Seis livros para pensar o crescimento.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade, nunca se conheceram tantos especialistas na matéria e nunca se deram tantas dicas e se fizeram tantos tratados, acerca de como educar uma criança.

E isso é bom.

É bom desde que não percamos de vista quem somos e em quem nos queremos tornar enquanto educadores. É bom desde que não cedamos à tentação de não nos ouvirmos e de não ouvirmos os nossos filhos, conhecendo aquilo que os torna tão especiais. É bom desde que não nos deixemos enganar pela culpa de achar que, se não funciona assim connosco, é porque somos péssimos pais. É bom, sempre que saibamos integrar a informação e ver para além dela, à luz daquele que é o nosso caminho e enquadrando-a naquele que é o nosso contexto familiar e história de vida.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade e eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre o assunto. Estão carregados de anotações e reflexões pessoais, que se fizeram do eco que as palavras lidas deixaram em mim.

De todos eles retirei o meu melhor, em todos eles deixei um pouco de quem sou, que volto sempre para buscar, quando a vontade me dá ou quando a vida me lembra da certeza absoluta de que nada sei. Não são bíblias, porque acredito que nunca nenhum livro, nem nenhum autor, por mais especializado que seja, será capaz de transformar em fórmula universal, a complexidade e o desafio de ajudar um filho a crescer. A eles, dou-lhes a tarefa consciente de se constituírem luz e impulso para pensar e para me conhecer nos sentidos com que me identifique e naqueles que construa a partir daí.

É por isto que nos textos que escrevo, procuro deixar espaço para que cada mãe, cada pai e cada família se possa encontrar num caminho que lhe é próprio e retirar das palavras, apenas e só, aquilo que lhe sirva, para depois o transformar e lhe trazer verdadeiro significado.

É por isso assim, com este propósito, que hoje vos deixo alguns dos autores que me trouxeram reflexões importantes e me deram asas para voar a partir dos livros que escreveram.

Não os vejam como especialistas, porque o especialista mais inspirador, mora em cada um de vós e no sujeito da vossa especialidade, que será sempre um ser único e com características irrepetíveis.

É essa a magia de educar. Não a percamos de vista.

 

Aqui te deixo a referência de alguns dos livros sobre parentalidade que mais me têm ensinado, esperando que possam trazer-te sentido também… (e claro, adoraria conhecer outros que a ti te tenham marcado 🙂

 

Pais Conscientes, Educar para crescer, de Shefali Tsabary
Pais Conscientes
Educar para crescer
de Shefali Tsabary

Disciplina Sem Dramas de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel
Disciplina Sem Dramas
Zangas para quê ? Os segredos da neurociência para educar os filhos tranquilamente
de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel

Educar na Curiosidade de Catherine L'Ecuyer
Educar na Curiosidade
Como educar num mundo frenético e hiperexigente?
de Catherine L’Ecuyer

Mindfulness para Pais Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes de Laura Sanches
Mindfulness para Pais
Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes
de Laura Sanches

O Cérebro da Criança Explicado aos Pais de Álvaro Bilbao
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Como ajudar o seu filho a desenvolver todo o potencial intelectual e emocional
de Álvaro Bilbao

Free To Learn : Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
Free To Learn
Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
de Peter Gray

 

Há dois anos a ser feliz por aqui…

Foi há dois anos, com o calor, a maresia e um louva-a-deus (nunca antes visto) a testemunhar o salto, que arrisquei um lugar desconhecido, que tanto me trouxe a conhecer.

Foi há dois anos que publiquei o primeiro dos 150 textos que escrevi. Um texto que falava em coragem, em vulnerabilidade, na zona de não conforto que precisava tanto de conhecer.

E foi essa sede e essa vontade, empurrada por uma coragem de que me orgulho muito, que me fez chegar aqui. A um projeto meu, à insaciedade de continuar, às pessoas tão especiais, aos retornos que me empurram para a frente, à aprendizagem e sempre, sempre, ao compromisso de me manter fiel a quem sou e ao que me move.

E mesmo que procure não perdê-lo de vista, houve momentos, sobretudo neste segundo ano de vida, em que me perdi e duvidei da importância do caminho, voltando à ideia fácil de que para se ser merecedor, é preciso ser-se reconhecido. E alimentei-me dos “gostos” nas redes sociais e corri atrás dos outros e andei na corda bamba, a dar mais do que me era possível e a sentir o peso daquilo que mais queria.

Valeram-me as palavras de quem não conhecia, a gratidão dos outros, a confiança dos convites profissionais, as pessoas bonitas com quem me cruzei… Valeram-me os meus, que me ajudaram a vir ao centro outra vez, a desligar o computador quando era preciso fazê-lo e a não perder o rumo e o propósito de estar aqui.

São dois anos de Lua e aquilo que trago dentro é tanto e tão mais em equilíbrio, que eu celebro a conquista e respiro fundo por sentir que agora, aqui, “o tempo apaixonadamente, encontra a própria liberdade” *. E continua a fazer-me feliz.

É este o lugar.

* As palavras mais bonitas deste texto não são minhas, são da Sophia, neste poema. Achei que a ocasião merecia.

Destes dias felizes…

Somos muitos e somos bons. Uma espécie de tribo do sol, que todos os anos ruma à mesma costa, às mesmas praias de mar gelado e areal sem fim.

Somos catorze. Às vezes menos, tantas vezes mais, porque aqui se cresce com os outros, partilha-se e aprende-se a viver em comum.

Há um círculo de tendas, há uma rede entre as árvores e no meio uma mesa, onde cabem todos. Há pranchas de surf, pinhas para o fogareiro e fatos de banho estendidos. E há sempre, sempre, o barulho do mar.

O dia chega cedo e a noite termina tarde, entre baralhos de cartas e conversas embrulhadas nos sacos de cama. Não há pressa, não há tempo que importe e permanece a vontade de deixar acontecer. A manhã seguinte ditará o destino e nós saberemos ouvir.

Os miúdos andam quase em auto-gestão. Decidem juntos o que fazer, inventam brincadeiras, arriscam, protegem-se e cuidam uns dos outros. São parceiros de aventura, num espanto constante com a vida nas coisas e as coisas da vida. Constroem muralhas de areia, destroem-nas aos saltos sempre que a maré sobe. Trazem a bola no pé, o cabelo revolto e o sol nas maçãs do rosto. Correm para as rochas à procura de búzios, apanham caranguejos, escolhem seixos, trazem conchas e, se lhes dá a fome, comem pêssegos lavados no mar. Vão crescendo assim, em tamanho e no coração, a cada descoberta feita.

São felizes nesta irmandade de sol e de sal. E nós somo-lo também, no seu sorriso, na vontade de ficar, no desejo secreto de que os dias se fizessem sempre assim.

Levamos dentro o barulho no mar e a promessa de voltar. À vida, como ela deveria sempre ser….

6 maneiras de os ajudar a “desligar” em tempo de férias (e ao longo do ano).

Este é um tema que me preocupa. Muito.

Lá em casa visto quase sempre a pele de fiscal do tablet e da televisão, mas dou por mim muitas vezes a pensar sobre a estratégia e a tentar preparar-me da melhor forma para os desafios futuros. E digo futuros, porque até agora a coisa tem funcionado bem, o Manel raramente se lembra do tablet, nós não temos por hábito andar com o dito e nas poucas vezes em que o usa, recebe bem a sugestão de o desligar ao fim de pouco tempo.

Mas eu sei que é um ilusão achar que isto vai ser sempre assim. Sei porque tenho amigos com filhos mais velhos, sei porque trabalho com adolescentes na escola, sei, porque sei, que o mundo da tecnologia e, sobretudo dos jogos online, está pensado ao pormenor para favorecer a dependência e a desconexão de quem o procura.

Ajudar os filhos a fazer um uso adequado da tecnologia é um dos maiores desafios dos pais da atualidade, pelo que seguem algumas propostas que podem ser úteis às famílias e significar pontos de início e de retorno para todos, capazes de colocar os gadgets no seu devido lugar: o do entretenimento divertido e casual:

Não fazer da tecnologia um bicho de 7 cabeças.

Este é o ponto que mais tenho de trabalhar. Odeio jogos online, odeio ver crianças e adultos constantemente agarrados tablet e morro de medo de que isto se torne uma realidade cá em casa. E isto, faz com que ande constantemente a reagir à sua utilização e a verbalizá-lo: “Que perda de tempo!”. Não é, definitivamente, a melhor estratégia. Para entender o que se passa no ecrã, para poder aproveitar o seu lado bom e explicar o lado menos bom, é preciso não espantar os pequenos seres que por ele se encantam. A velha máxima do “fruto proibido é o mais apetecido” faz aqui todo o sentido e é por isso tão importante dar espaço para se falar no assunto e tentar compreender melhor a tentação: “Bem, isso parece mesmo desafiante!” ou “Queres explicar-me como se joga?”, são geralmente bons pontos de partida.

Falar abertamente acerca dos riscos associados ao uso excessivo de ecrãs.

Tal como em tudo na vida, nem todos os jogos ou vídeos são terríveis e nem sempre o recurso à tecnologia é um problema. Mas quando se transforma em tal, é nossa a tarefa de ajudar a pensar no impacto que a sua utilização excessiva pode provocar-nos, no que se refere ao bem estar e à saúde: “Reparei que quando jogas durante mais tempo, acabas por faltar ao treino de futebol” ou “Como te sentirias se dormisses um pouco mais?” ou ainda, “Tenho um colega no trabalho que está com dificuldades por causa do uso excessivo do computador…”, são exemplos que poderão ajudar a que cheguem eles próprios aos riscos que esta utilização representa.

Definir regras em conjunto.

A maioria das situações que me chegam de pais com dificuldade em definir limites aos filhos para a utilização do telefone ou do tablet, são situações em que o tema nunca foi discutido em família, muito menos aquando da tomada de decisão de comprar o dito aparelho. E acredito que este deve ser um ponto fundamental, capaz de evitar algumas dificuldades no futuro. Combinar que à mesa não se usa telemóvel, definir um lugar na casa onde guardar os gadgets durante a noite, estabelecer limites máximos de tempo para o jogo e estipular dias da semana específicos em que isso pode acontecer, limitar a existência de computadores e televisões às áreas comuns da casa, são algumas ideias que podem ser facilitar a saudável convivência com a tecnologia, protegendo, claro está, a convivência em família. (Nota importante: não esquecer que as regras aplicam-se a todos os elementos do agregado.)

Mostrar compreensão.

Terminar um jogo ou uma atividade que nos está a provocar sensações de bem estar e de prazer, só porque alguém nos diz para o fazermos, não é fácil e na maioria das vezes não será pacífico. Se, enquanto pais, mostrarmos empatia em relação a isto, ajudamos a lidar com a frustração e a facilitar que aceitem melhor a nossa colaboração nesta gestão: “Eu sei que estavas a gostar de jogar, mas já chegámos ao fim do tempo que combinámos”, relembra a importância de desligar, mas compreende que tal possa ser difícil.

Criar momentos em família do tipo “tecnologia não entra”.

“Vamos acampar? Deixamos o tablet em casa.” “Vamos jantar com  amigos? Não precisamos de telemóvel.” Fazer da experiência uma espécie de estudo sociológico e envolvê-los na sua implementação, análise e avaliação pode ser uma boa forma de motivar à participação. Aproveitar a moda do detox tecnológico: “Quanto tempo acham que aguentaríamos sem usar o telemóvel?” lança o desafio e torna tudo muito mais interessante.

Dar o exemplo.

Se eles são nativos digitais, nós já temos comportamentos muitos semelhantes, ainda que não tenhamos nascido com um telemóvel no bolso. Quantos de nós já se esconderam por uns instantes para espreitar as mensagens, quantos de nós já sacaram o telefone do bolso para fazer scroll no facebook assim que nos sentamos em qualquer lado, quantos de nós já levaram o tablet para a cama à noite? Quantos de nós já gritaram: “Já vou!”, só para estar mais um pouco no computador. Provavelmente todos. E a verdade é que em todas essas vezes, há alguém pequenino que nos observa. E aprende. Não nos esqueçamos disto.

E por fim, sabendo que estas propostas servirão assim a algumas famílias, e a outras servirão de outra forma, sendo que a todas será possível enfrentar o desafio imenso que esta coisa de viver num mundo cada vez mais digital representa, proponho ainda que não nos esqueçamos das coisas que nos fazem verdadeiramente sentir vivos: um banho de mar, as gargalhadas dos amigos, um desgosto de amor, um piquenique no parque, um concerto ao ar livre, uma viagem… estas são as experiências capazes de aguçar a vontade de mundo. E são elas que baterão aos pontos qualquer jogo online.

Sejamos vivos assim e não nos esqueçamos de os trazer connosco. Mesmo que às vezes a cara se faça feia, a memória não se fará dela…

Há por aí campistas para partilhar dicas?

A primeira vez que acampei foi pela mão do meu pai. Não nos rendíamos aos parques e preferíamos aventuras mais ao género “into the wild”, com uma noite na praia ou um fim de semana na barragem. Na altura, ainda podíamos escolher, a nosso belo prazer, o sítio onde assentar a barraca.

Depois vieram as experiências com amigos na adolescência. Semanas de planificação, listas de supermercardo pensadas ao milímetro, o nervoso miudinho na véspera do grande dia… E lá íamos nós, aos magotes, de mochila às costas e colchão enrolado, no comboio rumo à ilha de Tavira. Fazíamos salada de atum e massa à carbonara, dormíamos na praia ao som dos djembês e éramos sempre felizes. Muito.

Já na idade adulta, continuei a fazer disto rotina sempre que me foi possível e por isso, assim que o Manel dormiu uma noite inteira, fizemos-lhe o batismo (sim, porque isto de acordar 300 vezes à noite até quase aos 2 anos, fez com que tivéssemos de adiar alguns planos). Foi por isso em 2014 que nos estreámos em modo trio campista e desde então, honramos este pacto bom todos os anos. É maravilhoso ver como se sente peixinho na água e ainda assim vibra, como se fosse a primeira vez, sempre que montamos a tenda, sempre que acordamos com nevoeiro cerrado e chuva miudinha, sempre que nos reunimos com amigos à volta de uma mesa pequenina e bamboleante para picar da panela comum ou para jogar ao Uno…

(Ups, não era bem isto…mas obrigada por teres chegado até aqui. Sempre que começo a escrever dá nisto e o que era para ser uma lista de dicas transforma-se num sem fim de palavras cheias de vontade própria, que me desviam do propósito inicial. Desculpa. Não desistas. Abaixo vêm umas dicas top. Continuemos pois…)

Nesta minha jornada de mãe que acampa com o filho, tenho aprendido alguns truques que tenho aprimorado de ano para o ano. Uns permanecem, outros caem por terra por serem completamente desnecessários e porque, felizmente, cada vez tenho mais a certeza que é preciso muito pouco para sermos felizes e que o importante mesmo é descomplicar. Por isso, malta aspirante a campista, campistas veteranos, curiosos cheios de vontade e à espera que alguém os convide, aqui seguem algumas dicas simples que para nós se tornaram importantes:

Os básicos

Tenda: A nossa é uma espécie de iglo grande, sem divisórias. Dá para quatro pessoas. Tem uma característica fundamental para nós: um avançado que dá para deixar as coisas da praia, os sapatos e as pranchas de surf que nos acompanham sempre.

Sacos cama: Nós não usamos porque já os emprestámos a alguém e perdemos-lhes o rasto. Optámos agora por lençóis e um edredon grande e estamos sempre safos. O saco cama pode ser mais prático e fácil de transportar.

Colchões: Temos três tripartidos, mas também há uns insufláveis. Experimentem-nos sempre, porque se não forem dos bons, mais vale dormir no chão.

Camping Gaz ou fogareiro: Campismo rima com massa com atum ou pianinho grelhado, por isso, vale a pena safarmo-nos a confeccionar uma refeição em condições mais extremas: de cócoras, com um frio do caraças e uma panelinha de água que nunca mais ferve. Faz parte.

Polares, meias e um par de ténis: O nosso sítio de eleição fica na costa vicentina e isso implica rapar um frio de rachar todas as noites. Garanto-vos que esta alteração climática do dia para a noite é das melhores coisas de acampar. Aconchega o corpo e alma. Ahhh, e já que falamos de roupa, sejam comedidos, não vão usar metade (acontece-me sempre).

Loção anti mosquitos: Se a noite trouxer o inverno no sítio para onde vão, não haverá mosquito que se aventure, caso não, este é um must have, que vos saberá pela vida. Escusam de me agradecer.

Louça essencial: Existem um kits já feitos ou podem, como nós, reunir em casa tudo o que tenham de plástico rijo (talheres dos miúdos, tigelinhas, tupperwares…). Também é importante uma panela, se quiserem cozinhar e uma faca boa, se não quiserem comprar a batalha inglória de cortar pão e tomates com facas de criança.

Jogos de mesa: Coloco nos essenciais por ser uma das coisas que mais gozo dá viver nesta experiência. Que se aproveite o tempo depois do jantar para jogar às cartas, jogar xadrez, damas, uno… Os miúdos adoram e os adultos também.

Medicamentos: Nunca tinha levado. Mora em mim uma espécie de mãe aluada, que se esquece de pormenores importantes como este. No ano passado, o Manel acordou de madrugada a gritar de dores com uma otite e por isso, eu nunca mais me vou esquecer. Um pequeno saco térmico com o básico: Benuron, Brufen, termómetro. E já agora, Bepanthene Feridas e meia dúzia de pensos. Não custa nada e pode ser muito útil.

Os upgrades

Rede: Estreámo-nos este ano e não há melhor do que balouçar ao som dos grilos e a olhar para a lua por detrás dos pinheiros. Já se estão a imaginar, não estão?

Vassourinha: Não é essencial mas dá um jeitaço para varrer os quilos de areia e de terra que entram todos os dias pela tenda adentro.

Lanterna: Não tenho saudades de andar à procura do telemóvel para acender uma luz. Há umas lanternas pequeninas que se prendem no topo da tenda e são suficientes para encontrar a roupa, ou a carteira, ou o papel higiénico (levar sempre, as casas de banho não costumam ter). E só precisam que estiquemos o braço e… clic, já estás.

Corda e molas de roupa: Passei anos sem levar e a ter de cravar a corda do vizinho. Dá jeito para estender as toalhas e os biquinis até à manhã seguinte.

Ponchos-toalha para os miúdos: São óptimos. Deixam-nos quentinhos até à tenda e não caem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche, sempre que os embrulhamos.

Chinelos com elástico atrás: Dão para a praia e para o banho e ajudam a que não se descalcem 20 vezes no chão molhado e sujo do duche.

Nécessaire com uma cruzeta para pendurar: E voltamos ao mesmo. Chão molhado e sujo dos balneários. Acho que estou a descobrir aqui um padrão… Sim, o chão molhado e sujo dos balneários é um problema para mim. Cruzeta pendurada no cabide, tudo à mão de semear e estou no paraíso.

E depois desta lista imensa, à qual acredito que acrescentariam um sem fim de coisas igualmente importantes (estou longe de ser uma expert na matéria), só me apetece pedir-vos que experimentem e que levem os miúdos.

Que os deixem procurar o melhor sítio para montar a tenda e perceber onde vai nascer o sol. Que os deixem martelar estacas e tirar pedregulhos do chão para dormirem melhor. Que os deixem fazer a salada, apanhar pinhas para o fogareiro e pôr a mesa com a loiça improvisada. Que os deixem jogar às cartas até de madrugada, vestidos com casacos polares e com o cabelo cheio de mar.

E sobretudo, que lhes permitam o privilégio de adormecer sob o céu estrelado e acordar com o cheiro dos pinheiros e o barulho dos pássaros. Entenderão assim, que a natureza sabe mesmo o que faz e que, dentro deles, mora tudo o que é preciso para aprender.

Palavra de campista.

Crescer também é isto…

Hoje dispensaste-me outra vez. Fechaste a porta da casa de banho e disseste: “Podes ir mãe, que eu dou conta disto.” Acompanhaste a certeza com um sacolejar de mão a indicar-me o caminho, não fossem ter ficado em mim algumas dúvidas. Apareceste pouco tempo depois, lavado, vestido, com o cabelo cheio de gel e o sorriso de sempre: “Vamos, que os meus amigos estão à espera!” Hoje o dia é vosso e eu vou ficar a aguardar o regresso e o sorriso. Por mais que cresças, esses ninguém mos tira. Aproveita muito, meu amor maior.
Eu aguento-me.

A lua não fica cheia num dia…

Caminho a um passo apressado. O do costume.
Constante, alinhado com o relógio (ou desalinhado pela hora tardia), cheio de certezas mal amanhadas e de verdades absolutas.
Julgo-te logo atrás de mim, quando te abro a porta do carro, mas depressa percebo que não estás.
Procuro-te com o olhar…
Passo demorado, ao sabor do vento e da vida, cheio de dúvidas certeiras e em estado de puro êxtase com os sons, as cores, o traçado do chão…
Desatino.
É tarde. Tu sabes disso, porque já to disse 100 vezes desde que te acordei.
“Não há vida para isto!” volto a repetir, para depois ler nos teus olhos: Mas há vida mamã, e está em todo lado. Ainda consegues ver?

Esta história tem sido minha. Quase todas as manhãs.
E não há nenhuma delas em que eu não deseje ser diferente, ou pelo menos, ser mais vezes capaz de me espantar com o meu filho, de continuar a esforçar-me para estar atenta e disponível e reaprender essa sábia forma de vida que traz dentro.
Já a tive, sabes?
Já me detive no caminho e acompanhei com o olhar a formiga pequenina que me atravessava o caminho. Já corri atrás do som feliz do passarinho que pousou por instantes na mesa de esplanada ao lado. Já imaginei até, se o barulho da chuva não seria antes uma legião de borboletas azuis, prontas a resgatar-me da sala de aula.
E depois perdi-a. Perdi-me.
Nem sei bem quando, mas decerto quando pensei que já tinha visto quase tudo, ou sempre achei que havia coisas mais importantes do que a vida a acontecer, no chão que piso, na mesa ao lado, no cheiro da terra molhada…
Não sei quando perdemos de vista a capacidade instantânea de nos espantarmos com o mundo, mas sei que o mundo seria um lugar tão melhor, se os adultos que nele moram, pudessem mais vezes esquecer o relógio, e SER.

Não sei quando nos perdemos de vista, mas sinto, na tua mão pequenina que ainda não desistiu de me encantar, que vou a tempo de me encontrar.
Vou sempre a tempo, meu amor…

E é por isso que amanhã acordo uma hora mais cedo, e cedo ao passo demorado e à perfeita delícia de te acompanhar…

Nota: Se tal como eu te sentes assim (às vezes tempo demais), partilho contigo algumas ideias que procuro ter como farol, capaz de guiar a vontade de manter vivo e de boa saúde este seu (nosso) sentido de espanto:

Desligar a televisão e esconder os tablet e os outros gadgets maravilha (depreendo que imagines porquê…);

Manter o contacto com a natureza e tornar mais conscientes as sensações que isso nos traz: pôr os pés descalços na terra, comer frutos das árvores, fazer uma horta na varanda… Deixar a vida acontecer ao ar livre, sempre e o mais possível;

Dar espaço para a brincadeira livre. Enquanto adultos interferimos vezes demais neste processo: orientamos, damos diretrizes, proibimos ou permitimos… Brincar livremente e escolher a forma e o conteúdo da brincadeira favorece, como nenhuma outra atividade, o desenvolvimento social, criativo e emocional das crianças;

Encorajar a exploração do ambiente. As crianças são naturais inventoras e hábeis exploradoras do espaço e do meio em que se movem. Estimular essa descoberta traz-lhes ferramentas únicas para se superarem do ponto de vista físico e cognitivo;

Estimular o questionamento acerca das descobertas feitas. “O que achas que aconteceu aqui? Porque será que este passarinho preferiu fazer o ninho nesta árvore?” Formular hipóteses em conjunto acerca do que é observado, permitindo que construam as suas conclusões, traz significado próprio a todas as experiências e aprendizagens, e fortalece-as;

Transformar objetos da natureza e do quotidiano, descobrindo-lhes novas funções: estimula o pensamento divergente, a criatividade, a resolução de problemas. Resistir à tentação dos brinquedos luminosos, barulhentos, “pilhodependentes” e tão pouco desafiantes, é o primeiro passo para que isto possa acontecer;

Permitir o “aborrecimento”, e abraçá-lo como oportunidade única para estar atento ao que lhes acontece dentro e ao seu redor. Garanto-te que o que daí advém, é quase mágico.

E porque acabar de uma forma bonita ajuda a que o fim perdure, o vídeo que hoje te deixo, transforma tudo isto em poesia… Enjoy. <3

Se os adultos…

Ao folhear um livro antigo, encontrei este texto que, tendo sido escrito em 1952, me fez revisitar aquilo em que acredito quando penso no desafio que é ser mãe e no impacto que a forma como agimos, pode significar no desenvolvimento dos nossos filhos. Não seremos nunca pais perfeitos (nem isso seria desejável) mas morará sempre em nós, a capacidade de refletir, aprender e crescer enquanto seres humanos, de forma a que o melhor que somos, seja sempre bússola. E perdure.

“Se as crianças vivem com crítica, aprender a condenar.

Se as crianças vivem com hostilidade, aprendem a ser agressivas.

Se as crianças vivem com medo, aprender a ser apreensivas.

Se as crianças vivem com pena, aprendem a ter pena de si próprias.

Se as crianças vivem com vergonha, aprendem a sentir-se culpadas.

Se as crianças vivem com encorajamento, aprendem a ser confiantes.

Se as crianças vivem com tolerância aprendem a ser pacientes.

Se as crianças vivem com elogios, aprendem a apreciar.

Se as crianças vivem com aceitação, aprendem a amar.”

Dorothy Law Nolte