Há escolas que não são amigas das crianças.

Às vezes a escola não é um lugar feliz. Não por causa das crianças, que afinal são o melhor que a escola tem, mas por causa dos adultos que não sabem a sorte que têm, por terem sido escolhidos para ser parte da escola.

Às vezes a escola não é um lugar seguro. Não por causa dos portões abertos, mas por causa dos adultos que se esquecem que a segurança que verdadeiramente importa, se constrói a partir do afeto e do amor que se põe nas coisas.

Às vezes a escola não é amiga dos pais. Não por causa dos pais, mas por causa dos adultos que acham que os pais que pensam são pais incómodos e que por isso usam a distância e a retórica gasta, para os manter longe, desinformados e, sobretudo, conformados.

Às vezes a escola não é amiga das crianças. Não que as crianças não o desejem (quando aliás é só isso que desejam), mas porque os adultos que nela moram se esqueceram há muito do que é ser-se criança. E se calhar até têm uma certa inveja da liberdade do corpo, do riso fácil, da energia sem fim, da criatividade na leitura das coisas, que só as crianças sabem ter.

Às vezes a escola não protege a brincadeira. Não por causa do tempo de recreio mas por causa do cinzento e do betão que insistem em consumir, incansáveis, tudo o que possa estimular o corpo e desafiar a mente.

Às vezes a escola não inspira respeito. Não por causa das crianças, mas por causa dos adultos que confundem medo com respeito, obediência com educação e do alto do seu tamanho de corpo, mandam e desmandam, avaliam e decidem, sem nunca sequer tentarem subir ao nível da criança e ler tudo o que de enorme lhes acontece dentro.

Às vezes a escola não ensina a liberdade. Não por causa da falta de vontade dela, mas por causa de quem acha que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro e se esquece que só se pode ser verdadeiramente livre, na liberdade conjunta, construída e tornada possível, a partir do questionamento e da descoberta individual.

Às vezes a escola é pequenina. Não pelo tamanho daqueles que mais vida lhe trazem, mas pela pequenez de espírito com que os crescidos olham a infância e pela arrogância com que não a entendem.

E não me digam que as crianças são difíceis, que as famílias são insuportáveis ou que os tempos são de crise, porque a única coisa que afinal uma escola precisa para ser grande, É GOSTAR DAS CRIANÇAS (condição estranha, quando é afinal por causa das crianças que ela existe) e saber que nelas mora a esperança de que um dia, o mundo possa ser um lugar feliz, seguro e livre.

Porque é afinal só isto que todos precisamos e é afinal isso que as escolas amigas das crianças são capazes de ensinar, sem nada mais lhes importar, para assim nunca mais pararem de crescer.

Do elogio ao encorajamento. Descubra as diferenças.

Voltou da tarde do Centro de Ciência Viva, feliz. Procurou a taça, o copo e o algodão para fazer outra vez magia na experiência aprendida. Chamou-nos. Encantados e com a vontade incontrolável de o encantar, dissemos: “Uau, que giro!”, para depois voltarmos ao que estávamos a fazer.
Percebi que depois daquele elogio nada tinha acontecido.
O sorriso tinha-me soado pouco entusiasmado e eu não voltei a ver o brilho do espanto inicial. Resolvi voltar atrás e perguntar: “Isso foi mesmo giro! Gostava mesmo de aprender como se faz…” E num segundo, foi ver o rosto iluminar-se outra vez e as palavras darem corpo à sensação feliz de se ser capaz e de se ser reconhecido por isso.

Usamos frequentemente o elogio como forma de mostrar amor e de o ganhar na satisfação imediata dos nossos filhos, mas o problema está precisamente nesta gratificação instantânea que pouco ou nada ensina e que muitas vezes serve de travão à comunicação, exatamente como aconteceu no início da história que aqui partilhei: “Gostaste? Boa, está tudo dito…”

O elogio sabe bem, mas o encorajamento consegue ir muito além dele e constitui uma ferramenta fundamental ao nível do desenvolvimento socioafetivo, com impacto significativo na auto estima da criança. Pensar na forma como comunicamos o valor que sentimos nos nossos filhos, procurando estimular a ligação emocional e o desenvolvimento de um sentido de capacidade e empoderamento a cada passo dado, pode significar-lhes a diferença no enfrentar dos diferentes desafios de vida e na autonomia e confiança necessário para os superar. Ora vejamos porquê…

O elogio é uma espécie de shot de felicidade. O encorajamento faz-nos fazer sentir capazes de abraçar todos os desafios;

O elogio salienta as coisas que temos, a forma como parecemos ou aquilo que fazemos: “Que desenho bonito!” O encorajamento permite aprendizagem e conhecimento: “Olha só as cores que usaste! Gostas muito de azul?”

Um elogio é uma avaliação: “Lindo menino! Arrumaste tudo sozinho!” O encorajamento ensina-nos mais sobre nós próprios e sobre os outros: “Obrigada por teres cuidado do teu quarto. Como te sentes por ter tudo mais organizado?”

O elogio celebra o produto: “Estás linda!” O encorajamento valoriza o processo: “Vejo que hoje escolheste a tua roupa sozinha e que isso foi importante para ti. Queres contar-me como o fizeste?”

O elogio alimenta o locus de controle externo: “O que é os os outros pensam?”. O encorajamento favorece a reflexão interna: “O que é eu penso sobre isto?”

O elogio tem como objetivo a conformidade: “Fizeste muito bem!”. O encorajamento promove a compreensão: “O que senti? O que aprendi?”

O elogio usa os outros como termómetro: “Mamã, hoje fui melhor que os outros, não fui?” O encorajamento faz nascer sentido de competência: “Mamã, sinto que hoje fiz um bom trabalho.”

As diferenças são muitas e conseguem muitas vezes notar-se no imediato, porque para além do sorriso radiante, o encorajamento acrescenta ainda o brilho no olhar e a certeza de que somos donos e senhores do que é preciso para continuar a experimentar o mundo.

É aqui que passamos a gostar de quem somos, mesmo que às vezes nem todos gostem de nós.
E todos já sentimos na pele o quão é isto importante, não sentimos?

Depressão na adolescência. É preciso falar sobre isto.

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente, que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima. São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza, da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil e que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar, sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. Os sintomas de depressão não desaparecem por si, não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

O poder da empatia.

Na fantástica, e ao mesmo tempo assustadora, missão de educar, cada um de nós estabelece prioridades, modelando, através daquelas que são as suas (re)ações, o comportamento dos filhos e a sua forma de pensar o mundo.

Neste meu caminho de mãe em constante crescimento, tenho tentado que o Manel se torne pessoa, sem esquecer que se é pessoa perto dos outros e que a essência da nossa humanidade reside, precisamente, na disponibilidade para entender o sofrimento, a alegria, as frustrações, as conquistas… o sentir de quem nos rodeia.

Falo aqui da capacidade de sermos empáticos, de nos aproximarmos do outro, de assumir o seu lugar, sem filtros e sem julgamento, fazendo sentir que se é compreendido e aceite. No matter what.

A empatia, diz quem sabe, melhora a relação com os outros, motiva o cuidado a quem está próximo, promove a aceitação social, a resolução pacífica de conflitos, diminuindo ainda a frequência de respostas agressivas. Tudo coisas boas, portanto.

E perguntam vocês:

“Mas como é que isso se consegue?”

1ª boa notícia: A empatia treina-se.

2ª boa notícia: Ajudar os nossos filhos a desenvolvê-la depende, em grande parte, de nós.

Vários estudos sugerem que existem práticas parentais que promovem o desenvolvimento da empatia nas crianças e nos jovens.

São os pais que incentivam os filhos à expressão emocional e à tomada da perspetiva do outro, e que experimentam os seus benefícios, sendo também eles empáticos nas relações que estabelecem.

É o permitir chorar, sem provocar o medo de perder o nosso amor. Sim, porque quando dizemos a uma criança que não chore, estamos a dizer-lhe que chorar é errado e isso, além de ensinar a reprimir emoções, pode também alimentar uma maior insegurança nas ligações que estabelecem connosco;

É contribuir para que identifiquem o que sentem e lhe dêem nome: “Estou triste porque um amigo não quis brincar comigo” ou, “Estou zangado porque não me deixaste sair à noite com o resto da turma”. E validar esse sentimento e a sua livre expressão;

É ajudar a que se coloquem na pele do outro e que pensem naquilo que possa estar a viver: “Imagina que te tinham feito o mesmo a ti (descrever a ação). Consegues imaginar como te sentirias?”

É dizer que aceitamos e compreendemos o que sentem, mas que, naquele momento, determinada atitude é a que nos parece mais acertada, por esta, ou por aquela razão;

É escutá-los. Sempre. Existe uma diferença abismal entre ouvir e escutar, já que a última não se limita a captar os sons à nossa volta, mas prefere ser sensível e estar verdadeiramente disponível para entender aquilo que está a ser comunicado.

Gosto de pensar que ser empático é estar de coração aberto e atento, na firme certeza de que, tal como o disse Adriano Moreira: “O mundo é a casa de todos os Homens”.

Não é a casa dos nossos filhos, não é a minha, não é a tua.

É a casa de todos nós e, como tal, nada mais amplo e justo do que, enquanto seres humanos, procurarmos sempre a construção de espaços comuns, que a todos cheguem e a todos permitam ser quem são.

Para melhor compreender e espalhar por aí o poder da empatia, aqui vos deixo esta pequena maravilha… :

Aos professores. Os bons.

Sou de uma família de professores.

Desde que me sei como gente, que me habituei a ouvir falar de escola, de alunos, de colegas, de livros, de exames, de dias difíceis, de conquistas importantes, enfim, da vida de quem passa grande parte da vida, na escola.

Quis o destino que viesse também eu, na minha profissão, a conviver diariamente com professores, a escutar as suas angústias e a partilhar os seus anseios, em relação à escola e a quem nela habita todos os dias.

Existem profissões que têm em si o poder de mudar o mundo, de salvar vidas e de fazer crescer a esperança. E aqui, falo convicta, dos professores. Dos bons professores.

E os bons professores são aqueles que se dão aos seus alunos todos os dias, que os levam para casa no coração e que procuram, incansavelmente, todas as formas de dar significado ao que é suposto ensinar-se, que tantas vezes está distante da vida e daquilo que é efetiva e afetivamente importante.

Sei por isso de cor, os nomes dos professores que marcaram o meu caminho. Reconheço-lhes as expressões, as marcas do rosto, as palavras ditas no momento certo, o afeto…

Alguns, tiveram a capacidade de me ajudar a compreender a forma como os números se relacionavam, a simplificar equações e a aprender que a matemática está em todo o lado, mesmo que eu tenha com ela uma relação difícil. Outros, fizeram com que me apaixonasse por aquilo que me ensinaram, de tal forma, que decidi fazer disso profissão.

Foi também na escola que aprendi a ser pessoa, que me relacionei com quem era diferente de mim e dos meus e que lidei com desafios gigantes, numa espécie de treino para a vida adulta.

E é afinal isto que a escola nos dá. Bagagem, sentido de ser, educação.

Porque mesmo que muitos me contestem, muito mais do que transmitir conhecimento, na escola EDUCA-SE, ensina-se a crescer. No saber e no coração.

E ainda bem que assim é, porque para muitas crianças e muitos jovens, o que existe para lá dos portões da escola é assustador, é desorganizador e duro, muito duro.

A escola pode tornar-se aqui uma espécie de porto seguro, quando as famílias sofrem e não sabem sê-lo. E os professores, os adultos significativos que com um gesto, uma palavra ou um olhar, têm em si a capacidade mágica de evitar que alguém que cresce, se zangue para sempre. Com as pessoas e com a vida.

Ora, claro que isto não é fácil e que existem cansaços, desalentos e frustrações, que conseguem por vezes desgastar os dias e roubar a esperança das histórias seguintes.

E é por isso eu sei, porque sinto, que os bons professores também precisam de colo. Precisam que lhes digam, muitas e muitas vezes, que podem realmente fazer a diferença e ser fonte de inspiração, conquistando assim a enorme honra de não serem esquecidos.

Eu fá-lo-ei sempre, com a gratidão de quem sabe que tem o privilégio de aprender, todos os dias, com aqueles que têm em si o poder de mudar o mundo.

Seja este um bom ano. De escola e de vida.

Aquilo que eu não deixo faltar na lista de material escolar…

Setembro chegou em força, como faz todos os anos.
Este até trouxe uma descida abrupta de 10 graus celsius, não fosse algum incauto, não ter percebido ainda que a boa vida tinha terminado.
Acabei de resgatar os vouchers dos manuais do Manel. Os primeiros.
Andei a empurrar a coisa até aqui e confesso que não o faço com uma alegria imensa. Faço-o porque tem de ser e esconderei num sorriso tudo aquilo que já sei, quando o embrulho chegar e nós podermos abri-lo juntos. Tudo, porque para além da Matemática, do Estudo do Meio e do Português, virá também embrulhada na encomenda, a rotina do trabalho, o horário da escola, a rigidez do relógio.
E eu volto a confessar-me neste texto, para te dizer que tenho medo.
Tenho medo dos dias enormes e ainda assim a transbordar de coisas que não interessam. Tenho medo das noites curtas e da sequência cansada do banho-comida-cama, que me desgasta e me descentra. Tenho medo da sensação de estar em todo o lado e não estar em lado nenhum. Tenho medo, sobretudo, da falta de ti, inteiro e livre. E de mim, inteira e presente, como me mereces.
Mas tu tens seis anos e eu tenho mais trinta e dois. Esses onde já cabe a conformada certeza de quem nem sempre se tem o que se quer (ou pelo menos como se quer) e que há coisas que é importante agradecer, ainda que o que tragam a reboque, nos afaste do que é efetivamente importante.
E é nelas, mesmo no meio delas, que temos de nos (re)encontrar. E respirar, agradecendo a sorte de ter um trabalho que amamos, de te poder levar à escola, de vivermos perto de amigos e família, numa cidade tranquila que te permite crescer seguro. Tudo, sem deixar de firmar o compromisso de, de quando em quando, pegarmos na mochila e rumarmos a esse espaço vital, o da liberdade, do improviso, do encantamento… A tudo o que, afinal, os teus seis anos nos trazem e ensinam como caminho.
O embrulho virá e nós folhearemos juntos, pela primeira vez, os manuais. E eu prometo explicar-te num sorriso, que a vida não se faz da Matemática, do Estudo do Meio nem do Português.
E cresceremos juntos, de pé descalço e manual na mão.

Nota: Este texto fala pouco de material escolar, mas fala das coisas (imateriais) que é imperativo incluir na lista. E pensar nelas, trouxe-me outra vez este vídeo, fazendo-me sentir que talvez seja a ele que devamos retornar, sempre que a vontade nos falte e a cor se perca nos dias…

Seis livros para pensar o crescimento.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade, nunca se conheceram tantos especialistas na matéria e nunca se deram tantas dicas e se fizeram tantos tratados, acerca de como educar uma criança.

E isso é bom.

É bom desde que não percamos de vista quem somos e em quem nos queremos tornar enquanto educadores. É bom desde que não cedamos à tentação de não nos ouvirmos e de não ouvirmos os nossos filhos, conhecendo aquilo que os torna tão especiais. É bom desde que não nos deixemos enganar pela culpa de achar que, se não funciona assim connosco, é porque somos péssimos pais. É bom, sempre que saibamos integrar a informação e ver para além dela, à luz daquele que é o nosso caminho e enquadrando-a naquele que é o nosso contexto familiar e história de vida.

Nunca se escreveu tanto sobre parentalidade e eu tenho uma prateleira cheia de livros sobre o assunto. Estão carregados de anotações e reflexões pessoais, que se fizeram do eco que as palavras lidas deixaram em mim.

De todos eles retirei o meu melhor, em todos eles deixei um pouco de quem sou, que volto sempre para buscar, quando a vontade me dá ou quando a vida me lembra da certeza absoluta de que nada sei. Não são bíblias, porque acredito que nunca nenhum livro, nem nenhum autor, por mais especializado que seja, será capaz de transformar em fórmula universal, a complexidade e o desafio de ajudar um filho a crescer. A eles, dou-lhes a tarefa consciente de se constituírem luz e impulso para pensar e para me conhecer nos sentidos com que me identifique e naqueles que construa a partir daí.

É por isto que nos textos que escrevo, procuro deixar espaço para que cada mãe, cada pai e cada família se possa encontrar num caminho que lhe é próprio e retirar das palavras, apenas e só, aquilo que lhe sirva, para depois o transformar e lhe trazer verdadeiro significado.

É por isso assim, com este propósito, que hoje vos deixo alguns dos autores que me trouxeram reflexões importantes e me deram asas para voar a partir dos livros que escreveram.

Não os vejam como especialistas, porque o especialista mais inspirador, mora em cada um de vós e no sujeito da vossa especialidade, que será sempre um ser único e com características irrepetíveis.

É essa a magia de educar. Não a percamos de vista.

 

Aqui te deixo a referência de alguns dos livros sobre parentalidade que mais me têm ensinado, esperando que possam trazer-te sentido também… (e claro, adoraria conhecer outros que a ti te tenham marcado 🙂

 

Pais Conscientes, Educar para crescer, de Shefali Tsabary
Pais Conscientes
Educar para crescer
de Shefali Tsabary

Disciplina Sem Dramas de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel
Disciplina Sem Dramas
Zangas para quê ? Os segredos da neurociência para educar os filhos tranquilamente
de Tina Payne Bryson e Daniel Siegel

Educar na Curiosidade de Catherine L'Ecuyer
Educar na Curiosidade
Como educar num mundo frenético e hiperexigente?
de Catherine L’Ecuyer

Mindfulness para Pais Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes de Laura Sanches
Mindfulness para Pais
Dicas de parentalidade consciente para pais tranquilos e filhos felizes
de Laura Sanches

O Cérebro da Criança Explicado aos Pais de Álvaro Bilbao
O Cérebro da Criança Explicado aos Pais
Como ajudar o seu filho a desenvolver todo o potencial intelectual e emocional
de Álvaro Bilbao

Free To Learn : Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
Free To Learn
Why Unleashing The Instinct To Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, And Better Students For Life
de Peter Gray

 

Há dois anos a ser feliz por aqui…

Foi há dois anos, com o calor, a maresia e um louva-a-deus (nunca antes visto) a testemunhar o salto, que arrisquei um lugar desconhecido, que tanto me trouxe a conhecer.

Foi há dois anos que publiquei o primeiro dos 150 textos que escrevi. Um texto que falava em coragem, em vulnerabilidade, na zona de não conforto que precisava tanto de conhecer.

E foi essa sede e essa vontade, empurrada por uma coragem de que me orgulho muito, que me fez chegar aqui. A um projeto meu, à insaciedade de continuar, às pessoas tão especiais, aos retornos que me empurram para a frente, à aprendizagem e sempre, sempre, ao compromisso de me manter fiel a quem sou e ao que me move.

E mesmo que procure não perdê-lo de vista, houve momentos, sobretudo neste segundo ano de vida, em que me perdi e duvidei da importância do caminho, voltando à ideia fácil de que para se ser merecedor, é preciso ser-se reconhecido. E alimentei-me dos “gostos” nas redes sociais e corri atrás dos outros e andei na corda bamba, a dar mais do que me era possível e a sentir o peso daquilo que mais queria.

Valeram-me as palavras de quem não conhecia, a gratidão dos outros, a confiança dos convites profissionais, as pessoas bonitas com quem me cruzei… Valeram-me os meus, que me ajudaram a vir ao centro outra vez, a desligar o computador quando era preciso fazê-lo e a não perder o rumo e o propósito de estar aqui.

São dois anos de Lua e aquilo que trago dentro é tanto e tão mais em equilíbrio, que eu celebro a conquista e respiro fundo por sentir que agora, aqui, “o tempo apaixonadamente, encontra a própria liberdade” *. E continua a fazer-me feliz.

É este o lugar.

* As palavras mais bonitas deste texto não são minhas, são da Sophia, neste poema. Achei que a ocasião merecia.

Destes dias felizes…

Somos muitos e somos bons. Uma espécie de tribo do sol, que todos os anos ruma à mesma costa, às mesmas praias de mar gelado e areal sem fim.

Somos catorze. Às vezes menos, tantas vezes mais, porque aqui se cresce com os outros, partilha-se e aprende-se a viver em comum.

Há um círculo de tendas, há uma rede entre as árvores e no meio uma mesa, onde cabem todos. Há pranchas de surf, pinhas para o fogareiro e fatos de banho estendidos. E há sempre, sempre, o barulho do mar.

O dia chega cedo e a noite termina tarde, entre baralhos de cartas e conversas embrulhadas nos sacos de cama. Não há pressa, não há tempo que importe e permanece a vontade de deixar acontecer. A manhã seguinte ditará o destino e nós saberemos ouvir.

Os miúdos andam quase em auto-gestão. Decidem juntos o que fazer, inventam brincadeiras, arriscam, protegem-se e cuidam uns dos outros. São parceiros de aventura, num espanto constante com a vida nas coisas e as coisas da vida. Constroem muralhas de areia, destroem-nas aos saltos sempre que a maré sobe. Trazem a bola no pé, o cabelo revolto e o sol nas maçãs do rosto. Correm para as rochas à procura de búzios, apanham caranguejos, escolhem seixos, trazem conchas e, se lhes dá a fome, comem pêssegos lavados no mar. Vão crescendo assim, em tamanho e no coração, a cada descoberta feita.

São felizes nesta irmandade de sol e de sal. E nós somo-lo também, no seu sorriso, na vontade de ficar, no desejo secreto de que os dias se fizessem sempre assim.

Levamos dentro o barulho no mar e a promessa de voltar. À vida, como ela deveria sempre ser….