A revolução que lhes devemos.

O planeta aquece, as espécies extinguem-se, os robots assemelham-se a humanos e nós continuamos tremendamente enganados, neste caminho de achar que ensinamos as crianças a amar a natureza, explicando-lhes para que servem as cores do ecoponto ou dizendo-lhes para poupar a água que lhes cai, milagrosamente, da torneira.

Enquanto lhes construirmos recreios de betão, enquanto circundarmos de arame as árvores para que não lhes trepem, enquanto lhes comprarmos os legumes e as frutas já lavados e cortados num saco de plástico, enquanto os levarmos ao jardim zoológico e ao circo para que se divirtam, enquanto lhes pusermos televisões no quarto, impedindo-os de entender que a vida lá fora é tão mais interessante… enquanto lhes fizermos isto e tantos outros disparates mais, estaremos longe de resgatar aquela que é a sua essência.

A revolução que é verdadeiramente necessária, não acontecerá nunca dentro de quatro paredes, nem tão pouco precisará de computadores.

Esta de que falo, e que acredito ser a única capaz de salvar o mundo, precisa de crianças sem medo de mexer na terra, precisa de miúdos a desejar o cheiro do mar bravo de inverno, a procurar o sabor doce dos figos acabados de apanhar, a saber porque é que os cucos não fazem ninhos ou a conhecer a idade de uma árvore, pelos anéis que traz desenhados no tronco.

Precisa, enfim, de gente que sinta na pele o privilégio que é estar vivo e que saiba que existem coisas tão mais importantes do que o nosso umbigo ou o nosso conforto. Afinal, o sol nasce e põe-se todos os dias, porque é assim que deve ser e assim será, para além da nossa existência.

Era esta, só esta, a minha mais honrosa missão. E eu estou ainda tão longe de ta ensinar como mereces.

Perdoa-me meu amor e eu prometo-te não desistir. Ainda não…

 

P.S – Esta é a Sophia. E é ela que materializa a revolução que mais temo.

2 thoughts on “A revolução que lhes devemos.

  1. Simplesmente assustador, ao ler o texto é como se estivesse a pensar em voz alta, que saudades do tempo em que as crianças podiam ser crianças, com brincadeira adequadas a sua idade, hoje e ja ha muito tempo que isso não acontece, no meu bairro adoro ouvir as crianças brincar, os seus risos o seu barulho enquanto os adultos acham que fazem muito barulho e vem ralhar as janelas. Sinto muito saudades do tempo em que se podia dar liberdade ao nossos sonhos. As crianças hoje em dia serão felizes?…………………………………….Nós os adultos falamos ja não conversamos, ninguem tem tempo ouvimos o que querem os espertos que conseguem ter o monopólio de tudo, ja não somos unidos e a união faz a força mas cada um vai para seu lado, é isso que eles….. querem.
    É bom lermos estes comentários só é pena que as pessoas estejam adormecidas, e vivam como se nunca fossem morrer.

    1. Tão grata Rosa, pela sua partilha tão pertinente e tão lúcida. Sinto precisamente o mesmo. Andamos, devagarinho, a esquecer-nos daquela que é a maior riqueza da nossa humanidade: as relações com os outros, a vida em comunidade, a afetividade, a liberdade, a comunhão com a natureza… E isto tem um risco muito, muito elevado. Um risco que transformará a vida das nossas crianças (já o faz) num sentido oposto ao que deveria acontecer. Ainda sim, vamos sendo alguns a alimentar a urgência desta consciência e a apregoá-la ao mundo, a pô-la em prática na relação com os filhos e os mais próximos. E isso traz-me esperança. Ainda. <3

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