O meu filho vai para o 1º ano, e agora?

O ingresso no primeiro ciclo é muitas vezes gerador de alguns receios para os pais: “Será que ele vai conseguir estar à altura?”; “Será que vai fazer amigos?”; “Será que vai gostar da escola nova?”; “Será que vai ser bom aluno?”… A forma como culturalmente pensamos esta transição, associando-a ao fim da brincadeira e ao início da escola a sério – transição do tempo lúdico para uma cultura de trabalho – acaba também por ser frequentemente fonte de algum stress parental, interferindo na forma como a criança a percepciona e sente a dimensão das expectativas relativamente ao seu desempenho.

É um facto que estes primeiros anos de adaptação escolar se constituem como alicerces fundamentais a todo o percurso escolar da criança, no entanto a premissa mais importante é que esta nova relação se desenvolva de uma forma tranquila, contribuindo para o desenvolvimento de crenças positivas em relação à escola enquanto espaço de crescimento, de aprendizagem, de curiosidade, de estabelecimento de relações afetivas…

Para ajudar neste caminho, aos pais, pode ser útil a reflexão sobre algumas ideias…

Transmitir à criança segurança e tranquilidade perante a nova fase de vida:

Em primeiro lugar é importante refletir sobre a forma como pensamos esta transição, sobre aquela que foi a nossa experiência, aqueles que são os nossos medos, partilhá-los com outros adultos… Trazer isto à consciência é meio caminho andado para controlar a tendência que temos para projetar muito daquilo que é nosso, no percurso dos nossos filhos. Levar as crianças a conhecer a escola nova antes do início do ano letivo, falar com os funcionários, conhecer o professor, ter algum tempo de brincadeira e exploração do espaço da sala de aula e do recreio, podem também constituir-se como elementos facilitadores. Fazer este reconhecimento do espaço físico e das pessoas que o habitam, de uma forma positiva e descontraída, contribuirá para que progressivamente se torne mais familiar, ajudando a ultrapassar alguns dos receios iniciais.

Evitar que o novo estatuto adquirido, o estatuto de “aluno” se sobreponha à criança:

Muitas vezes com a entrada no primeiro ciclo, tendemos a sobrevalorizar as questões relacionadas com o desempenho escolar, em detrimento de outras. É importante por isso manter e acarinhar os outros espaços da criança: o tempo da família, o tempo do brincar, o tempo de não fazer nada, o tempo para conversar sobre outras coisas que não os típicos “Portaste-te bem na escola?” ou o “Fizeste os trabalhos todos?”… Manter o espaço da família e procurar que dentro dos novos desafios e horários por cumprir, se mantenham os momentos lúdicos, conjuntos e tranquilos, sem conversas de escola e de trabalho, será uma boa forma de o conseguir.

Estabelecer relações positivas com a comunidade educativa.

Participar nas reuniões, desenvolver uma relação positiva e de partilha com o professor titular de turma conhecer o trabalho desenvolvido pela Associação de Pais, fortalecer laços com outros encarregados de educação, participar em iniciativas que contribuam para a qualidade educativa da escola dos nossos filhos… contribui não só para que estejamos a par daquilo que acontece na escola e possamos ser elementos ativos nas mudanças necessárias mas também para que, enquanto adultos, sejamos modelo de participação cívica e envolvimento comunitário para os nossos filhos.

Facilitar uma progressiva e tranquila adaptação da criança às novas rotinas diárias:

Com o início do primeiro ciclo surge também uma maior exigência no cumprimento dos horários escolares, o que pode ser desafiante para crianças e adultos e transformar as manhãs num verdadeiro inferno. A forma como a criança deve despertar deve ser ajustada às suas características e necessidades individuais: alguns miúdos acham graça à possibilidade de acordar com um despertador com música, outros preferem que se abram devagarinho as cortinas para deixar entrar a luz do sol, outros gostam de cócegas e de um “bom dia” animado, outros preferem ainda beijinhos e festinhas vagarosas… É importante reservar algum tempo para que este despertar aconteça de forma presente e sem pressas, mesmo que isso implique acordar um pouco mais cedo. Outro dos truques que pode ser determinante para manhãs mais calmas é o facto dos pais acordarem mais cedo e tratarem das suas rotinas antes de acordar a criança, o que lhes permitirá estar mais disponíveis para o tempo que se seguirá. Deixar algumas das tarefas preparadas no dia anterior: mesa do pequeno almoço posta, roupa escolhida, mochila e pasta arrumada… são também ideias que evitarão muitas manhãs de stress.

A transição para o primeiro ciclo é afinal apenas mais uma das muitas mudanças que ocorrem ao longo do ciclo de vida e é por isso importante retirar-lhe algum do peso que lhe está associado, dando espaço à criança para que faça aquilo que melhor sabe fazer: Aprender coisas sobre si e sobre o mundo e adaptar-se de forma natural aos desafios que lhe surgem nessa aprendizagem.

Tenhamos nós a capacidade de chegar perto todos os dias, na certeza de que estas são as rotinas boas que lhes permitirão, por mais que cresçam, descansar no nosso amor. Em todos os desafios e sempre, em cada regresso a casa.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.