“Já não sou teu filho!”

Hoje, depois de um acordo cumprido, fechaste a cara, olhaste-me nos olhos e gritaste: “Já não sou teu filho!”

Eu, que já me digladiei com um “És má!” ou com um mais comum: “Tu não mandas em mim!”, recebi a ordem de despejo como uma espécie de mergulho de chapa, ocasionado por empurrão.

Só eu sei como me desarmaste.

A mim, que aprendi a aceitar que as coisas que às vezes se dizem não são bem aquelas que se querem dizer e que não desejo senão a tua liberdade e a eterna celebração da bravura e impetuosidade do teu ser.

A mim, que todos os dias procuro, consciente, manter viva a certeza de que um filho é um generoso empréstimo que a vida nos trouxe, para que aprendamos verdadeiramente a ser gente… Alimentá-lo em pensamento é fácil. Ouvi-lo feito palavra, é toda uma outra história.

Não me apeteceu devolver-te na mesma moeda. Isso já não.

Já venci essa batalha, no momento em que entendi que crescer com um filho implica abandonar egos, sair do nosso umbigo e da ideia tosca de que tudo o que dizem e fazem, acontece com o objetivo único de nos tirar a paz.

Chegada aqui, já há muito que sinto que este amor que nos une (ainda que tantas vezes nos enleie), é à prova disto e de tudo o que ainda tenhamos de vencer.

Chegada aqui, já há muito que sei que o teu comportamento é sempre resultado de uma necessidade por preencher, de uma emoção por compreender, de uma vontade por expressar… tal como o vértice melhor lapidado da ponta a descoberto de um iceberg, que esconde afinal uma riqueza enorme que nos importa a ambos conhecer.

Aqui, eu até já sou capaz de te ler nos olhos aquilo que as palavras não disseram, sossegando na ideia de que é preciso uma confiança imensa neste porto seguro que te quero ser, para se investir no ataque, sem medo de se perder o lugar na viagem.

Este lugar é teu, meu amor maior e é por isso que chegados aqui, já só nos bastou a resposta: “E eu gosto tanto de ser tua mãe…”

12 thoughts on ““Já não sou teu filho!”

  1. Olá Rita,

    Em primeiro lugar um miminho, são importantes todos os dias, mas há dias em que são ainda mais. É uma partilha e tanto e quando se escreve do coração como tu o fazes, faz eco, não tenhas dúvidas. Quando tomamos consciência que já vencemos “essa batalha”, é maravilhoso, pois percebemos que debaixo daquela atitude existe uma pessoa pequenina com sentimentos, com frustrações que saltam cá para fora às vezes como bombas, não porque não gostam de nós, mas porque não conseguem de outra forma; e quando nós, pais, conseguimos aceitar, respeitar e ajudar a desarmar cada bombinha, ganhamos e transmitimos confiança.
    Pessoalmente, sinto que a minha batalha está quase vencida, no sentido de não responder na mesma moeda e de conseguir encontrar alternativas, é um caminho que se faz todos os dias e o resultado é extraordinário. Tu fazes parte desse caminho.
    Hoje, por exemplo, nos preparativos para sairmos para a escola, percebi que ela estava mais sensível: começou a não querer lavar os dentes, qualquer coisa que lhe pedia era ufa ufa, mas lá conseguimos dar a volta e acabamos por sair de casa sem birras; fui deixá-la à escola e todos os dias ela pede para irmos à janela da rua dizer-lhe adeus, hoje estava sozinha e esqueci-me, entrei no carro e de repente upsss “ai que não fui à janela”, e voltei, porque senti que hoje era importante, apesar de me ter esquecido, senti que ela estava mais sensível, e já tinha dado sinais de manhã . Ela tinha estado num pranto de choro, ainda soluçava quando eu cheguei, ainda consegui falar com ela e dar-lhe mais um mimo, A educadora tb já tinha falado com ela e dado muitos mimos. Há dias em que eles estão mais sensíveis, tal como nós, e é tão bom quando conseguimos olhá-los e vê-los. Um bj-miminho. Yara

    1. Minha querida, a tua partilha é força e paz neste meu coração. É tão bom saber que nos encontramos nos desafios e nos anseios desta missão mais bonita do mundo.E é mesmo como dizes, a consciência de quem somos, a certeza de que estamos sempre em aprendizagem e crescimento interior e a capacidade de ouvir estes pequenos grandes seres que a vida nos deu a honra de acompanhar, é mesmo muito maravilhoso! Um grande beijinho e um até já… <3

  2. E, como seria de esperar de alguém tão grandemente Humano como tu, Rita, o texto foi direto ao coração… Tantas vezes apetece responder de forma igual, esquecendo que somos mães, adultas. Estou grata pela partilha. Abraço grande.

    1. Tantas vezes,Ercília… e ainda assim, é quanto mais pensamos sobre isso, enquanto mães e enquanto adultas, que mais nos aproximamos do lugar em que tudo pode ser maior e ainda mais bonito. Tão grata pela tua partilha, e por estares aí. <3

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