De chão e de amor…

Ela tinha sido sempre assim.
Trazia a vida inteira no sorriso e abraçava cada madrugada como se nela se contasse a mais bonita história de amor. Nas vezes em que tropeçava, quando o desassossego lhe entrava de rompante casa adentro, ela acolhia-o e dançava no desalinho, por entre flores e linhas e cores. Às vezes até o convidava para jantar e ficavam até altas horas da noite, a beber copos de vinho, até que os contornos cedessem e ela aprendesse outra vez a fechar os olhos e a gritá-los de cor.

Ele já não sabia ser de outra maneira.
A vida tinha-lhe dito há muito que não havia tempo para grandes paixões. Era preciso ser firme, correto, convicto. Às vezes chegava a bocejar, de tão cheio e enfadado de si mesmo. Sonhava com outras coisas. Mas em todas elas lhe vinha a razão, certeira, que ocupava tudo e o fazia descansar no compassar monótono da própria respiração. Sempre as mesmas arestas, o mesmo tom cru, as mesmas reentrâncias gastas. Nem flores, nem linhas, nem cores.

Dificilmente se chegariam a tocar.

Para ele, era demasiado arriscado. Para ela, demasiado familiar.
Às vezes trocavam dois dedos de conversa, como se espera de qualquer boa vizinhança. Mas não iam além das palavras sobre as condições meteorológicas ou sobre o preço do peixe no mercado.

Era preciso que chegasse a noite que lhes baralhasse os sentidos e que no meio de uma conversa dela mais contida ou de um arrepiar de pele dele capaz de lhe acelerar a respiração, confundissem os lados e se encontrassem, perdidos, na linha fina que outrora os detivera.

Era preciso que chegasse a noite, capaz de fazer dançar as flores no chão duro e seco e cru. Dizem que foi assim que tudo começou…

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