórias mal explicadas e outras com detalhe a mais. São miúdos que aos 5 viram a mãe sair de casa para só voltar a entrar três anos depois, levar a irmã mais nova e desaparecer outra vez. São miúdos que aos 9 entendem como seu, o dever de proteger a mãe de um pai que grita, que bate e que se embebeda todas as noites. São miúdas que aos 15 se prostituem na rua com a irmã no banco ao lado e a mãe na curva seguinte. São histórias de vidas difíceis que a maioria de nós, felizmente, nunca imaginaria existirem.

São as vidas dos outros, que têm idade para só pensar em sonhos e guardar no coração a fé no mundo e nas pessoas mas que, em vez disso, se preocupam em saber de cor o melhor esconderijo quando os gritos tomam conta de tudo, que gostavam que alguém lhes dissesse a que lugar pertencem e que adormecem a acreditar que é amanhã que as promessas feitas se cumprem e trazem com elas a esperança de que tudo mude.

O comportamento de uma criança ou de um adolescente é sempre sintoma da sua vida psíquica, das suas experiências, da forma como tomaram conta de si.

Ora quando o seu crescimento é marcado por uma vinculação insegura, por momentos de trauma, ausência ou negligência, estará inevitavelmente comprometida a sua capacidade de se ligar aos outros e de lidar com os desafios da vida, nos quais a escola e a aprendizagem se incluem. Capacidade esta, só reparável com o amor das relações que quebram o ciclo, que ajudam a colar os pedacinhos e a fazer acreditar. Outra vez.

Por tudo isto e porque o sítio onde se nasce continuará a ser sempre uma questão de sorte, não nos limitemos a julgar, a repreender, a criticar, a enquadrar um determinado comportamento naquelas que são as nossas vivências, naquele que é o nosso quadro de valores. Há quem esteja dele muito distante e apenas precise de alguém que saiba olhar e esteja disponível para entender.

Às vezes, aquilo que eu faço é aquilo que me é possível fazer num determinado momento e isso não resume tudo aquilo que eu sou. Tudo aquilo que trago cá dentro.

Assim é connosco. Assim será com eles.

Quando o gato lhes come a língua.
E demora a devolvê-la…

– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habituou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem:

Banalizar os momentos de conversa. Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária para que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata. Criar momentos e rotinas especiais com cada filho, que procurem ir ao encontro daqueles que são os seus interesses, ajuda também a que se sintam importantes e estimula a que a relação se mantenha próxima e saudável.

Abrir as perguntas. Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas. “O que foi mais interessante no teu dia hoje?” ou “ O que gostarias que tivesse acontecido de forma diferente?” Ou, de uma forma mais criativa: “Se fizesses o teu próprio filme que título lhe darias?”, “Se pudesses mudar uma coisa no mundo o que mudarias?”…

Partilhar quem somos. Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

Sermos honestos. “Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil, torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar, fá-los sentirem-se respeitados.

Não levar a peito. Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

Dar asas à comunicação. A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

Propor alternativas. Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.

“Pedrinhas” para o caminho…

Eu sei… Às vezes tens a sensação que os teus filhos foram levados durante a noite por uma nave espacial e voltaram no dia seguinte, sob a pele de uma qualquer espécie alienígena. E isso não é fácil. Nem para ti, nem para eles, que estão ainda a aprender a readaptar-se a si próprios e ao mundo que os rodeia.

No desafio constante de ajudar os filhos a crescer, o importante não é que sejamos pais perfeitos (isso são histórias da carochinha), mas sim que nos lembremos disso todos os dias e não deixemos nunca, de tentar trazer à tona aquilo que em nós existe de melhor, na consciência de que isso lhes será sempre inspirador.

Tal como não existem pais perfeitos, também não existem respostas mágicas que caibam a todas as famílias da mesma forma, mas existem “pedrinhas” que lançadas no momento certo, podem ajudar a encontrar caminhos mais positivos e afetivamente significativos, capazes de transformar as crises da adolescência em verdadeiras janelas de oportunidade. Atrevo-me a “atirar” algumas…

Conhecer o que os apaixona. Se na infância a coisa até é fácil porque eles tendem a idolatrar-nos e a mostrar interesse por tudo o que fazemos, uma maior maturidade traz, na adolescência, o desejo de construir significados próprios e de fazer escolhas pessoais. Pode ser a música, pode ser a tribo de pertença, pode ser o desporto…o importante é que sintam que queremos saber mais sobre aquilo que os move e os motiva. (Nota: não tens de pintar o cabelo de roxo neste processo de identificação);

Assobiar para o lado. Há coisas que simplesmente não precisam de ser transformadas em cavalos de batalha. Ainda que o gosto com que escolhem a roupa seja questionável ou que a paixão desenfreada pelo Justin Bieber nos pareça disparatada, estas experiências fazem parte da sua individualidade e devem ser respeitadas. É importante que a nossa autoridade se reserve para as situações em que o seu bem estar ou a qualidade da relação connosco ou com os outros é colocada em causa. Dizer “não” constantemente, só porque sim, banaliza-o e pode interferir com a honestidade com que nos procuram;

Alimentar as relações com outros adultos próximos. Mesmo sabendo que existe em nós o desejo (pouco assumido) de sermos sempre os seus únicos confidentes, é fundamental que sejamos capazes de estimular relações de confiança com outras pessoas. Tios, irmãos mais velhos, professores, poderão desempenhar um papel de suporte extremamente protetor, permitindo-lhes partilhar dúvidas e anseios, sem o medo de que lhes dê um treco (como a nós certamente daria…);

Deixá-los falhar. A vida às vezes é dura e a resiliência é talvez a competência mais valiosa que lhes podemos ensinar. Se estivermos constantemente a “resgatar” os nossos filhos dos apuros em que se metam, estaremos a impedir que desenvolvam as estratégias para lhes fazer face. Faltou ao exame de condução porque ficou a dormir? Terá de juntar dinheiro para marcar um novo. Perdeu pela enésima vez o autocarro? Uma caminhada fresquinha até à escola, só lhe fará bem. Passar por estas situações e experimentar as suas consequências só os tornará mais responsáveis e conscientes das suas ações. Meio caminho andado para o desenvolvimento da capacidade tolerância à frustração e da autonomia, tão importantes na idade adulta;

Estar por perto. Deixá-los sentir o sabor de uma decisão pouco refletida, não significa afastarmo-nos deles. É importante a noção de que todos cometemos erros e que o amor que nos une será sempre mais forte do que os desvios mais atribulados. Possamos sempre falar sobre o assunto e avançar.

E da mesma forma, é fundamental que cresçam na segurança de que nos orgulhamos das suas conquistas e que estaremos sempre na bancada da frente. Envolvidos, entusiasmados, apaixonados. Por quem são e por tudo aquilo que serão capazes de fazer. Como se voltássemos ao momento dos primeiros passos, do primeiro sorriso…

Créditos da imagem: Lília Nunes Reis, porque em família não há fórmulas mágicas mas há momentos que o são e assim, nos transcendem… Obrigada, Lília.

Três mitos sobre a adolescência que todos repetimos.

“Quando ela chegar à adolescência é que vais ver…“ ou,
“Quem me dera ter um botão para o desligar durante esta fase…” ou ainda,
“Como te entendo, o meu também está na “aborrescência”

Quantas vezes não ouvimos já algumas destas frases, vindas de quem atravessa com os filhos a desafiante fase da adolescência. Quantas vezes não pensámos nós: “E agora, o que é que eu faço?”.

Estas e outras ideias sempre estiveram (e continuam a estar), muito associadas ao processo de desenvolvimento adolescente, não facilitando uma adaptação mais positiva dos jovens e das famílias a tudo o que de novo e único acontece.

A adolescência traz consigo mudanças biológicas, intelectuais, emocionais e sexuais importantes, que se traduzem em aquisições singulares no desenvolvimento humano, alterando quem somos, a nossa visão do mundo e a forma como nos relacionamos com os outros. Estas mudanças têm, de facto, um impacto profundo em toda a dinâmica familiar, com os necessários ajustes de quem está numa fase de “sopas e descanso” em relação às relações amorosas, ao círculo de amigos, à profissão – os pais, e de quem vive e goza o mundo pela primeira vez, conquista amizades, experimenta o primeiro amor, sonha planos para o futuro – os filhos. E é muitas vezes este desequilíbrio na balança dos valores e desejos de pais e filhos, que tantos conflitos provoca no relacionamento entre ambos, escurecendo as lentes através das quais se observam e dificultando uma comunicação mais próxima e mais empática.

Vejamos pois algumas das ideias que por aí circulam sobre a adolescência e que em nada facilitam a forma como nos relacionamos com os adolescentes das nossas vidas:

O mito da fase terrível.
A adolescência é uma fase de vida não só fundamental como absolutamente necessária. As transformações que nela acontecem são uma oportunidade única de desenvolvimento pessoal e social, de auto conhecimento, de definição de uma identidade própria, de construção da autonomia e pretendem preparar o indivíduo para a vida adulta, treinando competências práticas que lhes permitirão afinal, construir o próprio caminho, independente do dos pais.
Pensar neste período como um período difícil e quase indesejado, faz-nos temer a mudança, antecipando de uma forma negativa todas as conquistas que nela acontecem. E aquilo que pensamos, é aquilo que transparecemos e aquilo que muitas vezes contamina a comunicação com os nossos filhos, impedindo-nos de nos libertarmos de ideias feitas, e crescer.

O mito da imaturidade.
As últimas investigações sobre o desenvolvimento cerebral nesta etapa de vida permitem pensar os adolescentes como seres altamente adaptáveis e de uma sensibilidade única, preparados para lidar com todas as tarefas com que se deparam. Contrariamente ao que muitas vezes pensamos, na adolescência torna-se já possível fazer a avaliação dos riscos de um determinado comportamento (de uma forma muito próxima da dos adultos), sendo também já possível antecipar as suas consequências. O que aqui interfere na tomada de decisão, é a ponderação que fazem desses riscos, ou seja, o facto de atribuírem uma maior importância à recompensa que pode advir de um determinado comportamento, como por exemplo, obter a admiração dos amigos. Para além disso, a ideia de que não serão capazes de se safar sozinhos, quer no que se refere à gestão doméstica, quer no que se refere à concretização de projetos pessoais, apenas contribui para que se sintam efetivamente incompetentes e inseguros face às decisões que já se encontram, naturalmente, aptos a fazer.

O mito dos pais desnecessários.
Aviso à navegação: a adolescência pode significar alguma turbulência nas relações entre pais e filhos, mas é ela que lhes permitirá “ganhar espaço” e definir quem são, não significando contudo, que os pais deixem de ter um papel fundamental na vida dos filhos. A família constituirá sempre o modelo de identificação mais importante na vida das crianças e adolescentes e são as normas e valores por ela transmitidos que se assumirão como bússola na vida adulta, mesmo que sejam recebidas com uma saudável dose de contestação (desafio-te a garantir que nunca fizeste um rolar de olhos a uma frase dos teus pais, que acabaste por nunca mais esquecer, de tão certeira que se tornou…). As relações positivas na família, marcadas pelo equilíbrio entre autonomia adolescente e controlo parental, são os melhores preditores de bem estar e ajustamento emocional dos jovens, permitindo-lhes ainda a capacidade de lidar de uma forma mais segura e resiliente com os dilemas de vida com que se deparem.

Ajudar a crescer com sentido de honra e admiração, confiar em quem são e naquilo que serão capazes de fazer e estar presente, na maré calma e na tempestade, são afinal as verdades que lhes serão luz e força e espaço para ser. O resto, é ruído de fundo, que impede de ouvir tudo o que de tão fantástico trazem dentro…

 

Nota: E agora, se ainda te faltou um bocadinho para ficares convencido/a, podes deliciar-te com este vídeo. E acreditar. 🙂

Não são “pós de perlimpimpim”, mas ajudam…

Sim eu sei… sou um pouco avessa a manuais de instruções mas, a pedido de muitas famílias, aqui proponho algumas pistas sobre as quais pode ser interessante pensar. Sobretudo, quem tem filhos assim a ficar para o crescido…

  1. Esquece tudo o que pensaste que seria ser mãe/pai de um/a adolescente. A realidade supera todas as expectativas.

  2. Habitua-te ao humor imprevisível, aos comportamentos impulsivos, à alterações emocionais, à necessidade de uma maior privacidade.. E respeita-os. Fazem parte do processo de crescimento e, como tudo, têm uma explicação. Neste caso, é neurológica.

  3. Não insistas em querer que concordem com tudo o que dizes. Aliás, é até desejável que não o façam. Uma das características mais interessantes da adolescência é a procura de significados próprios, a necessidade de contestar, o espírito pouco conformista… São estes movimentos que lhes permitirão construir a sua própria identidade e definir-se enquanto pessoas.

  4. Conversa muito, ou pelo menos, mostra que estás por perto e que podes ouvir, sem pré-julgamentos (mesmo que a vontade de dizer meia dúzia de coisas te roa por dentro). Isto não quer dizer que não dês a tua opinião e que não te faças ouvir, mas fará sentir que estás disponível e que contigo poderão contar, mesmo que as coisas corram mal. Incondicionalmente.

  5. Se já o eras, mantém-te beijoqueira/o (mas com discrição e sentido de oportunidade). Há sítios proibidos como o portão da escola ou os jantares de amigos mas, mesmo que o contestem, não há nada que lhes saiba tão bem como um abraço ou um miminho no momento certo. Tenhamos nós 5, 15 ou 50 anos.

  6. Janta com os teus filhos. Vários estudos demonstram que as refeições em família funcionam como um ritual protetor, relativamente à adopção de comportamentos de risco na adolescência.

  7. Participa em atividades comunitárias. Vai ao teatro, a concertos, exposições… E leva-os contigo. Todas as experiências culturais e artísticas a que possam ter acesso na infância e na adolescência, contribuirão para o autoconhecimento e para o seu desenvolvimento pessoal e social.

  8. Incentiva-os sempre a avançar para um desporto. Existe uma associação muito positiva entre a prática desportiva e o desempenho escolar, sendo a primeira uma excelente forma de libertação das tensões acumuladas e de estimulação da atenção, da reflexividade… Para além disso, a maioria dos desportos não se compadece com estilos de vida pouco saudáveis, o que só por si, é um fator extremamente positivo.

  9. Não queiras ser amiga/o dos teus filhos (leia-se: “não queiras substituir os amigos dos teus filhos”). Os pais e mães demasiado cool e intrusivos, deixam os adolescentes confusos. É fundamental que cada um se assuma no seu papel e não “misture as águas”. A referência de um pai ou de uma mãe é fundamental como modelo de responsabilidade, apoio e sabedoria para lidar com a realidade. Para além disso, existirão sempre coisas que se contam aos amigos e não aos pais. E ainda bem.

  10. E por último, mas não menos importante, CUIDA DE TI. Tu és, e serás sempre, o principal modelo dos teus filhos. É contigo que aprenderão a amar a vida, a relacionar-se com outros, a querer o melhor para si, a não desistir… Se fores feliz, ensinarás a sê-lo também e a não abdicar disso.

E chegados ao fim, são 10.

Que não sejam mandamentos, até porque não acredito em relações imaculadas e perfeitas. Acredito sim, que as relações crescem nas suas imperfeições, desde que tenhamos a coragem de as reconhecer e aceitar em nós, mantendo assim viva a certeza, de que todos os dias são dias a estrear e por isso, dias bons para aprender.

Aprender a ser pais de coração cheio, para aqueles que serão, sempre, a melhor parte de nós.

“O meu filho não tem motivação para nada!”

Esta é uma das frases que mais oiço por parte de pais de adolescentes.

Do lado de cá, compreendo-lhes a angústia, tal como sou solidária com o lado de lá, que usa a inércia para mascarar o medo, a vergonha ou a incerteza de não se saber bem quem se é ou de não se estar à altura daquilo que esperam que se seja.

Quando nos nasce um filho, nasce-nos um sem fim de desejos, de projetos, de finais felizes, que servirão como uma luva (achamos nós) àquele pequenino ser. Nasce, ainda, a oportunidade única de nos redimirmos do nosso lado lunar, esperando que deles, seres de luz, venha sempre sol.

À medida que crescem e se tornam gente, vão dando pequeninos passos no sentido de nos ensinar a ajustar expectativas, a tropeçar nas certezas que criámos e a perceber que afinal por ali mora, tal como em nós, a lua, o sol e até a chuva intensa. E é precisamente aqui, nesta espécie de microclima tropical que é a adolescência, que tudo aquilo que sonhámos que seriam, dá lugar a tudo aquilo que podem vir a ser e à necessidade de o perceber através de um caminho próprio, único e irrepetível.

O que se segue, é muitas vezes uma dança difícil entre pais e filhos, marcada pela tensão natural entre quem exige e quem é exigido e tantas vezes, pelo desejo secreto de que as coisas pudessem resolver-se outra vez com um pronto “Anda cá que a mamã ensina…”.

“E agora?” – perguntam vocês. “Como é que se ajuda a sair da tempestade, molhados, mas com vontade de enfrentar as próximas?” E eu respondo, outra vez: “Sendo porto de abrigo”, sempre que possamos tentar os passos seguintes:

Dar espaço. Conviver com um filho que não parece interessar-se por nada, que não estuda, que não cumpre, que se perde nas horas do dia, pode ser extremamente desafiante para os pais, correndo-se o risco de transformar a sua inércia no tema de conversa preferido de toda a família (não que o prefiram, mas ele está sempre lá). Passa então a falar-se sobre isto constantemente, à refeição, na chegada a casa, antes de dormir, no carro à porta da escola… E com o tempo, a desmotivação passa a definir a sua atitude geral perante a vida e o que era passageiro, instala-se e perdura. É por isso importante desligar o modo “sermão” e centrarmo-nos naquelas que são as suas características positivas, valorizando todas as oportunidades que possam tornar-se acendalha para lhes atear a chama outra vez. E é importante, sobretudo, deixar de falar deles e passar a falar com eles.

Compreender. A falta de empenho é muitas vezes apenas a parte visível do iceberg, constituindo um recurso para se defenderem de algo com o qual não se sentem capazes de lidar: Não liga nenhuma à escola porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele, não investe no exame final porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É assim fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam. Ouvir o que tenham para dizer (evitando o rótulo fácil), procurar ser empático com o que estão a sentir e partilhar quem fomos em momentos semelhantes, pode ajudar a desbloquear emoções associadas ao momento de impasse, tornando-as menos pesadas e logo, mais passíveis de transformação.

Exigir. Compreender o que sentem e os desafios que atravessam, não significa que sejamos coniventes com a distância afetiva que aumentam sempre que chegam tarde a casa por sistema ou sempre que evitam a todo o custo qualquer programa de família. Na adolescência, a experimentação de uma maior autonomia e independência, natural e altamente desejável, não pode sobrepor-se em larga escala ao tempo de todos e às regras de funcionamento do espaço familiar (horários, rotinas, divisão de tarefas…). Quer isto dizer que são de compreender e tolerar algumas escapadelas, mas o essencial deve manter-se, por mais contrariedade que às vezes provoque.

Acreditar. Saber que a adolescência é um período de  aprendizagens riquíssimas e de aquisições determinantes para o resto da vida, ainda que às vezes a navegação pareça fazer-se ao sabor do vento, ajuda a não perder de vista a importância de valorizar e a incentivar todos os pequenos passos que possam dar em direção ao crescimento. Estimulá-los a que se envolvam ativamente nas diferentes alternativas de solução para os problemas com que se deparem, fá-los também sentir também que confiamos na sua capacidade para superar todos desafios, ajudando a agir.

Quando um filho nos diz que não tem motivação para nada, pode bem estar a dizer-nos que precisa que o ajudem a compreender-se melhor, que precisa que olhem para si tal como é (e não como as histórias que se contam sobre ele) e que precisa, enfim, que lhe digam, muitas e muitas vezes, que a vida vale a pena e que neles mora tudo o que é preciso para conquistar o mundo. Ainda que o passo firme e o brilho no olhar possam vir depois, e se instalem, para não mais os deixarem sair.