Vai uma palmadinha?

Palmada = bofetada, pancada com a mão.

Pedagógica = que procura ensinar; educar.

Qualquer associação entre estas duas palavras resulta de um grande mal entendido. Ainda assim, é frequente que o ouçamos por aí…

Muitas vezes se pensa que para que os filhos aprendam que um determinado comportamento não é adequado, é preciso recorrer ao castigo ou até a uma palmada.

Ora, para que percebamos melhor do que falamos, imaginemos a cena: “Chegas a casa, estás cansada(o) e apetece-te tudo menos arrumar a pilha de roupa que tens há uma semana na cadeira do quarto. O teu(tua) companheiro(a), farto(a) de tanta desarrumação diz-te que já chega e que tens de tratar do assunto. Tu, porque não estás para aí virada(o) e o dia foi caótico, gritas: “Epah, não me chateies mais!”. Perante a resposta torta, ele(a) e dá-te um valente par de estalos.”

Consegues sentir?

A humilhação, a vergonha, a raiva, a sensação de impotência, a falta de conexão… Pois é.

Agora imagina o que sente uma criança quando alguém, que ama mais do que tudo no mundo, lhe bate.

Bater numa criança ou num adolescente é tão errado como bater num adulto. Então, porque será que bater num adulto com quem temos uma relação afetiva é violência doméstica e bater num filho é educação?

Quando batemos numa criança estamos a pôr em causa a ligação de segurança que tem connosco, a colocá-la numa situação de ameaça e de ambivalência emocional: a pessoa que a protege e cuida é a mesma pessoa que a faz sentir em perigo. E isto, acreditem, é extremamente desorganizador.

Para além disso, geralmente a palmada surge como o recurso possível numa altura em que já estamos em situação de frustração extrema e de perda de controlo. Ora isto é também percebido pelos nossos filhos, que sentem que, naquele momento, não estão a ser suficientemente bons e que, por isso também, talvez até nem sejam merecedores do nosso amor. Pode não ser esta a mensagem que queremos transmitir mas é assim que ela é recebida. E aos poucos, se a estratégia se repetir, é assim que a mensagem se transforma no mensageiro e pode chegar a ameaçar a nossa capacidade de estabelecer vínculos afetivos.

O direito à integridade física é um direito fundamental e é um direito de todos os nós, independentemente da idade que tenhamos.

Por isso, quando falarmos de palmadas, falemos de agressão, porque a pedagogia nada tem a ver com isto.

No dia em que nasceste o universo alinhou-se dentro de mim para te receber. Trouxe as flores, trouxe o chão, o ajuste quente do colo… Só não trouxe o roteiro porque esse a ti pertence e eu não quereria nunca tirar-te o doce prazer da descoberta de quem és. Basta-me a honra de te dar a mão, ensinar-te o sorriso e esperar que ambos te fiquem e te abram o peito às coisas bonitas que a vida tem.❤️

Sobre as mães…

O Manel devia ter um ou dois meses quando fiquei com 39 graus de febre por causa de uma mastite. Lembro-me de estar no banho e de deixar o corpo escorregar para se encolher a um canto da banheira, num choro tão de dentro que só o som da água a cair conseguiu disfarçar. Na minha cabeça gritavam as palavras: “Não podes ficar doente. O teu bebé precisa de ti. Não podes ficar doente. O teu bebé, o teu bebé… “ Fiquei ali o tempo que pude. Sozinha (ainda que tivesse a casa cheia de gente) e a achar-me a pior mãe do mundo, apenas e só porque me sentia sem forças, incapaz de lidar com a intensidade com que precisavam de mim. E era o meu bebé que precisava de mim. Não falei disto a ninguém, a não ser agora, que partilho a mensagem deste sentir nos grupos de mães e pais com quem trabalho. Aquilo que ela me ensina é que a maternidade é um desafio imenso a que só se consegue dar resposta quando pomos a correr esta ideia pesada de que as mães são super mulheres. Uma mãe é uma mulher. Ponto final. Uma mulher que se transforma e se reajusta às exigências e aprendizagens que a maternidade implica, mas que continua a ser uma mulher. Uma mulher que é coragem mas que às vezes também morre de medo, uma mulher que tem as respostas na ponta da língua, mas que em tantos momentos não sabe o que fazer, uma mulher de colo grande e eterno mas que também precisa de colo e sobretudo, precisa de reaprender a dar colo a si própria. O auto cuidado é um dos grandes desafios da maternidade e a ideia de que eu existo antes de existir o meu filho, será sempre o primeiro passo para que este amor se viva e se goze, inteiro, pleno, real, e sobretudo capaz de inspirar este filho, a que um dia possa amar-se também… 

Precisava da cabeça limpa, não de ti a entrar por ela adentro sem cerimónia nem pudor.
Precisava da cabeça limpa, não só porque já me ocupas espaço demais mas porque sem ti, talvez ficasse mais arejado e conseguisse ouvir-me melhor. Já é tempo demais contigo dentro. Nem ela (a cabeça) te aguenta. Nem eu. Abro os olhos de manhã e lá estás tu. Ensaboo o corpo, abro o chuveiro no lado frio e ainda assim, és tu. Há mais de uma semana que tomo banhos gelados na esperança de te pôr a mexer, e nada. Continuas aqui. Desço a rua para o trabalho a olhar para as janelas a ver se me encanto por alguém, e lá estás tu. Oiço as conversas sem graça nenhuma para ver se me encho de nada, e lá estás tu. Preparo o jantar de ervilhas com ovos de que não gosto, e lá estás tu. Sempre tu, sempre à coca, à espera de me apanhar o desespero num passo em falso que não quero dar.
Densa, espaçosa, repetida.
E eu nem sei bem porquê. É isso que me é mais difícil de engolir neste espaço que me ocupas: não saber porquê. Não és especialmente bonita. Não és especialmente interessante. Da inteligência nem falo, não chegámos aí para que o pudesse perceber, mas imagino, do que te tenho visto, que até nem seja nada fora de série. Não sei mesmo bem porquê.
Talvez seja porque que as pessoas não se explicam.
Há qualquer coisa nelas que encontra qualquer coisa em nós e depois pronto, deixamos de ser nossos para passar a viver na cabeça dos outros. Foi assim contigo, embora eu ache que foi coisa de um lado só. Tu moras em mim mas eu não cheguei a entrar-te.
Há quem tenha outros fados, eu agora tenho este, precisar da cabeça limpa mas ter-te a ti a sujar-me tudo…

(A foto bonita que dá vida a este texto é da Lília. Tão grata, minha Portugueselily…)

Janeiro

Não nasci em tempo quente.
Acho mesmo que este facto foi um erro crasso que devia ter sido cuidadosamente acautelado na noite de amor em que fui gerada. Restou-me, ao longo dos anos, a árdua tarefa de tornar janeiro um mês mais interessante, poupando-o à constatação evidente de que era no meio do calor que aconteciam as melhores coisas da vida.
Agora, a modos que sou esta pessoa de janeiro que devia ter nascido em junho mas que ainda assim teve a sorte de que o feito quase se desse por terras algarvias. Venha por isso o sol a queimar-me a pele, as conchas ao pescoço, o cabelo feito sal, o pé descalço e as noites quentes. Venham as sardinhas e o gaspacho, os amigos tardios, a música na rua e o tinto de verano.
Venha tudo isto, que para o resto e para o janeiro, há-de sempre haver tempo que sobre…

Bom primeiro fim de semana de verão, pessoas tão bonitas ❤️

“Terror de te amar num sítio frágil como o mundo.”

De entre todas as coisas que a maternidade me trouxe, uma delas, foi o medo.

Antes, eu andava por aí, leve, inconstante e destemida, sem pensar muito bem no que fazia, sem pensar muito bem no que aconteceria. Era eu, só eu, e afinal tudo o que pudesse correr mal seria, apenas e só, para mim.

Depois, tu nasceste. E contigo nasceu também o medo.

O medo, que agora é companheiro constante e me faz suspirar de alívio, sempre a noite chega e eu te vejo adormecer tranquilo e cheio de sonhos. O medo, que às vezes me atormenta as horas e me faz contar os minutos para te ver regressar, de sorriso largo e alegria sem fim. O medo, que não me deixa arriscar demais e me faz cuidar de mim, não só porque me faz bem, mas também porque tu precisas de mim.

O medo. Esse sacana…que me faz pensar em ti sempre que conheço alguma verdade difícil que meta crianças. E me enche os olhos de lágrimas com o fantasma da ideia de que podias ser tu. São os filmes, são as notícias, são as histórias dos filhos dos outros, que às vezes são tão duras que não deviam sequer ser imaginadas, quanto mais ser vividas. E não há agora história triste que não mexa comigo irremediavelmente. Não há história triste que não doa por dentro, que não me fique cravada na memória e que não me faça temer os episódios seguintes.

Tu ainda não sabes meu amor, mas o mundo é um lugar frágil, imperfeito, inundado de gente que não atina, que se desvia das coisas bonitas da vida e que assim, aos poucos, esquece o privilégio que teve em mãos a partir do momento em que passou a existir. E depois, como se isto não bastasse, ainda há o aleatório, o inevitável, a corda bamba, o destino… tudo o que nos escapa ao controlo e que por isso se torna assustador. Muito.

É por tudo isto que, embora tu ainda não saibas meu amor, todas as mães são mães coragem.

São mães que escondem o terror que um amor maior implica. Que dão voltas à escola no 1º dia de infantário e regressam para vos buscar como se tivessem tido um dia preenchidíssimo. Que acenam felizes até que o autocarro parta, para depois virarem as costas e desabarem num pranto sem fim. Que ensinam a beleza da vida, e escondem por dentro todas as histórias feias que já conheceram. Que empurram com os braços, quando só queriam que o abraço fosse eterno e “à prova de bala”…

E é assim que este medo de mãe, se torna medo protetor. É medo que filtra o essencial do acessório, que ajuda a não desistir e que lembra, todos os dias, que é preciso ser grata, que é preciso querer sempre e querer muito e que por mais que o tempo corra, é preciso estar atenta a cada segundo de vós, a cada segundo de nós.

É, sobretudo, medo que não paralisa e que por isso acaba por se diluir no amor e é aí que, enquanto amor, ensina, salva e tantas, tantas vezes, cura.

Tivesse o mundo beijinhos de mãe suficientes e o medo já não teria de nascer convosco…

 

Nota – O fabuloso poema que dá título a este texto é da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen. Podes deliciar-te com a música que a Sophia trazia nas palavras, aqui.

O mito dos bons pais.

Ontem deitei-me outra vez a lamentar-me das vezes em que podia ter sido melhor mãe. Revivi as cenas, uma por uma, pensei-lhes outros cenários e cheguei a imaginar-me outra, capaz de ter dado ao meu filho a resposta feliz e atenta de que era tão merecedor. Ontem deitei-me outra vez agarrada à ideia que eu própria construí daquilo que é ser-se boa mãe. E hoje de manhã ele voltou a saber olhar-me e sussurrou-me ao ouvido: “Gosto tanto de ti mamã…”

É por isso por nós (e sobretudo por eles) que hoje proponho “despir” os bons pais de todas as boas intenções. Essas, que sorrateiramente nos vão atrapalhando o caminho… 😉

Os bons pais já nascem ensinados.

Quando um filho nos nasce, nasce-nos pela primeira vez e é com ele que (re)nascemos também. Não só como pais ou como mães, mas também como pessoas. E ainda que outros já nos tenham nascido ou que outros se lhes sigam, cuidar de um filho (daquele filho) será sempre uma experiência única, que exigirá de nós a humildade da certeza de que muito está ainda por aprender, por melhorar, e por construir. Não esquecendo nunca que cada um de nós o fará de uma forma muito própria, à luz das coisas que nos façam bater o coração e dos desafios e aprendizagens que cada filho nos exija.

Os bons pais sabem sempre o que fazer.

A parentalidade é um caminho cheio de curvas, de socalcos, de bancos para recuperar o fôlego, de vias rápidas e de atalhos desconhecidos, que por vezes nos desconcertam e em tantas outras nos permitem maior segurança. A parentalidade é tudo isto mas não é, nunca, algo que se aprenda nos manuais de procedimentos à boa maneira das viagens de aviões: “Ora agora coloque o colete de salva-vidas. Ora agora insufle-o. Ora agora respire a partir da máscara de oxigénio…” Bom seria. Ou talvez não… A parentalidade é uma aprendizagem constante, sem respostas certeiras e em que os aprendizes (pais e filhos) são os atores principais e criativos argumentatistas, capazes de dar luz e cor e emoção ao guião, construído (e reconstruído) vezes sem conta, a cada passo dado.

Os bons pais não sentem culpa.

Sentem pois. E arrependem-se. E martirizam-se. E sofrem, sobretudo com o peso duro das expectativas dos outros. É a culpa de não terem agido assim ou assado, é a culpa de terem perdido a cabeça, é a culpa de não passarem tempo suficiente com os filhos, é a culpa de não terem percebido mais cedo que alguma coisa estava a acontecer na escola, é a culpa de terem sono, de comerem chocolates às escondidas, de estarem de folga e deixarem o filho na escola apenas e só porque querem ter um dia de crescidos… A culpa, a maldita da culpa, que rouba tempo e exige, insaciável, a perfeição sem fim. A culpa não é boa aliada dos pais, mas existe, chateia e é preciso falar sobre ela e sacudi-la dos ombros com energia e vontade. Só assim lhe retiramos a força e ganhamos espaço para ser pais e, sobretudo, humanos.

Os bons pais sabem sempre o que os filhos precisam.

As crianças não trazem manuais de instruções e ainda que às vezes algumas dicas práticas nos deem um jeitaço e nos ajudem a pensar em formas alternativas de resolver as situações/dilemas com os quais nos vamos deparando, isso não quer dizer que funcionem sempre. Para se saber o que uma criança precisa, é preciso, tantas vezes, desaprender tudo o que pensámos ou ouvimos, ou ainda tudo aquilo que nos disseram e experimentar outros caminhos, ainda que audazes ou pouco testados. Para se saber o que uma criança precisa é preciso sobretudo aprender a ouvi-la, olhá-la nos olhos e tocar-lhe no coração, deixando que o nosso se abra, e sinta também.

Os bons pais não mimam demais os filhos.

A experiência amorosa familiar é o primeiro contacto da criança com o maravilhoso mundo dos afetos. É ela que lhe permitirá amar os outros e ganhar coragem para se lançar em pleno voo, sempre que a vida assim apele. É também ela que permite entender a Casa (lugar no coração dos pais) como porto seguro, onde pode mostrar-se sem filtro e sem disfarce, a quem tem por ele um amor sem fim, capaz de resistir a todos os lados lunares. Os pais podem (e devem!) mimar muito os filhos e não é por isso que deixarão de balizar aqueles que são os seus comportamentos e de ensinar, com a doçura e a paciência necessárias, as coisas mais importantes, para que se tornem gente a saber mimar os outros.

Os bons pais satisfazem sempre primeiro as necessidades dos filhos.

Voltando à analogia das instruções de segurança dos aviões, há uma razão pela qual a tripulação sugere que o colete salva-vidas seja colocado primeiro ao adulto e só depois à criança: para cuidarmos do outro, é preciso que estejamos cuidados. A parentalidade está carregada de desafios, muitos deles capazes de alterar o padrão de satisfação de necessidades básicas como as do sono ou da alimentação adequada, ou a prioridade dada às necessidades sociais ou amorosas. Em nome dos filhos, os pais anulam-se vezes demais e acabam por deixar para depois atividades ou experiências, capazes de lhes proporcionar bem estar e satisfação pessoal, premissas fundamentais para ensinar os filhos a quererem, um dia, cuidar-se também.

Os bons pais gostam sempre de ser pais.

Existem mulheres e homens que preferiam não ter sido pais. Existem mulheres e homens que não gostam de ser pais, mas isso não significa que não gostem dos filhos. Significa apenas que, por variadíssimas razões, tiveram de assumir um papel com o qual não se identificam, que sentem que tiveram de fazer mudanças que não desejaram e que não era assim que gostavam que tivesse sido. Não há com estes pais nenhum problema, a não ser o de terem todos os dedos apontados, de lhes gritarem aos ouvidos que não prestam e de quererem salvá-los, constantemente, do sacrilégio em que não vivem. Existem pais que não amam de paixão sê-lo, mas que ainda assim, sabem amar como ninguém os filhos que os tornaram em tal.

Os bons pais não erram.

Os bons pais erram a vida inteira. Tal como as boas pessoas fazem, só por serem pessoas. O que os bons pais trazem dentro de si (que é o que lhes permite serem verdadeiramente bons), é a capacidade de olhar para os tropeços e enganos como parte desejável da caminhada e deixar que a consciência e a aceitação os transformem para sempre e permitam reparar, com pó de ouro e de amor, cada “lasquinha” acontecida.

Os bons pais não existem. Existo eu, existes tu… e se o somos é porque um dia alguém nos olhou como ninguém e nos viu como os melhores do mundo. Imperfeitos e insubstituíveis. Até ao fim dos tempos…

“Isso não é para brincar!!!”

Começo assim…

O Manel devia ter uns 2 anos. Estávamos numa feira de artesanato e parámos numa tenda cheia de caixas e caixinhas carregadas de missangas, pedras semi preciosas, estatuetas pequeninas de madeira… Ele, encantado com as cores e o brilho à nossa volta queria tocar em tudo e enterrava as mãos sapudas no meio das caixas de contas e pedrinhas. Eu, em pânico, dizia: “Não mexas querido. Só podemos ver.” Andei nesta aflição, em modo helicóptero, durante uns minutos, até que ouvi alguém dizer, do canto da tenda improvisada: “Menina, as crianças conhecem as coisas, tocando-lhes.” Era senegalesa e trazia, na suavidade da voz, a soberania de não esquecer de que substância de faz uma criança.

E a substância de uma criança mora na forma sábia como lê o mundo, com honestidade, curiosidade, coragem e bondade sem fim. Faz-se, também, da procura constante daquilo que verdadeiramente lhe alimenta a alma e que está, tantas vezes, na sua aptidão para brincar. E é a brincar que tenta, incansavelmente e com a seriedade que o assunto merece, ensinar-nos a nós, adultos, a viver outra vez.

O problema está naquilo que fazemos com os sinais que as crianças nos oferecem, nas vezes em que fingimos não ouvir ou ignoramos o apelo e, sobretudo, nas vezes em que esquecemos o cerne da questão e deixamos que nos saia da boca a frase fácil: “Isso não é para brincar.”

E eu, que provavelmente ouvi esta frase a vida inteira, sem lhe dar a devida atenção, tenho agora o privilégio de aprender com quem faz do brincar motivo de vida e com isso percebo, que a ouço vezes demais.

E de todas essas vezes, em que a mastigo e regurgito enjoada, acendo em mim a certeza de que há coisas que não deviam mesmo ser ditas, de tão disparatadas que são, nas situações como as que se seguem…

A criança explora as caixas de brinquedos na prateleira do supermercado. Nós: “Isso não é para mexer (brincar)!

A criança equilibra-se num muro do jardim. Nós: “Isso não é para andar aí em cima (brincar)!”

A criança desmonta a porta da casinha de brincar. Nós: “Isso não é para fazer (brincar)!”

A criança empilha um monte de livros na biblioteca. Nós: “Isso não é para desarrumar (brincar)!”

A criança sobe a uma árvore. Nós: “Isso não é para trepar (brincar)!

A criança desce o corrimão das escadas. Nós: “Isto não é para escorregar (brincar)!”

A criança corre no corredor livre da escola. Nós: “Aqui não é para correr (brincar)!”

A criança mexe na terra, à procura de bichos de conta. Nós: “Isso não é para andar a meter as mãos (brincar)!

Caramba!

Parece-me compreensível que se diga a uma criança que não se brinca com facas afiadas ou que não se brinca com fogo (e ainda assim o mundo está cheio de malabaristas e de faquires extraordinários), mas é só disto que, honestamente, me lembro.

Tudo o resto é para ser mexido, transformado, explorado, trepado, conhecido, escorregado, descoberto, partido, desmontado, reinventado… E é bom que assim seja, é assim que se cresce e é aí que se compreende, afinal, onde reside a magia de brincar: escancarar a janela do conhecimento, puxar o lustro ao pensamento divergente e estimular a criatividade, experimentando-a.

Quando as crianças brincam, descobrem o mundo, dão-lhe sentido e expressam a forma como o sentem e como se sentem nele. É, através da atividade lúdica, que se gravam na memória as aprendizagens mais importantes, aquelas que se revelarão fundamentais pela vida fora e que facilitarão, no futuro, a relação com o meio, a criação de vínculos afetivos, a interação social, a cooperação e a resolução de problemas, materializando quem somos e experimentando as fronteiras do possível e a liberdade da imaginação.

É por isso urgente, entender de uma vez por todas, que brincar é um assunto sério, trazendo esta consciência para dentro de casa, para os cafés, para os bairros, para os jardins, para as escolas, sobretudo para as escolas…

Porque se houve em tempos quem, de forma tão sagaz, nos tirasse a pinta assim:

“Os adultos adoram números. Sempre que falamos aos adultos de um amigo novo, nunca perguntam o mais importante. Nunca dizem: “Como soa a sua voz? De que jogos gosta? Coleciona borboletas?” Em vez disso perguntam: “Quantos anos tem? Quantos irmãos? Quanto pesa? Quanto ganha o pai dele?” E só então parece que o conhecem. Se disserem aos adultos “Vi uma casa muito bonita de tijolos cor de rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado…”, eles não conseguem imaginar a casa. Mas se lhes dissermos “Vi uma casa de 200 mil euros!” Então eles exclamam: “Tão bonita!” *

… continuará felizmente a existir, uma mão pequenina e esperta, que nos corrige o olhar, nos aponta para o sítio certo e nos garante, num sorriso feliz, que nunca é tarde para voltar a ver os gerânios nas janelas.
São tão mais bonitos do que os números…

 

*excerto retirado de “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry.

P.S – Desafio-te a ver este pequeno vídeo sem ficar com um sorriso no rosto (e uma pontinha de inveja), por tudo o que de bom estas crianças podem experimentar. E eu acredito que era assim, que lhes devíamos mostrar o mundo…

As pessoas crescidas.

Passo a vida a deliciar-me com a beleza das palavras dos outros e a espantar-me com as coisas grandes que me ensinam e que, ainda que complicadas, se tornam simples, pela forma sentida como alguém as soube contar.

Hoje, voltei a reencontrar um livro de que gosto muito e aproximei-me outra vez das pessoas pequeninas (crescidas por dentro, mas não em tamanho) e de tudo o que tão sabiamente lêem na alma das pessoas adultas:

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da minha mãe… Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia nelas era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes no mundo: os bichos de seda e os guarda-chuvas de chocolate. Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaro. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas não tenho a certeza… não sei se sou crescido.” 

E assim, na história reencontrada no Livro de Crónicas do fabuloso António Lobo Antunes, voltei a pensar que também eu não sei se sou crescida.

Se calhar sou, nas contas que pago, nos horários que cumpro, na tristeza que já trago no olhar, na frustração que me assalta nas vezes em que sinto que já não me maravilho como antes, na fartura da rotina, no desejo constante de não me desviar do que é verdadeiramente importante na vida…

Se calhar sou. Vezes demais.

Mas depois ele vem, saltita à minha volta, tira-me tudo do lugar, chama-me vezes sem conta: “Oh mãe, anda cá ver isto!, desenha naves espaciais capazes de sair do papel e levar-nos aos dois até à lua, dá gargalhadas sonoras, transforma-me o chão da sala numa cidade para super-heróis, recorta máscaras de homem peixe, com barbatanas e tudo e vem tirar-me a mão do teclado para me dizer: “Vá, anda daí, está na hora de jogarmos às escondidas.”

E é nestes momentos que eu volto a sentir que afinal talvez ainda não seja assim tão crescida e prometo a mim mesma que na próxima ida ao supermercado vou trazer dois guarda-chuvas de chocolate que comeremos juntos, no meio das almofadas que todos os dias atiras para o tapete.

Afinal, de bifes tártaro está o inferno cheio.

P.S – Se tal como eu te encantaste com as palavras de Lobo Antunes, podes ler este e outros textos aqui.

Ele cresceu a brincar com a terra e com os bichos.

Ele está no 10º ano. É um aluno extraordinário. Não pelas notas (que são excelentes), mas pela sede que tem de aprender. Ninguém fez escolhas por ele, ninguém o pressionou com resultados. Ninguém lhe impingiu sonhos. O seu, é ser cientista. Encomenda pipetas pela internet, devora livros de biologia e surpreende-se, como se fosse a primeira vez, a cada descoberta feita. E não, não é miúdo esquisito. Tem amigos, faz amigos e traz meiguice na voz e nos gestos e na forma como se dá aos outros.

A mãe, com a humildade de quem está distante da enormidade do ser que ajudou a crescer, diz-me: “Eu não sei onde é que ele foi buscar estas coisas… cresceu sempre aqui, connosco, a brincar com a terra e com os bichos…”

Eu sorrio, e levo no coração mais uma grande lição: As coisas mais simples da vida são sempre as mais poderosas. O amor dos nossos, a curiosidade no olhar, a liberdade no pensamento. E a natureza. Sempre a natureza.