Há escolas que não são amigas das crianças.

Às vezes a escola não é um lugar feliz. Não por causa das crianças, que afinal são o melhor que a escola tem, mas por causa dos adultos que não sabem a sorte que têm, por terem sido escolhidos para ser parte da escola.

Às vezes a escola não é um lugar seguro. Não por causa dos portões abertos, mas por causa dos adultos que se esquecem que a segurança que verdadeiramente importa, se constrói a partir do afeto e do amor que se põe nas coisas.

Às vezes a escola não é amiga dos pais. Não por causa dos pais, mas por causa dos adultos que acham que os pais que pensam são pais incómodos e que por isso usam a distância e a retórica gasta, para os manter longe, desinformados e, sobretudo, conformados.

Às vezes a escola não é amiga das crianças. Não que as crianças não o desejem (quando aliás é só isso que desejam), mas porque os adultos que nela moram se esqueceram há muito do que é ser-se criança. E se calhar até têm uma certa inveja da liberdade do corpo, do riso fácil, da energia sem fim, da criatividade na leitura das coisas, que só as crianças sabem ter.

Às vezes a escola não protege a brincadeira. Não por causa do tempo de recreio mas por causa do cinzento e do betão que insistem em consumir, incansáveis, tudo o que possa estimular o corpo e desafiar a mente.

Às vezes a escola não inspira respeito. Não por causa das crianças, mas por causa dos adultos que confundem medo com respeito, obediência com educação e do alto do seu tamanho de corpo, mandam e desmandam, avaliam e decidem, sem nunca sequer tentarem subir ao nível da criança e ler tudo o que de enorme lhes acontece dentro.

Às vezes a escola não ensina a liberdade. Não por causa da falta de vontade dela, mas por causa de quem acha que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro e se esquece que só se pode ser verdadeiramente livre, na liberdade conjunta, construída e tornada possível, a partir do questionamento e da descoberta individual.

Às vezes a escola é pequenina. Não pelo tamanho daqueles que mais vida lhe trazem, mas pela pequenez de espírito com que os crescidos olham a infância e pela arrogância com que não a entendem.

E não me digam que as crianças são difíceis, que as famílias são insuportáveis ou que os tempos são de crise, porque a única coisa que afinal uma escola precisa para ser grande, É GOSTAR DAS CRIANÇAS (condição estranha, quando é afinal por causa das crianças que ela existe) e saber que nelas mora a esperança de que um dia, o mundo possa ser um lugar feliz, seguro e livre.

Porque é afinal só isto que todos precisamos e é afinal isso que as escolas amigas das crianças são capazes de ensinar, sem nada mais lhes importar, para assim nunca mais pararem de crescer.

5 thoughts on “Há escolas que não são amigas das crianças.

  1. Olá Rita,

    Já tinha lido o texto na altura, mas agora fui reler. Isto porque todas as questões que referes estão mais presentes na nossa vida. A nossa filha vai fazer 5 anos em novembro e começamos a pensar se é pertinente efetuar uma mudança no próximo ano letivo, para que ela faça o ano pré-escolar na nova escola onde irá frequentar o 1º ciclo, ou se é melhor mantê-la onde está e fazer a mudança diretamente para a primária. E ainda privada ou pública, esta ou aquela. Sinto que para escolher a escola “certa” temos de ter muita informação, analisar vários fatores, e não deveria ser assim, Era suposto que as melhores escolhas fossem muitas, mas sinto que é exatamente o oposto, infelizmente. Obrigada pela partilha e pela pertinência. Um grande bj. Yara

    1. Olá Yara, de facto era suposto que as melhores escolas fossem todas e estivessem ao alcance de todas as crianças. Não é assim, mas acredito que a qualidade também não depende do facto de ser ensino público ou privado. Na altura, a nossa decisão prendeu-se sobretudo com as questões que partilhei neste texto: http://blog.pesnalua.pt/aquilo-espero-da-escola-do-filho/ .Acredito que os fatores a ter em conta dependerão claro daquilo que cada família considere relevante, mas um bom professor/educador será sempre uma das premissas mais importantes. Procurar conhecer a escola, o ambiente, as pessoas que nela trabalham, aquela que é filosofia que promovem, a forma como pensam a infância, como dão valor à brincadeira e aos espaços físicos para o efeito, enfim, muitas coisas podem ser importantes na tomada de uma decisão que não é efetivamente fácil. Aprendi também, que é nosso papel procurar contribuir para a mudança nos contextos em que nos integramos. Tem sido assim o nosso caminho. E ainda que escola que escolhamos esteja longe de ser uma escola perfeita (poucas serão), em cada desafio há uma oportunidade para refletir e para crescer e eles vão aprendendo também. Um grande beijinho e a certeza de que quando ouvimos o coração, estamos mais perto das melhores decisões, no momento em que têm de ser tomadas. <3

  2. Olá Rita,

    Fui ler o outro texto e fiquei…bem… incrédula, jamais imaginei que tão cedo se pensasse em redes de contacto. Sem dúvida que ouvir o nosso coração é a bola de cristal mais credível sobre o futuro dos nossos filhos. Concordo plenamente que a qualidade não depende de ser pública ou privada mas da essência de cada escola, das pessoas,do método, da sensibilidade. E cabe a nós pais intervir e não sermos passivos, escolas e pais têm de crescer juntos, assim deveria ser para que as escola sejam “Amigas das Crianças”. Obrigada pelo apoio, Um grande bj. Yara

    1. Tão isso Yara… Obrigada por estar aqui e por estes “sentires” que vamos partilhando e onde nos vamos encontrando. Um beijinho grande e uma semana feliz!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.