(Pel)A liberdade que te devo.

De todas as tuas fotografias, esta é uma das minhas preferidas.

Quando te escuto nela, ouço liberdade, serenidade e alegria sem fim, ouço vontade de abraçar o mundo e confiança em quem és e em tudo o que serás ainda capaz de ser. E vejo-te enorme por dentro, bem maior do que a idade que tens, o que me faz alimentar o sonho de que assim te mantenhas, por muito que ainda tenhas de crescer.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me tem permitido aprender, aquele que me faz voltar ao princípio da história todos os dias, na certeza de que em todos eles as palavras serão outras, iluminadas pela doce transformação, que te acontece na alma, a cada instante de vida.

De todos os teus ângulos, este é aquele que mais me desconcerta e que tantas vezes me faz temer o caminho, não pelo que ele nos traga, mas pelo medo de não estar à altura do desafio de ser a mãe que tu mereces ter.

E é por isso que todos os dias, eu torno consciente esta missão e destapo em mim a lucidez, que me ensina a aceitar-te como és e me permite sobreviver à frustração, das vezes em que ages de forma diferente da que imaginei.

É assim que cresço. É assim que tu podes crescer.

Se há cinco anos me perguntassem quais seriam as minhas intenções enquanto mãe, provavelmente falaria na educação para a liberdade, porque afinal sempre foi esta a minha bandeira de vida, na relação comigo mesma, nos amores, nos amigos… E ainda assim, foste tu que vieste ensinar-me de que substância se faz um amor livre. Como o que te tenho e, mais ainda, como o que te devo.

E um amor livre não cobra, não molda, não espera, não desilude.

Um amor livre sabe que é amor para sempre e por isso aprende a sê-lo em todas as circunstâncias, mesmo que as expectativas se quebrem e os passos se aventurem nas estradas para as quais não traçou roteiro.

Um amor livre conhece as coisas pelas quais vale a pena ser grato: o privilégio da presença, o calor do abraço, o cheiro da pele e o olhar que brilha, porque sabe que aquele é um dos seus lugares felizes.

Quando tu nasceste, nasceste livre, e mesmo que eu seja para sempre prisioneira dessa liberdade, isso não me faz desejá-la menos. Faz-me sim desejar a honra de te ver crescer assim, capaz de respeitar a tua essência e personificar o teu espírito, a cada passo dado. Sempre, inspirado por tudo aquilo que queiras ser e não pelo peso de tudo o que hão-de continuar a esperar de ti.

A estrada é tua meu amor. A porta aberta, essa… será para sempre minha.

P.S – Hoje, a reflexão trouxe-me esta música. Amanhã, ouvimo-la os dois.

O meu filho não é como eu. E isso é extraordinário.

De todas as aprendizagens que tenho feito enquanto mãe, esta tem sido a que mais me tem desafiado nos últimos tempos.

Talvez se tenha tornado mais presente agora, que a idade do meu filho já lhe permite argumentar, contestar e contrariar, aquelas que são as minhas ideias sobre a forma como deve agir ou sobre a pessoa que deve ser.

Talvez eu já devesse ter entendido isto, no momento em que deixámos de ser um só, para nos tornarmos dois. No corpo, na vontade, na voz. Mas não… Ainda dou por mim a insistir na culpa ou na frustração, sempre que ele, dando firmeza a quem é, age de forma diferente da que previ.

No dia em que nasceu, eu já sabia que a liberdade de ser é o maior bem que se pode dar a um filho. Mas não basta sabê-lo. É preciso experimentá-lo.

Nesta transformação de mulher e de mãe (de homem e de pai), é preciso caminhar e deixar acontecer, para assim aprender que um amor maior como este nosso, não precisa de ser espelho, nem montra, nem sequer precisa de um guião que antecipe todos os passos, ou reproduza todas as falas.

Pelo contrário, querê-lo seria reduzir a quase nada, a nobre missão de ajudar a crescer.

Um amor maior faz-se das vezes em que aceitamos quem os nossos filhos são, sem filtro ou condição. Das vezes em que trazemos à consciência que não são (nem serão) iguais a nós, nas escolhas, no sentir, nem tão pouco no agir. Faz-se, tanto, das vezes em que abraçamos todas as emoções que o seu comportamento nos acende, nos momentos fáceis e apaixonantes mas, sobretudo, nos mais terríveis e desesperantes.

Aceitar os nossos filhos tal como são. Tarefa que eu julguei tão fácil e que afinal, me é ainda tão exigente.

E se às vezes eu ainda penso: Caramba, não era isto que eu esperava que tu fizesses… também já consigo responder a mim própria: Quem me mandou a mim esperar?

Eu só preciso que sejas, não assim e nem assado. Que sejas. E me permitas a extraordinária aventura de o ser contigo.

 

P.S – E tu? Aceitas os teus filhos tal como são? Acredito tanto que vale a pena pensarmos sobre isto…

Isto não é um mar de rosas

Sim, isto de ser mãe e de ser pai tem mais do que se lhe diga.

Mete medo.

Assombra-nos com a ideia de que temos de ser perfeitos e aguentar-nos “à bomboca”, mesmo quando as coisas se tornam mais difíceis.

Desafia-nos com as famílias dos outros, que parecem sempre melhores do que a nossa. Mais “limpas”, mais bonitas, mais felizes.

Obriga-nos a tomar decisões que, para além do impacto que têm em nós, podem também ser determinantes na vida de alguém. Alguém que é, nem mais nem menos, aquele que tem o nosso coração cativo, desde o momento em que lhe pusemos a vista em cima.

Por mais livros que leia sobre parentalidade, sinto sempre que as palavras não traduzem a vida, mas podem, algumas, ter o dom de apaziguar o desassossego de não estar à altura do desafio. Ou, pelo menos, levar-nos a pensar sobre ele.

Tenho por isso para mim, que os ensinamentos mais importantes vêm das coisas mais simples e que a nossa grandeza enquanto pais surge, sempre que somos capazes de:

Tornar conscientes os caminhos.

Sabendo que podem não ter sido os melhores mas que foram, naquele momento, os possíveis. Isto, dá-nos a esperança de tentar de novo, a possibilidade de não repetir e de nos treinarmos para o próximo guião.

Pedir desculpa.

Há, num pedido de desculpas, uma coragem e uma humildade imensas que nos libertam do arrependimento e sobretudo, nos aproximam dos nossos filhos, fazendo-os sentir que afinal, por aqui, “há carne e há osso.” E há vontade de aprender.

Aceitar.

Quando aceitamos, ficamos em paz com quem somos e, não significando isto aprovar ou baixar a guarda, dá-nos uma maior clareza relativamente ao ponto em que estamos, aguçando a vontade de mudança, se ela for sentida como necessária, claro.

A parentalidade não é um mar de rosas. É mar que é calmo, é mar que é turbulento, é mar que muitas vezes quase nos afoga e que em tantas outras nos dá fôlego e batida de coração feliz, quase a saltar do peito.

A parentalidade constrói-se todos os dias. Faz-se de passos mal dados e de dúvidas constantes mas faz-se, sobretudo, da capacidade de aceitar que assim é e de refletir, sempre. Sabendo que é na reflexão que ganhamos o enorme privilégio de aprender.

Tenhamos nós esta certeza e teremos nas mãos a melhor e a mais sábia bússola. Aquela que tem em si, a força de enfrentar todos os mares.

Mesmo nos dias de tempestade.